segunda-feira, 7 de junho de 2021

Oxford Drama em entrevista: "Sentimos que a abordagem cómica pode de alguma forma ajudar-nos a não cair na espiral moderna"

Quando pensámos no panorama da nova música independente e nas suas diferentes geografias, a Polónia não é, seguramente, um dos lugares que nos surgem de imediato à cabeça. O estado cada vez mais decadente da democracia e as fracas políticas ambientais (33 das 50 cidades mais poluídas da Europa situam-se na Polónia) pintam um cenário preocupante e em oposição aos valores europeus, mas por trás de todas as efemérides há uma saudável geração de músicos e artistas dos mais variados quadrantes a suscitar um justo e renovado interesse no país que nos deu notáveis como Krzysztof Penderecki ou Frédéric Chopin. No campo da música independente, os Oxford Drama são uma das propostas mais entusiasmantes.


Provenientes de Breslávia, a quarta cidade mais populada da Polónia, os Oxford Drama são o projeto de Małgorzata Dryjańska e Marcin Mrówka. O seu mais recente álbum, What's The Deal With Time?, é uma amostra bem-disposta de rock descomprometido e sem pretensões que introduz o par ao formato convencional de banda pela primeira vez. Com a adição de novos membros e a incorporação de instrumentação acústica em jogo (os registos anteriores limitavam-se ao uso de voz e sintetizadores), o grupo apresenta-se mais confiante e seguro do caminho que pretende seguir. O seu novo disco, editado no último mês de março, é uma carta de amor/ódio à tecnologia e aos efeitos desta na relação interpessoal moderna. 


A propósito do seu lançamento, estivemos à conversa com Dryjańska (que se dá pelo nome de Gosia) sobre o atual panorama musical da Polónia, o amor que o par nutre pela nova música americana (e o relicário que dedicaram a Mitski) e o processo que levou à concepção de What's The Deal With Time?.



Vamos começar pelo início: qual foi o teu primeiro contacto com música? Podes contar-me um pouco sobre o teu percurso?


O meu primeiro contacto consciente com a música foi provavelmente a ouvir Backstreet Boys e Spice Girls, agindo como se soubesse perfeitamente o que eles estavam a dizer. Além disso, através de uma qualquer osmose ou algo do género, conheci muitos êxitos pop de rádio quando era criança. O Marcin às vezes fica surpreendida por eu conseguir memorizar a letra de algumas canções aleatórias dos anos 90. Mas, falando a sério, comecei a tocar piano ainda em criança quando a minha irmã queria começar a ter aulas, por isso fui um bónus para a professora de piano. Gostei da experiência, mas só alguns anos depois como adolescente é que senti que quando ouço música me sinto mais como eu próprio, portanto quis confirmar se também conseguia fazer algo musical. É um amor sem fim pela música, no meu caso. Ainda acho fascinante o que as melodias e as palavras podem fazer comigo.


Quais são as ideias por trás de What's The Deal With Time? 


What's The Deal With Time? é um álbum conceptual focado na relação de uma pessoa moderna com ela mesma e com as outras pessoas, assim como a sua relação com o mundo moderno e em constante mudança. É uma carta de amor/ódio à tecnologia e ao facto de esta ser ao mesmo tempo útil e perturbadora. Através do humor, tentámos descrever tópicos sérios de uma maneira não tão séria, visto que sentimos que, por vezes, a abordagem cómica pode de alguma forma ajudar-nos a não cair na espiral moderna.


Podes falar-me um pouco sobre como foi o processo de gravação? 


Trabalhar neste álbum levou-nos cerca de dois anos. O que é engraçado nisto é que o trabalho de composição do What's The Deal With Time? foi muito rápido, muito inspirador e enérgico. Numa questão de meses tínhamos o alinhamento completo do disco, com demos muito desenvolvidas. Todo o conceito do álbum estava lá, e depois entrámos na fase da produção e as coisas não foram assim tão perfeitas. Deixa-me dizer que a lua de mel acabou por aí [risos]. Lutámos um pouco por algum tempo. Foi fascinante assistir ao Marcin, que produziu o álbum, porque na cabeça dele ele sabia exatamente o que estava à procura, e esforçou-se imenso para trabalhar até encontrar as peças que faltavam. Mas valeu a pena. Somos totalmente doidos quando se trata de perfeccionismo, mas vencemos a batalha. E depois de quase dois meses após o lançamento do álbum não mudaríamos nada, honestamente.


