terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Reportagem: Covenant [Hard Club - Porto]


Falar dos Covenant é falar de uma banda com quase 30 anos de carreira. Uma banda que surgiu na génese do movimento electronic body music (vulgo EBM) e que contribuiu para a maturação da synthpop. Uma banda cuja primeira faixa que lançou se assume como uma homenagem ao Blade Runner e que, desde então, editou perto de uma centena de faixas, um período criativo que perdura até aos dias de hoje apesar da saída do seu membro fundador Clas Nachmanson em 2007. E passados 6 anos depois da última visita dos Covenant a Portugal, a MIMO decidiu, este natal, presentear-nos com o seu regresso. O encontro deu-se no passado dia 18, no Hard Club, com os Hot Pink Abuse a fazerem o aquecimento do público.


Quando os Covenant finalmente subiram a palco, encontravam-se desfalcados de um dos seus membros — Joakim Montelius faltou à chamada do ansioso público por motivos que até à data permanecem por divulgar. Porém, os remanescentes membros da banda fizeram questão que tal falta que não se fizesse sentir. E assim foi. Eskil Simonsson e os seus dotes vocais permanecem inalterados pela passagem do tempo, e, entre saltos, deambulações e outras peripécias, evidenciou ainda uma excelente forma física. Claramente a idade não afectou Eskil, apesar de nessa noite ter somado mais um ano ao seu bilhete de identidade — aparentemente o seu aniversário é no dia 18 de dezembro. Porém, roubou-lhe o cabelo. A ele e a Daniel Myer, o outro membro dos Covenant em palco, este mais concentrado na sintetização do corpo rítmico da música. Durante duas horas, ouviu-se uma selecção de temas do repertório passado dos Covenant, bem como temas do seu mais recente disco, o qual deu a mote à tour — "The Blinding Dark Tour" — a qual terminou, aliás, no Porto. 


A performance foi brilhante, sendo que o único defeito a apontar foi não ter havido dois encores, como aconteceu em muitos outros concertos que os Covenant deram por essa Europa fora. O público compreendeu o sucedido, apesar de algum desânimo (numa banda com um repertório de perto de uma centena, é certo que alguém vai sair de lá sem ouvir "aquela" música). Mas num ano tão negro como este em que muitos dos Grandes d'esta Vida desapareceram — ninguém contava com o (irónico) desaparecimento de George Michael no dia de natal — eu aprendi a apreciar as coisas de maneira diferente. Nunca se sabe quando o nosso artista favorito, o nosso boxeur favorito, a nossa pessoa favorita no mundo inteiro nos deixa, sem termos oportunidade de passarmos mais uma tarde, mais um minuto ou um segundo que seja a sorver da sua vitalidade. Obrigado à MIMO por nos continuar a proporcionar momentos únicos como este e a vós, leitores, por partilharem este espaço-tempo connosco. 


E é assim, em jeito de balanço,  que eu encerro a minha conta por este ano. A minha e a da MIMO. Porém, eles voltam já em janeiro, com a passagem por Portugal dos Principe Valiente.

Tenham um bom ano. 

Covenant + Hot Pink Abuse @ Hard Club

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segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

[Review] Cave Story - West

West // Lovers & Lollipops // outubro de 2016
6.5/10


Depois do Spider Tracks, eis que surge West, o primeiro longa-duração dos Cave Story, o trio que pediu o seu nome emprestado a um jogo de vídeo. Em West, os Cave Story procuram, à sua maneira despretensiosa e jovial que tanto me faz lembrar as primeiras expressões sonoras dos Wire (e depois os gajos envelheceram e decidiram começar a falar da pós-internet) homenagear o “Oeste”. A terra-natal do trio — Caldas da Rainha, a terra mais fálica de Portugal — situa-se no oeste do país; o rock que se produz no ocidente e a sua expressão na língua inglesa (a tal globalização/americanização); e, por último este belo e por vezes deprimente país de onde vos escrevo chamado Portugal. Nunca esquecer que Portugal é, afinal de contas, a "Europe's West Coast". Mas não vou perder tempo a falar-vos desse projeto falhado. Tampouco me adiantarei muito mais a falar-vos deste West que é, em suma, um bom disco rock. Isso, e a prova de que os Cave Story continuam a fazer o que querem, quando querem, sem agendas secundárias. Continuam a usar os instrumentos para destilar a sua angústia e raiva millenial-juvenil — os Pavement começaram assim, tirando a parte do millenial. Continuam a guiar-se pelo seu próprio compasso. West é um marco incontornável do rock nacional deste ano de 2016 e uma etapa importante no caminho dos Cave Story: é aqui que o coletivo decide se se dão contentes com o que têm, ou seu continuam a percorrer a estrada para oeste e ver onde isso os leva. 

