sexta-feira, 13 de novembro de 2020

UNITEDSTATESOF edita novo EP pela Surf




refresh é o novo EP de UNITEDSTATESOF. O mais recente trabalho do músico e produtor portugês João Rochinha saiu esta quinta-feira, dia 12 de novembro, pela americana Surf e é composto por quatro faixas de "atmosfera calma e meditativa", disponíveis exclusivamente em formato digital.

Nove meses volvidos de Selections 1, o segundo longa-duração do produtor editado em março deste ano, e depois de uma passagem pela WET (Weird Erotic Tension) com uma mixtape ASMR, o membro-fundador da editora Rotten \ Fresh está de volta com um registo "repleto de nostalgia" onde se escutam "nuvens de tranquilidade, imobilidade e paz que se precipitam em campos de texturas processadas de ansiedade e euforia", explica em comunicado.

Para além do trabalho desenvolvido como UNITEDSTATESOF, João Rochinha é uma das metades dos duos PURGA, que mantém com Afonso Ferreira (Farwarmth), e Gabberolas, com o parceiro de crime Diogo Oliveira (também ele um dos fundadores da Rotten \ Fresh). Participou em várias compilações, com temas esporádicos por selos como a 00:NEKYIA, Slagwerk e, mais recentemente, a Weathervane Records, que editou o seu quarto V/A em setembro.

refresh encontra-se disponível para escuta e compra no Bandcamp da Surf. A capa é da autoria de 5auquadrado (Mariana Charrua) e consiste num bordado feito numa T-shirt. Esta peça, única, ficará disponível para venda no bandcamp do artista como forma de financiar material para futuros trabalhos.






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STREAM: SaiR - Light Headed

STREAM: SaiR - Light Headed

Foi hoje lançado Light Headed, novo álbum de Ruben Allen, mais conhecido por SaiR. Este disco é o sucessor de trabalhos como o seu S/T (2016), Becoming (2019) e Fractions (2020).

Editado nesta sexta-feira 13 para, como afirma o próprio, o "condenar ao insucesso", este novo trabalho demonstra mais uma vez o seu especial encanto pela música instrumental. Light Headed contempla 7 temas instrumentais que habitram no universo do jazz, com nuances de funk, hip-hop e lofi.

O nome Light Headed, termo em inglês usado para descrever a sensação de cabeça enevoada ou cérebro com raciocínio turvo, foi escolhido pelo SaiR com a intenção de transmitir a sua ideia de "pés pouco assentes no chão". O próprio acredita na importância de se olhar para este disco como um todo e não como um conjunto de faixas individuais, quase como um quarto onde cada faixa se torna um elemento decorativo, sendo essa a ideia que se encontra traduzida na capa.

Além dos trabalhos mencionados, SaiR colabora com nomes da música nacional como Miguel Ângelo, Rui Maia, Mirror People, Maze (Dealema), Holy Nothing entre vários outros, tanto como convidado para participações como parra remisturas

Este lançamento será apenas em formato digital, encontrando-se já disponível em plataformas como Bandcamp, Soundcloud, Spotify ou iTunes.

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"All You Leave is Love" é o novo single de Sónia Bernardo

"All You Leave is Love" é o novo single de Sónia Bernardo

Saiu hoje "All You Leave is Love", o novo single de Sónia Bernardo, artista e produtora alt-soul/jazz, radicada em Londres.

Escrito em colaboração com Skinny Pelembe e produzido por Dave Maclean (Django Django), o primeiro single extraído do novo EP Wasn't There, Someone Told Me é um belo momento de perseverança e determinação, da jovem autora luso-britânica. Sintetizadores distorcidos, loops de percussão samplados e harmonias vocais graciosas demonstram a versatilidade da Bernardo como autora e produtora, após o anterior EP Panic Prayers, de 2019.

Nascida em Londres, filha de pais portugueses, mas criada em Portugal, Bernardo começou a escrever canções aos dez anos de idade, inspirada pelas grandes cantoras do fado. Durante o ressurgimento do indie na Grã-Bretanha, ainda adolescente, decide voltar à capital britânica para explorar a sua veia de autora e intérprete.

O lançamento do seu novo EP Wasn't There, Someone Told Me acontece no próximo dia 26 de fevereiro de 2021, pela editora brasileira Seloki Records.

