segunda-feira, 27 de abril de 2020

Birds Are Indie colecionam memórias em Migrations - The travel diaries #1

© Francisca Moreira
O trio de Coimbra Birds Are Indie reservou o ano de 2020 para revisitar os seus 10 anos de histórias e memórias. 10 anos é muito tempo, principalmente para uma banda que começou sem (se) dar conta. Foram acumulando diversas viagens, umas físicas e outras sonoras e com a dificuldade de estar muito tempo no mesmo lugar, foram migrando entre conforto e desprendimento, atravessando latitudes bem conhecidas e meridianos algo esquecidos.

O seu ninho foi construído em forma de bedroom pop, com a folk pelo meio, numa postura DIY minimalista, própria dos primeiros voos, tal como aconteceu com Belle and Sebastian, Yo La Tengo, Moldy Peaches ou Juan Wauters. Com o tempo, as asas da sua pop foram crescendo e aproximaram-se do rock que lhes foi ensinado por nomes como Lou Reed, Dean Wareham, Black Francis e Stephen Malkmus.

De modo a manter alguma normalidade e alegria no nosso quotidiano durante estes tempos de incerteza e confinamente, os Birds Are Indie juntaram-se à Lux Records para assinalar esta data tão respeitável, resultando dessa união o lançamento de Migrations - The travel diaries #1. Este foi o primeiro de dois volumes distintos, o #1 em CD (editado a 17 de Abril) e o #2 em vinyl (este a ser editado em 2021). Ambos os formatos contarão com a revisita de 5 canções da sua discografia anterior, reinterpretadas e regravadas. Mas como a música lhes parece surgir naturalmente, haverá também lugar para mais 10 faixas novas, estando 5 delas no CD e outras 5 no vinyl.


Com mistura e masterização de João Rui no estúdio conimbricense Blue House, todas as faixas tiveram a participação no baixo e algumas teclas do convidado especial Jorri (a Jigsaw), que também colaborou na gravação. Liderar esse processo, como habitualmente, ficou a cargo de um elemento da banda, Henrique Toscano, e o mesmo aconteceu com o artwork e o design, feitos pela mão da Joana Corker.

Em Migrations está muito presente a ideia de ida e regresso, seja porque o disco vagueia entre diferentes períodos na vida musical e pessoal de Ricardo Jerónimo, Joana Corker e Henrique Toscano, seja porque o mote para as letras que o compõem é a sua própria inquietude, ora desamparada, ora desafiante. No fundo, quem vive entre o aqui e o ali, prefere é estar além, como a mestria de Variações tão bem sintetizou.



“Instead of watching telly” é uma canção originalmente incluída, em 2012, no há muito esgotado álbum de estreia dos Birds Are Indie, How music fits our silence, e foi uma das escolhidas para ser regravada, com novos arranjos, fazendo agora parte de Migrations - The travel diaries.

Migrations - The travel diaries #1 está disponível na íntegra no Bandcamp da banda para audição gratuita.




Podem consultar em baixo as datas da tour dos Birds Are Indie que, se tudo correr pelo melhor, se irá realizar principalmente em setembro e outubro, entre Portugal e Espanha.

11 SET/ Festival Xiria Pop, Carballo
25 SET/ Teatro da Cerca de São Bernardo, Coimbra
7 OUT/ Costello, Madrid
8 OUT/ Asklepios, Valladolid
9 OUT/ Sala Creedence, Zaragoza
10 OUT/ Llimac Elèctric, Lleida
16 OUT/ Avenida, Aveiro
4 DEZ/ Casa da Música, Porto

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domingo, 6 de maio de 2018

Birds Are Indie em entrevista: "A nossa postura descontraída reflete-se nas músicas"

Bruno Pires ©

Os conimbricences Birds Are Indie são Joana Corker, Ricardo Jerónimo e Henrique Toscano e em 2018 regressaram com um novo álbum. Gravado nos Blues House Studios,  Local Affairs chegou às lojas no passado dia 20 de abril com o selo da também conimbricense Lux Records. Em baixo podem ler a nossa conversa com a banda e João "Jorri" Silva (a Jigsaw, The Parkinsons), que aconteceu numa tarde bem quente de abril na cidade de Lisboa.

