sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

As 16 revelações nacionais de 2020



Não foi fácil, mas o longo pesadelo que tem sido 2020 está finalmente a chegar ao fim. Foi um ano especialmente difícil para músicos, que viram a sua principal forma de criar rendimento a ser limitada com a atual pandemia, e para inúmeros espaços de concertos que tiveram de fechar portas por não conseguir criar receitas para pagar as suas despesas. 

Neste espaço pretendemos homenagear aqueles que tiveram coragem de começar uma nova aventura musical e oferecer a todos os curiosos uma companhia para enfrentar o confinamento. Desde o jazz tuning dos Yakuza ao club distópico de Swan Palace, eis as revelações nacionais de 2020 para a Threshold Magazine.




Henrik Ferrara
e Guilherme Correia são ATA OWWO e GUILLIO, artistas que trabalham em música experimental e eletrónica que uniram esforços para a composição e gravação do seu álbum de estreia como dupla, Songs for Green Tea and Peppermint Pope. Desenvolvido durante quatro dias passados em retiro rural, este baseia-se no improviso e na experimentação, que deram origem a temas que atravessam territórios variados.

“Rico em Riscos de Ferrugem” e “Chá Frio/Chá Quente”, faixas de abertura, adivinham desde cedo as várias facetas do projeto. A primeira combina melodias robóticas sintetizadas a guitarras barulhentas e ritmos de bateria fluídos e dinâmicos, gerando um pandemónio musical de grande intensidade. A segunda apresenta um ambiente sonoro pormenorizado e suave, sobre o qual sintetizadores e flautas são tocados de forma hipnotizante, transportando-nos para uma floresta encantada de um mundo de fantasia. O resto do álbum continua a brincar com as nossas expetativas, passando por diferentes sonoridades e ambientes.

Songs for Green Tea and Peppermint Pope é a inevitável conclusão de um encontro entre músicos em consonância. Uma breve, mas forte explosão de criatividade e sabores que nos transporta para diferentes mundos e nunca nos deixa ficar confortáveis durante demasiado tempo. Rui Santos. 


Bonifácio

Já estávamos nos últimos dias de Verão quando o produtor portuense Bonifácio deu à margem, com o seu EP de estreia, Hanami. O disco, que guarda na essência uma série de experiências assimiladas por João Bonifácio aquando uma viagem ao Japão ganha destaque nas edições do ano e afirma-o como uma das revelações em tempos vindouros. 

É facto que a música ambiente é um dos grandes motores da produção nacional e Bonifácio aproveita esse mercado emergente para projetar o seu nome no meio. A aposta vem claro da Regulator Records, um ninho para a acensão de novos projetos, como foi o caso de Forest Fires e Misfit Trauma Queen no ano passado e agora de Bonifácio. Ao longo de quatro temas - nos quais forja o seu rumo muito próprio, ao condensar camadas luminosas, sintetizadores despretensiosos e uma bateria tão suave quanto hipnotizante – Bonifácio aposta na exploração de ambiências sonoras situadas entre a doçura da pop eletrónica e os sentimentos alucinogénios da correria social evidenciada no séc. XXI. Dinâmico na abordagem, com este Hanami, Bonifácio tece um disco suave, translúcido e sedutor pronto para o fazer efervescer. Sónia Felizardo


Cátia Sá

Da Barriga, o primeiro trabalho de Cátia Sá em nome próprio, nasce de um desejo de superação e da vontade da cantora escrever, compor, gravar e produzir o seu próprio disco. Para o efeito, a vocalista dos extintos Guta Naki serviu-se do material que tinha à mão e de um pequeno theremin que a própria construiu para elaborar preciosas canções de uma electrónica tropical e onírica. Introduzindo uma abordagem mais exploratória que nos seus projetos anteriores, Cátia Sá constrói um universo sedutor de samples e batidas fragmentadas, melodias luminosas e texturas atmosféricas que dão corpo a um trabalho que tem na voz o seu principal elemento – ora limpa e graciosa como em “Mareh”, ora metálica e processada como em “Freirinha”, num misto entre a canção popular de B Fachada e a devoção espiritual de EartheaterFilipe Costa




Intenção é o trabalho de estreia de EVAYA, nome artístico de Beatriz Bronze. A cantora, produtora e compositora utiliza elementos pop combinados com música eletrónica, composta por sons que a rodeiam no dia-a-dia. EVAYA tenta dar a mão ao ouvinte, para que este a acompanhe numa viagem onde aborda temas como a natureza, a guerra, a paz e a esperança. Enquanto procura despertar neste o interesse de se tornar íntimo com a dinâmica das suas emoções.

Beatriz Bronze apresenta-se ao público com um trabalho conceptual, em que o registo vocal terno se envolve amiúde com uma melodia eletrónica, formada pela heterogeneidade de sons do quotidiano da artista. Os conceitos de intenção guiada pelas emoções, progresso pessoal e a atual dinâmica de grupo vivida mundialmente são temas que se encontram intrinsecamente presentes nas músicas de EVAYADavid Madeira


