sábado, 5 de dezembro de 2020

Emma Acs volta a brilhar com novo tema de Natal "Without You (Christmas in East Hollywood)"

Emma Acs volta a brilhar com novo tema de Natal "Without You (Christmas in East Hollywood)"


Depois de o ano passado ter conquistado os nossos corações com "Blessed Are The Faithful" - em antevisão de um dos melhores EP's editados este ano -, a dinamarquesa Emma Acs está de regresso à ação para brilhar em mais um Natal, desta feita com "Without You (Christmas in East Hollywood)". O novo tema, que chegou às prateleiras esta sexta-feira é o primeiro registo desde a edição de While I Shoot from My Fortress of Delusions e marca o período natalício de 2019 vivenciado pela artista enquanto residia em East Hollywood, longe da sua terra Natal. O single é editado conjuntamente com a versão ao vivo de quatro músicas do EP antecessor, "Palm Trees", "My Beloved (Lost to Begin With)", "Into Your Heart" e "Disarmed", editadas em cassete e é o primeiro material inédito desde que em agosto lançou "Wicked", o tema de estreia do seu novo projeto paralelo Evil House Party.

Sobre "Without You (Christmas in East Hollywood)", a artista afirma que "eu estava sozinha em minha casa e na véspera de Natal eu escrevi essa música enquanto esperava que um amigo me viesse buscar para me levar a comer margaritas e comida mexicana. Gravei a música com Ida (baixista) e a minha banda durante o período de confinamento quando voltei a Copenhaga". Sempre doce e enaltecida por uma aura extremamente amorosa em "Without You (Christmas in East Hollywood)", Emma Acs volta a encher os nossos corações de compaixão e derreter-nos com a sua voz calorosa. Ora oiçam.

Without You (Christmas in East Hollywood) foi editado oficialmente esta sexta-feira em formato cassete e digital pelo selo Third Coming Records. Podem comprar a vossa cópia aqui.


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STREAM: The Golden Age Of Steam - Tomato Brain


Após os aclamados discos Raspberry Tongue (Babel, 2009) e Welcome To Bat Country (Basho, 2012), The Golden Age Of Steam estão de regresso com uma nova edição oito anos depois. Liderados por James Allsopp, saxofonista e compositor bastante premiado que integra a formação de diversos grupos, como o coletivo que domina o ruído Sly & The Family Drone e o trio vanguardista Snack Family, os The Golden Age Of Steam apresentaram ontem o seu terceiro registo de estúdio, Tomato Brain

Tomato Brain representa uma mudança radical na direção do conjunto. Composto por uma peça principal de 31 minutos divida em 6 movimentos distintos, o disco foi gravado ao vivo em apenas um take, contando com o contributo de virtuosos músicos britânicos, onde se inserem Kit Downes nos teclados, artista que faz parte da família ECM e já esteve nomeado aos Mercury Prize,  Ruth Goller (Melt Yourself A) no baixo, o produtor Alex Bonney (Leverton Fox) na componente eletrónica e o premiado prodígio da bateria, Tim Giles. Allsopp é o elemento que une as sonoridades e estabelece apenas o esboço mais básico de uma composição em que a música assume a sua própria forma, ambiente, cor e direção em tempo real. 

Em Tomato Brain, o ouvinte percorre espaços bem particulares como laboratórios sonoros fantasmagóricos, oficinas radiofónias abandonadas, galerias de arte dos anos 70, viagem essa marcada por sinais eletrónicos que muito se assemelham aos bips do código Morse que abrem o álbum Sextant (1973) de Herbie Hancock. Em suma, este novo trabalho dos The Golden Age Of Steam assume-se como uma experiência etérea que vagueia pelos meandros do jazz vanguardista de tonalidades excêntricas.

Tomato Brain foi editado em formato CD e digital com o selo da Limited Noise. A capa do disco ficou a cargo de Callum Buckland. Podem ouvi-lo na íntegra em baixo.

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STREAM: Johnny Labelle - XVIII

STREAM: Johnny Labelle - XVIII


Johnny Labelle - o produtor grego de dark electro-pop - regressou esta semana às edições com o segundo longa-duração XVIII, que chega às prateleiras um ano após a edição de Cold Fruit (2019). No novo trabalho, rico em elementos sonoros Johnny Labelle mergulha no mundo de um sonho esquecido à procura de significados e formas perdidas. As faixas, originalmente gravadas como demos em meados de 2019, foram concluídas juntamente com o produtor Vasilis Dokakis em 2020 para culminarem numa ligação entre pop eletrónica, construída entre sintetizadores letárgicos e ambientes cinematográficas. XVIII é um disco que mostra a maturidade de Johnny Labelle sobretudo ao nível vocal, onde o seu canto barítono apelará a fãs de nomes como Richard Hawley ou Scott Walker.