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sexta-feira, 23 de setembro de 2016

[Review] Nothing - Tired of Tomorrow


Tired of Tomorrow // Relapse Records // maio de 2016
9.0/10

O trajecto que a Threshold tem vindo a percorrer não é omnisciente. Existem projetos de uma qualidade imensa que nos pura e simplesmente ignoramos que existem (somos, afinal de conta, humanos). Porém, existem algumas bandas que nós pura e simplesmente escolhemos ignorar. Até então, os Nothing eram uma dessas bandas. Até eles lançarem o Tired of Tomorrow, os Nothing nada significavam para nós (perdoem-nos a redundância). Talvez estejamos a ser muito duros com eles neste início de crítica.

Vamos por partes.

Durante um não muito curto período de tempo — do ano 2013 até ao meio do ano de 2015 — pareceu-nos que tanto os ouvintes como os músicos tinham redescoberto o shoegaze. Nesse período deu-se o regresso de todos os grandes: os MBV, os Slowdive, os Ride, e ainda houve espaço para um disco dos Medicine lá pelo meio. Além destes comebacks, surgiu um camião de bandas com inspirações dream pop/shoegaze: DIIV, Infinity GirlCloakroomPINKSHINYULRABLAST, Ovlov, CheatahsWildhoneyRingo Deathstarr…tudo bandas que fazem parte do fenómeno do nu gaze.


Assim como os Nothing.



Em 2014, este quarteto oriundo da parte mais merdosa de Filadélfia angariou a atenção dos media e dos ouvintes com o Guilty of Everything — o seu primeiro LP —, um disco que mistura as tonalidades emotivas e vocais do shoegaze com um compasso punk de fácil absorção. As músicas do mesmo foram escritas ao longo de um extenso período de tempo, repleto de tragédias: óbitos, consumo de drogas medicinais, copiosas quantidades de vinho tinto e os dois anos que Dominic Palermo passou atrás das grades.

Aquando da edição do Guilty of Everything, os Nothing definiam-se como “uma banda para pessoal que curte JesuGodfleshMy Bloody Valentine e Slowdive”. Essa definição transparece no álbum. O problema do disco é que esta característica é a única evidência que é transparente. Um disco que ser queria emotivo e poderoso soou-nos a pouco. Faltou emoção, poder de escrita, e contenção no barulho instrumental. 

Por isso, do Guilty of Everything ficou-nos na memória alguns refrões de dois ou 3 temas orelhudos que transpareciam a capacidade de composição musical dos Nothing. Mas aparte disso, nada mais há a destacar desse álbum. Guilty of Everything não estabeleceu nenhum novo patamar no género do nu gaze. Mas, pior que tudo, ficámos com a sensação nem sequer procurou fazê-lo, num exercício que, para nós, se revelou como um desperdício do potencial do coletiva. Se, com esse álbum, os Nothing tivessem investido tempo no estúdio e na escrita e se os astros se alinhassem, o Guilty of Everything poderia ter-lhes atribuído o estatuto de dignos herdeiros e sucessores de uma geração X agora (quase) extinta. Toda uma geração inspirada nos Killing Joke (e consequentemente nos Nirvana), nos My Bloody Valentine, nos Chapterhouse e nas narrativas cómico-trágicas dos Jesus and Mary Chain. Dessa senda, eles tornar-se-iam brilhantes intérpretes de uma fórmula que não só manifestaria uma frescura sonora dentro do revivalismo, mas ocupando o seu próprio espaço. Guilty of Everything seria um artefacto de preservação para memória futura. Um testemunho do rock alternativo dos 90's, de uma geração X quase extinta, da qual poucas bandas sobram e ainda menos souberam evoluir de forma digna para este novo milénio. 

Porém, os Nothing, na áurea luz da sua ribalta, preferiram desenvolver a sua faceta de trolls inconsequentes e niilistas auto-destrutivos. Encarnaram totalmente o papel de imbecis que não queriam saber de nada a não ser tocar música, adulterar o seu estado mental com álcool e drogas e abstraírem-se da realidade.



Os Whirr são a outra banda de Nick Bassett, o baixista dos Nothing.


Mas talvez isso seja compreensível. Já se perguntaram a vocês próprios o que fariam se toda a vossa vida estivessem envoltos na mais profunda miséria, desesperados e, de repente, alcançassem a fama e a riqueza? Sairiam do buraco em que estavam? Enterrar-se-iam mais? Começariam do zero? Começariam de todo?