Fashion Eternal

Da união entre o produtor Vítor Bruno Pereira (Aires, Shikabala) e o baterista João Valinho nasceu Fashion Eternal. Fashion is Never Finished é o primeiro esforço desta entusiasmante sinergia, uma peça de 18 minutos que propõe interrogar os limites da música ambiente através de um diálogo provocador entre eletrónicas abstratas e palpitações rítmicas em forma de percussão. Através de um processo exaustivo de reapropriação – feito de cortes, colagens e repetição – Fashion is Never Finished explora "a integração (e desintegração) dos efeitos e manifestações da cultura popular sónica no quotidiano", sublinha-se nas notas de edição, orientando o ouvinte por uma narrativa debordiana em tempo real que pretende desconstruir o “estímulo musical viciado ao qual estamos sujeitos por esta sociedade espectacular". Filipe Costa


himalion

O álbum EGRESS - an introduction to himalion, uma edição de autor, é a estreia nos discos em nome próprio do músico aveirense Diogo Sarabando com a sua nova identidade artística himalion. EGRESS é, acima de tudo, um registo que retrata uma jornada - que tipo de jornada, isso depende da interpretação de cada um - que é retratada pelas oito faixas que compõem o seu alinhamento, e que possuem uma aura mais introspectiva e esotérica na sua narrativa lírica. A sua sonoridade denota um apego a sonoridades mais etéreas e pastorais próprias do indie/alternative folk (com um leve teor a sons reminiscentes do ambient) que transportam o ouvinte para um imaginário similar ao de nomes como Sufjan Stevens. Os singles “Around the Mend” e “(海岸) Hour + Glass” são um cartão-de-visita bastante atrativo para o resto do conceito de EGRESSRuben Leite


João Vairinhos

O menino prodígio da bateria dedica-se agora à produção a solo com Vénia, o seu primeiro esforço que pauta pela toada instrumental dinâmica, tão familiar em certas instâncias, como distante e surreal, noutras. 

Depois de anos a tocar em palcos nacionais, escondido dos holofotes, João Vairinhos dá a cara num EP de excelência rico em atmosferas negras e psicologicamente densas. Ao equilibrar ambientes inertes de ritmo a cenários sonoros energéticos e de profunda catarse, João Vairinhos constrói um disco conciso que, apesar da sua curta duração já o consagra como um dos grandes nomes da produção nacional na componente dark da música eletrónica.

O disco de três temas vai beber inspiração a várias obras de ficção científica nascendo entre o negrume da existência e a própria redutibilidade do ser. Sem medo de recriar na mente do ouvinte um estado de surrealismo inerte, João Vairinhos apresenta um disco que cai bem nos estranhos tempos que caracterizam o novo modernismo e que bem reflete os seus traços promissores na produção nacional. Uma vénia. Sónia Felizardo


Lorr No

Nuno Loureiro deixou de ser um nome novo há algum tempo: o membro integrante de grupos como Fugly ou Solar Corona e a cara por detrás de Mada Treku não é uma presença invulgar na cena musical portuguesa. Lorr No é o seu novo projecto e vemo-lo a envergar por caminhos distintos daqueles que tem traçado. Desta vez, em Alergia, escolhe retratar novas paisagens sonoras armado por sons sintetizados e etéreos, trazendo à memória ecos distantes de Tangerine Dream e Vangelis em melhores dias. A electrónica progressiva de Lorr No cria um bom contraponto com o que Nuno desenvolveu enquanto Mada Treku, deixando no passado o ambient negro e cru que Learning Exercises on How to Move On tão bem mostrou. As peças compostas em Alergia têm espaço para brilhar e criar a sua própria voz, não deixando que essa singularidade evite os momentos em que comparações ao trabalho de Daniel Lopatin se tornam inevitáveis. José Almeida




Rosa Pano, a estreia de Luís Pestana em longa-duração, encontrou casa no lugar mais improvável. A americana Orange Milk Records, conhecida por albergar alguns dos mais inventivos documentos da música eletrónica progressiva moderna, é responsável por selar o mais recente trabalho do guitarrista dos extintos LÖBO, que apresenta no seu primeiro álbum um tratado de eletrónicas pastorais inspiradas nas canções de embalar que a sua mãe lhe cantava em pequeno. Composto por oito faixas que balançam entre a insustentável beleza do drone e as qualidades renovadoras da música tradicional portuguesa, Rosa Pano distancia-se das paisagens oníricas da editora americana - que tem em Foodman, Giant Claw e Machine Girl alguns dos seus maiores representantes -, apostando nas potencialidades da composição eletroacústica para construir o seu próprio folclore. Filipe Costa



Night Princess


O ano é 2020 e o sabor do momento é o autêntico festival de incertezas e alienação que projecta uma reestruturação da maneira como vemos o mundo. Talvez seja isso que motiva Night Princess. Talvez não. O que é certo é que o álbum homónimo que editou em Junho deste ano é uma ode à hiperactividade, ao apelo orgânico que a incerteza e distorção conseguem ter. Night Princess, editado pelo Dismiss Yourself Archive, é uma força da natureza movida a chiptune e BPMs altos, sintetizando combinações orelhudas de vozes manipuladas e batidas distorcidas em sequência. Os canones da música de dança revelam-se regularmente neste frenesim enterrados numa produção hyperpópica, com especial destaque para o drum and bass elevado a um quase drill and bass, para as visões/ficções de Xanopticon a canalizar os grandes êxitos de goreshit e 100gecs. Talvez o melhor seja simplesmente descrever toda esta agressão cativante como glitch lolicore hiper-saturado e criativo e ficar por aqui. Talvez não. O que é certo é que Night Princess soa àquilo que espero do futuro e isso - talvez - baste. 
José Almeida


Noiva

Após a sua participação na coletânea RIP 2020, do Coletivo Colunas, Noiva, projeto a solo de Sara Vigário, tem em Condominium o seu primeiro EP. Este é composto por quatro faixas que aliam os sintetizadores a uma série de samples, vários deles retirados de vídeos ou filmes, como a popular comédia de ação ugandesa Who Killed Captain Alex?