Composto por nove faixas diversificadas entre as atmosferas sonoras da dark ambient, paisagens relaxantes da eletrónica etérea e sons eletrónicos de dimensões contemplativas, XVIII é um disco rico em camadas e sensações profundas, de alcance brutalmente poético. Desde o seu início em "The Dolphins" ao tema de encerramento "Poseidonia", XVIII é a banda sonora perfeita para se assimilar no colapso final do mundo. Num disco sedutor, doce e por vezes desafiante, Johnny Labelle aposta numa produção bastante estimulante que se acompanha bem com um copo de vinho tinto à lareira, nos últimos dias de outono. Do disco forte destaque para temas como o edulcorado "AK", o sonhador "Beginning of the End" - que colmata num final surpreendente - e ainda o petrificante e futurista "Disillusionment". XVIII pode reproduzir-se na íntegra abaixo.

XVIII foi editado esta sexta-feira (4 de dezembro) em formato digital e vinil pelo selo grego Inner Ear Records. Podem comprar a vossa cópia física aqui.


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STREAM: Sierrα - All About Love

STREAM: Sierrα - All About Love


Depois de, em novembro nos ter anunciado o regresso em mais um formato curta-duração a produtora parisiense Sierrα regressou esta semana com o trabalho materializado sob a nomenclatura All About Love. A apostar em força nas lides EBM, techno e synthwave de raízes profundamente obscuras Sierrα está a colocar o seu nome na vanguarda da produção dos tempos modernos. Mesmo sem as pistas de dança públicas em aberto, a produtora garante que o entretenimento caseiro não fica esquecido e remata com a injeção de adrenalina All About Love, um EP frutífero que a afasta cada vez mais dos tropos musicais synthwave que iniciou em Strange Valley (2017), para estabelecer um universo musical cada vez mais próprio.

O disco apresenta dois temas, o homónimo "All About Love"- faixa estendida a cinco minutos de duração que repesca um pouco da energia propulsiva presente em Gone (2019), para a expandir a vertentes mais industriais e de grande influência nas paradas techno-dark - e ainda o cocktail de encerramento "Unpredictable". Os temas, camuflados em sintetizadores abusivos funcionam como um estado de introdução ao mundo dos psicotrópicos que vigora em força no novo EP, e que nos coloca o corpo num estado de dança iminente. Em suma, All About Love oferece-nos música produzida para abanar o capacete e para colocar os amplificadores a rugir som. O álbum pode descobrir-se na íntegra abaixo.

All About Love foi editado esta sexta-feira (4 de dezembro) em formato digital e self-released. Podem comprar a vossa cópia aqui.


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Flying Moon in Space detonam o seu álbum de estreia


Os Flying Moon in Space, originários da cidade de Leipzig, na Alemanha, são a nova aquisição da editora britânica Fuzz Club, tendo lançado ontem o seu álbum homónimo de estreia por via da mesma. O grupo, constuído por sete membros, é conhecido pelas suas improvisações ao vivo que duram por horas, sendo este álbum um resumo de 45 minutos disso mesmo.

Estendendo-se por oito faixas, este LP anda sempre de mãos dadas com o krautrock e o pop psicadélico, apimentado por um ritmo comparável ao do techno e por algumas industrializações. Brian Eno, Can e Godspeed You! Black Emperor são algumas das inspirações visíveis na sonoridade da obra.
O grupo alemão já realizou diversas tours por toda a Europa, contando com cinquenta concertos só na sua cidade natal. Já partilharam palco com nomes como The Holydrug Couple, Elephant Store e The Sweet Release of Death.

Este primeiro esforço em estúdio já está disponível em todas as plataformas streaming, podendo ser ouvido na íntegra abaixo. 

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sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

"Sorrindo Pra Saudade" é a apresentação de Leo Middea ao público português


Com influências de Caetano Veloso e Chico Buarque, o carioca Leo Middea apresenta-se ao público português com o single "Sorrindo Pra Saudade". Esta música é a sexta faixa de Vicentina, que segundo o próprio artista fala sobre "...o processo de mudança para Portugal, por mais que haja a saudade de um amor, ela representa também pra mim a força interna do caminho que estamos dispostos a seguir". O respetivo teledisco está disponível para visualização em baixo, vejam.


Esta é uma canção com aura saudosa, nuances melancólicas e atmosfera quente, que consegue transportar-nos através de acordes suaves para a sua relação com a vida, com o sentimento de ser e se expressar, tal como Veloso e Buarque nos ensinaram. 

Vicentina foi o álbum editado este ano, chegando com produção de Paulo Novaes, arranjos de Polivalente e participação do cantor Janeiro. O projeto conseguiu sair do papel após Leo andar pelas ruas pedindo 1 euro por pessoa para juntar dinheiro necessário para a gravação - o que se tornou também num minidoc que pode ser visto aqui. Se quiserem ouvir o respetivo longa-duração, ele também está disponível (para audição) no mesmo canal do Youtube.