"Really, it goes back to just after our first album, Guilty of Everything, came out two years ago," Palermo explains. "There was just months and months of touring piled on top of each other; there was lots of partying and avoiding any real-life stuff, and I kind of stopped dealing with reality."
Reality came rushing back on the night of May 19th, 2015, when "four or five big guys" approached Palermo following the band's gig at the Oakland Metro in Oakland, California, and asked if they could use his phone. "I know what that is, you know?" Palermo laughs. "I grew up in Kensington [a rough Philadelphia neighborhood], and I'm pretty sure we invented that move. You do it, and you're not getting your phone back!"
When Palermo refused to hand it over, the men responded by beating him up so badly that he required lengthy hospitalization. "I had a fractured orbital, a fractured skull, fractured bones in my back," he explains. "I had 19 staples in my head, and they had to sew my ear back on; I'm fucked up on all these painkillers, I'm alone because the rest of the band had to drive back to Philadelphia, and I'm just sitting there in this hospital in Oakland dealing with the reality of everything."
Entrevista de Dominic Palermo à Rolling Stone.
“The second we found out we could make money and not have to work, just drive around and play music, we forgot about everything else,” says Palermo. “We drank every day, hung out every day — flying here, driving there — pushing the envelope as much as we possibly could.” 
Then, outside a West Oakland club, after another triumphant show, it almost all ended.“When all of a sudden you’re in a hospital, in awful pain, on drugs, with tubes in you … big, swollen head like a watermelon … you learn, ‘OK, maybe you have to push back a little bit.’ 
Entrevista de Dominic Palermo ao Seattle Times. 

Durante a sua hospitalização, Palermo iniciou/foi forçado a um longo período introspectivo, movido a analgésicos e leituras de Burroughs. Essa combinação fez com que a mente de Palermo começasse a distanciar da cama a que foi confinado, da dor que sentia — tanto emocional como psicológica — e que, mais uma vez, esta se concentrasse na música e na escrita, o seu eterno escape. Foi durante esse período que começaram a ser escritas as letras de Tired of Tomorrow

À sua hospitalização, seguiu-se um período de hiato na região de Big Sur. Mais álcool, mais drogas e episódios de vertigens — lembrança eterna da malha quase fatal de que foi vítima — assombraram Palermo. Depois disso, o regresso a casa — Filadélfia — e ao estúdio, para finalmente gravar Tired of Tomorrow. Mais dificuldades: mortes na família de Palermo e Bassett; episódios de vertigens que dificultaram o trabalho de gravação de vocais; a saída da Collect e o regresso à Relapse na sequência de uma polémica em que Martin Shkreli — o money-man da Collect — se viu envolvido. Todo o período que rodeia a gravação do disco pode ser acompanhado no documentário que os Nothing publicaram.

Fotografia da autoria de Reid Haithcock.

 A história do disco é esta. Eis que vos falamos agora da música que o disco contém.

Muito do que aqui está nós já ouvimos, na verdade. As guitarras a formarem uma parede sonora com a bateria a marcar o compasso (este é, aliás, o disco mais shoegazy dos Nothing até à data) que sustenta as letras deprimentes e niilistas saídas da mente dos seus atormentados arautos. Mas uma coisa mudou: a paixão com que todas estas emoções são libertadas. 



O álbum começa logo com 3 destaques: a "Fever Queen", o tema de abertura de disco mais explosivo e emotivo que eu ouvi este ano — e em algum tempo, para vos dizer a verdade; a "The Dead Are Dumb", uma balada na qual uma onda de nostalgia me faz confundir a linha de baixo com a da faixa de abertura da icónica série Twin Peaks, esta da autoria de Angelo Badalamenti; a "Vertigo Flowers", um dos malhões do disco e o single de estreia do mesmo.



Mas depois vem a "ACD (Abcessive Compulsive Dissorder) e, a acompanhar o tema, o videoclip mais gráfico e perturbador dos Nothing até à data — mais ainda que o do "Eaten By Worms". Pensamentos suicidas convivem lado a lado com a música dos Nothing. No vídeo, estes são a banda sonora de um.



Seguem-se a "Nineteen Ninety Heaven" e a "Curse of the Sun" (faixa que já teve direito a uma interpretação audiovisual). A "Eaten By Worms" já mencionámos anteriormente e, após esta, "Everyone is Happy"? Mentira. Depois dessa faixa, mais uma balada deprimente, a "Our Plague. O álbum fecha com a "Tired of Tomorrow", uma espécie de canto de cisne de álbum, uma faixa de beleza impar, sem dúvida a mais bonita que os Nothing lançaram até à data. É quando chegamos a esta faixa que nos apercebemos que tudo neles mudou. 