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quinta-feira, 12 de novembro de 2020

[Review] Declan McKenna - Zeros


Zeros | Columbia Records | setembro de 2020
8.0/10

Declan McKenna é um artista britâncio que já tem chamado à atenção da indústria desde muito cedo. Lançou em 2015 o single “Brazil”, que o catapultou para uma posição bastante promissora dentro do panorama musical do Reino Unido. Em 2017, lançou o seu primeiro álbum de estúdio, What Do You Think About the Car?, que mostrou um jovem compositor com uma ótima capacidade de compor faixas bastante orelhudas com inspirações mais retro, mas sempre com o seu toque modernista. Tudo isto lançou grande expetativa sobre o artista, que passou a ter em si a pressão de fazer um álbum sucessor que se pudesse equiparar aos seus trabalhos anteriores. É daí que nasce o segundo LP: Zeros.

Ora, este segundo LP tem pontos bastante interessantes: Declan abraçou ainda mais a sua face mais retro, tanto de David Bowie na sua idónea era do Ziggy Stardust como de Elton John no início da sua carreira. Porém, também se vêm inspirações de artistas mais recentes, destacando The Strokes, LCD Soundsystem e por vezes até mesmo Jack Stauber. Há que dar também crédito ao produtor Jay Joyce, que pôs em prática as mesmas técnicas que usou na produção dos discos dos Cage the Elephant para dar um toque bastante modernista no som da obra, fazendo com que não se torne somente numa revisita completa de tempos já passados. Tudo isto jogou a favor de Declan, que conseguiu fazer um álbum nostalgicamente moderno e até comercialmente amigável, quer seja a partir do super energético “Beautiful Faces” como na progressividade imensamente agradável e ambiciosa em “Be an Astronaut”. No fundo, há muito em comum com o seu antecessor.

Liricamente, “Zeros” segue um pouco a linha do álbum de estreia: temos um Declan bastante zangado com o mundo, transmitindo-o de forma bastante genuína. Contudo, eu creio que What Do You Think About the Car foca-se mais com o exterior, narrando o que ele pensa que se passa com o mundo e como tudo parece estar de pantanas, enquanto Zeros fala de uma forma muito mais pessoal: “The Key to Live on Earth” e “Daniel, You’re Still a Child” são os melhores exemplos disso mesmo.

A única faixa que eu diria ser dispensável é mesmo “Emily”. É uma música mais quieta, ao estilo de Bob Dylan, que não condiz muito com a obra em si. Sim, músicas quietas são uma boa ferramenta para fazer transições entre diferentes fases do álbum! No entanto, creio que - neste caso em específico - tratou-se somente de uma rutura súbita e injustificada. Além disso, apesar da boa construção do álbum, há faixas que poderiam ser um bocadinho mais apimentadas, como “Twice Your Size” ou “Sagittarius A*”. Não são más músicas, mas caem de boca, comparativamente ao resto da obra. Não é equiparável à energia de “Beautiful Faces”, à diversão de “You Better Make Believe!!!”, aos melodramas de “Be an Astronaut” ou ao contágio em “Eventually, Darling”. Tratam-se de músicas que caem um pouco no esquecimento quando postas lado-a-lado com o resto das faixas apresentadas.

No fundo, creio que este álbum foi um sucesso e um digno sucessor a What Do You Think About the Car?. Declan ainda sabe fazer faixas orelhudas, mas o que diferencia verdadeiramente os dois LPs é o dramatismo quase teatral que se verifica em Zeros. Todavia, tenho esperanças que Declan consegue fazer algo ainda melhor, quiçá até mais inovativo. Gostaria de o ver arriscar ainda mais, criar algo mais único. Creio que ele é capaz de usar as inspirações para uma experiência nova, com menos revisitações integrais de outros artistas. Talvez pegar em aspetos de alguns artistas e misturá-lo com ideias próprias. Por muito bem que tenha funcionado esta coletânea de inspirações para criar um Frankenstein da história do rock com aspetos modernos, creio que fazê-lo por três álbuns seguidos poderá ser cansativo. Por isso, por muito interessante que tenha sido este lançamento, espero algo mais único por parte de Declan McKenna, num terceiro álbum.

Texto escrito por João Pedro Antunes

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Le Guess Who? anuncia curadores e primeiros atos para 2021



Phil Elverum (Mount Eerie/The Microphones), Midori TakadaLucrecia Dalt, John Dwyer (Oh Sees) e Matana Roberts são os curadores da edição de 2021 do Le Guess Who?. A 14ª edição do festival holandês decorre de 11 a 14 de novembro, na cidade de Utrecht, e a primeira vaga de confirmações já é conhecida.

