sexta-feira, 9 de abril de 2021

Dream People em entrevista: "O sonho é o combustível da vida"

© Miguel Dias

Chamam-se Dream People e fazem do sonho a sua essência. Desde o início do ano, têm vindo a causar burburinho no panorama nacional, momento em que lançaram "People Think", primeiro single de Almost Young. Neste ábum, a banda canta a perda da juventude como um sentimento irreparável, que tanto traz a saudade do que viveram como a inquietação pelo desconhecido de amanhã.

Ao som de sonoridades em constante mutação e longe de se cingirem a um só género, a banda flutua entre shoegaze, new wave e dream pop sem amarras. Francisco Taveira dá voz a um "chiaroscuro musical", como descrevem em nota enviada às redações, enquanto Bernardo Sampaio e Nuno Ribeiro embalam a melodia através de guitarras e synths. João Garcia é responsável pelo baixo, enquanto Diogo Teixeira de Abreu se aventura na bateria.

Nasceram em 2019 com o tema "Forever, Too Long". Pelo caminho, reuniram presenças em festivais como Super Bock em Stock e Vodafone Paredes de Coura (Sobe à Vila). No início, aquando do EP Soft Violence, tratavam-se de uns "Putos de Portugal" convictos em tentar fazer da música magia e sustento. Agora, quase jovens, dizem-se muito mais maturos e confortáveis nas desenvolturas sónicas.

A Threshold Magazine esteve ao telefone com João Garcia, baixista da banda, que nos contou tudo sobre a experiência de produção ao lado de Vítor Carraca Teixeira. De Leiria, o multi-instrumentista falou dos passos que deu até chegar ao baixo, desde o conservatório ao desejo pelo rock n' roll. Entre algumas curiosidades sobre o disco, Garcia, que também edita sob o nome Cateto, revelou ainda várias das ambições para o futuro da banda, assentes na esperança de que o futuro será melhor.

Sei que entraste na banda mais recentemente, mas quero perguntar-te se notas diferença desde o início. A nível sonoro, o que mudou desde que os Dream People eram "Putos de Portugal" em Soft Violence?

Eu diria que a sonoridade tem mais maturidade. Apesar de eles terem gravado o Soft Violence em muito poucos dias, a coisa saiu bastante coesa e simples, mas um simples bom, que entra bem, um simples bonito. Mas este novo trabalho foi muito mais elaborado, houve muito, muito trabalho; por trás daquelas músicas estão meses e meses de empenho e está uma coisa muito mais composta. Nós ouvimos e vemos que há mais coisas a acontecer e a batida também é mais dançável.

O próprio Almost Young passou também por um período, digamos, de maturação com a regravação da bateria e do baixo. Foi fácil encarar este processo havendo já um disco quase pronto?

Lembro-me perfeitamente: nós já tínhamos os baixos, soavam bem, estavam um bocadinho estranhos, mas estavam ok. E eu pensava que não íamos regravar baixo e, no fim de tudo, depois de as baterias estarem feitas, eles viraram-se para mim e disseram: “olha, agora vamos gravar os baixos, ok?” [risos]. Eu tinha entrado há pouco tempo e não estava à espera disso, mas claro que encarei o desafio. Tipo, olha, fixe, vamos ter um álbum em que eu já estou a tocar baixo por isso 'bora'. E atirei-me de cabeça. Fiz e dei o meu melhor. Posso dizer que fiz mais de 100 takes quase para cada música [risos]. Foi uma boa experiência, colocou-me logo muito dentro das músicas. Tive de treinar imenso porque tinha de estar no nível de quem já toca aquilo há muito tempo. Foi um desafio muito fixe! Eu gostei muito e também fiquei muito contente com o resultado. Os baixos ficaram muito bem e o Vítor [Carraca Teixeira] também pegou neles e meteu-os a soar incrivelmente bem. E pronto, teve um final feliz! [risos]

Ia perguntar-te agora sobre o processo de produção, com mão de Vítor Carraca Teixeira. Como foi partilhar o estúdio com o produtor? Quais achas que foram as mais-valias desta colaboração?