Os sons provenientes de diferentes fontes encaixam todos de forma coerente, integrando texturas sonoras e ritmos incomuns, mas dançáveis. “Foreign” é o melhor exemplo disto, com as suas variadas melodias, associadas a diferentes timbres, que aparecem e desaparecem continuamente, gerando uma agitação muito cativante que é segurada pela percussão constante. Esta e as restantes composições navegam pelos caminhos da música eletrónica progressiva, do glitch e da música de dança eletrónica mais alternativa.Condominium é um lançamento totalmente independente, digital e gratuito que pode ser encontrado no Bandcamp da artista. Rui Santos




O duo de produtores Rúben Silva e João Coutinho, conhecidos por Satha Lovek, lançam-se nos registos em nome próprio com o EP PT Malacca pela chancela do Coletivo Farra. O EP demonstra uma ausência acentuada de sentimento patriótico, transportando o ouvinte a um percurso entre Portugal e o bairro português de Malacca, com o propósito de demonstrar uma mensagem satírica ao ultranacionalismo. Tendo isso em mente, a sonoridade que caracteriza a identidade dos Satha Lovek demonstra uma ofensiva caótica mas bastante aliciante que envolve free-jazz, plunderphonics e IDM e que demonstra um espírito bastante sinistro por via de sons de drone tenebroso, batidas ofegantes e samples miscelâneos que não deixam ninguém indiferente. Tudo isto para, ao fim dos 22 minutos que preenchem PT Malacca, ilustrar uma devastadora desconstrução das ornamentadas lendas do império colonial. Ruben Leite


Swan Palace

Depois de anos a aprimorar um corpo de trabalho tão celestial quanto cibernético, com várias composições esporádicas lançadas de forma independente, Swan Palace prossegue a sua missão pelos mundos distópicos da club futurista com No Miracles, tratado alquémico de eletrónicas rarefeitas que assinala a estreia em longa-duração de Pedro Menezes. Composto por seis faixas originais e três remisturas de Odete, UNITEDSTATESOF e Concrete Fantasies, No Miracles é o retrato de uma nova geração de produtores que não olha a géneros e que encontra nas potencialidades dos graves e dos ritmos quebrados o material sónico necessário para exteriorizar os seus sentimentos. Alternando entre a deriva ambiental e a força bruta do noise, do metal e das power eletronics, e com o auxílio de figuras familiares como FARWARMTH e DRVGジラ, que prestam preciosos contributos nas faixas “Rose Gold Skin” e “7777 Angels”, respetivamente, No Miracles carimba a posição do músico sediado em Lisboa na sempre efervescente cena eletrónica da cidade. Filipe Costa






Das periferias de Sintra vem Tristany, artista multidisciplinar que tem no seu Meia Riba Kalxa um dos mais admiráveis álbuns de 2020. Música sem rótulos, dotada de um sincretismo raro nas esferas do hip-hop português: aqui há fado e dor na entrega, combate e resiliência na rima, calor e morna na cadência, afrofuturismo no horizonte. Há, acima de tudo, uma vontade visível de testar, sem medos, qualquer tipo de cânones – Meia Riba Kalxa é um verdadeiro alien na produção nacional. É Frank Ocean nos momentos mais vulneráveis, Valete na hora do combate. É música “apátrida”, como explica na entrevista que concedeu ao Rimas e Batidas, influenciada tanto pelos círculos que frequentava em Mem Martins, quando ainda assinava enquanto Tristany Time Old, como pela música da diáspora africana (o rap crioulo está bem representado nas participações de Chullage e Julinho KSD). É, enfim, um bálsamo, uma obra carregada de emoção e esperança que, não sendo o antídoto, é o escape necessário para estes tempos conturbados. Filipe Costa


Vitor J. Moreira


Engrama é o primeiro disco a solo de Vitor J. Moreira, na vertente mais erudita da sua formação, e é de notar que paralelamente à sua formação clássica, o pianista é teclista dos IAMTHESHADOW, Hot Pink Abuse e membro fundador dos Haus En Factor.

Engrama é um álbum de piano a solo que promete e cumpre exactamente o que expõe, uma colecção de dez canções, quanto a mim belíssimas e que por isso não desiludem. Desde o tom melancólico mas esperançoso de “Amor Maior”, peça que abre o disco, e até ao “Amanhecer” que o encerra, somos transportados para uma viagem íntima ao mundo das teclas brancas e pretas, aos tons maiores, aos sustenidos, à interpretação (sempre tão difícil de registar) de um só instrumento tocado na perfeição onde uma inflexão errada pode desvirtuar todo um sentimento que se quer perfeito. O equilíbrio entre as teclas graves e os registos mais luminosos da mão direita fazem-nos viajar, e é nesse sentido que o disco em questão é sublime. Lucinda Sebastião


YAKUZA

YAKUZA é um trio lisboeta que apresenta em AILERON, o seu álbum de estreia, uma sonoridade nu jazz muito groovy e dançável, repleta de ritmos irresistíveis.  As primeiras três faixas mantêm uma pulsação constante e progridem de forma muito natural, tendo mudanças de secção tão fluídas que podem ser impercetíveis. Onde poderiam ser tocados solos ou melodias adicionais, a banda deixa espaços abertos. O foco está no groove, nas interações dinâmicas entre os membros da banda, que vão introduzindo pormenores deliciosos no meio dos riffs e das batidas.

É nas colaborações com outros músicos que se encontram alguns elementos mais tradicionais do jazz, como solos e o uso de piano em vez de sintetizador. A composição que mais avança nessa direção é a brilhante “PICHELEIRA”, mas até esta conta com o som mais característico do trio nos seus minutos finais, durante os quais os timbres do sintetizador passam para primeiro plano. O primeiro disco dos YAKUZA é uma excelente surpresa que alia o jazz à música eletrónica, recomendável a fãs de artistas como BADBADNOTGOOD ou Kamaal WilliamsRui Santos

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STREAM: RLGNS & Vasco Completo - passionately uncaring

STREAM: RLGNS & Vasco Completo - passionately uncaring

Saiu hoje o novo lançamento colaborativo de RLGNS & Vasco Completo, de nome passionately uncaring. A junção era inevitável. Não precisávamos de chegar às suas influências e referências musicais para perceber como Escumalha, João Medley e Vasco Completo funcionam em trio.