Do vosso ponto de vista, perspetivas e ideologias, quem são os Birds Are Indie?

Ricardo - Somos 3 pessoas com a liberdade mais próxima possível dos pássaros. Tentamos enquanto músicos ter a máxima liberdade que os passarocos lá em cima têm.

Henrique - E viver uma vida decente, tranquila, ser amigo do meu amigo.

Joana - Ser honesto, trabalhador (risos).

Que sentimentos é que acham que a vossa música desperta? Neste último disco as músicas são simples e alegres, indicadas para uma altura de primavera e verão.

Ricardo - Acho que desde início a nossa postura descontraída se reflete nas músicas. Não necessariamente divertida, no sentido de sermos demasiado galhofeiros ou de esperarmos que o objetivo da nossa música seja as pessoas divertirem-se.

Henrique - Há letras negras.

Ricardo - Há coisas que até estão disfarçadas. Às vezes há ali um agridoce meio termo com um aparente divertimento, mas com uma certa ironia que tem sempre aquele outro lado. A descontração está sempre presente, seja ao vivo, seja na maneira como tentamos fazer as coisas naturalmente. Esperamos que a reação das pessoas seja descontraída, aberta, a relacionarem-se connosco depois dos concertos, durante os concertos, nas redes sociais, nas entrevistas, em todos os sítios. Gostamos desta postura de proximidade.

Há alguma temática existente em Local Affairs?

Joana - Quando começamos a delinear o álbum não tínhamos nenhum conceito.

Henrique - Não foi uma coisa pensada de raiz para ser assim. Acabou por ser assim.

Às vezes, ao terem uma ideia, ela vai sofrendo mutações à medida que vão gravando

Ricardo - No fundo foi um conjunto de circunstâncias que deram origem a este disco. Nós fomos percebendo que o Local Affairs era o resultado dessas circunstâncias e só dessas, daí acharmos adequado dar-lhe esse nome. No fundo, para sintetizar a comunidade na qual nos fomos inserindo em Coimbra, a maneira como fomos acolhidos pela Lux Records e pela Blue House, para gravar e para editar. A maneira descontraída e franca dos outros músicos que quiserem colaborar conosco, neste caso o Jorri no disco, outros músicos noutras coisas ao vivo que já fizemos com eles e eles conosco. O nome do disco reflete tudo isso, vem do nome de uma música, a qual é também sobre esse ambiente que se vive ali por Coimbra nestes dias.

Foi o vosso primeiro álbum na Lux Records, certo?

Joana - Sim

Mais recente notamos que as editoras ditas pequenas são um bom mercado. Como sou de Leiria, noto isso mais pela Omnichord Records. Por exemplo, a Lux Records tem vindo a editar alguns álbuns mas parece-me que mais recentemente que está a ganhar um novo fôlego.

Henrique - Foi o Rui Pereira que abriu a loja, Lucky Lux. Antes era mais um hobby e agora começou a dedicar-se a tempo inteiro.

E acham que dá para fazer vida disso?

Ricardo - Isso ele lá saberá.

Joana - Também foi um bocado como nós. Tínhamos as nossas profissões e entramos nisto também como um hobby que foi crescendo e que ocupa agora uma boa parcela da nossa atividade profissional. Acho que isso também aconteceu com o Rui.