Bem, o baixo é a única exceção, penso eu, que dá para gravar em casa. Portanto, eu estou em Leiria, na verdade. Gravei as coisas de Leiria e por isso é que fiz tantos takes, para ter a certeza que lhe estava a mandar uma coisa boa. O Vítor foi muito específico com as cordas, com o baixo e com o ruído que eu não podia ter. Houve ali muito trabalho também que ele teve de me explicar sobre como proceder da melhor maneira. É uma pessoa muito profissional, sabe muito do que faz. Então, essa colaboração foi assim… pronto, como é possível hoje em dia [à distância], não é?

Depois, houve uma música que eu tive de ir gravar a casa dele, a "Suburban Lifestyle Dream". Essa aí foi completamente diferente das outras porque o baixo desse tema é um baixo diferente. O som do meu baixo não estava a resultar muito, então, fui lá a casa e ele emprestou-me um baixo. Fizemos três takes e pronto, está feito [risos]. Foi muito diferente daquilo que eu estava a fazer em casa porque ele pegou em mim e tirou de mim a espontaneidade que queria. Pegou no take e meteu os baixos a soar mesmo muito bem. O Vítor é mesmo muito profissional. Gostei muito de trabalhar com ele, sem dúvida!


Em entrevista ao Espalha-Factos, contaram que o disco não foi pré-planeado, que “foi ganhando forma à medida que foi construído”. Que aprendizagens retiraram deste processo de descoberta e como o caracterizam?

Esse processo de descoberta é assim uma coisa do género: nós olhamos para a música e pensamos “epá, falta aqui qualquer coisa”. E às vezes é preciso tirar partes que se calhar gostávamos ou que umas pessoas gostavam e outras não. É preciso haver muito compromisso e, de facto, às vezes é muito aquela coisa de destruir ou recomeçar para fazer melhor.

Aprendemos bastante, sim, porque nós podemos ser espontâneos e fazer assim as músicas todas assim em cinco minutos – [risos] bem, não podemos, mas tu percebes o que eu quero dizer – e depois não evoluíamos daí. No dia seguinte, acordamos e ficamos “espera aí, o que ficava mesmo melhor era este tipo de bateria ou aqui um pormenor, tipo uma pandeireta ou sei lá” [risos]. Então, acho que esse processo de descoberta é algo que ensina mesmo muito, ajuda-nos bastante a evoluir enquanto músicos, até porque se tivermos de ser espontâneos, depois já sabemos melhor o que fazer também. Portanto, é mesmo muito bom. E, se der, é sempre melhor levar o nosso tempo para fazer as coisas e ter a certeza de que aquilo está o melhor possível.

Neste álbum, os Dream People fazem um ninho entre o shoegaze, o dream pop e o new wave. O que vos trouxe a estas sonoridades? Foi algum tipo de influências de géneros que vocês já ouviam?

É assim: enquanto banda, nós temos um nicho de gostos muito parecidos, mas depois também ouvimos coisas muito diferentes. Então, cada um traz assim o seu input, o seu estilo. O shoegaze é algo que todos nós aceitamos – se calhar não é uma coisa que ouvimos todos os dias, mas é um género que nós respeitamos e que gostamos de tocar. É importante não só gostar de ouvir, mas também gostar de tocar. Portanto, os estilos são aquilo que os membros trazem e os outros aceitam, se é algo que gostamos de tocar e assim. É uma escolha em grupo.

Vêem-se a explorar outros géneros num futuro trabalho?

Sim! O Almost Young não tem assim um género extremamente definido. Nota-se que há ali uma diversão do estilo “eu gostava mesmo de fazer assim uma música e outra assado”. A mensagem é parecida, os elementos são os mesmos a tocar – há essa coerência. Mas quanto ao estilo em si, se fôssemos meter etiquetas em cada música, saíam coisas diferentes; as músicas não estão todas no mesmo saco relativamente ao género. E é mesmo essa a vontade que nós temos e a diversão que nós tiramos de fazer estas coisas. Nos próximos trabalhos, o objetivo é nós concordarmos numa coisa mais bem-definida e ambiciosa, mas, de qualquer maneira, sempre enquanto nos divertimos.