Se começaram a ler a crítica a partir daqui, a gente vai ser muito direta nas palavras: os Nothing deixaram de ser APENAS aquela banda para “pessoal que curte Jesu, Godflesh, My Bloody Valentine e Slowdive”. Com Tired of Tomorrow, eles não só elevaram a fasquia do nu-gaze atual, como subiram a um novo patamar: o de bastiões do género. Os Nothing são a maçã que caiu mais perto de todas as raízes, os mais brilhantes intérpretes do género atualmente. Senão, vejam tudo aquilo que foi aqui escrito anteriormente. Senão, ouçam os violinos e o piano na "Tired of Tomorrow" e digam-me que não ouvem lá ao longe a "Glycerine" dos Bush. Ouçam as duas faixas de bónus — "The Heavenly Blue Flu" e a "Tic Tac Toe" — e digam-me que não ouvem lá o "fuzzed out guitar rock of the 90's" apregoado na press release do disco. Mas acima de tudo, façam um favor a vocês próprios: ouçam o disco. Várias vezes.

Outra fotografia da autoria de Reid Haithcock.

Nascidos na geração X ou não, todos nós encontramos em Tired of Tomorrow alguma coisa que nos apela. As paredes sonoras envolvem-nos, embalam-nos. Mas nada retira o peso das palavras, que nos deprimem, isolam e que, de alguma forma, nos aproximam uns dos outros. Todos nós somos seres atormentados, sozinhos no mundo. E este disco narra a mais bela exaltação de uma mente solitária, atormentada pelos seus pensamentos, de que tenho memória. É um discurso direto de alguém que ainda estamos para perceber se procura sair do seu estado depressivo ou busca afundar-se cada vez mais nele. "Eu teria preferido o homem feliz aos poemas amargurados que ele nos deixou", foi o que Mardou disse a Leo sobre a obra de Baudelaire n'Os Subterrâneos. Quanto mais não seja, ficamos a saber que não somos os únicos que estamos a sofrer, revoltados, conformados no nosso silêncio. (In)felizes.

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quinta-feira, 21 de julho de 2016

Pop. 1280 em Portugal


2016 é o ano em que o coletivo norte-americano de post-punk industrial visita (finalmente) o nosso país. Será em setembro que os Pop. 1280 nos irão apresentar Paradise, o seu mais recente LP. 

As datas estão na página de facebook dos Pop. 1280 bem como no site oficial da Sacred Bones.

Abaixo ficam as datas e um extrato do distópico Paradise dos Pop. 1280. Ainda não são conhecidos os preços dos bilhetes. Mais em setembro.

14 de setembro - ZDB (Lisboa)
15 de setembro - Covil da Preguiça (Leiria)
16 de setembro - Teatro Rivoli (Porto)


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terça-feira, 7 de junho de 2016

Reportagem: Tomorrows Tulips + The Sunflowers [Café au Lait - Porto]




Na passada quarta-feira, dia 25 de maio, fomos - literalmente: fomos oito elementos da redação - marcar presença nos concertos dos Tomorrows Tulips e The Sunflowers que decorreram na cave do Café Au Lait, pelas mãos da promotora vimaranense Revolve

Como é típico, no Café au Lait, os concertos não começaram a horas, mas a espera cá fora não foi em vão, afinal, falar com os membros de ambas as bandas, antes do concerto, estava a uns passos de distância em frente à porta de entrada do café. Claro que fomos todos meter uns dedos de conversa com os The Sunflowers, que toda a gente sabe que apesar da personalidade punk na música, são um duo bastante simpático, atencioso e, nunca esquecer, muito criativo na divulgação do trabalho com os fãs (chegaram a ver aquela embalagem maravilha do novo single, na banca da merch?). 




Com o relógio a marcar as dez e meia da noite, os The Sunflowers começaram a preparar palco para aquele que viria a ser o melhor concerto da noite do Café au Lait. Começou tarde mas isso não impediu à festa. 






Embora festa de uns e infortúnio de outros, (desculpem lá, mas o moche a mim não me assiste) o concerto veio recheado dos grandes hits - "I'm a Woman, I'm a Man", "Charlie Don't Surf" - e de novas músicas que farão parte do álbum de estreia, nomeadamente a nova "Hasta La Pizza/Rest in Pepperoni" e "Post Breakup Stoner". Já em modo encerramento, o concerto veria o fim com a já épica cover da "I Wanna Be Your Dog" dos The Stooges




Os Tomorrows Tulips apresentaram-se num pano de fundo apagado e exclusivamente acompanhado da projeção de Dominic Santos. Sem qualquer interação com o público, a banda, que abarca agora nova baterista, abre o concerto com "Surplus Store", retirada do álbum When(2014), fazendo uma ponte até "Casual Hopelessness" do inspirador Eternally Teenage(2011). Com uma mini pausa para beber um trago de cerveja, Alex Knost e companhia mantiveram-se calados para uma sala que esperava um concerto um pouco mais acolhedor e intimista.