A proximidade já existia, mas agosto de 2019 marcou a primeira interação entre os três músicos, quando atuaram no Lounge em Lisboa. No ano seguinte, os RLGNS figuravam pela primeira vez na discografia de Vasco Completo, com um dos remixes de "Serotonina" com João Tamura. Além disso, ambos os projetos apareceram na compilação dos Novos Talentos FNAC (Vasco Completo em 2018, RLGNS em 2020).

RLGNS é um duo de Lisboa formado por Medley e Escumalha. Conhecem-se na cena punk, juntam-se com o interesse de criar um projeto diferente, aglutinando shoegaaze, ambient e eletrónica. A relação entre o orgânico e o digital expressa-se entre as técnicas eletroacústicas de found sounds ou field recordings, e as batidas, que vão do exotismo de Bonobo ao minimalismo de Jan Jelinek.

Vasco Completo demonstra uma direção predominantemente concetual na sua música, cria sonoridades que ligam a eletrónica à guitarra, que se cruzam regularmente com música ambvient, downtempo, trip-hop e R&B. Tem como principal linha condutora a não-passividade na escuta e a criação de conteúdo com um caráter emocionalmente profundo.



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STREAM: Dust Devices - INTERUPT

STREAM: Dust Devices - INTERUPT

Dust Devices lançou ontem o seu primeiro LP, INTERUPT, pela label portuense MERA. Este álbum segue-se ao hipnótico Spectre Research, lançado pela editora em novembro do ano passado. Em conjunção com este anúncio, é também apresentado o videoclip da faixa "HR Sequence", com realização de shplss lançado no YouTube da editora no passado dia 30 de Novembro.

Cláudio Oliveira - a personagem por trás do projecto - tem vindo a surpreender desde a sua estreia com o introvertido Resonant Remnants. Compositor e sound designer residente no Porto, marcou o seu percurso não só pelo desenvolvimento de bandas sonoras e sonoplastia para cinema, como também pela produção artística, actuando desde a criação de instalações sonoras à participação em iniciativas de música colectivas tais como RITES, PHLP e OLEC. Inspirado tanto por influências rítmicas - do Industrial, EBM, Techno e Electro -, como por melodias e atmosferas densas - criadas com recurso à síntese granular e FM -, a própria exploração de texturas, linearidade e visuais, toma inevitavelmente um lugar de destaque.

INTERUPT é o álbum de estreia do projeto Dust Devices. Ao longo de 12 faixas, são exploradas estéticas e memórias longínquas da dancefloor, combinando-as com métodos generativos de sound design. Um projecto que nasce de um gesto futurista e com recurso a muita experimentação. A simbiose entre o orgânico e o sintético apresenta-se como a principal fundação deste álbum, oscilando entre ritmos e synths electrónicos dançáveis e paisagens sonoras densas e sensoriais. Sublinhamos a "HR Sequence", uma faixa fria que serpenteia pelo mundo quente da fúria. Inspirada na rave dos anos 90, e misturada com IDM e Soundscaping, "HR Sequence" relembra-nos a essência de Dust Devices: um símbolo místico dentro da música eletrónica.

INTERUPT já se encontra disponível para audição e também para compra no Bandcamp da MERA.

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quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Tricky regressa a Portugal para dois concertos em 2021


O músico britânico Tricky regressa a Portugal no final de 2021 para dois concertos. O autor de Maxinquaye, um dos expoentes do movimento trip-hop, atua no Porto, no Hard Club, a 30 de novembro, e em Lisboa, no LAV, a 1 de dezembro.

O seu mais recente álbum, Fall to Pieces, foi editado no último mês de setembro e reflete o duro período de luto que o natural de Bristol atravessou após a morte da sua filha, Mazy, aos 24 anos. O disco foi gravado em Berlim, onde se encontra a residir atualmente, e conta com a particpação da polaca Marta Złakowska na voz. Ainda em 2020, Tricky editou o EP 20,20, que conta com a participação vocal de Marta e Anika.

Tricky, hoje com 52 anos, definiu os moldes da música trip-hop dos anos 1990 (o termo foi aplicado pela primeira vez pela revista Mixmag para definir o seu primeiro álbum, Maxinquaye, em 1994). O músico e produtor chegou mesmo a integrar a formação original dos Massive Attack, e editou um notável corpo de trabalho a solo onde se apontam obras essenciais como Nearly God e Pre-Millennium TensionA última passagem de Tricky por Portugal aconteceu em 2018, novamente no Porto e em Lisboa.

Os bilhetes para os concertos de novembro ficam disponíveis a partir desta sexta-feira em houseoffun.pt, masqueticket.com, blueticket.pt e restantes locais habituais.



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Schroothoop: world music com sensibilidades verdes

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Vindos da sempre sortida e emergente cena musical da Bélgica, apresentamo-vos os Schroothoop - palavra holandesa para ferro-velho -, um trio formado por Rik Staelens (instrumentos de sopro e corda), Timo Vantyghem (baixo e clarinete) e Margo Maex (percussão) que decidiu fazer música em conjunto depois de se conhecerem numa fanfarra local, e que se especializa em celebrar a diversidade cultural mundial por via da world music. E não só isso, fazem-no não com instrumentos convencionais, mas com recurso a instrumentos improvisados de material diverso retirado de lixo comum e derivados como sobras de madeira, bidões, tubos de PVC e outros, demonstrando desta forma uma sensibilidade mais verde e dando uma segunda vida a apetrechos que outras pessoas consideram inúteis.