O que mudou, criativa e pessoalmente, desde os anteriores álbuns In Awe e Songs?


Estamos mais velhos, isso é certo [risos]. Acho que trabalhámos muito para estar numa posição em que finalmente sabemos exatamente como transferir o que temos nas nossas cabeças para o que pode ser ouvido nas nossas músicas. Sempre quisemos que as guitarras tomassem a dianteira, mas quando começámos a tocar não tínhamos os meios [necessários], era mais fácil tocar em dupla com sintetizadores do que com instrumentos acústicos. Foi também o espírito da altura. Agora, graças aos nossos queridos amigos que tocam connosco ao vivo, começámos a escrever músicas para mais mãos, e finalmente os instrumentos acústicos são as estrelas do espetáculo. E o que mudou pessoalmente? É sempre exigente, de certo modo, trabalhar com a tua alma gémea, mas temos uma melhor comunicação com a banda e queremos ser cada vez melhores nisso. É fixe porque ambos fazemos o que é mais fácil para nós, nós meio que nos complementamos um ao outro. É um grande elogio ouvir “oh uau, vocês tiveram uma ideia que eu nunca teria pensado e é ótima!”.


Vocês tocam um tipo de música com grande expressão na América, mas não propriamente na Europa – muito menos na Polónia, suponho. O que vos fez querer seguir esse caminho? E como é que têm visto a evolução do panorama musical de Breslávia?


Tocar este tipo de música indie pop com guitarras é algo que nos sai naturalmente. Suponho que seja porque nos alimentámos de muita música americana desde que éramos adolescentes, mas não apenas americana, porque sempre houve muitas bandas britânicas, australianas ou canadianas nas nossas vidas. Escrevo letras em inglês porque é uma língua que está na minha vida desde o início, simultaneamente com o polaco. Sempre foi a minha principal língua criativa. Portanto, não é o resultado de algum cálculo que nos poderia trazer mais fãs ou dinheiro [risos], simplesmente quisemos fazer sempre o que sentimos ser verdadeiro para nós.  


Ficamos especialmente gratos por haver cada vez mais bandas a formar-se na nossa cidade, em Wroclaw, muitas delas compostas pelos nossos queridos amigos. É ótimo porque poderá surgir daqui algum tipo de cena musical e isso é extremamente excitante! Sempre quisemos que isso acontecesse, para ser honesta.


Sentem uma ligação especial com o cancioneiro independente americano? Noto uma certa associação a selos como a Saddle Creek ou a Dead Oceans.


Sim, quer dizer, o Bury Me at Makeout Creek da Mitski é um ótimo álbum e ela tem uma espécie de relicário na nossa casa [risos]. Estou a brincar, a sério! Big Thief é uma banda que também nos chamou a atenção há uns anos, Bright Eyes são uma banda que conhecemos recentemente. Amamos aquela vibe, há uma certa naturalidade e até crueza que nos agrada. Interessa-nos a música indie americana moderna, mas também a de décadas anteriores.


Os temas do vosso disco têm merecido tempo de antena em rádios como a BBC Music 6 e a KEXP, e o single "Not My Friend” até recebeu um aceno positivo do Henry Rollins [do lendário grupo punk norte-americano Black Flag]. Como têm acolhido esta calorosa receção? 


É um sonho, um sonho que se tornou realidade e ainda não conseguimos acreditar. Os nossos eus adolescentes meio que deram um high five aos nossos eus adultos.


Como vão ajustar o lançamento do disco ao contexto pandémico? Podemos esperar concertos para os próximos tempos?


Adoraríamos e temos planos para o fazer. Já tocamos dois espetáculos em rádios na Polónia com o último álbum, sem público, mas foi ótimo. Mal podemos esperar para tocar mais na Polónia e espero que possamos voltar à estrada, talvez fora do nosso país também. Dedos cruzados!



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