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"Amanhã" é o novo avanço ao próximo álbum de CAIO


Depois do álbum Retratos no ano passado, João Santos (a.k.a. CAIO) está a preparar-se para lançar o seu próximo registo discográfico. O jovem músico lisboeta afasta-se agora da roupagem mais rock do seu último álbum, e como exemplo disso temos o novo single, "Amanhã". Uma música que resultou de um exercício a solo com os pensamentos próprios de João, gerando uma mudança e escolha de rumo, num tema que maturou e floresceu até ganhar vida própria. Podem ouvir este single em baixo.

É palpável a busca pela emancipação em "Amanhã", uma procura incessante de respostas, num pedido de ajuda para que a lição seja aprendida. A moral da história? Percebemos que este apressar nunca irá cessar a inquietação dos jovens corações. 

Neste próximo álbum, CAIO traz-nos folk, expõe-nos à sua sensibilidade e faz canções para sonhar. O respetivo lançamento está marcado para o primeiro semestre de 2021, esperemos que o mundo não acabe até lá...

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Soho Rezanejad edita novo álbum, Perform And Surrender

@Dalin Waldo



Perform And Surrender é o mais recente álbum de Soho Rezanejad. Lançado esta sexta-feira pela sua Silicone Records, o LP de oito faixa da artista multidicipinar novaiorquina é construído a partir de uma série de espetáculos apresentados entre 2018 e 2019, combinando registos de performances ao vivo com gravações a partir de estúdio. 

“Em cada performance escrevi pequenas partituras, partes da direção do palco ou fantasmas semi-iluminados para ativar o cenário. As performances tornaram-se especiais para cada espaço, cada um contribuindo como um fragmento para o todo do disco ”, explica Rezanejad, acrescentando que o álbum foi escrito durante um período de luto e grande tristeza.   

“Perdi alguém muito querido para mim na época. Todas as coisas, especialmente o ato de rendição, pareciam um testemunho de vida ou de morte. A linguagem da natureza, especialmente entre o outono e a primavera, desempenhou um papel importante no título e direção do álbum.”.  

Perform And Surrender sucede o anterior Honesty Without Compassion is Brutality, magnífica obra de pop ambiental dividida em dois tomos – o último lançado no início de 2020 e revisto pela nossa redação –, e encontra-se disponível para escuta e compra no Bandcamp da Silicone Records



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quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Mazarin celebram a entrada na Monster Jinx com o lançamento de “Interlúdio”


Após ser anunciada a sua ingressão na editora 
Monster Jinx, o quarteto bejense Mazarin –constituído por Léo Vrillaud (teclista), João Romão (bateria), João Spencer (baixo) e Vicente Booth (guitarra) – lança hoje os primeiros frutos desse mesmo compromisso: o single Interlúdio. 

Constituído pelos temas “Vasenol” e “Batata Palha”, este single apresenta-se como uma coexistência pacífica entre o jazzhip-hop e até mesmo 8-bit, capturando uma vibração noturna e mostrando uns Mazarin que, segundo o comunicado de imprensa, está “em permanente busca de um som próprio que não finja sotaques de Chicago ou de Londres, mas que ostente orgulhosamente o travo do Sul de onde chegaram”. 

O disco foi gravado por Nuno Rua e alunos da Escola Tecnologias Inovação e Criação em Lisboa, contando também com a mistura de Pedro Ferreira e masterização de Fábio Jevelim. 


Este é o primeiro lançamento do quarteto desde o EP homónimo, lançado em 2018, que lhes valeu passagens por festivais e eventos como a FNAC Live, Vodafone Paredes de Coura ou Zigur Fest, tal como uma residência de vários meses no Clube Ferroviário e uma menção na lista das 20 revelações nacionais de 2018 aqui, na Threshold Magazine. Interlúdio é também marcado como o primeiro trabalho de estúdio do grupo após a saída de Afonso Serro, agora membro dos Yakuza. 


O projeto pode ser ouvido na íntegra abaixo: 

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"HR Sequence" é o primeiro avanço do novo álbum de Dust Devices

"HR Sequence" é o primeiro avanço do novo álbum de Dust Devices

Saiu esta semana o novo single de Dust Devices, acompanhado de um videoclip, feito por shplss. "HR Sequence" é a primeira malha a ser lançada, do novo álbum que sairá no próximo dia 7. É o segundo projecto que Dust Devices lança pela Mera, seguido do EP Spectre Research, que foi precisamente o primeiro lançamento da label.

Dust Devices é o projecto de música electrónica experimental de dança de Cláudio Oliveira, compositor e sound designer residente no Porto. Combinando influências rítmicas do Industrial, EBM, techno e electro com melodias e atmosferas densas criadas com recurso à síntese granular e FM, a exploração das texturas e do caractér narrativo e visual da música toma um lugar de destaque.

shplss é um artista multidisciplinar, atualmente a viver e a trabalhar em Amesterdão. Utilizando a abstração, shplss cria trabalhos nos quais existe um fascínio pela clareza do conteúdo e uma atitude intransigente em relação à arte conceptual e minimal, podem ser encontrados. As suas obras respondem diretamente ao ambiente circundante e usam as experiências quotidianas do artista como ponto de partida. Frequentemente, são instantes que passariam despercebidos no seu contexto original. Com uma abordagem conceptual, ele tenta abordar uma ampla escala de assuntos com várias camadas e de envolver o espectador de uma forma às vezes física e acredita na ideia de função seguindo a forma na obra. Com uma abordagem minimalista subtil, ele cria momentos pessoais intensos magistralmente criados por meio de regras e omissões, aceitação e recusa, atraíndo o espectador em círculos. O seu trabalho não faz referência a formas reconhecíveis. Os resultados são desconstruídos na medida em que o significado é alterado e a possível interpretação torna-se multifacetada.

