sábado, 11 de julho de 2020

STREAM: French Police - Haunted Castle


Diretamente de Chicago, Illinois chega-nos agora ao radar o segundo disco de estúdio do quarteto de post-indie French Police. Depois de um 2019 bastante produtivo que rendeu cá para fora o disco de estreia French Police (2019) e o EP Pedaleo Nocturno (2019), a francesa Icy Cold Records rasterizou o legado de Brian Flores, Jesse Flores, Jose Vega, Geo Zavala e Avolyn para importar para a Europa a sua aura sonhadora impactada por camadas de nostalgia. O resultado é a reedição de Haunted Castle, disco de quinze temas posicionados entre territórios ora sombrios ora envoltos de uma energia absolutamente translúcida.

A trabalharem ao redor de uma estética sonora influenciada por ambiências tendencialmente calmas os French Police embutem em Haunted Castle um desenho de som feito para apelar a fãs de nomes como Motorama, Beach Fossils, Drab Majesty ou Black Marble. Desde a abertura pontiaguda com "En La Noche", a temas mais coldwave inspired, como é o caso de "Neptune" ou "Mission", passando por malhas mais marcantes (como "Dance With Me") até ao ritmado culminar com "Artificial", os French Police constroem um disco de fácil audição capaz de entreter do início ao fim. Se ainda não o fizeram podem aproveitar para o reproduzir na íntegra abaixo.

Haunted Castle foi editado oficialmente em formato digital a 29 de fevereiro e será reeditado no formato CD a 7 de agosto pelo selo Icy Cold Records. Podem aproveitar para fazer a pre-order do disco aqui.


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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Massive Attack lançam novo EP, Eutopia



Eutopia é o novo EP dos Massive Attack. Gravado durante o confinamento, Eutopia chega quatro anos depois do último lançamento do grupo de Bristol, o EP Ritual Spirit, e recruta os nomes de Algiers, Young Fathers e Saul Williams para um trabalho audiovisual de três faixas. 

Acompanhado por uma série de imagens do artista Mario Klingemann, geradas através de inteligência artificial, Eutopia conta ainda com a participação de três oradores políticos: Christiana Figueres, que escreveu o Acordo Climático da ONU em Paris; o teórico da Renda Básica Universal Guy Standing; e Gabriel Zucman, que propôs recentemente a criação de um imposto sobre a riqueza dos 1% mais ricos na União Europeia.

Ainda sobre Eutopia, os Massive Attack explicam em comunicado:
"O confinamento expôs os melhores aspectos e as piores falhas da humanidade. Esse período de incerteza e ansiedade forçou-nos a meditar sobre a necessidade óbvia de mudar os sistemas prejudiciais pelos quais vivemos. Ao trabalhar com três especialistas, criamos um diálogo sonoro e visual em torno dessas questões estruturais globais; sob a forma de emergência climática, extração de paraísos fiscais e Renda Básica Universal. O espírito deste EP, os seus elementos e ideias não têm nada a ver com noções ingénuas de um mundo ideal e perfeito, e tudo a ver com a necessidade urgente e prática de construir algo melhor. Nesse sentido, Eutopia é o oposto de um erro de ortografia."
Podem encontrar Eutopia no canal de Youtube dos Massive Attack. 

Em 2019, a banda de Euan Dickinson e Robert Del Naja comemorou 20 anos de Mezzanine com duas datas esgotadas no Campo Pequeno, em Lisboa.


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Bauhaus, Iggy Pop, Wolfmother e Legendary Tigerman no EDP Vilar de Mouros 2021



Iggy Pop, Bauhaus, Wolfmother e o português The Legendary Tigerman são as primeiras confirmações da próxima edição do festival EDP Vilar de Mouros, que decorre entre os dias 26 e 28 de agosto de 2021, em Vilar de Mouros, no concelho de Caminha.

O anúncio foi feito esta manhã pela organização do festival, que reforça o compromisso com o cantor americano Iggy Pop, confirmado originalmente para a edição de 2020, adiada devido à pandemia da Covid-19. Free é a mais recente aventura a solo do autor de "The Passenger", editada em setembro de 2019, e reúne 10 novos temas de uma pop sedutora e de recorte ambiental.