O português DJ Lycox (na foto), um dos pilares da lisboeta Príncipe, é um dos atos presentes no cartaz, que inclui também Alabaster dePlume, Black Country, New Road, Bohren & Der Club of Gore, Conjunto Papa Upa, Damon Locks, Black Monument Ensemble, Etran de L’Aïr, Kiko Dinucci, Low, Mazaher Model Home, Pink Siifu, Ronald Langestraat & Tim Koh, Sessa, SPAZA, The Necks e Y-Bayani & Baby Naa and the Band of Enlightenment, Reason & Love.

Este ano, devido à pandemia, o Le Guess Who? foi obrigado a remodelar o seu formato. Neste sentido, o festival dedicado à música sem-fronteiras irá lançar LGW ON, canal de TV online onde serão transmitidos filmes, documentários, reportagens e uma série de gravações inéditas durante o próximo fim de semana, de 13 a 15 de novembro.


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Serralves apresenta performances de Yoko Ono




De 14 a 15 de novembro, entre as 10h e as 12h30, o museu, o auditório e o parque de  Serralves acolhem um programa de peças-referência da artista e ativista japonesa Yoko Ono, considerando a sua influência atual do ponto de vista estético e formal.

Esta programação, centrada nas suas Instructions pieces (Peças instrução) das décadas de 60 e 70, coincide com o encerramento da exposição Yoko Ono: The Learning Garden of Freedompatente no Museu e Parque de Serralves desde 29 de maio, e será interpretada por vários artistas da cidade do Porto. 

Sob a direção de Óscar Rodrigues, Thamiris Carvalho, Carla Cruz, Xana Novais, Joana von Mayer Trindade, Gil Mac, Dori Nigro, Xavier Paes, Bruno Senune e Ensemble Factor E! Casa da Música irão interpretar as peças Cut Piece (1964), Bag Piece (1960/64), Voice Piece for Soprano (1961), Sky Piece To Jesus Christ (1965), Painting to Shake Hands (1961) e Secret Piece (1953).  

Artista multimédia, cantora, compositora e ativista política, Yoko Ono é considerada uma das figuras de destaque do movimento Fluxus, corrente artística liderada pelo lituano George Maciunas no início da década de 60 que abrange outros notáveis como John Cage, Joseph Beuys ou La Monte Young.

As Instruction pieces foram compiladas pela primeira vez na antologia Grapefruit, em 1964, e reunidas em sessões que vão da música à pintura, poesia e objeto. Segundo a organização, "descrevem ações fundadas num conceito ou imagem, propostas a serem livremente ativadas - física ou mentalmente- por performers e públicos, sublinhando a sua natureza participativa e consequente dissolução da sua autoria e carácter original".

O programa completo pode ser encontrado em serralves.pt.




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Satanique Samba Trio: bizarria MPB além-fronteiras

Satanique Samba Trio: bizarria MPB além-fronteiras

Os Satanique Samba Trio são uma banda oriunda de Brasília, cujo imaginário sonoro simplesmente não tem limites. Começando do princípio, foi no longínquo ano de 2002 que a banda (que apesar do nome, é um sexteto) mandou-se numa jornada cujo propósito seria escapar aos lugares-comuns da MPB da maneira mais estonteante possível. 

Munidos de imensas influências que vão da música clássica até ao folclore, e de um espírito aventureiro sem igual, os Satanique Samba Trio fazem uma fusão bastante envolvente e contagiante de várias sonoridades tradicionais brasileiras (como Samba, Lambada e Forró) com jazz de fusão, rock, música experimental e eletrónica (certamente com mais algumas coisas para o meio), que por sua vez dá azo a discos com músicas que, apesar de geralmente breves em termos de duração, marcam os ouvintes com o seu arrojo e dinâmica sem fim à vista, como em álbuns como Xenossamba e Mais Bad.



Mais recentemente, a banda lançou no passado Halloween o novo EP Forrível, o primeiro registo conhecido de um género denominado forror synth - cruzamento entre a música forró nordestino do Brasil e a sonoridade reminiscente dos filmes de terror/giallo dos anos 70 e 80 - que resulta bastante bem no geral, e que se poderá ouvir em baixo.