 

No passado mês de Maio, eles lançaram o registo Klein Gevaarlijk Afval pela editora belga Rebel Up, onde o trio demonstra todo o seu virtuosismo e engenho numa infusão experimental hipnotizante de ondas sonoras oriundas de géneros como o jazz, chaabi, reggaeton, melodias do Leste e ritmos Afro-Cubanos. Faixas memoráveis como “Obsolescence Programeé” com influências muito substanciais dos sons orientais, “Magnetron” com trabalho de clarinete muito suave que logo dá lugar a um trabalho de bateria enérgico e “Rostfrei” com o seu violino de lata de som áspero que encaixa bem com o ritmo groovy, garantem impulsionar aquele pé-de-dança do início ao fim. 

Deixamo-vos com Klein Gevaarlijk Afvak em baixo, disponível no Bandcamp.

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Misfit Trauma Queen antecipa novo disco com "Kubrick's Cube"

Misfit Trauma Queen antecipa novo disco com "Kubrick's Cube"


A techno dark de Misfit Trauma Queen volta a receber novo capítulo em 2021 e, embora não sejam ainda conhecidos os detalhes do novo lançamento, já se pode escutar o primeiro tema de avanço do sucessor de Violent Blue (2020, Regulator Records). "Kubrick's Cube" é, segundo a nota de imprensa, "o avanço da nova sonoridade adotada pelo produtor - um culto de paisagens negras de magnitude cósmica em torno de uma arquitetura sonora fria, enigmática, distópica e distante". Mais espacial que compulsivo, Misfit Trauma Queen continua a amplificar a sua abordagem e conhecimento das técnicas de produção e neste "Kubrick's Cube" volta a marcar esse espectro, embora numa impressão mais martelada.

Deixando Lynch por uns instantes e aproximando-se da linguagem de Kubrick em 2001 - A Space Odyssey, Misfit Trauma Queen apresenta uma faixa pontilhada e imponente que transparece em força a sua postura alternativa no cenário da produção eletrónica nacional. O novo tema foi apresentado conjuntamente com um trabalho audiovisual completamente díspar dos anteriores "GlassJaw" ou -"EnterNoise", a apostar numa estética black and white nonsense. O resultado pode visualizar-se abaixo.


"Kubrick's Cube" foi lançado oficialmente na passada sexta-feira (11 de dezembro) em formato digital. Podem apoiar o artista comprando o single aqui. O sucessor de Violent Blue chega às prateleiras em 2021.

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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Jardins Efémeros anunciam primeira confirmação para 2021


Ainda sem garantias da sua realização, devidos às medidas impostas pela pandemia da Covid-19, a organização dos Jardins Efémeros revelou a primeira confirmação no cartaz do evento multidisciplinar que acontece no centro histórico de Viseu. Lyra Pramuk, compositora, vocalista e performer americana, é o primeiro nome na área do som a ser avançado pelo festival.

Pramuk apresentar-se-á pela primeira vez em Portugal, em espectáculo único no país, com o seu primeiro longa-duração, Fountain. Aplaudido por publicações de referência como a Fact Magazine, Pop Matters e Pitchfork, que o incluiu na lista de melhores lançamentos de 2020, o álbum de estreia da artista sediada em Berlim é um trabalho aglotinador que une vocalizações clássicas com uma forte sensibilidade pop e performática, congeminações club e folk futurista. 

Escrito ao longo de várias residências artísticas, repartidas entre as cidades de Tóquio e Estocolmo, e depois de inúmeras digressões com artistas como Holly Herndon e Colin SelfFountain é o resultado de anos a explorar os limites da voz e do seu papel na produção contemporânea. O álbum recebeu o selo da islandesa Bedroom Community, de Valgeir Sigurðsson e Ben Frost, e foi editado em março deste ano.

A realização dos Jardins Efémeros em 2021 foi confirmada em comunicado publicado pela organização em julho. “Depois de uma análise profunda sobre todas as eventuais modificações no programa”, a organização concluiu que não seria possível desenhar para este ano um modelo misto, capaz de juntar espetáculos ao vivo e online, marcando o reencontro com o evento cultural para julho do próximo ano. As datas e número de dias ainda não são conhecidas, mas deverão ser anunciadas brevemente. 


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Os Club Sinister dão vida a melodias sedutoras em "Beyond Bleeding"

Os Club Sinister dão vida a melodias sedutoras em "Beyond Bleeding"


Depois de dez anos a aprimorar as suas habilidades de composição - ao tocar numa panóplia de bandas com diferentes abordagens musicais - Alex Horton e Ian Weidner juntaram-se no início este ano para dar vida aos Club Sinister. Fortemente influenciados pelas linhas estilísticas dos anos 80' e numa produção enaltecida por camadas de som devaneadoras, os Club Sinister nascem num ano de profundas mudanças para nos renovarem a esperança de um amanhã melhor.

Com "Beyond Bleeding" no posto de escuta desde novembro passado, os norte-americanos Club Sinister deixaram em iminência o potencial que têm para se tornar um dos atos underground na linha da frente nos próximos tempos. O comprovativo desse possível feito chega no formato curta-duração às prateleiras no próximo mês de janeiro, mas já se pode apreciar, entretanto, o aperitivo de entrada sob a nomenclatura "Beyond Bleeding", o primeiro tema de avanço. 

Profundamente sedutores - com forte destaque nos vocais delicados que os descrevem - os Club Sinister vêm contribuir para a expansão do novo "dream goth" na América, num percurso que ganhou força maior na Europa pelas mãos dos suecos Isolated Youth. Agarrar na melancolia doce da dream pop e colocá-la nas guitarras angustiadas do post-punk suave, num trabalho vocal profundamente frágil e marcante. Os Club Sinister parecem saber fazê-lo muito bem e deixam agora o ponto de ignição para mantermos a atenção no seu nome.