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Mera Transmission regressa para a sua segunda edição

Mera Transmission regressa para a sua segunda edição

O Mera Transmission está de volta para facilitar este período extraordinário ao som do que melhor se faz na música eletrónica portuguesa - e não só. Depois da primeira edição em maio deste ano, a editora portuense lança de novo o convite a juntarem-se no conforto (e segurança) de vossa casa.

Ao longo das 24 horas do dia 12 de dezembro acontece o segundo momento deste evento, que tem o prazer e a honra de contar com a participação de 12 editoras - MERA, Arena Spa Superiora, Instrumental Violence, Timeless O’Clock, Ramal, Favela Discos, Capital Decay, Lovers & Lollypops, OLEC, Soopa, Elberec e Coletivo Farra. Nesta ocasião teremos oportunidade de ouvir em live stream Ócio, Separat, Salome b2b Dj Saliva b2b CEM, Bernardo Matos b2b Operário Febril, Assafrão, BRNCHES, ITSRØBBEN, How to live well and truthfully in a city of unfinished dreams, Nuno O, Vasco da Ganza, Capital Decay Soundsystem, Pedro Augusto, Ece Canli, ATA OWWO + GUILLIO, Francisco Oliveira, HHY, Valody, ZERO_ONE, Satha Lovek e DJ Segurança b2b VSO.

Mera Transmission - Domestic Rave é um festival totalmente aberto e exclusivamente online. O donativo consciente é entre 10 € e 20 €. Para aqueles que não se encontram em posição de poder contribuir financeiramente, a melhor forma de ajudar é partilhar com a vossa comunidade. Por continuarmos todos a viver este momento tão delicado, voltamos a sublinhar a necessidade de apoiar a comunidade artística, que vive uma fase de enorme fragilidade. Queremos disponibilizar música para o maior número de pessoas, mas também criar uma forma de apoiar aqueles que tornam tudo isto possível, e contamos convosco para nos ajudarem a fazê-lo. 

A Mera é uma plataforma portuense que nasceu em 2019 e tem como objectivo expôr a música electrónica - especificamente electro, acid, techno, breakbeat e bass - que está a ser produzida na Invicta. Desde o seu lançamento no Porto, já contou com nomes tais como Dust Devices, Effective Half Life e Wushta nos seus eventos. O foco está em cruzar o mundo da música eletrónica com o mundo digital dos visuais, ambos altamente presentes e representativos da cultura contemporânea.

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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Silente em entrevista: "Foi tudo muito natural, demorou o tempo que tinha que demorar"

© Nuno Mendes

Silente é o novo projeto de Miguel Dias, compositor que deu vida a Rose Blanket entre 2003 e 2011. Em Silente, junta-se à instrumentação de Miguel os vocais de Filipa Caetano, artista com quem já tinha colaborado em Rose Blanket, e as letras do escritor/poeta Frederico Pedreira.

O disco de estreia homónimo de Silente resultou de uma paciente maturação que se estendeu pelo período 2015-2019, durante o qual o gosto pela experimentação contribuiu para alongar, sem pressas, todo o processo criativo que aborda realidades sonhadoras e líricas. 

Numa conversa em formato eletrónico, falámos com Miguel Dias sobre a origem do projeto Silenteas suas motivações e inspirações, o processo de composição que culminou no disco de estreia, entre outros assuntos. Fiquem com a entrevista completa em baixo

Pode-nos contar a história por detrás deste projeto? Porquê a escolha do nome Silente?

Silente - Em 2011 foi editado aquele que foi o último disco do meu projecto anterior, Rose Blanket, e na altura em que estava a concluir esse trabalho, já sentia que esse capítulo estava a ser encerrado. Queria fazer algo diferente do que tinha feito até então mas também de uma outra forma. 

Tinha a certeza, por exemplo, que já não queria o inglês nas letras e depois também queria partir para um núcleo duro de participações, em vez do extenso rol de participações que caracterizava Rose Blanket. Um momento determinante terá sido quando foram concretizadas as colaborações do Frederico Pedreira e da Filipa Caetano. Nessa altura, por exemplo, ficou de parte a hipótese, que andei a equacionar, de ser um disco totalmente instrumental.

O que não estava previsto era eu também fazer a gravação, produção e mistura do disco, mas foi algo que a partir de certo momento fiquei com a ideia que só poderia ser feito por mim.