A juntar-se ao vocalista dos The Stooges estão os retornados Bauhaus, que em 2019 regressaram aos palcos para os primeiros concertos em 13 anos (o último aconteceu no festival de Paredes de Coura, em 2006). Instituição do rock gótico, a obra dos ingleses Peter Murphy , Daniel Ash , David J e Kevin Haskins extende-se por notáveis marcos da música post-punk como o LP de estreia In The Flat Field, de 1981, o sucessor Mask, de 82, ou o inesquecível single "Bela Lugosi's Dead", que em 1979 deu a conhecer a banda com o seu teledisco vampiresco

Os australianos Wolfmother são mais uma das novidades no cartaz. A banda de Andrew Stockdale atua no dia 28 de agosto, o mesmo dia em que atuam Iggy Pop, Bauhaus e o português Legendary Tigerman, que regressa ao festival onde atuou pela última vez em 2016.

Os bilhetes para o EDP Vilar de Mouros 2021 já estão disponíveis a custos que variam entre 80 euros (três dias) e 40 euros (um dia) e podem ser adquiridos nos locais habituais. Os detentores do passe geral ou de um bilhete diário para o EDP Vilar de Mouros 2020 têm entrada garantida para a edição de 2021.


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Os Window mostram toda uma dança necro em "The Cage"


Esta semana os Window voltaram à ação com um tema exclusivo que ficou de fora do EP de estreia Endless Cycle e que, agora, sucumbe nas plataformas de streaming sob o cunho "The Cage". A dupla que une que une Dylan Travis (Some Ember) a Reuben Sawyer (The Column, Anytime Cowboy) aproveitou o tempo de confinamento para criar uma espécie de documentário sobre os efeitos que o isolamento perspetivou na sua existência e forma de estar. Sem nunca descurarem das vertentes EBM e da dark electronics, géneros que se mostraram bastante sublinhados na edição de estreia, a dupla incorpora agora alguns elementos excêntricos naquele que é o primeiro trabalho audiovisual do projeto.

Através de um vídeo de estética old-school e de aura altamente hilariante, os Window começam por nos teletransportar para um ambiente de atmosferas quentes através do efeito das chamas em iminência. Posteriormente, apresentam-nos a sua gaiola espaçosa onde Dylan Travis se mostra a curtir em pleno o som fervoroso da eletrónica enquanto que Reuben Sawyer nos atinge de forma densa com a sua poderosa e revoltada voz. No meio dos dois, um esqueleto verde inicialmente em agonia e, por cima da sua gaiola, três esqueletos em profunda curtição máxima. Com o afastamento progressivo da câmara ganhamos a noção de que, afinal, o show dos Window está a ser sinónimo de profundo deleite para dezenas de cadáveres. No fim uma mensagem subliminar e crítica à violência policial que se continua a perspetivar mundo fora. Um bom retrato do confinamento a visualizar abaixo. 


Endless Cycle foi editado oficialmente a 27 de março em formato digital e cassete pelo selo Third Coming Records. Últimas unidades em stock disponíveis para compra aqui.

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quinta-feira, 9 de julho de 2020

Dent May precisa de um milagre. Quem não?


De Los Angeles chega-nos o mais recente trabalho de Dent May, multi-instrumentista que se atira à pop mais solarenga e animada. Já com dez anos de carreira nas costas, Dent prepara-se para editar Late Checkout, quinto longa-duração, o seu mais complexo até à data. A produção caseira a que nos habitou nos discos anteriores deu lugar aos arranjos de cordas, às secções de sopros e uma estética glamourosa, evocando a composição clássica de nomes como Harry Nilsson, Carole King e Randy Newman.

O artista nascido no Mississippi e que se descreve como cantor lounge de bar de hotel e aspirante a apresentador de talk show diurnos, editou o seu álbum de estreia em 2009, The Good Feeling Music of Dent May & His Magnificent Ukulele, com o selo da label dos Animal Collective, Paw Tracks. Seguiram-se três aclamados discos, Do Things (2012), Warm Blanket (2013), Across the Multiverse (2017), assim como uma centena de concertos entre Chicago e Shangai.