Ricardo - A Lux já tem um histórico de anos 90, edições de bandas históricas de Coimbra e não só. Acho que o facto de ter coincidido com o período de início das vendas digitais em que os discos começaram a ser desvalorizados enquanto objecto e produto, levou a que as edições tenham abrandado um pouco. Agora com a ligação à Blue House essa energia está muito forte. As bandas que lá gravam acabam por editar quase todas na Lux, ou as bandas que o Rui quer editar na Lux coloca-as na Blue House a gravar. As coisas alimentam-se umas às outras.
Agora que os discos e os vinis começaram a ganhar novamente um fôlego, talvez as editoras estejam a querer apostar novamente nesses formatos. Depois associado aos discos tens os concertos. Tens muitas bandas portuguesas que vão fazendo algumas tours internacionais, mesmo as mais pequenas. É um mercado que se começa a revitalizar.

Na minha opinião, sinto que Coimbra estava a ficar um bocado para trás. Temos cidades como Lisboa, Porto, Braga e Barcelos na vanguarda musical. Leiria surgiu há pouco tempo. Coimbra, que sempre foi a cidade da tradição, sinto que a nível de oferta de concertos não há tanto destaque do que se passa na cidade. Sentem que isso agora pode mudar?

Ricardo - Eu acho que sim. Não só estas estruturas das quais estamos próximos, mas também ao nível de concertos em Coimbra nos últimos anos. Tens o Salão Brazil, algumas estruturas só ligadas ao teatro, como o Teatro da Cerca, São Bernardo, o Teatrão. Essas estruturas começaram a acolher concertos nos seus espaços, coisa que não acontecia muito.

Joana - Se olhares bem para a agenda atual de Coimbra praticamente tens concertos todas as semanas. A oferta até está a atingir um ponto de saturação. Podes ter um dia com quatro concertos ao mesmo tempo na cidade e tens de escolher. Nesse nível de concertos e atividade cultural, Coimbra está muito forte. Agora se Coimbra divulga essa atividade para outras cidades, isso provavelmente não está a ser bem gerido.

Ricardo - Agora até o Salão Brazil abrandou um pouco. Ao início eram quase todos os dias da semana. Para não ser um excesso, reduziram para 3/4 concertos por semana. Quinta, sexta e sábado com algumas excepções aqui e ali.

Joana - Há uns tempos atrás não havia muitos sítios para concertos nem muitas exposições. Agora já há.

Henrique - Sítios havia, a vontade é que era pouca. A única coisa que há agora nova é o Convento de São Francisco.

Joana - Uma coisa que eu sinto e que acho que ainda está um bocado preso são novas pessoas a entrar no panorama musical em Coimbra.

Ricardo - Faltam miúdos. Em Leiria isso nota-se. Os miúdos desde a escola que são incentivados.

Joana - Em Coimbra é só a malta da nossa geração e de gerações um bocado mais velhas. Ainda continuam a ser as mesmas pessoas de há 20 anos atrás a trabalhar nesta atividade. Noto que não há uma grande regeneração.

Ricardo - Há uma ou outra banda ou projeto de malta mais nova. Se calhar ainda têm de fazer o seu percurso até começarem a terem um reconhecimento um pouco mais abrangente.

Joana - O problema de Coimbra, como é uma cidade universitária e a oferta de emprego também não é muito grande nessa idade, as pessoas não se fixam. Não há esse espaço temporal de estudar na universidade, criar uma banda e começar a trabalhar nisso. Muda-se logo de cidade.

Ricardo - Coimbra tem esse lado positivo e negativo, ao mesmo tempo. É uma rotativa.

Joana - Muita gente da nossa geração, quando foi a crise saiu da cidade e não voltou.

Henrique - E do país também.

Joana - Portanto houve aí um generation gap que dificultou o surgimento de novas bandas.

Ricardo - Nós imaginámos alguma vez que sete anos depois de começarmos que íamos ter Victor Torpedo, Kaló, Tracy Vandal, Jorri, Zé Rebola, Pedro Chau, Tony Fortuna a tocar conosco. Era impossível. Nem era o sentimento de nós sermos demasiado pequeninos e eles serem demasiado grandes, não era só isso. Isso não acontecia, não havia esses cruzamentos há 7 anos atrás em Coimbra. Um dos grandes responsáveis está aqui (Jorri).