"Beyond Bleeding" foi editado no passado dia 20 de novembro em formato self-released. O segundo tema de avanço de Club Sinister EP - "Sheol" - estreia esta sexta-feira, 18 de dezembro, no jornal The Pitch (Kansas City).

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OCUPA #5: gnration volta a celebrar o melhor da música eletrónica e arte digital feita em Braga


De 17 a 18 de dezembro, o gnration, em Braga, recebe a quinta edição da mostra de música eletrónica e arte digital OCUPA, onde durante dois dias dará a conhecer artistas que contribuem para a afirmação da cidade enquanto detentora do título de Cidade Criativa da UNESCO para as Media Arts. 

Na primeira noite, terá lugar a apresentação pública do Clube de Inverno, espaço informal destinado à exploração e improvisação nos domínios da música e som, coordenados nesta quarta edição pelo músico Paulo Furtado (The Legendary Tigerman) e pelo cineasta Rodrigo Areias

Já no segundo dia, a relação entre som e imagem em movimento será discutida ao longo de dois painéis de conversas que vão contar com Paulo Furtado, Rodrigo Areias, Fernando José Pereira (professor na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto e membro de Haarvöl) e Ana Deus (artista), com moderações a cargo de Daniel Ribas (professor na Universidade Católica Portuguesa e crítico no jornal Público) e Vítor Ribeiro (Close-Up - Observatório de Cinema de Vila Nova de Famalicão). 

Na música, Inês Malheiro e Gonçalo Penas vão apresentar Canal – Conduto, disco e performance resultante de encomenda artística do gnration, e Haarvöl, coletivo de música experimental e eletrónica composto por Fernando José Pereira, João Faria e Rui Manuel Vieira, vão musicar O Gabinete de Dr. Caligari, filme mudo de 1920 do cineasta alemão Robert Wiene, expoente máximo do movimento expressionista alemão que celebra este ano o seu centésimo aniversário. 

O programa de música tem um custo de 5 euros para cada dia. Já o programa de instalações e conversas tem acesso gratuito. Os bilhetes podem ser adquiridos através da bilheteira online, balcão gnration e locais habituais. 


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O Amplifest regressa em 2021

O Amplifest regressa em 2021

2021 marca o regresso do Amplifest, dois anos depois da sua útima edição, e voltará a fazer do Hard Club no Porto o ponto de encontro para melómanos de todo o mundo. O festival que desde 2011 se assume como uma experiência de descoberta dos espaços mais negros e transgressores da música de peso contemporânea realiza-se entre 8 e 10 de outubro. As primeiras confirmações para o melhor fim-de-semana são de relevo: Cult of Luna, Caspian e Holy Fawn

Depois de um ano marcado pelos adiamentos, cancelamentos e a luta pela sobrevivência da cultura, a organização pretende construir “a melhor edição de sempre do Amplifest na bela e melancólica cidade do Porto”. Uma oitava edição que sucede a um ano deserto de emoções em palco e que terá sempre como ponto essencial a música e o espaço que a mesma cria para a partilha de experiências e memórias irrepetíveis. Como é hábito, o Amplifest manterá um alinhamento sem sobreposição de concertos.

Com o anúncio de datas, anuncia-se também a primeira fase de venda de bilhetes. Está a preço reduzido de 90 € para os primeiros 100 compradores. Os mesmos poderão ser adquiridos unicamente online em seetickets.com

Mais informações sobre a próxima edição do festival encontram-se disponíveis no site da Amplificasom.

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IAN em entrevista: "Sou quem sou, sou quem quero ser"

© Ana Hop 

Depois de uma passagem por Guimarães, onde integrou a programação do Westway LAB 2020, e por Tavira, IAN apresenta RaiVera em Lisboa, no Altice Arena, no dia 18 de dezembro, integrando  a programação do Rádio SBSR.FM em Sintonia. 

Editado a 21 de agosto pela Vespertine RecordsRaiVera é o disco de estreia de IAN, projeto a solo de Ianina Khmelik

RaiVera é um neologismo composto que em russo significa “paraíso” (rai) e “fé” (vera). Nesta aglutinação dos dois termos, nasce o nome do disco que, tal como IAN, é a conjugação das várias influências musicais, pessoais e profissionais. Este trabalho assume-se como um exercício de liberdade, algo que a artista muito preza e pratica, quer na forma magnífica como funde a eletrónica com melodias cativantes, quer na atitude que transmite, procurando distanciar-se do seu trabalho como violinista clássica. 

Numa conversa em formato eletrónico, falámos com IAN, que nos deu a conhecer um pouco de si, das suas motivações e inspirações, assim como o desejo e determinação em abraçar novos desafios, passando pela participação, já confirmada, no Festival da Canção 2021. 

Aqui fica o registo completo desta conversa. 

A Ianina tem tido bastante projeção nos últimos tempos, especialmente devido ao lançamento do seu primeiro trabalho enquanto IAN. Fale-nos um pouco de si, das suas origens, do seu gosto pela música, da sua formação. Para os que ainda não a conhecem, quem é Ianina Khmelik?

IAN - Ianina Khmelik nasceu numa grande cidade chamada Moscovo, cidade de muitos contrastes, na altura de muitos acontecimentos políticos. Acompanhei a PERESTROIKA com os olhos de uma menina de 4/5 anos. Vivi os acontecimentos e mudanças políticas bastante de perto, uma vez que a minha família estava ligada ao governo da Rússia. A minha avó trabalhou na Procuradoria Geral da União Soviética, entre outros membros da família que estiveram sempre ligados ao Governo... Isto, desde muito cedo, trouxe um conhecimento maior sobre a estrutura do país no qual vivíamos. Aos 4 anos comecei com aulas de violino. Não foi uma escolha minha, queria tocar flauta, pensava eu na altura, mas ainda bem que não fui por aí. Desde sempre o violino tem sido o meu companheiro, nos bons e nos maus momentos, faz parte de mim. Foi com a ajuda do violino que percebi quem sou e o que quero, o que me faz feliz. 