Quanto ao nome Silente, gosto muito da sua sonoridade e do seu significado e quando me ocorreu esta palavra, a decisão foi imediata, porque acho que encaixa na perfeição na forma como este trabalho foi feito e também no que julgo ser o contexto ideal para se ouvir estas músicas.

Silente soa a um disco introspetivo, minimal, de forte carga emocional e bastante equilibrado. De onde surgiu a inspiração e quais as suas referências?

Silente - Desde já ficaria contente se este disco fosse caracterizado como o é feito na pergunta. 

É sempre difícil para mim falar de uma inspiração e identificá-la, já que para mim o processo de composição e construção musical é em grande parte instintivo e emocional. Ainda assim acho que este disco poderá reflectir o contexto de algum isolamento em que na grande maioria do tempo foi feito. Com a excepção da Filipa, que foi a única pessoa que acompanhou este trabalho do princípio ao fim e a quem recorri para algumas opiniões e sugestões, assumi um processo, sempre arriscado, de me abstrair de toda a forma de “ruído” exterior. E este isolamento criativo foi o que definiu, bem ou mal, este disco. 

Mas claro que não deixam de estar presentes todas as minhas referências e influências, que resultam de tanto tempo despendido a ouvir música. Por exemplo, não consigo deixar de nomear os Velvet Underground, porque tinham a capacidade de transitarem com naturalidade entre a pura doçura e furiosas explosões sonoras, de passarem de melodias grandiosas para momentos de pura abstração, e isto tanto de tema para tema, como dentro de um mesmo tema. Tudo resumido numa palavra: Dinâmica. Não consigo ouvir música que não tenha, de alguma forma, oscilações de intensidade e acho que também tento colocar isso naquilo que faço.

Há alguma temática que se possa associar ao disco?

Silente - Pelo menos de forma racional e pensada, julgo que não. Como disse, os temas deste disco nasceram de forma instintiva e depois foram sendo contruídos e trabalhados com base na experimentação. O resultado será a tentativa de reivindicação de um universo musical próprio.

Silente foi gravado calmamente entre 2015 e 2019. Como funcionou o processo de composição que contou com a participação vocal de Filipa Caetano e as letras de Frederico Pedreira? 

Silente - Sim, foi algo que foi feito sem pressas e sem prazos definidos e teve fases distintas. Mas a verdade é que agora olho para trás e nem parece que foi tanto tempo. Foi tudo muito natural, demorou o tempo que tinha que demorar. 

Mas não foi um processo linear, sofreu muitas alterações. Por exemplo, na fase inicial gravei uma quantidade enorme de possíveis temas ou de simples ideias, sendo que em grande parte foram abandonados, ou porque em alguns casos ainda me pareciam Rose Blanket, noutros porque não tive capacidade de dar seguimento à ideia base, ou ainda em alguns casos porque simplesmente não resultaram. 

Houve momentos importantes para definir este disco. Primeiro foram as gravações em Figueiró dos Vinhos na casa do Miguel Ângelo, em 2017, em que foram gravadas quase todas as baterias e percussões e em que ainda houve espaço para experiências como a utilização de máquinas de oficina de joalharia no tema "Vale Caspo" ou da tabla no tema "Ninguém Tem De Saber". Quase na mesma altura o Miguel Ramos enviou-me os baixos para três temas e o Miguel Gomes enviou-me a gravação de 2 guitarras adicionais. Com estas duas participações, os temas ganharam corpo e comecei a ver a “luz no fundo do túnel”, pois até aí ainda estava tudo muito indefinido.

O outro momento determinante é quando realizo que alguns dos temas têm mesmo que ser cantados e consigo a colaboração do Frederico Pedreira, amigo de longa data (fez parte da formação de Rose Blanket no 1º disco), para as letras desses temas. Ao mesmo tempo convenci a Filipa a voltar a trabalhar comigo, ela que já tinha cantado alguns temas no último disco de Rose Blanket.  A parte das letras e vozes foi sem dúvida a parte mais difícil, pois nunca tinha trabalhado com o “português” e estava rotinado com o “inglês”. As letras iniciais tiveram que em muitos casos ser ajustadas, tivemos que fazer muitas demos em alguns desses temas até encontrar a solução final. 


Capa de Silente


Porquê a decisão de lançar o disco numa edição física limitada sem recorrer aos espaços de venda habituais? 

Silente - Deve-se à conjugação de factores distintos. Por um lado, a percepção de que actualmente vendem-se poucos CDs, sendo as plataformas digitais o veículo mais utilizado pela maior parte das pessoas para ouvir novas propostas musicais, o que até não é o meu caso, pois sempre que gosto de um disco, sinto necessidade de ter o objecto. Por outro lado, o facto de não haver concertos de apresentação inviabiliza a venda de discos nesse contexto. Por fim, também foi pesado o factor económico, não sendo possível mais do que uma edição física limitada. Pelo que foi dada primazia à distribuição digital, estando o disco disponível em todas as plataformas habituais e ainda no site de Silente no bandcamp.