Jorri - Eu mais do que tu sei o que é isso. Cheguei a Coimbra de fora e comecei a ter uma banda dois anos depois de estar cá. Ainda apanhei a cena de Coimbra instalada, o tropical, os rockabillies. Cheguei a Coimbra em 97 e ainda estavam os Tédio Boys e todas as bandas que surgiram a seguir. Aquilo era super fechado.

Ricardo - Eram os Wraygun e os Bunnyranch.

Jorri - No primeiro disco eu tenho o Kaló e a Raquel Ralha a tocarem mais muita gente de Coimbra mas, mesmo assim, chegar até eles era sempre algo imprevisível. Ficávamos sempre na dúvida se iam mesmo aparecer. Não houve contacto a seguir a este disco porque nós éramos uns miúdos e isto era mesmo assim, apesar de não haver tanta diferença de idades.

Ricardo - Era assim que as coisas se faziam, não era por mal. O ambiente era esse.

Jorri - Hoje em dia eu toco com os Parkinsons, uma banda que eu ia ver. E tenho o Victor e o Calhau a tocarem comigo.

Há muito maior abertura. 

Jorri - E porquê? Porque a certa altura há pontos onde se cruzam.

Joana - As pessoas estão mais velhas.

Jerónimo - Se calhar já não há tanto aquilo do "É assim como eu quero e não vou comprometer a minha cena". As pessoas estão mais abertas para se deixarem influenciar, ajudarem outros.

Jorri - Há sempre um orgulho grande em fazeres coisas com bandas que estão teoricamente num nível mais inferior. A questão é haver alguém que um dia quebra essa ligação. Para nós, com os Parkinson, o quebrar dessa ligação foi a Tracy. É mais porque é uma pessoa que vem de fora e foi a primeira que começou constantemente a colaborar connosco. A Tracy trouxe o Victor atrás. É difícil assumires: Eu de repente vou tocar numa banda que está a começar quando eu estava nos Tédio Boys ou nos Parkinsons. É perfeitamente normal.

Jerónimo - O Victor também sempre foi dos mais ecléticos, em termos musicais.  Isso também ajuda a sair um bocado da casca. Há outra malta mais do rock, um bocadinho mais fechada musicalmente.

Jorri - A minha ideia com a cena da Blue House sempre foi pensar em algo que é muito mais do que um estúdio. É um sítio onde as pessoas se podem encontrar. Provavelmente nestes dois anos, todas as pessoas que foram ali cruzaram-se mais vezes e passaram a ter outro tipo de relação com todos estes músicos. Quebraram-se essas barreiras todos. É preciso quebrar preconceitos e não ter problemas de os músicos colaborarem e pedirem ajuda. Mesmo com o pessoal que está a começar, com a idade que tiverem, eu digo-lhe para não terem problemas nenhuns em pedir ajuda para o que seja, seja para alguém tocar, coisas técnicas, conselhos. Numa cidade tão pequena não faz sentido haver tanta distância.


Bruno Pires ©
Até é bom, porque passam a ser conhecidos e tens os contatos certos. Isso é o primeiro passo. 

Jorri - Foi isso que fez Leiria, na cena do movimento da Omnichord. Quebraram a ligação de bandas já com muitos anos. O Hugo Ferreira tem aí a vantagem de não ser músico, por isso entra na cena quase como um gestor, que apresenta as pessoas aos técnicos, promotoras, entre outros. Isso é importante.

Joana - Também foi um bocado o timing. Eles começaram a montar esta estrutura numa altura em que começou a haver muito consumo de bandas portuguesas.

Jerónimo - Há uns anos atrás era impossível fazer festivais inteiros só com bandas portuguesas. Antigamente metia-se uma banda portuguesa no festival, assim ao início, só por favor.