Late Checkout chegou numa altura em que Dent finalmente conseguiu abrandar um pouco, depois de se mudar para Los Angeles em 2015, apresentar Across the Multiverse numa tour que revolveu o mundo e construir o seu próprio estúdio, Honeymoon Suite Recording Studio, com os amigos Pat Jones e Michael Rose. Esse descanso permitiu-lhe levar o processo criativo sem pressas, gravando no iPhone qualquer ideia de letra ou melodias subconscientes que lhe surgissem. Como todo este tempo no bolso, Dent começou “a saborear as minúcias da sua vida quotidiana passeando por Los Angeles, não sendo convidado a sair com os amigos e a acordar em quartos de hotel depois de ser DJ em casamentos”. São esses os momentos mundanos que Dent May retrata em Late Checkout, gravado no seu estúdio novo, reproduzindo o tom agridoce e a ética de trabalho consistente da Motown.



O primeiro avanço deste novo disco é da responsabilidade do single “I Could Use A Miracle,” escrito a meias com Jimmy Whispers, em que May canta sobre o desespero de se sentir deprimido, sob um fundo musical bem otimista e exuberante. Late Checkout chega às prateleiras a 21 de Agosto com o selo da Carpark Records. A capa e a fotografia é da autoria de Harry Israelson e está disponível em baixo, assim como a tracklist.


Late Checkout:
1- Hotel Stationery
2- I Could Use A Miracle
3- Didn’t Get The Invite
4- Sea Salt & Caramel
5- Bungalow Heaven
6- Bless Your Heart
7- Full Speed Ahead
8- Easier Said Than Done
9- L.A River
10- Imagination
11- Pour Another Round
12- Late Checkout

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quarta-feira, 8 de julho de 2020

Cinco Discos, Cinco Críticas #58


Já com o segundo semestre de 2020 em voga e, apesar de já termos avançado com os nosso preferidos do primeiro semestre (neste artigo), à 58ª edição do Cinco Discos, Cinco Críticas fomos buscar ao baú mais cinco edições que até então não tinham visto a luz no nosso posto de escuta.

Falamos assim da dupla franco-russa Otchim que lançou cá para fora o disco de estreia Club Souvenirs (Sierpien Records); prosseguimos para territórios australianos com o projeto de Xandra Metcalfe, intitulado Uboa onde podemos encontrar sensações multifacetadas no dinâmico The Flesh Of The World (edição de autor). Numa colaboração entre a Bélgica e o Haiti somos projetados para um ritual de voodoo no disco Vodou Alé (Bongo Joe) resultado da junção entre Chouk Bwa e os The Ångstromers; ainda na Bélgica e agora e colaboração com a Escócia abrandamos o ritmo com a edição do single duplo dos The Original Magnetic Light Parade: Confusion Reigns/Smoke & Mirrors (Bearsuit Records); e, para finalizar esta diligente viagem pelo mundo underground consumimos Teletransportar, o novo esforço do brasileiro Rafa Castro.

Os respetivos discos - que podem escutar-se na íntegra abaixo - encontram-se acompanhados pelas respetivas opiniões, as quais podem ser lidas nos próximos parágrafos.


Club SouvenirsSierpien Records |  maio de 2020

8.0/10 

Depois do EP de estreia James Dean (2019, Detriti Records) a dupla franco-russa Otchim está de regresso aos holofotes com o disco de estreia Club Souvenirs que os coloca no radar dos novos atos de ondas sintetizadas a rodar no posto de escuta. Sem nunca terem presenciado o mesmo espaço físico Anton Berezin (Wolfsteam/Семь Ножей) e Jordi Sorder (Order89) tiveram o fortúnio de cruzar caminhos quando os seus projetos paralelos lançaram um single pela editora alemã Ombra International. Depois de descobrir a voz de Jordi Sorder, Anton Berezin considerou que esta encaixava nos arranjos musicais que tinha composto e, após um período de experimentação, nasceram os Otchim
Club Souvenirs, o disco que marca a estreia da dupla nos longa-duração repesca os quatro temas originais que incorporaram o EP de estreia e junta-lhe mais quatro faixas extremamente aditivas com os BPM’s ora acelerados ora monocromáticos de compassos lentos. Se tinham efetivamente escapado dos holofotes da imprensa à primeira vez, à segunda não se deixam escapar e ainda nos deixam tomar o gosto daquilo a que, até então, estávamos alheios. A abrir álbum com o hino "James Dean" os Otchim vão buscar o lado mais divertido dos sintetizadores e incorporam-lhe uma mancha depressiva transmitida através dos vocais graves e de presença forte que o cantor francês faz ecoar. Apesar disso Club Souvenirs apresenta-se como um álbum extremamente dinâmico onde a darkwave, o sytnhpunk e o post-punk russo criam uma harmonia concisa sem cair na monotonia. 
De Club Souvenirs além da gabada "James Dean", podemos encontrar em temas como "Blanc", "Danser", "Traverser" ou "Ma Brune", um convite inegável a uma dança cadavérica sem deixar de bater pé. Se os melómanos da darkwave apanham isto na playlist temos aqui um projeto com potencial para chamar a atenção dos festivais underground Europa fora. Divertido, dinâmico, nostálgico e pronto para se fazer ouvir bem alto.
Sónia Felizardo