Em Moscovo cheguei a frequentar a famosa Gnessin Music School, uma das melhores escolas da música do país e integrei a Orquestra Virtuosos de Gnessin, que deu inúmeros concertos pela Rússia e pelo mundo fora. Cheguei a obter um vasto conhecimento da música clássica. 

Com a vinda para Portugal, abriu-se uma porta maior para o mundo. O facto de ser uma cidadã europeia deu-me possibilidade de tocar e obter conhecimentos musicais além-fronteiras. E aí começa realmente a descoberta de quem sou enquanto artista. 

Com uma formação em música clássica e integrando os primeiros violinos da Orquestra Sinfónica do Porto, “encarnou” em IAN. Porquê esta viragem tão díspar no seu percurso profissional? 

IAN - Não é uma viragem, é apenas um complemento. Enquanto violinista da Orquestra Sinfónica Casa da Música interpreto não só música clássica, mas também muita música contemporânea, música dos nossos dias, com técnicas e texturas novas, compositores vivos e presentes nos ensaios para explicar os seus conceitos. Isto tudo é muito interessante para mim. Muitas vezes, depois do ensaio, faço um resumo para não esquecer nenhuma das partes que falaram, que partilharam connosco. 

Enquanto violinista clássica, não canta. Já em IAN utiliza a voz como um instrumento. Como é que fez a descoberta deste “dom”? Era um guilty pleasure? Existia em si a vontade, o desejo de o mostrar? 

IAN - Sou uma pessoa que gosta dos desafios. Enquanto violinista nunca cantei, apenas no coro, em criança. O violino cantava por mim, mas sentia que me faltavam línguas para completar as minhas composições e, quando digo línguas, falo na sonoridade que cada língua tem. E uma vez que falo 5 línguas, quis usar isso como instrumento musical, acrescentando o desafio de começar a cantar, claro. 


IAN apresenta-se como uma mescla de vários elementos, do pop ao trip hop e eletrónica. Mas há também a presença de instrumentos clássicos como o piano e o violino, como é que tudo isto se encaixa? 

IAN - Acho que tudo encaixa bastante bem. A vontade de completar as composições que fazia no violino e piano com a eletrónica surgiu de uma forma bastante natural. Creio que foi o culminar de entendimento de mim própria enquanto artista. Agora, no ano 2020, sei que sou uma pessoa completa. Sou quem sou, sou quem quero ser. 

RaiVera é o primeiro grande ponto de encontro de IAN? Fale-nos deste trabalho. O que pretende transmitir-nos ou dar-nos a conhecer com RaiVera?

IAN - RaiVera é o primeiro capítulo do conto sobre a minha pessoa, tanto ao nível pessoal como profissional. Em RaiVera encontram as tais cores das línguas que vos falei, o som do violino, piano, eletrónica, voz e muitas histórias. Influências de bandas e compositores que me marcaram, desde Prokofiev, Stockhausen, Goebbels ao Sakamoto, Kraftwerk e Tricky. Encontram solidão, felicidade, fé e o desafio à liberdade de ir além-fronteiras dos estilos, do som convencional, junção de melodias com ruído. O meu RaiVera é isto tudo. 

No RaiVera incluiu uma citação de Arthur Schopenhauer “It is difficult to find happiness within oneself, but it is impossible to find it anywhere else.” Este projeto é a realização dessa felicidade interior exteriorizada nas faixas do álbum? 

IAN - Sem dúvida. IAN é decididamente o elo que me faltava para ser feliz. 

Um dos temas chama-se "Temporary Perfect”. Tem esta ambição da perfeição? 

IAN - Sou bastante perfeccionista, sim. Essa qualidade (eu considero uma qualidade) vem da minha família. Sempre me disseram "nunca deixes nada a meio, se te comprometes em fazer algo, tens de o fazer muito bem. Não interessa se é mais ou menos pago, se terá mais ou menos visibilidade, se te comprometes, tens de o fazer por ti, pelo teu brio." E é esse o meu lema de vida. 


Sabemos que teve a colaboração e produção de Nuno Gonçalves, tendo mesmo atuado em vários espetáculos onde fez a primeira parte dos concertos dos The Gift. Como surge esta joint venture, se é que assim se pode designar?

IAN - Foi uma grande sorte os The Gift terem-me apoiado, dando-me a possibilidade de tocar na primeira parte de alguns dos seus concertos. Foi uma enorme ajuda pela qual estou-lhes eternamente grata. Quanto à produção do Nuno Gonçalves, é uma dádiva conhecer pessoas que tens em grande consideração, o Nuno é uma delas. Com toda a bagagem e toda a sabedoria que ele tem não só ao nível da música pop, mas também ao nível de outros estilos musicais ajudou a limar o RaiVera sem o desvirtuar. 

RaiVera assume-se como um trabalho de eletrónica em que os sintetizadores ganham protagonismo. Atualmente existe uma massificação de projetos eletrónicos. Como é que IAN se diferencia neste universo da eletrónica? Acha que há publico para tal? 

IAN - A meu ver o RaiVera é um trabalho bem definido ao nível das histórias que quero passar às pessoas através da minha música. De facto diferencio-me dos outros projectos pela mistura de estilos e elementos musicais, mas creio que muitos irão perceber e identificar-se com algumas das canções. 

Ao primeiro contacto visual com IAN, vem-nos à memória a "Leeloo" (Milla Jovovich) do filme O Quinto Elemento de Luc Besson. Um ser aparentemente solitário no desconhecido mas que possui dentro de si vários outros mundos e uma riqueza de conhecimentos ímpar. Tal como “Leeloo”, IAN é a concentração de um todo nesse corpo e neste projeto mostra-nos a sua essência no mundo da música? 