Apesar de todas as canções terem soado muito diferentes da sua reprodução original em estúdio, uma das músicas que teve mais destaque foi a curtíssima "Baby", que acabou por ser tocada duas vezes. Uma bateria mais explosiva e aquela última esperança do "é agora que vão dizer oi", acabaram por desvanecer com o finalizar do concerto. Por entre os maiores êxitos, os Tomorrows Tulips não se esqueceram de "Flowers On The Wall", "Glued To You", "When", "Check Me Out" e claro, a poética e inspiradora "Free". 




Ao contrário do que aconteceu há cerca de três anos atrás, no CAAA em Guimarães, a "Misses Hash" ficou de fora da setlist e o concerto apresentou, no seu volver, uma qualidade bastante inferior. A fechar com "Favourite Episode", e alguns problemas técnicos pelo meio, os Tomorrows Tulips apresentaram no Porto uma performance que ficou muito à quem do previsto. Uma pena. 





Texto: Sónia Felizardo
Fotografia: Edu Silva

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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Reportagem: Full of Hell + the body [Cave 45 - Porto]

No passado dia 26 de Abril, teve lugar no Cave 45 mais uma das sessões que antecede o Amplifest, um festival que é cada vez mais uma referência no que toca a ilustrar o que de melhor se faz/fez no panorama do metal. Nesse serão, os Full of Hell voltaram até à cidade do Porto e fizeram-se acompanhar dos the body.

E como correu essa noite? 


Bem…primeiro subiram a palco os Full of Hell. Os norte-americanos incorporam na sua arte todas as características da santíssima trindade do grind: tocam rápido, alto e carregam na distorção. Os vocals, esses não enganam: são roubados ao death metal. E nesta digressão, trazem um novo álbum na bagagem — o Amber Mote in the Black Vault — que é exactamente igual a todos os restantes álbuns anteriores dos Full of Hell: um gajo aos berros sobre cenas angustiantes, uma instrumentação furiosa e uma sensação de profundo niilismo a acompanhar tudo isto. Tudo coisas de que nos gostamos, portanto. E, sem surpresas, devo dizer que foi um concerto do caralho. Para mim, foram melhores que no Amplifest 2015 e a porrada foi maior, sem sombra de dúvidas. Uma coisa é ver Full of Hell da plateia, outra completamente diferente é vê-los ao nosso nível, separados apenas pelas colunas que debitam a sua grotesca mensagem.



Mas os Full of Hell nós já conhecíamos O que dizer dos body?


Chip King e Lee Buford são os body, uma das maiores instituições do noise atual. Em 17 anos de carreira, eles já colaboraram com alguns dos maiores nomes do metal atual — aliás, a sua colaboração mais recente é precisamente com os Full of Hell — e somam entre EPs LPs e álbum colaborativos mais do que uma quinzena de trabalhos. Eles eram a grande surpresa da noite: primeiro, por serem uma estreia absoluta; segundo, porque as expectativas eram altas. Queríamos todos nós — os fãs — testemunhar quanta daquela energia que está presente nos trabalhos de estúdio se mantém num concerto. Qual seria a expressão dos the body sobre a pressão do cumprimento das expectativas dos fãs que estão perante deles naquele momento à espera de ficarem surdos — no mínimo dos mínimos.

A realidade ficou muito além das expectativas. 


Esqueçam qualquer comparação ou qualquer tipo de fantasia que possam conceber nas vossas mentes acerca daquilo que, de facto é, assistir um concerto dos body. Se são ignorantes ao ponto de achar que são capazes de imaginar essa experiência, o vosso cérebro está a pregar-vos uma grande partida. Em CD, os body são brilhantes. Ao vermos um vídeo deles, ficamos impressionados. Ao vivo, somos esmagados. Não só fiquei quase surdo, como também boquiaberto: the body ao vivo é uma experiência em nada igual a ouvirmos um cd deles. Somos envolvidos pelo som até ao ponto de não conseguirmos raciocinar. Uma espécie de nirvana alcançado através do ruído, um estado superior de consciência no qual não conseguimos pensar em mais nada porque, pura e simplesmente, o ruído não nos deixa pensar em nada. Mas o ruído dos body não é uma massa amorfa. São címbalos gigantes, a voz desesperada do Chip e a sua guitarra que ora toca notas claras, ora é transfigurada pelos seus moduladores sonoros.