The Flesh of the World | edição de autor | maio de 2020 

8.7/10 

Uboa é o nome artístico de Xandra Metcalfe, artista australiana que aborda uma grande variedade de géneros musicais, desde o noise à música ambiente, passando pelo metal e o industrial. The Flesh of the World, gravado durante a quarentena do COVID-19, é um EP que junta quatro músicas, todas elas marcadas por uma atmosfera fria e sombria dominada por sintetizadores. 
"Exsanguination", a primeira faixa, serve de introdução ao EP. Convida-nos a entrar num ambiente etéreo e soturno onde a voz de Metcalfe flutua sobre texturas que se transformam lentamente. As restantes faixas estão, pelo contrário, repletas de dinâmicas acentuadas. As mudanças de intensidade em "Inside/Outside" e "God Unbounded" são notáveis, com as secções mais serenas a dar azo a crescendos arrebatadores que culminam em momentos catárticos e sufocantes, após os quais há uma nova redução de energia. A junção de vocais arranhados a ruídos distorcidos esmagadores é violenta e poderosa. 
The Flesh of the World é extremamente consistente e todas as suas partes encaixam bem umas nas outras, mas peca por terminar abruptamente, quebrando a sua atmosfera escura de forma demasiado brusca. No entanto, o seu final anticlimático não o impede de ser um EP altamente recomendável para os fãs de sonoridades mais frias e agressivas. Um dos lançamentos essenciais de 2020, The Flesh of the World é uma angustiante banda sonora para o apocalipse.
Rui Santos



Vodou Alé | Bongo Joe | maio de 2020

8.0/10 

Vais fazer um ritual voodoo no meio da floresta com os teus amigos e não sabes que banda sonora utilizar? 
Não te preocupes, temos a solução. Ou melhor, uma excelente sugestão. O sexteto de música tradicional haitiaa, Chouk Bwa, e o duo de dub de Bruxelas, The Ångstromers, uniram esforços para criar um dos mais curiosos energéticos álbuns do ano, Vodou Alé
Com influências de ritmos (uma parte importante do som, a banda conta com uma secção rítmica formada por três músicos), danças e cânticos de voodoo, neste disco, a música tradicional do Haiti funde-se com sintetizadores, que adornam a música com camadas e texturas futuristas, e, juntamente com as vozes de Jean Claude "Sambaton" Dorvil, Maloune Prévaly e Edèle "Sasufi" Joseph (estas últimas formam os coros), criam uma música que transcende géneros e épocas históricas. 
As nove faixas que formam este disco tão rapidamente podem acordar uma veia curiosa no ouvinte, deixando-o a interrogar-se e a apreciar esta fusão de sons tão pouco convencionais, como a ignorar tudo o que está a tentar absorber e a entregar-se completamente à dança.
Hugo Geada