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Castello Branco de regresso a Portugal para concerto no Hard Club

Castello Branco de regresso a Portugal para concerto no Hard Club

Castello Branco está de regresso a Portugal com um concerto agendado para o dia 27 novembro, no Hard Club (Porto). Este espetáculo contará com a voz e o violão a passearem pelos três discos do artista: Serviço, Sintoma e Sermão, assim como pelos singles recentes que contaram com a colaboração de Nicola Cruz, Oceanvs Orientalis e Rodrigo Gallardo. Este concerto contará ainda com a presença de um convidado especial. 

O artista brasileiro estreou, em 2013, o primeiro álbum - Serviço - elogiado pela crítica, listado como um dos melhores de 2013, responsável por mais de 400 000 downloads e digno de 3 tours europeias. Composto por 12 faixas, conta com as participações de Alice Caymmi, Cícero, Mahmundi, entre outros. Quatro anos mais tarde, em 2017 lança Sintoma, o segundo disco, onde nascem arranjos delicados de frequências meditativas que vibram trilhando um caminho elegante e nos trazem, no discurso, questões evolutivas do "Ser". Em 2019, o músico brasileiro lança Sermão, a parte final de uma trilogia - Serviço e Sintoma - , que se compreende com clareza quando escutados os primeiros. 

Em colaboração com o Hard Club, este concerto é promovido pelo Harmonia, que traz o artista  a Portugal para a realização de um vídeoclipe. 

Os bilhetes estão à venda na ticketline e têm um preço único de 15 €. Para este concerto é necessário o uso obrigatório de máscara e seguir o resto das medidas de prevenção da COVID-19 da DGS.

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STREAM: Emil Zapffe - The View From Mount Zapffe

STREAM: Emil Zapffe - The View From Mount Zapffe

Foi no passado dia 6 de novembro que saiu o disco de estreia de Emil Zapffe, de nome The View From Mount Zapffe. O álbum foi escrito, gravado e produzido pelo próprio artista, João Guimarães.

Sonicamente, The View From Mount Zapffe anda algures pelos mundos do ambient/drone com algumas influências de noise. Este disco baseia-se num conceito filosófico que se refere ao principio de que os humanos tem uma consciência demasiado desenvolvida e isso é a causa de um certo vazio existencial. Segundo o próprio artista, este álbum baseia-se em várias estratégias para lidar e conviver com esse vazio.

The View From Mount Zapffe encontra-se disponível para escuta em formato digital no seu BandcampSoundCloud.

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quarta-feira, 11 de novembro de 2020

7 anos depois, Loosers estão de volta aos discos


Foram sete anos depois da última edição, Hot Jesus, que os lisboetas Loosers voltaram aos discos com Kill Screen. Um EP em formato digital com a participação inédita de alguns realizadores que dão existência a um universo imagético, como podem ver mais em baixo no vídeo de "Mean Street", um dos cinco temas do disco.

O processo criativo de Kill Screen começou ainda antes da pandemia, com músicas a serem gravadas à distância entre os 4 membros da banda... Loops, percussão, baixos, sintetizadores, vozes, guitarras, viajaram no ciberespaço sobrepondo-se uns aos outros, sem que alguém sentisse falta de espaço ou pressas. Circunstâncias singulares adversas à comunhão e à ansiedade que caracterizavam o som da banda e mesmo o rock noutros tempos, mas que permitiram mais liberdades individuais. 


A edição é da Lovers & Lollypops, estando o álbum já disponível no bandcamp da editora. Oiçam em baixo.

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terça-feira, 10 de novembro de 2020

Lucrecia Dalt no gnration: a eletrónica como meio para reivindicar o corpo

Fotografia: Hugo Sousa / gnration 2020




Num ano particularmente alarmante para o setor das artes e da cultura, a cidade de Braga tem servido como ponto privilegiado para a elaboração de eventos voltados para as artes digitais e intermedia. Exemplo disso foi a décima edição do Semibreve, festival de música eletrónica e arte digital que, face ao atual contexto de pandemia, foi forçado a redesenhar o seu formato, equilibrando a dimensão física que o carateriza com as tecnologias do streaming.  

O gnration, por outro lado, é um dos poucos espaços no país onde ainda é possível usufruir de uma programação cultural regular e de cariz mais experimental. O espaço bracarense tem conseguido manter um volume de atividade semelhante ao período pré-pandémico, com um programa admirável que integra música, som, arte e tecnologia, cinema e conferências sob uma periodicidade bimestral.    