Ao fecho desta redacção saiu nos media a notícia da próxima Amplifest Session, na qual vão atuar Mark Kozelek com o seu projeto Sun Kil Moon, Sumac e Mamiffer, estes dois últimos em estreia absoluta em Portugal. Por esta noite que aqui se relatou, por essa que se adivinha grandiosa e por muitas outras que entretanto já passaram, ficam as memórias e o desejo de mais uma vez agradecer à Amplificasom por continuar a proporcionar-nos noites como estas. Noites dedicadas aos fãs de música por oposição ao mercantilismo dos espetáculos musicais baseados em tabelas. 

Deixo-vos apenas, em jeito de despedida, uma pergunta:

Para quando os Thou?

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quinta-feira, 5 de maio de 2016

[Review] MADA TREKU - Learning Exercises on How to Move On


Learning Exercises on How to Move On || Favela Discos || Abril de 2016
7.5/10

MADA TREKU é o heterónimo de Nuno Loureiro, um jovem realizador e produtor audiovisual portuense, e Learning Exercises on How to Move On é o disco que este lançou via Favela Discos, marcando a sua estreia nas edições musicais. Na génese de Learning Exercises on How to Move On, reside o desejo de traduzir uma obra audiovisual em expressão puramente sonora, havendo a clara “intenção de interpretar a personagem principal de Milennium Mambo”. 
"Taipei. A voice off-camera looks back ten years to 2000, when Vicky was in an on-again off-again relationship with Hao-Hao. She's young, lovely, and aimless. He's a slacker. Cigarettes and alcohol fuel her nights. We see bits of her life: when Hao-Hao steals his father's Rolex and the police detain them; when she gets a job as a club hostess, where she meets Jack, who becomes her patron and protector; when Hao-Hao comes to the club, insisting on talking to her; when she visits Yubari, Japan, for its film festival in the dead of winter; when Jack must go to Japan to straighten out trouble caused by one of his acolytes. Does Vicky have any expectations? Does time simply pass"?
Sinopse do Millenium Mambo roubada ao IMDB.
Eu não vi o filme inteiro, mas vi-o meio na diagonal via youtube e li algumas críticas e sinopses. Não posso afirmar, portanto, que Learning Exercises on How to Move On me evoque memórias do Millenium Mambo. Em mais do que um sentido, este disco soa-me ao Palmbonen II, o disco que Palmbonen compôs após passar o verão inteiro a consumir copiosas quantidades de episódios de X-Files. Creio que o Nuno tem em mente a mesma ideia que Palmbonen tinha ao editar Palmbonen II: homenagear a obra audiovisual e o seu realizador — Millenium Mambo e Hou Hsiao-Hsien — incluindo o seu nome lado-a-lado do seu neste trabalho, como forma de agradecimento pelas horas em que este o entreteu e inspirou. 


E, de facto, aqui não há nenhum pastiche. Uma obra dissocia-se da outra e tem a sua própria expressão individual. A atmosfera sonora pesada e sombria de Learning Exercises on How to Move On — em particular nas faixas “Eye Candy” e a “Dawn” — evoca-me o Dark Red, o disco que Shlohmo compôs para através dele exorcizar os seus demónios interiores. Se pensarmos que este Learning Exercises on How to Move On surge a partir da película Millenium Mambo, não é de todo descabido pensarmos em estabelecer paralelos — ambos remetem para universos de perda e auto-destruição, um deles no mundo real e o outro no mundo da ficção. E se interpretarmos o universo ficcional presente no núcleo de Learning Exercises on How to Move On, encontramos em “Qishu” — a faixa na qual reside o coração do álbum — o momento mais dançável de todo o disco, com uma percussão bastante vincada, aproximada ao universo da tech house e provavelmente inspirada nas cenas de clubbing de Millenium Mambo


Still de Millenium Mambo.

Learning Exercises on How to Move On assume-se, antes de mais nada, como um trabalho ansioso.
À primeira vista, Learning Exercises on How to Move On assume uma forma confusa e abjecta, visto que conjuga díspares influências e gêneros musicais. E nós, enquanto massa crítica, podemos escolher acreditar que Learning Exercises on How to Move On é um trabalho que vive no vácuo, sem ligação com o futuro de MADA TREKU e que deve portanto ser analisado como tal. E, se assim for, pouco foi concretizado e resta-nos apenas afirmar que o Nuno é um grande produtor de sonoridades e que andou a beber inspiração de todas as fontes corretas. Porém, eu recuso-me a classificar este álbum dessa maneira. Learning Exercises on How to Move On denuncia um espirito criativo que transcende a natureza deste EP.