Há alguma banda ou artista com quem gostavam de colaborar num próximo trabalho?

Sim, há! Pessoalmente, gostava mesmo muito de colaborar com músicos de Leiria, como os First Breath After Coma ou os Whales. Também o Left, que é incrível. Mas são tudo sonhos, ainda.

Portugal é, e cito o vosso site, “um país onde ser músico é um ato de coragem ou, talvez, loucura”. Como tem sido a experiência?

Tem sido mesmo isso: uma mistura de coragem e loucura [risos]. Nós estamos a surgir numa altura muito estranha em que as coisas não estão normais e não há concertos, por isso, também não há assim muitas maneiras de um músico ter retorno do trabalho que andou a fazer. Andámos a preparar um álbum durante imenso tempo, lançámos o álbum e não temos concertos para o mostrar, que normalmente é o output principal do trabalho dos músicos. Por isso, temos de fazer isto um bocado com aquela perspetiva de futuro e por gosto. E pronto, isso requer tanto de coragem como de loucura [risos] porque, de facto, estamos muito convictos e cheios de força para trabalhar, a acreditar sempre num futuro melhor.

Como começaste na música? Porque é que escolheste o baixo?

Eu pensava que tinha começado na música aos quatro anos, mas, afinal, comecei com para aí seis meses [risos]. Há aqui uma coisa em Leiria chamada “Concertos Para Bebés” e eu comecei aí. Portanto, nesses concertos, acho que os bebés tocam instrumentos ou, pelo menos, batem as mãos nas guitarras e coisas assim [risos]. Depois, fui para o conservatório, aos quatro anos, aprendi guitarra clássica e saí de lá aos 13. Só que eu queria mesmo era ter uma banda, eu queria era rock n’ roll. Não estava para toda aquela formalidade, apesar de que isso é muito fixe. Não estou a desvalorizar – apenas não queria isso. Eu queria mais soltar-me com um instrumento. Comecei a procurar bandas, mas parecia que toda a gente era guitarrista. Então, clássico [risos]: de guitarra passei para baixo. Não comecei com o baixo logo de início, isso é muito raro de acontecer. Fui para uma banda em que era o vocalista e como já tinha essa parte, não podia ser guitarrista e fui para baixista. A partir daí, comprei o meu primeiro baixo e comecei a tocar e a tocar. Eu sou multi-instrumentista, tenho outro projeto a solo [Cateto] no qual faço mais coisas, portanto, o baixo era sempre aquela coisa de “ok, eu sou baixista naquela banda, sou vocalista e também sei tocar guitarra, por isso bora unir isto tudo”.

O baixo, para mim, sempre foi um instrumento de composição e não aquele instrumento que eu treinava todos os dias e no qual queria ter muita técnica. Não, eu queria era um certo som; eu sabia o som que queria. Mas, depois, quando entrei nos Dream People, claro que o foco mudou e agora estou a dar-lhe forte na técnica para não me enganar tantas vezes [risos]. Porque uma coisa é estar em casa a tocar baixo e poder repetir e fazer mais takes, e outra coisa é estar a tocar ao vivo e não se poder enganar. Portanto, é isso.

Dizia o poeta António Gedeão que “o sonho comanda a vida”. Concordas?

O sonho certamente comanda a minha vida [risos]. Claro que não comanda totalmente porque nós podemos sonhar, mas depois também temos que ter os pés assentes na terra, sobreviver todos os dias, ter pão na mesa para comer e tudo isso. Mas, pronto, o sonho é o combustível ou o motor da vida.

Tens alguma mensagem ou conselho para alguém que esteja a iniciar-se na música ou tenha esse sonho?

Tenho. O segredo é mesmo acreditares em ti próprio e trabalhares muito. Se gostas de música e te faz feliz, se quando estás a fazer música, és feliz e gostas do processo, que é o mais importante, então, dedica-te a isso a 100%. Não vai ser fácil, mas vai valer a pena porque o processo te faz feliz.


Almost Young está disponível nas diversas plataformas de streaming desde 12 de março. Podem escutá-lo em baixo.


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