O concerto de Lucrecia Dalt, que aconteceu no passado dia 7 de novembro, foi o primeiro do plano internacional do bimestre novembro-dezembro (o sérvio Abul Mogard é o próximo, a 4 de dezembro) e marcou o regresso da cantora-compositora e artista sonora colombiana à sala que a acolheu pela primeira vez há seis anos, em 2014, em noite partilhada com os americanos Pere Ubu.    

No era sólida, sétimo e último disco de Dalt, foi o mote para a apresentação de sábado. Novamente editado pela americana RVNG intl. – que já havia selado o anterior Anticlines, de 2018 – o mais recente álbum da artista natural de Medelín baseia-se numa personagem fictícia, de nome Lia, que tem neste trabalho o primeiro ponto de encontro com a colombiana.  

Em palco, Dalt apresenta-se sozinha, munida de um computador e uma imensidão de cabos e caixas de som enquanto uma luz forte de tom alaranjado, que aponta mais para o público do que para si, revela ténues contornos da sua enigmática silhueta. A disposição é sóbria e contrasta com a complexidade conceptual do seu último disco, mas o intenso contraste entre luz e sombra confere um caracter elusivo que se adequa às suas canções. 

Com recurso a uma panóplia de sintetizadores e processadores, Dalt concebe elaborados cenários sónicos que se situam entre o experimentalismo concreto e a spoken word – e por isso Laurie Anderson e Robert Ashley saltam imediatamente à memória – e os universos aparentemente distantes da música tradicional sul-americana e da composição contemporânea, usando a repetição não como uma forma de encantamento, mas sim como forma de criar tensão e desconforto.   

O uso de desconcertantes vozes espectrais e samples em loop na reta final da performance – amplificado através de um inquietante sistema de som surround, onde se escutam gravações de campo e da natureza – dão corpo ao ser senciente que está na base de No era sólida, transportando o ouvinte para um plano que não é o seu, mas do qual não pretende sair tão cedo; um labirinto surrealista, musicado pela poesia eletrónica dos nossos sonhos.  




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A darkgaze dos Schonwald tem novo capítulo em 'Abstraction'

A darkgaze dos Schonwald tem novo capítulo em 'Abstraction'


2020 está a ser um ano extremamente produtivo para Luca Bandini (voz, sintetizadores, bateria eletrónica) e Alessandra Gismondi (sintetizadores, voz). Ainda nem um mês passou desde que a dupla italiana colocou cá para fora novo disco sob a chancela Shad Shadows, mas os dois já se encontram de regresso com uma nova lide criativa sob a entidade Schonwald. Abstraction, o sexto capítulo longa-duração na carreira do duo vem dar sucessão a Night Idyll (2017, Manic Depression Records), e volta a afirmar o contributo perspicaz da dupla no panorama contemporâneo, ao conjugar elementos da dream wave, shoegaze e post-punk numa sonoridade amplamente hipnotizante e doce, mas igualmente voraz e demarcada. 

Em Abstraction, os Schonwald apostam numa temática inspirada em hinos e mantras esotéricos, além dos ecos da natureza humana selvagem por forma a criar uma viagem introspetiva às esperanças utópicas do século XXI. O resultado é um disco vastamente assimilável e conciso, que se poderia descrever com uma atmosfera camaleónica de darkgaze. A verdade é que em Abstraction é notória uma evolução face ao antecessor Night Idyll. Aqui, ao longo de dez faixas ricas em camadas de som divergentes, mas complementares, o som sente-se mais imersivo e sonhador. Desde o instrumental tema de abertura, "Desert" ao cocktail psych infused de despedida "Fire Fire", os Schonwald aventuram-se numa camada sonora que se destaca pelas tendências etéreas que Alessandra Gismondi coloca em ação e pela melancolia inerte que provém das guitarras. Do disco forte destaque para temas como a incrível balada de dream-pop "Violet", a injeção de adrenalina cativante de "Inner Sin" ou o futurista "Echo's Dream".

Abstraction foi lançado em formato digital no passado dia 6 de novembro e tem edição em vinil e CD marcada para 20 de novembro na casa francesa Manic Depression Records. Podem encomendar a vossa cópia aqui. O álbum pode reproduzir-se abaixo.

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Kacey Johansing edita novo álbum este mês



O novo álbum de Kacey Johansing, No Better Time, será editado no dia 20 de novembro pela Night Bloom Records. O quarto longa-duração da cantautora americana explora o amor, o trauma, a mudança e a liberdade.