Confusion Reigns/ Smoke & Mirrors | Bearsuit Records | junho de 2020 

7.0/10 

O compositor e produtor belga Alexander Stordiau e o músico escocês Harold Nono juntaram-se para criar o projeto The Original Magnetic Light Parade que agora juntou forças com a editora escocesa Bearsuit Records para lançar um single duplo. 
Numa viagem 100% instrumental em modo experimento sonoro, os músicos começam por desenvolver o seu ambiente magistral entre as entrelinhas de uma banda sonora tão clássica como de ficção científica em "Confusion Reigns". Com início marcado pelas camadas densas da música eletrónica experimental, rapidamente os The Original Magnetic Light Parade colocam-nos numa mesa cirúrgica caracterizada por um ambiente de ora celestial, ora sinistro e ainda assim envolvido pelas paisagens mais puras da música clássica. Entre um desenvolvimento que ganha curso nas artimanhas da música folk é mesmo no fim - promovido pelo carácter futurista dos sintetizadores que "Confusion Reigns" veste a pele de tema intenso e vigoroso. Para virar a página os músicos finalizam o duplo single com "Smoke & Mirrors", tema de camadas vinculadas à folk e influenciado pelos traços experimentais da música ambiente, o que funciona como uma viagem imersiva a um estado de consciência plena. 
Em dois temas de certo modo antagónicos, os The Original Magnetic Light Parade conseguem criar uma certa coerência estética que, embora não tenha sido produzida para fazer bombar as pistas de dança, foi criada para poder deixar uma sensação de paixão em quem a escuta. Ora atentem:
Sónia Felizardo



Teletransportar | edição de autor | abril de 2020

8.5/10

Rafa Castro é um compositor, pianista e cantor nascido em Minas Gerais, com formação musical na Universidade de Música Popular Bituca, algo notório nos seus primeiros trabalhos de índole instrumental e jazzística  - Teias (2014) e Casulo (2016). Sediado atualmente em São Paulo, foi com Fronteira, disco de 2017, que Rafa começou a introduzir nas suas canções, ao de leve, uma estrutura mais maleável, mais pop, recorrendo também à sua voz, sem descurar da identidade clássica. 
Passados três anos após o lançamento de Fronteira, Rafa persistiu na exploração da sua veia de compositor, influenciado pela obras de Adélia Prado, João Guimarães Rosa e por cancioneiros mineiros, tendo escrito 9 das 10 faixas que fazem parte de Teletransportar, quarto registo discográfico do artista editado este ano. O disco inicia-se de forma expansiva com o tema título a mimicar a energia melódica e exuberante de uns Fleet Foxes. Seguem-se um conjunto de temas em que há uma vontade incessante de se ligar à natureza - a água, em todas as suas formas e percursos, é a essência de Teletransportar -, vontade essa inspirada pelas viagens do artista pelo sertão brasileiro. Teletransportar releva-se como o registo mais pessoal do artista até à data, um modo de partilhar as experiências espirituais e de se conectar com os outros, não fugindo às inevitáveis questões políticas que fraccionam o Brasil. 
Em suma, Teletransportar trata-se de um disco tranquilo e veranil, muito bem executado e produzido, que nos permite refugiar numa outra realidade, ideal para fãs das sonoridades de artistas como Arthur Verocai e Tim Bernardes.
Rui Gameiro



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terça-feira, 7 de julho de 2020

Rodrigo Amado, Angélica Salvi e João Pais Filipe unem-se em concerto único no Planetário do Porto


Descolar do planeta Terra, viajar pelo espaço, aterrar numa estrela quiçá, acompanhado de música ao vivo. Tudo sem sair do sofá? Esta é a mais recente proposta do Cão Danado e do Planetário do Porto. No próximo sábado, 11 de julho às 18h30, uma sessão de música improvisada ocupará a cúpula do Planetário da cidade Invicta. 

Ao saxofonista Rodrigo Amado junta-se Angélica V. Salvi na harpa e João Pais Filipe na bateria e percussão num concerto imersivo à porta fechada. O encontro será marcado por uma multiplicidade de influências partilhada pelos três músicos, do free jazz à música clássica, num discurso livre, mas disciplinado. Pela primeira vez reúnem-se três nomes badalados na cena musical contemporânea, numa oportunidade de exceção.

A paisagem multifacetada desenhada pela música coexiste com o lugar. Construída de improviso, a obra sonora será instigada pela projeção fulldome de uma viagem por galáxias próximas. Para participar, basta ligar-se à sala virtual que mimetiza o ambiente.

Adaptando-se ao período pós-pandémico e com vontade de encurtar a distância entre os músicos e o público, a experiência será alargada à web através de um canal de streaming. Construída para o efeito, a sala de concerto virtual permitirá partilhar não só o concerto sem diminuição da qualidade de som e imagem, como garante a viagem até à exosfera através do seu ecrã. A proposta acontece numa assertiva inscrição do programa Germinal, desenhado pelo Cão Danado para V.N. de Famalicão, que mais uma vez se expande ao Planetário do Porto.