Jorri - Eu acho que também não é só isso. O primeiro disco dos a Jigsaw surgiu numa altura em que apareceu a quinta feira dos portugueses, onde realmente começou a cena do cantar em português. Um corte brutal com as banda que cantavam em inglês. Por isso é que Blind Zero e Silence 4 desapareceram. Literalmente, quase de repente, houve um ódio para com as bandas que cantavam em inglês.

Jerónimo - A cena de Coimbra e de Leiria é tudo em inglês, se não me engano.

Joana - Eu acho que ainda há um olhar de lado para quem canta em inglês.

Jorri - Quando estava a gravar o primeiro disco com a Jigsaw em 2005 foi quando rebentou a cena indie acústica. De repente era cool ouvir songwritters. Foi quando apareceu também Old Jerusalem e de repente tens um gajo sozinho com acústica a cantar inglês a entrar no circuito. A seguir a isso apareceram muitas coisas acústicas. Sean Riley and the Slowriders também em Coimbra.
Ajuda muito ter uma estrutura. Se Leiria tivesse esta estrutura profissional há 15 anos atrás com os The Allstar Project, com a forte repercussão internacional que tinham, não a tocarem mas com a sua visibilidade, se calhar tinhas uns The Allstar Project a fazer tours mundiais.

Jerónimo - Naquela altura o pós-rock estava fortíssimo, início dos anos 2000.

Jorri - Eles tiverem reviews e edições no mundo quase inteiro.

Jerónimo - Editavam pela Constellation.

Jorri - A minha estrutura profissional de concertos ao vivo era toda de Leiria. Era tudo o que andava com o David Fonseca, com os Silence 4. De repente havia ali uma estrutura de roadies profissionais, técnicos profissionais que tinham essas bandas âncora, uma cena que em Coimbra não tinhas. Quando tinhas uns Wraygun ou os Belle Chase Hotel em Coimbra a estrutura era dali. Hoje em dia não tens assim uma banda de nível médio.

Jerónimo - Depois o JP Simões mudou-se para Lisboa, assim como o Furtado e o Afonso Rodrigues. Essas são as três bandas que até já foram grandes estando em Coimbra mas depois mudaram-se e rebentaram em Lisboa.

Jorri - Falando de Leiria, é mesmo importante haver uma estrutura, depois a banda começa a crescer e estrutura também cresce. E isso Coimbra não tem. Houve uma altura em que quis ter uma estrutura toda de Coimbra, dava-me imenso jeito em termos de logística e era completamente impossível.

Falando do processo de composição, sentem que foi evoluindo ou gostam de fazer as coisas daquela maneira, para se sentirem mais confortáveis?

Henrique - Neste caso foi um bocadinho diferente. O Jerónimo comprou uma guitarra elétrica. A sala de ensaios já tinha PA. Tínhamos microfones pela primeira vez.

Ricardo - Permitia-nos fazer mais barulho e experimentar à vontade.

Henrique - Amplificadores potentes.

Joana - Foi também por causa disso que o nosso som começou a ser um bocado mais forte.

Sim, nota-se que é mais rock. 

Joana - O processo de criação e desenvolvimento das músicas já vem assim de raiz. A grande diferença entre este álbum e os anteriores foi essa. Foi essa fase de nos metermos na sala de ensaios e desenvolvermos as músicas com um poder sonoro completamente diferente do que estares numa sala sem PA e pedir ao Henrique: baixa isso que não oiço a minha voz (risos).

Ricardo - Ali estamos à vontade nesse sentido. O espaço físico também interferiu.



Falando do vosso single "Come Into the Water". Seria uma boa banda sonora para o dia de hoje. Como é que vos surgiu a ideia do vídeo?

(Risos)

Ricardo - O vídeo, por mais veraneante que possa ser a música e o espírito do vídeo, foi gravado no dia mais frio do ano, estavam -1ºC em Coimbra. Felizmente até nos mexíamos mais ou menos no vídeo. A ideia foi essa, de brincar com a ideia de praia indoor, fazer um contraste. Nós gostamos desses contrastes a vários níveis, na banda e na música. No fundo, foi transportar um espírito divertido e colorido para dentro de um espaço. Qualquer sítio pode ser uma praia se a nossa imaginação trabalhar com força.