De qualquer forma, também não me revejo nos actuais espaços de grande distribuição. Mas gostava bastante que o disco estivesse disponível em espaços de menor dimensão e mais especializados, sendo que admito que tenho negligenciado esta possibilidade, também por condicionantes de tempo disponível, mas é algo que ainda vou tentar concretizar.

Silente não vai ser apresentado ao vivo, também muito por culpa do contexto em que neste momento nos encontramos. Essa vontade será algo a ser repensada no futuro?

Silente - Bem, na verdade essa é uma decisão já tomada antes deste contexto que atravessamos. Aliás, já por altura do último disco de Rose Blanket, decidi que muito provavelmente não o voltaria a fazer. Tenho noção do impacto negativo desta opção na promoção deste projecto, mas a realidade é que deixei de ter motivação para fazer concertos e decidi assumir que o que me move é o gosto pela construção, exploração e experimentação. É isso que me dá prazer e os concertos nunca foram um espaço de conforto e prazer para mim, o que acho que se deve a não conviver bem com a repetição, mas também a outros factores como, por exemplo, não me sentir particularmente bem em redor de muita gente.  

A segunda e última parte de Silente encontra-se já a ser preparada. Levará o mesmo tempo que a primeira ou sente que há já muito material que não se adequou e que agora se enquadra melhor na mensagem que quer passar?

Silente - Sim, é verdade que já tenho um conjunto de temas para integrarem a 2ª parte, que será a última de Silente. Mas não espero serem precisos os 5 anos que esta primeira parte demorou a ser feita, mas também nunca será algo apressado. São temas que tenho andado a trabalhar desde que foi concluído este 1º disco e será sempre numa linha de continuidade em relação à primeira parte, mas tentando explorar novas sonoridades, mais uma vez com recurso a muita experimentação.


Silente saiu no passado dia 6 de novembro, em formato físico e digital, numa edição com cunho do autor. Podem escutar o disco homónimo na íntegra em baixo.

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Sun Blossoms partilha novo single, "Being Kind"




Depois de "Void" no início de setembro, "Being Kind" chega como o segundo single de Sun Blossoms neste longo ano de 2020. Ambas as músicas foram gravadas no início deste verão e contam com a participação de Martim Brito (membro dos VEENHO) na bateria, sendo Alexandre Fernandes, o fundador do projeto, o executante dos restantes instrumentos e o produtor.

Esta música remete à sonoridade letárgica dos primeiros lançamentos deste projeto, depois de uma viagem por um universo rock mais abrasivo nos últimos anos. Um regresso de grande qualidade às origens, o qual podem escutar em baixo.


Os dois singles, lançados neste final de ano, serão apresentados pela banda em trio em dois concertos: dia 3 de dezembro na Galeria Zé dos Bois e no dia seguinte na Casa da Cultura de Setúbal. A acompanhar Alexandre Fernandes, estará Martim Brito na bateria e Alexandre Rendeiro (Alek Rein) no baixo.

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Abul Mogard, ou quando a lenda se confunde com a realidade




É um dos maiores enigmas da música sintetizada de hoje e atua no próximo dia 4 de dezembro no gnration, em Braga. Abul Mogard, músico-compositor sérvio, regressa a Portugal depois de uma última atuação na Sé de Viseu, em 2018, aquando da oitava edição dos Jardins Efémeros.  

Nasceu em Belgrado e passou grande parte da sua vida a trabalhar numa fábrica metalúrgica. A falta dos barulhos e do ritmo dos sons que marcavam o seu dia-a-dia laboral levaram-no a experimentar os timbres e as texturas da maquinaria eletrónica, trocando as ferramentas por sintetizadores, sequenciadores e caixas de som – ou assim reza a lenda. Os rumores sobre a sua verdadeira identidade são vários e abundantes, mas o consenso subjacente nas esferas da música eletrónica indica que Mogard é, na verdade, o resultado de um fascinante alter-ego.

Indiscutível é a qualidade da sua magnífica discografia. Lançou vários trabalhos de longa e curta duração, sendo Above All Dreams, lançado em 2018 pela inglesa Ecstatic, a sua obra mais aclamada. Desde então, editou um álbum de remisturas pela Houndstooth, retrabalhando temas de Aïsha Devi, Penelope Trappes e Nick Nicely, e compôs a banda-sonora para a curta-metragem experimental Kimberlin, do cineasta Duncan Whitley.  

Até ao final do ano, o gnration recebe a quinta edição da mostra de música eletrónica e arte digital OCUPA, que contará com concertos, instalações, conversas e ainda a apresentação pública do Clube de Inverno, que este ano terá o músico Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) e o cineasta Rodrigo Areias como coordenadores das sessões de exploração e improvisação.  

Os bilhetes para o concerto de Abul Mogard custam 7 euros e podem ser adquiridos em bol.pt, balcão gnration e locais habituais.  