Eu sei que o Nuno tem mais para nos oferecer, e quero acreditar que este EP é um apalpar do terreno, uma etapa necessária para MADA TREKU atingir a sua matura forma de expressão. Quero acreditar que MADA TREKU tem muito mais para dizer e que a ansiedade que esteve por detrás deste Learning Exercises on How to Move On é a característica que denuncia o nervosismo do Nuno aquando da edição do seu primeiro EP. O que dizer? Como dizer? O que incluir e o que deixar de fora? Preocupações normais de um perfeccionista. E a destemida atitude de ainda assim editar este EP revela o cariz experimental da obra e a vontade do Nuno de desafiar o status quo e produzir alguma coisa. E nesse sentido, eu acredito que Learning Exercises on How to Move On é um estudo, um conjunto de exercícios de aprendizagem para se chegar a um estado de maturação. E sendo assim, nenhuma desta ansiedade me afecta nem tampouco elimina a minha ânsia para ouvir mais. Os estudos querem-se assim: destemidos. Não se pode deixar nada de fora nos rascunhos. 




Aguardo ansiosamente por um estudo final, por um disco que me revele a forma final de MADA TREKU. Porque nesta instância, o projeto carece de maturação. Maturação não em termos de destreza — o Nuno é claramente um produtor sonoro competente, capaz de construir cenários sonoros — mas sim em termos da sua mensagem — o que, de facto, MADA TREKU quer dizer e o lugar que pretende ocupar. 
Até lá, julguem por você próprios o trabalho do Nuno, já que ele disponibilizou o Learning Exercises on How to Move On de forma gratuira via soundcloud

A minha curiosidade ele já a angariou, mas eis que chego ao final da minha decima audição do EP e não receio dizer que ele angariou a minha atenção.

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segunda-feira, 4 de abril de 2016

Cinco Discos, Cinco Críticas #14

Consistency Of Energy // self-released // janeiro de 2016
8.0/10

Nos últimos anos, e como habitual, a Suécia tem-se destacado como um país de onde saem várias bandas interessantes no ramo do punk e subgéneros. Desta vez a banda em destaque são os Viagra Boys que trazem um punk rock hipntotizante em Consistency Of Energy. A banda,  que conta com membros das bandas Pig Eyes e Le Big Bird, num total de sete elementos, apresenta neste curta duração quatro músicas com grooves de techno distorcidos misturados no ritmo punk e guitarras eletrizantes. A primeira música do álbum "Research Chemicals" é igualmente a primeira a chamar a atenção pela distorção da guitarra que começa em harmonia e foca-se, posteriormente, pela sua desvirtuação. Esta fórmula vai sendo usada mais ou menos ao longo das audições de Consistency of Energy só que através de conjugações de instrumentos completamente díspares (Há dois bateristas e um saxofonista). De mencionar ainda "Liquids" pelo ambiente bahausiano que transmite. Este EP tem potencial, pelo menos ao vivo deverá ter.

Sónia Felizardo


Mantra Happening // Transfusão Noise Records // março de 2016
8.7/10

O brasileiro Lê Almeida, fundador da editora Transfusão Noise Records, lançou o seu terceiro registo neste mês de março, sob o nome de Mantra Happening. Este álbum teve direito a edição em K7 e CD, estando também disponível para download gratuito no Bandcamp, aqui. O artista de 29 anos, natural do Rio de Janeiro, lança aqui o sucessor de Paraleloplamos um ano depois, gravado directamente em K7 e ao vivo no seu escritório, com “muito improviso e libertação espiritual”, como dito por Lê Almeida à Noisey. O álbum começa com ‘Oração de Noite Cheia’, uma malha longa com 15 minutos, que agrada ao ouvido desde principio com um riff cativante, o que no fundo acaba por ser a marca de Lê Almeida, mas desta vez com uma sonoridade mais cheia e espacial, que perdura pelo decorrer da música. O resto do álbum segue com este registo, uma predominância de malhas longas com a sonoridade já referida, como ‘Maré’ e ‘Hoje eu não volto sozinho’, onde a voz acompanha a melodia numa união quase perfeita. Em ‘Enamorandius’ e ‘Creme Sunshine’ podemos ouvir os riffs característicos do artista brasileiro, em loop, mas sem aborrecer, o que é um feito incrível quando existem músicas desta duração num álbum. Ao todo, Lê Almeida não se desviou muito da sua sonoridade anterior, já em Paraleloplasmos tinha experimentado a sua habilidade em fazer músicas longas, como ‘Fuck The New School’, transpondo essa habilidade para Mantra Happening numa gravação lo-fi cheia de delay e fuzz, o que resultou muito bem neste álbum.