IAN - IAN mostra a parte da Ianina Khmelik que ninguém via até há bem pouco tempo. 

Nesta analogia, à semelhança de “Leeloo” que usa figurinos de Jean-Paul Gaultier, a imagem da Ianina, vestida pela dupla dos Storytailors é visualmente muito forte e fascinante, algo salivante para o nosso olhar…. Como é/foi ou por quem foi pensado este conceito? 

IAN - A parceria com os Storytailors foi maravilhosa e emocionante, e ainda continua a ser. Somos muito amigos e sinto um enorme carinho ao falar desta marca. O “mirror dress" foi uma visão linda que tivemos, o vestido conseguiu reforçar o conteúdo do projecto. 

© Ana Hop 

Voltando ao RaiVera, integrou recentemente a programação do Westway LAB, em Guimarães. Os concertos acabaram por ser transmitidos on-line, sem presença de público em sala. Como é para um músico atuar neste formato? 

IAN - Foi uma pena não ter havido público, mas numa altura tão difícil como a que estamos a viver foi sem dúvida muito positivo ter havido o festival. Claro que atuar neste formato é diferente, mas para uma pessoa como eu, que está habituada a tocar para uma plateia mais serena e silenciosa enquanto violinista clássica, creio que poderá ter sido mais fácil. 

Posteriormente, em novembro mais precisamente, teve concerto marcado no Lux Frágil, para apresentação deste álbum ao vivo. Infelizmente, devido aos tempos conturbados que vivemos ficou adiado para 2021. Como é que se lida com esta inconstância e com este contínuo adiar de agenda? 

IAN - Fiquei muito triste por saber que o concerto tinha sido adiado, também por ser o Lux, a mítica casa pela qual tenho uma enorme admiração e carinho. No entanto, espero ainda poder apresentar o meu disco ao vivo nesta sala mítica de Lisboa em 2021. Melhores dias virão e, quem sabe, para muito breve. Tento ser positiva. 

No próximo dia 18 teremos a oportunidade de assistirmos à apresentação do RaiVera ao vivo, no âmbito do evento Rádio SBSR.FM em Sintonia, no Altice Arena, em Lisboa, atuação que terá público presente em sala. É o seu primeiro espectáculo nestas condições tão restritivas desta era pandémica? 

IAN - Não é o meu primeiro concerto, já tive um concerto em Tavira nestas condições, temos de nos adaptar a elas, pelo menos para já. Mas o dia 18 será a estreia do RaiVera em Lisboa e por isso é muito emocionante para mim! 

Em palco, atua sozinha. Considera integrar outros elementos em futuros espetáculos? 

IAN - Quem sabe, no futuro. Uma coisa posso dizer, sinto-me muito bem sozinha, entre música, vozes, vídeo e instrumentos somos muitos, mas somos um. 

Se um dia dividisse o palco com alguém, quem gostaria de ter a seu lado? 

IAN - Já cheguei a dividir o palco com grandes bandas de pop/rock e continuo a dividir com grandes mestres da música clássica enquanto violinista. A partilha com artistas que admiro deixa-me feliz claro. Como IAN tenho uma grande lista, mas como sou uma pessoa um pouco supersticiosa preferia não a desvendar. 

Nestes últimos meses, houve espaço para ouvir muita música? Quais os géneros musicais que gosta, bandas, para além da música clássica? 

IAN - Nestes meses houve espaço não só para ouvir música, mas também para ler, uma coisa que já não fazia há algum tempo. Reler Mário Cesariny e António Maria Lisboa. Reforcei a escuta de uma cantora que gosto muito, a Catnapp. O Modeselektor deu-me tanta energia e o Trentenmoller acariciou a minha melancolia.

Tivemos conhecimento que a IAN acaba de ser confirmada como uma das compositoras do Festival da Canção 2021. Sabemos que a presença dos autores neste certame acontece a convite da própria RTP. Foi o seu caso? Como é que recebeu esta notícia? 

IAN - Foi o convite da RTP, sim. Fiquei bastante emocionada, confesso. 

Podemos perguntar-lhe qual é a sua motivação para participar neste concurso? Quais são as suas expectativas? 

IAN - Eu sempre gostei muito do Festival Eurovisão da Canção. Desde muito pequena que tenho memórias de ver o Festival, não aqui em Portugal, mas em Moscovo, juntamente com os meus avós. Agora em Portugal, a minha casa, é uma grande emoção fazer parte de um evento tão importante quanto o Festival da Canção, que engloba tantos significados e boas causas. E claro, muito grata à RTP pela oportunidade de mostrar a minha música a um público tão atento e tão vasto. 

Não sei se nos pode avançar esta informação, mas a IAN é a autora da letra e da música do tema que vai interpretar? Em que língua é que vamos escutá-lo? 

IAN - Creio que ainda não posso revelar essa informação, vão ter de esperar para ver. 

Independentemente do Festival da Canção, quais são os projetos futuros da Ianina para a IAN em termos de carreira? 

IAN - Para março estão agendados dois concertos da IAN em Lisboa e no Porto. Um no Teatro Maria Matos, no dia 8 de março, e outro na minha "casa" - Casa da Música no Porto, no dia 14 de março. Os bilhetes para estes concertos estarão à venda muito em breve.  Em nome individual, estes são os concertos de apresentação do álbum RaiVera que vão incluir outras surpresas. 

Aqui fica desde já o nosso agradecimento a IAN por esta entrevista. Esperamos com alguma expectativa vê-la e ouvi-la já no próximo dia 18 e bastante curiosos relativamente à sua participação no Festival da Canção, agendado para o primeiro trimestre de 2021. 

Podem ouvir as nove faixas do RaiVera aqui:


Entrevista por:
Armandina Heleno e Virgílio Santos

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