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segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Cinco Discos, Cinco Críticas #63

Cinco Discos, Cinco Críticas #63


Na última edição do Cinco Discos, Cinco Críticas do ano 2020, colocamos em repetição na playlist o disco de estreia dos portugueses YAKUZA - com AILERON (2020, edição de autor), do americano Tyler Odom em Your Arms Are My Cocoon (2020, edição de autor), o EP de estreia dos Spectrograph intitulado A Giant Leap of Faith (2020, Depths Records), o novo de Aesop Rock - Spirit World Filed Gidude (2020, Rhymesayers) e ainda a também promissora estreia de Luís Pestana, em Rosa Pano (2020, Orange Milk Records).

Os respetivos trabalhos - que se encontram disponíveis para escuta integral abaixo - seguem acompanhados por uma pequena revisão do seu resultado final e podem descobrir-se abaixo.


AILERON | edição de autor | novembro de 2020

8.2/10 

YAKUZA é um trio lisboeta formado por Afonso Serro (teclista), André Santos (baixista) e Alexandre Moniz (baterista). A banda apresenta em AILERON, o seu álbum de estreia, uma sonoridade nu jazz muito groovy e dançável, repleta de ritmos irresistíveis.  As primeiras três faixas mantêm uma pulsação constante e progridem de forma muito natural, tendo mudanças de secção tão fluídas que podem ser impercetíveis. Onde poderiam ser tocados solos ou melodias adicionais, a banda deixa espaços abertos. O foco está no groove, nas interações dinâmicas entre os membros da banda, que vão introduzindo pormenores deliciosos no meio dos riffs e das batidas. 
É nas colaborações com outros músicos que se encontram alguns elementos mais tradicionais do jazz, como solos e o uso de piano em vez de sintetizador. A composição que mais avança nessa direção é a brilhante "PICHELEIRA", com o seu walking bass e uma batida muito à base dos pratos da bateria. Ainda assim, esta conta com o som mais característico do trio nos seus minutos finais, durante os quais os timbres do sintetizador passam para primeiro plano. 
Em "KATANA", a melodia principal de sintetizador, a fazer lembrar os RPG's japoneses dos anos 90, serve de ponto de partida para uma jornada onde as guitarras e os teclados vão surgindo e desaparecendo agilmente. Perto do final, a guitarra entra com especial distorção e agressividade, subindo a intensidade até ao regresso triunfante da melodia inicial. "ADAGIO" finaliza o álbum de forma mais tranquila, criando e quebrando alguma tensão suavemente. 
O primeiro disco dos YAKUZA é uma excelente surpresa que alia o jazz à música eletrónica, recomendável a fãs de artistas como BADBADNOTGOOD ou Kamaal Williams.
Rui Santos



Your Arms Are My Cocoon | edição de autor | setembro de 2020 

9.0/10 

Your Arms Are My Cocoon é o projeto a solo do estadunidense Tyler Odom, sendo este EP homónimo o primeiro fruto dessa mesma ideia. 
Ora, este disco é uma fusão de dois mundos contraditórios - o bedroom pop e o screamo - que, em circunstâncias habituais, jamais seriam vistos juntos. Todavia, este crossover acaba por, surpreendentemente, resultar numa perfeita coabitação. Instrumentalmente, temos uma sonoridade bastante açucarada e devaneadora, mas ao mesmo tempo potente e desesperativa, sendo esta última definição, o cimento que permite a colisão destes dois mundos, fortificado pelos vocais gritados e nas evidentes influências do folk e do math rock. 
Eu creio que é seguro dizer que este EP se trata de uma experiência bastante única. Claro, continua a ir buscar influências de outros artistas contemporâneos como Alex G, Dandelion Hands e Toby Fox, mas continua a ter uma identidade bastante própria e muito difícil de esquecer, principalmente em faixas como o impactante e avassalador "In October 2019 I Called a Suicide Hotline for the First Time in My Life" ou o instrumentalmente aconchegador "Metamorphosis". 
No fundo, creio que este disco é uma experiência inabitual, sendo essa a sua principal magia. O seu teor inesquecível torna-o num dos projetos que mais apreciei ao longo deste ano e fico com curiosidade em saber como se irá desenrolar esta jornada em projetos futuros.
João Pedro Antunes