Gravando as canções ao vivo em estúdio e priorizando os primeiros takes, Johansing promete um disco honesto e energético. Os singles já disponíveis apresentam uma sonoridade entre o folk e o indie pop, suave e agradável, adequada para uma tarde de sol.

O álbum pode ser reservado em formato digital ou vinil na página de Bandcamp da artista.



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segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Cinco Discos, Cinco Críticas #62

Cinco Discos, Cinco Críticas #62


Já a entrar na reta final do ano, começam-se também a elaborar as listas dos discos que marcaram os últimos meses. Na nova fornada do Cinco Discos, Cinco Críticas falamos de algumas obras lançadas para marcar 2020, onde se podem descobrir o novo disco dos holandeses Fluisteraas com Bloem (Eisenwald); o novo trabalho dos americanos food house, com o homónimo food house (Dog Show Records); as novas edições curta-duração de Adrianne Lenker - songs & instrumentals (4AD); o último esforço dos italianos Shad Shadows em Toxic Behaviours (Wave Tension Records); e, para finalizar, o mais recente disco do californiano Jeremiah Sand (Sacred Bones Records).

Os comentários e opiniões relativos às mencionadas edições podem agora ler-se abaixo, naquela que se apresenta como uma viagem multidisciplinada a vários géneros e subgéneros musicais. Para todos os gostos.

Bloem
| Eisenwald | fevereiro de 2020
 
9.0/10 

Os holandeses Fluisteraas sempre foram um nome bastante recorrente no panorama do black metal contemporâneo, ninguém lhes tira isso. Contudo, era um grupo que - apesar de me sentir familiarizado com o seu trabalho - nunca me tinha chamado muito à atenção... Isto é, até terem lançado Bloem, em fevereiro. 
Este disco consegue transformar o sombrio black metal numa árida tarde de verão, por mais estranho que esta afirmação possa parecer. Trata-se de uma mistura entre os genes atmosfericamente desesperados de Burzum e da energia do post-hardcore mais atual. Tudo isto com uma pitada melancólica que dá vida e asas ao projeto. 
Se há algo que os Fluisteraas nos podem ensinar com este LP é que o metal não precisa de ser necessariamente violento e escuro. Até mesmo as vertentes mais extremistas do metal podem ser distorcidas de forma a criar uma experiência bastante otimista e melancólica sem abdicar completamente da sua identidade enquanto género.
João Pedro Antunes



food house
| Dog Show Records | outubro de 2020

8.0/10 

food house é a dupla formada por Gupi e Fraxiom, dois jovens produtores americanos que lançaram este ano um álbum e um EP a solo, respetivamente. Estrearam no final de outubro o seu projeto em conjunto na Dog Show Records, editora de Dylan Brady, dos 100 gecs. É inevitável comparar food house à banda de Brady - ambos os projetos têm uma sonoridade frenética onde as vozes são distorcidas pelo auto-tune e incorporam conscientemente ingredientes kitsch, juntando inspirações do pop e da música de dança do fim dos anos 2000 e início dos 2010 a técnicas de produção atuais. O resultado desta junção é chamativo e cativante, com ritmos rápidos e muito a acontecer ao mesmo tempo. 
Entre as melhores faixas de food house encontram-se "mos thoser" e "curses", ambas cheias de melodias orelhudas que culminam em secções finais especialmente energéticas e hiperativas. Também há que realçar "foresight", o clímax emocional do álbum. A primeira metade da música conta com uma parede de sintetizadores que apoia os vocais processados por vários efeitos, enquanto que a segunda, mais dançável, desce a intensidade. Contrastando com o resto do alinhamento, "pharmacy" e "metal" são duas músicas que juntam o metal à EDM e ao hip-hop, mostrando uma faceta mais agressiva da banda que poderá dividir os ouvintes. 
Os food house apresentam-se com um álbum curto, mas completo e eficiente. Fãs do disco deverão também ficar satisfeitos com o álbum a solo de Gupi, intitulado None.
Rui Santos