                                                                                                                            Tiago Farinha



TRUTH // Ya Ya Yeah/ Raging Planet // março de 2016
7.1/10

Asimov são Carlos Ferreira e João Arsénio, duo de Heavy Psych oriundo do Cacém que se formou em 2011. Neste mês de março editaram o seu terceiro álbum de originais, TRUTH, composto por sete temas, via Ya Ya Yeah / Raging Planet. O álbum começa com “Nothing In Return”, malha de 9 minutos que espelha bem a sonoridade stoner que caracteriza este duo. Segue-se “The Second Floor”, num registo mais acústico, muito ao género de Filho da Mãe. Em “Major’s Ship” e “Don’t Leave Me Demon”, Asimov regressam à sonoridade mais habitual influenciada por bandas como Hawkwind, Pentagram ou 10 000 Russos. O grande destaque deste novo trabalho vai mesmo para “Even Tame Tigers Bite Their Masters”, música que nos agarra logo de início com a sua batida ritmada e com os seus riffs contagiantes. TRUTH é tudo o que podemos esperar de um duo de Heavy Psych. Riffs ruidosos e pesados, embebidos em reverb, solos de guitarra engenhosos, a voz “agressiva” e a bateria em sintonia com a guitarra. Apesar de ser um bom esforço da banda, não se trata de um álbum inovador dentro do género.

Rui Gameiro


theres still us EP // self-released // janeiro de 2016
7.0/10
 
Swell. é um produtor musical de Melbourne que regressou aos discos com theres still us EP, sucessor do longa duração think about the flowers In the backyard de 2015. Este EP é uma excelente demonstração do talento deste músico mesmo tendo apenas 10 minutos de duração. O primeiro e segundo tema, na sua essência, são bastante semelhantes com uma composição muito boa e lembrando (ainda que vagamente), por exemplo, Battles na sua forma de progressão. Depois de uma pobre transição, as duas faixas seguintes centram-se em samples de Shiloh Dynasty e de Peter Collins, sendo quase remixes não oficiais bastante dançáveis. O álbum acaba com “then the world stopped moving and we were stuck were we wanted to be, certamente o tema mais interessante, não só pelo seu título mas também pelo facto de se destacar por completo dos temas anteriores. Enquanto todo o álbum convidava e até pedia alguma dança este não, este (tal como o nome indica) exige calma, repouso, como se tudo à nossa volta parasse…finalmente estamos onde queríamos estar.

Francisco Lobo de Ávila


Mirror EP // Rocket Recordings // fevereiro de 2016
7.5/10

Já se dissertou um pouco nesta Grande Casa sobre o que de facto constituí música experimental/exploratória. E se há uma conclusão que podemos tirar do estudo da música exploratória é que esta é , em última instância, verdadeiramente inclassificável. Se imaginarmos que a música exploratória é um círculo, podemos a partir das suas curvas deduzir várias tangentes, mas nunca precisar exactamente quanto mede o seu núcleo. Este é instável. Ora expande, ora se contrai. Assim é, também, com os GNOD, enquanto instituição maior da música exploratória atual. Se em Infinity Machines, o já de si vasto terreno do kraut se expandiu até aos limites do espaço sideral — característica particularmente notória na “Infinity Machines” — em Mirror essa sensação foi trocada quase pela claustrofobia. Em Mirror, não há estrelas, horizontes e muito menos um infinito no qual nos podemos dar ao luxo de derivar. Em Mirror, não há sequer ar para respirar: somos nós e o ruído. Um ignorante dir-vos-ia que os GNOD deixaram cair a sua máscara do kraut e decidiram apagar do disco externo a discografia dos Can e esquecer as tangentes que os Lumerians fazem com o género ao misturarem alguma violência, drone e noise ao vazio do space  (outra lição que foi bem estudada para a execução do Infinity Machines) e concentraram todas as suas forças em fazer um EP  lo-fi gravado enquanto estavam a ouvir o Filth e o In the Flat Fields
Um ignorante dir-vos-ia isto, se vos omitisse, no final, que essa banda eram os GNOD
Sinceramente, estavam à espera do que? Mais do mesmo? 

Por definição, a música exploratória explora novos conceitos — uma coisa cada vez mais rara hoje em dia — e novas abordagens a géneros instituídos. E os GNOD serão talvez os mais intrépidos de um género que se quer volátil e, acima de tudo, imprevisível. E sabem que mais? Os gajos conseguiram mais uma vez surpreender.

Edu Silva 

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