Os bilhetes têm um preço de 2 € e já se encontram à venda.


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segunda-feira, 6 de julho de 2020

St. James Park lança rework de “The Upsetters” dos First Breath After Coma


Depois da estreia com o disco Highlight, St. James Park edita agora um rework de “The Upsetters”, tema do último disco dos First Breath After Coma. A nova versão já pode ser ouvida nas plataformas de streaming.

St. James Park, o projeto a solo de Tiago Sampaio, fundador dos GrandFather’s House, surgiu em 2020 a partir da necessidade do músico explorar as sonoridades ligadas à electrónica e de experimentar novos processos de criação e reflexão. O resultado foi o disco Highlight, editado em março deste ano pelo colectivo Cosmic Burger. Composto, misturado e gravado na íntegra por Tiago Sampaio e masterizado por Rui Gaspar (Casota Collective, First Breath After Coma), “Highlight” conta com as colaborações de Lince, Noiserv e IVY. O próximo single, "Tanger" (feat. IVY) será lançado a 22 de julho.

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[Review] XDZVØNX - Everything We Dreamt About


Everything We Dreamt AboutTRØPY | abril de 2020
8.5/10

Sediados na Polónia os XDZVØNX descrevem-se como uma organização ativa em todo o mundo, onde o objetivo é concentrar a mais avançada tecnologia juntamente com a inteligência humana num só lugar. Todos se podem juntar desde que, estejam aptos. Mergulhar no mundo dos XDZVØNX é absorver um espetro musical caótico sem, contudo, perder o fio à meada. O grupo composto por BØRA (Lýlka Kørbová) - voz, synths, tapes, mandoline - e SNUFKIN - voz, beats, synths, programação - poderia facilmente posicionar-se no espectro da vaporwave - em termos de estética visual - mas é no mundo das aparelhagens dos anos 90, com o auge dos videojogos 2D e o windows 95 em ponto de foco que criam um cenário musical a que intitulam de "sacral music". 

Todo este cenário começou a ganhar forma em 2018 quando os XDZVØNX colocaram cá para fora TAPE_01, o primeiro álbum longa-duração - a colocar em voga uma certa vibe sinistra com grande foco de exploração no witch house e algumas tonalidades do trap experimental - ao qual se sucedeu, um ano mais tarde, o EP MAYKO, onde a eletrónica arrojada e negra começou a mostrar-se evidente na sua abordagem. Se na Rússia os Ic3peak construíam o seu império bizarro, na Polónia eram os XDZVØNX que rugiam no underground com "KOLKHOZ" a tornar-se grande hit de carreira e a projetar esta dupla como uma das novas atrações da eletrónica DIY. Já com o estranho 2020 enraizado no espaço temporal, o grupo coloca cá para fora Everything We Dreamt About, o segundo longa-duração de carreira que incorpora o glitch como ingrediente principal e os projeta para as pistas de dança mais underground Europa fora, antes de vigorarem à conquista do mundo. 



Apesar da eletrónica brutal que exploram com afinco e ruído à mistura, os XDZVØNX optaram por abrir Everything We Dreamt About de forma contemplativa com a balada sintetizada "WHY I CALLED YOU", a primeira brisa de ar fresco antes das colunas ganharem presença com "FACE BY FACE".  Na maioria das vezes ruidosos e distorcidos entre as ondas eletrónicas que conspurcam é, quando abraçam os ritmos mais melancólicos que os XDZVØNX mostram todo um novo lado de fragilidade. Lýlka Kørbová mostra o potencial envolvente e poético da sua doce voz que é notório em temas como "PRAY" (apesar da progressão da eletrónica que culmina bem negra), "BUъъLES" e "I WANT TO FIND THIS GIRL". Equilibrando o espectro sonoro entre energia poderosa e iminente e uma aura de certo modo sonhadora, os polacos conseguem criar um ambiente altamente sinistro num mundo de violência contida onde, ainda assim, existe esperança.