Até o trabalho?

Ricardo - Depende, podes ir trabalhar para uma praia.

Joana - Eu antes trabalhava na Figueira da Foz e à hora de almoço ia sempre para a praia (risos). Não de uma forma muito alegre, ia de forma mais deprimida, olhar para o mar, pensar o que é que estava ali a fazer.

Ricardo - Há aquela coisa de que o Natal é quando o homem quiser. Neste caso, a praia é onde o homem quiser. Nós escolhemos a Casa da Esquina, falando em espaços culturais de Coimbra. Abriram-nos as portas para fazermos lá o vídeo.

Têm alguma música favorita no disco?

Ricardo - Eu não consigo escolher uma música que goste mais, nem que goste menos.

Joana - Eu por acaso tenho uma favorita, a "Messing with your mind". É aquela que me põe assim a dançar, coisa que é algo diferente. A nossa música geralmente não é dançável e esta aqui eu imagino-me a dançá-la.

Ricardo - Para mim, a "Come into the water" e a "Big fun in Galicia" são mais pop, mais saltitantes, divertidas, que vêm um bocado do nosso espírito de trás. Tens músicas mais rock, com a tal bateria, e pujança, a "Messing with your mind", a "Get in" e a "I never wanted that". Outras que são assim um bocadinho mais negras e triste, tipo a "Endless summer days" ou a "Across the Woods of How", também gosto delas por serem assim. A "Local affairs" é um bocado mais minimalista, e eu gosto muito desse tipo de música minimalistas.

Joana - Este álbum é um bocadinho mais variado a esse nível do que os anteriores. Temos um pouco de tudo.

Ricardo - Nos outros também havia um pouco de tudo.

Joana - Sim, mas este aqui está um pouco mais demarcado.

Henrique - É como ter filhos. Nenhum filho é igual ao outro mas gostamos deles na mesma (risos).

Vocês tiveram agora em março em Espanha. Têm alguma história engraçada para contar? 

Ricardo - Sou péssimo com essas coisas de escolher uma história. Nunca me lembro na altura certa.

Joana - Esta mini tour que fizemos agora em Espanha foi um bocado estranha a nível de tempo. Apanhámos desde sol, chuva, neve, trovoada, vento, granizo.

Henrique - Eu tenho uma história gira. Em Santander eu queria ir a uma loja de discos que já conhecia por termos tocado lá uma vez. Ficava a 1,5km do hotel e lá fui eu. Entretanto começou a cair granizo e eu sem guarda chuva, sem nada. Quando já ia a mais de meio caminho mandei um tralho valente, fiquei cheio de sangue na orelha. Cheguei à loja, comprei os discos e voltei para o hotel. Consegui ainda acabar a tour.

Joana - A nossa história mais engraçada foi a primeira vez que fomos à Galiza. Demos uma volta pela costa com o tipo que nos recebeu e ele disse-nos que o tempo estava fixe para ir à praia. Há praias muito bonitas lá na Galiza. Isto foi em junho e nós estupidamente não levamos fato de banho.

Ricardo - Não sabíamos, íamos só fazer um concerto e voltar para trás. Nem sequer nos ocorreu ir à praia. Nunca tínhamos ido à Galiza, não fazíamos ideia que aquilo era tão bonito.

Joana - Então essa pessoa aconselhou-nos a ir a uma praia de nudismo (risos).

Ricardo - Fomos lá no dia seguinte e na altura éramos só os dois. Depois ainda voltámos lá com o Henrique. Então pronto, fizemos nudismo lá numa praia meio deserta e já lá voltamos para fazer nudismo. É de facto uma experiência interessante. No fundo acaba por ser um bocado uma metáfora das mudanças que nós fomos passando. Fazer das dificuldades ou imprevistos uma coisa positiva. Isso acontece-nos às vezes noutra coisas relacionadas com a banda ou com concertos. Nesse caso foi com uma nova experiência porque nos esquecemos de levar o fato de banho.