songs & instrumentals
| 4AD | outubro de 2020
 
8.5/10 

Os conceitos de "reclusão" e "álbum de quarentena" têm vindo a tornar-se cada vez mais comuns no atual contexto de pandemia, mas para Adrianne Lenker, seja a solo ou na companhia dos seus Big Thief, o isolamento parece fazer parte do seu modo de operar desde sempre. song & instrumentals é o mais recente esforço a solo da cantora-compositora americana, um par de álbuns independentes em formato mas inseparáveis em espírito e que devem ser consumidos como um todo. 
Gravado ao longo de cinco semanas num estúdio improvisado que a própria construiu nas florestas do Massachusetts com a ajuda do engenheiro de som Philip Weinrobe, que a auxiliou com a engrenagem necessária, song & instrumentals aborda temas familiares de perda, solidão, memória e arrependimento com recurso apenas a uma viola, voz e alguns overdubs, tudo embrulhado numa produção bucólica e altamente intimista gravada em fita. 
O primeiro disco, songs, segue um registo mais convencional: 11 canções de uma delicadeza e vulnerabilidade enormes, com intrincados dedilhados de guitarra e narrativas que alternam entre um realismo duro e cru ("Six years and no baby") e a mais poética abstração ("Oh emptiness/Tell me 'bout your nature"). O segundo, instrumentals, é, como o nome indica, essencialmente instrumental, foi gravado no mesmo período que songs e é composto por duas peças longas que formalizam um total de 37 minutos de devoção à natureza. As suas composições esparsas, feitas de passagens austeras de guitarra, sinos e gravações de campo desenvolvem-se como que progressivamente em direção ao vazio, dissipando-se lentamente no orvalho matinal dos bosques onde foram fecundadas.
Filipe Costa



Toxic Behaviours
| Wave Tension Records | outubro de 2020 

7.0/10 

Além dos Shad Shadows - projeto no qual se foca a presente crítica - Luca Bandini (voz, sintetizadores, bateria eletrónica) e Alessandra Gismondi (sintetizadores, voz) tornaram-se maioritariamente reconhecidos à conta do seu outro projeto paralelo, Schonwald. Contudo é sob o desígnio Shad Shadows que a dupla italiana se apresentou no mês passado com novo disco de estúdio, Toxic Behaviours, uma coleção de 10 canções que expressam como alguns rituais se têm tornado "comportamentos tóxicos" em áreas inesperadas da vida moderna. 
Naquele que é o terceiro disco na carreira, os Shad Shadows examinam o simbolismo por trás da conquista tecnológica, das gerações mortas, da violência urbana, da superficialidade e da vaidade, enquanto engatam a 4ª numa viagem conduzida por sintetizadores energéticos, vozes distantes e ritmos altamente aditivos. Desde a malha prepotente de abertura "Daydream Monster" (a fazer as delícias dos fãs de nomes como KVB) ao bruto tema de encerramento "Magic Celestya", passando pelos experimentos industriais em "Fight The Dragon", as linhas tirânicas de "Bound", ou a hipnotizante "Golden Field", Toxic Behaviours consegue consolidar-se um bom produto de consumo no panorama do electro post-punk e darkwave modernos. 
Esculpido numa forma melhorada e eficaz, Toxic Behaviours é mais uma artimanha sonora repleta pelas texturas sombrias e escuras a que os Shad Shadows tão bem nos têm habituado. Ao longo de dez temas fortemente coerentes e emancipados por uma eletrónica soturna, a dupla italiana cria uma viagem sonoramente estimulante na qual vale definitivamente a pena ingressar.
Sónia Felizardo



Lift it Down
| Sacred Bones Records | outubro de 2020

8.0/10 

O sucesso do filme Mandy (2018) não serviu só como uma lufada de ar fresco para a carreira do genial Nicolas Cage ou como uma afirmação de Panos Cosmatos como um dos novos e melhores realizadores de ficção científica. 
O ator Linus Roache decidiu encarnar o vilão deste filme, o arrogante líder do culto Children of the New Dawn, Jeremiah Sand, e gravar um disco enquanto esta personagem. 
Lift it Down bebe influências que (obviamente) nos fazem lembrar a carreira musical de Charles Manson, cantautores hippies que viram no folk psicadélico uma excelente forma para se expressarem e ao universo de ficção científica, com melodias de sintetizador que fazem justiça ao material de onde esta personagem foi retirada. 
Uma excelente adição (e audição) para todos os fãs de Mandy, que também irá oferecer músicas que certamente irão agradar entusiastas de bandas retro e todas as pessoas que tem o sonho de um dia construir uma máquina do tempo e viajar até ao festival de Woodstock.
Hugo Geada

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