A Giant Leap of Faith | Depths Records | novembro de 2020 

8.0/10 

Depois de oito anos a moldar a sua personalidade própria numa eletrónica de vestes sombrias, os Spectrograph perderam a timidez e decidiram colocar cá para fora o EP que marca a sua estreia nos lançamentos, A Giant Leap of Faith (disponível para compra aqui). O disco de quatro faixas apresenta uma visão moderna ao mercado do post-industrial e dark ambient music, caracterizando-se em pleno pelos ritmos densos e as ambiências noir e psicóticas que ganham evolução no avanço da escala temporal. 
Em A Giant Leap of Faith o produtor e DJ Phiorio (Metroline Limited) e a cantora / multi-instrumentista Virginia Bones (Geography Of The Moon) apostam numa abordagem noise minimal que equilibra desde as paisagens psicologicamente densas, às mais estimulantes e, por vezes, perturbantes. Exemplo claro disto encontra-se logo no single homónimo "A Giant Leap of Faith" que inicia no formato sinistro, mas controlado, para ganhar auge nos minutos finais onde Bones expurga demónios no exercício vocal. Mas antes de chegarmos até aqui, já a dupla nos proporcionou uma grande performance na pista de dança techno dark "Dmbt" - que dá abertura ao disco - e, ainda, um estado de alienação em "Dead Kittens". Para a despedida a banda sintoniza-nos "If You Think You Can Fly", uma malha eletrónica inspirada na world music, vasta em elementos orgânicos e tribais e pronta para se fazer dançar de início ao fim. 
Os Spectrogaph demoraram algum tempo para mostrar o que andavam a fazer na cave, mas na estreia mostram-se surpreendentes e com uma atitude pegajosa na eletrónica experimental que constroem. A Giant Leap of Faith é um EP que, mesmo por entre caminhos mais inquietos, promulga a vontade consecutiva de permanecer em viagem, ora sintonizem:
Sónia Felizardo



Spirit World Field Guide | Rhymesayers | novembro de 2020 

8.3/10 

Veterano da onda mais alternativa do hip-hop americano e dono de um vocabulário absurdamente versátil, o rapper Aesop Rock dispensa apresentações. O artista e produtor de beats nova-iorquino regressa com o seu oitavo álbum de originais apelidado Spirit World Field Guide, editado pela label Rhymesayers, e nas palavras do próprio, o conceito consiste em descrever uma espécie de expedição num mundo paralelo (ainda) mais esotérico que o habitual. 
Como em qualquer outro registo anterior, as letras intensas e com milhentas demonstrações virtuosas de wordplays e o delivery impassível tão próprios de Aesop Rock imperam neste disco, ilustrando a jornada pelo Spirit World com o habitual abstracionismo verbal astuto, várias referências miscelâneas a obras como Raising Hell e Eraserhead e a elementos mais históricos/mitológicos, e paralelismos com assuntos pessoais para tornar a aventura numa experiência um bocado mais empática. A produção, geralmente falando, também tem vários momentos de destaque. Os instrumentais presentes nas faixas são bastante diversificados em termos estilísticos, indo desde instâncias mais agressivas até momentos mais vívidos e funky. Naturalmente, e apesar de algumas faixas mais fracas, os pontos altos vêm mais frequentemente ao de cima graças à saudável variedade levada a cabo ao longo das vinte e uma faixas que constituem o alinhamento, cujos destaques recaem sobre a mais confrontacional "Gauze", a "Kodokushi" e a "Marble Cake" que demonstram uma atmosfera mais soturna e buliçosa, e também o lado mais vivaço do álbum com os single "Pizza Alley" e a "Attaboy". Para o bem e para o mal, este álbum e o seu conceito demonstram uma visão mais faustosa da imaginação sempre irrequieta de Aesop Rock, pelo que se recomenda vivamente aos fãs do género que ouçam Spirit World Field Guide.
Ruben Leite



Rosa Pano | Orange Milk Records | novembro de 2020

8.5/10 

Rosa Pano, a estreia de Luís Pestana em longa-duração, encontrou casa no sítio mais improvável. A americana Orange Milk Records, conhecida por albergar alguns dos mais inventivos documentos da música eletrónica progressiva moderna, é responsável por selar o mais recente trabalho do guitarrista dos extintos LÖBO, que apresenta no seu primeiro álbum um tratado de eletrónicas pastorais inspiradas nas canções de embalar que a sua mãe lhe cantava em pequeno. 
Composto por oito faixas que balançam entre a insustentável beleza do drone e as qualidades renovadoras da música tradicional portuguesa, Rosa Pano distancia-se das paisagens oníricas da editora americana - que tem em Foodman, Giant Claw e Machine Girl alguns dos seus maiores representantes -, apostando nas potencialidades da composição eletroacústica para construir o seu próprio folclore
Resultado de vários anos a explorar um discreto mas promissor percurso a solo, o disco apresenta uma comunhão perfeita entre instrumentação acústica e as técnicas digitais, equilibrando coros e sinos de igreja, instrumentos de sopro e sanfona com a utilização de loops, feedback e samples de ordem vária. Em "Asa Machina", um dos temas de Rosa Pano, escutam-se arpejos reminescentes das composições de Tim Hecker e Oneohtrix Point Never; "Arde Asa" tem a veia industrial de Ben Frost e acrescenta músculo à composição; "Ao Romper da Bela Aurora" resgata a canção com o mesmo nome do Grupo Vozes do Alentejo, de Janita Salomé, e funde cantares regionais do Alentejo com monolíticas paredes de som e ruído concreto. 
O álbum atinge o seu clímax emocional no épico de 9 minutos que encerra Rosa Pano. Soltam-se uivos e sirenes, sinos e vozes deformadas enquanto um mar etéreo de eletrónicas se desenvolve progressivamente num crescendo que culmina com o silêncio abrupto que encerra o disco.
Filipe Costa

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