Everything We Dreamt About começa por chamar a atenção dos ouvintes alheios ao projeto essencialmente pela veia eletrónica que vai beber influências a nomes como Crystal Castles e que vigora com força em temas como "THE FINAL BOSS", "PANIC" ou "NO EYES". É aqui, no meio das consolas "em crash", que nasce a vontade de explorar melhor a parafernália sonora que os XDZVØNX criam. Se nas primeiras seis músicas já há pano para enaltecidos elogios, em "YOU HAVE TO BE ALONE", a dupla aproxima-se de uma estética mais Bestial Mouths dando vida a mais um tema inquieto e perturbante que desenha o cenário de maldição numa eletrónica psicologicamente densa. Está a ser uma viagem deveras imersiva, não está? 

Mais ligados às raízes, numa segunda parte escutamos "LITZMANNSTADT (feat. BELMONDO)", a primeira faixa do disco onde SNUFKIN decide mostrar a sua voz imperativa e trazer à ribalta algumas das tendências trap e hip-hop que têm integrado alguns dos capítulos da existência dos XDZVØNX. Depois do transe desvirtuado em "PLAYGROUD", em grande destaque nesta última metade do disco podemos encontrar a faixa "STUPID SMILE", uma das criações mais avant-garde que este Everything We Dreamt About nos traz. Num tema absolutamente camaleónico que inaugura de forma celestial e caminha de forma ténue para uma vertente darkwave é, a partir da sua metade que o ritmo se perde no tempo e no espaço, sendo distorcido, amolgado e arrastado num foco de dispersão altamente difícil de assimilar. Fora de tudo o que tinha sido anteriormente abordado neste Everything We Dreamt About, em "STUPID SMILE" os XDZVØNX fazem imperar uma força sobre-humana altamente surpreendente, num experimento sonoro brutalmente artístico. Em modo despedida surge a injeção "I AM SAINT", mais uma malha macabra ao jeito de "LITZMANNSTADT (feat. BELMONDO)" que finaliza o disco em modo suspense deixando aquele trago de saciedade, bem como a vontade de beber da próxima colheita. 



Parte integrante do coletivo artístico TRØPY - cujo trabalho se foca na glitch art inspirada pela arquitetura brutalista - os XDZVØNX enaltecem em Everything We Dreamt About uma obra de expressionismo pós-moderno, criado por trás duma máscara e vastamente influenciada pela arquitetura gótica e barroca tão característica de terras polacas. A banda consegue embeber no mesmo produto estéticas que vão do witch-house, hard-core trap, nintendocore, ravepunk ou synthwave num disco que mantém uma coerência altamente assimilável de início ao fim. Produto de consumo altamente recomendável e pronto para se fazer escutar forte abaixo.



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domingo, 5 de julho de 2020

STREAM: NNHMN - Deception Island Part 1


Sete meses após a edição de Shadow In The Dark (2019, Oráculo Records / k-dreams), o EP que os consolidou como nome de relevo no panorama da darkwave contemporânea, os NNHMN regressam aos holofotes com Deception Island Part 1, o EP que inicialmente tinha sido composto para ser lançado no formato longa-duração. Como os próprios anunciaram em comunicado, a dupla passou por tempos difíceis e estranhos pelo que decidiu dividir esse produto final em duas partes. A primeira chegou no início deste mês às prateleiras e volta a afincar a ideia de que os NNHMN produzem uma eletrónica fortemente influenciada pelas correntes estéticas mais obscuras, sem nunca se prenderem a uma estrutura rígida. 

Sempre muito autónomos e caracterizados por uma personalidade extremamente humana (ao contrário do que o nome possa indicar) os NNHMN apostam agora num trabalho que os aproxima bastante das tendências sonoras exploradas por uns Boy Harsher - onde é inicialmente abordada uma eletrónica mais contemplativa embora sem perder o seu cunho dançável - e ainda cruza caminhos com a dark-techno nos últimos dois temas que compõem o alinhamento. Deception Island Part 1 volta a deixar iminente o facto de que sempre dedicados à eletrónica, os NNHMN não se deixam prender num subgénero específico, camuflando na música produzida uma imensidão de emoções. O primeiro resultado pode ouvir-se na íntegra abaixo.

Deception Island Part 1 foi editado no passado dia 3 de julho em formato vinil, cassete e digital pelos selos k-dreams e Oráculo Records. Podem comprar o vosso formato preferido aqui.


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