Joana - Agora já sabemos que é sempre obrigatório levar fato de banho (risos).

Também ocupam pouco espaço.

Ricardo - Houve uma vez que ficámos em Santiago de Compostela, aí até fomos os quatro no concerto. Ficámos em casa de um amigo nosso galego que já conhecíamos por lá termos tocado 4 vezes. Ele já era tão nosso amigo que teve essa amabilidade de nos oferecer a casa. Percebemos mais tarde que a casa dele tinha piscina. Levámos fato de banho e estivemos lá descansados. No meio de carregar coisas, apanhar chuva e deitar às 3 da manhã e depois acordar às 8, também há assim momentos prazerosos.

Além do concerto que vão dar agora em Lisboa, no Teatro do Bairro, onde é que as pessoas vos vão poder ver nos próximos tempos?

Henrique - Na internet (risos).

Ricardo - Amanhã em Évora e sexta é aqui em Lisboa. Em Abril ainda temos em Cem Soldos, no festival Por Estas Bandas. Vamos atuar numa espécie de palco Coimbra, conosco e a Raquel Ralha e o Pedro Renato. Depois a noite termina com DJ set do Rui Ferreira, responsável da Lux. Para nós té um grande prazer voltar a Cem Soldos, ainda para mais integrados nesta temática. Depois, em Maio temos Aveiro, no GrETUA a 17 de maio, Porto, no dia seguinte, no Maus Hábitos, e a 25 de maio, em Guimarães, na Green Week. Em junho vamos até Ílhavo no dia 10, num showcase e radio show na Rádio Faneca e a 23 regressamos a casa para tocarmos no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra. E vamos ter muitos mais durante o verão pois já estão a ser coisas marcadas em Vila Real, Ponte de Lima, Ovar. Vamos também até Barcelona em Julho, num festival independente.

Eu vi-vos no Bons Sons, em 2012 na igreja.

Joana - Ai meu Deus...(risos)

Ricardo - Recordamos esse concerto com um misto de sorriso pela surpresa da recepção das pessoas mas temos a ideia que tocámos muito tão mal. As pessoas receberam-nos tão bem. Tivemos uma igreja de 300 pessoas em apoteose a aplaudir.

Joana - Eu acho que as pessoas estavam a fugir do calor, é a única explicação (risos).

Ricardo - Talvez a alucinação provocada por demasiada exposição solar, as pessoas a viram-nos ali atrás do altar, acho que houve ali click qualquer.

Joana - Acho que nunca estive tão nervosa. Estava a tremer por todo o lado.

Ricardo - As pessoas acharam tanta piada a nós estarmos tão inseguros, que se calhar quiserem expor ainda mais o seu agrado. Foi de facto um concerto memorável para nós.

Henrique - Nunca tivemos o azar de ninguém nos mandar tomates podres (risos).

Que discos é que andam a ouvir nas últimas semanas? 

Ricardo - Comprámos recentes dois discos na Lucky Lux, uma loja de Coimbra do responsável da Lux Records. De um inglês e de uma editora americana que nós gostamos, Trouble in Mind. Tinham uma banda chamada Ultimate Painting, que entretanto acabaram. Um dos ex-membros tem um projeto a solo, o Jack Cooper, e comprámos esse disco, Sandgrown. O outro é o album homónimo de Olden Yolk, uma cena folk psicadélico dos 60s, muito S. Francisco.

Joana - Outra banda da Trouble in Mind que gosto muito e lançaram um disco há pouco e está muito bom são os Omni.

Ricardo - Essa editora ultimamente tem apostado num indie rock um bocado lo-fi.

Jorri - Eu só ouço discos de trabalho. Ouvi o disco de uma banda que se chama Birds Are Indie (risos). Ouvi as músicas, ensaiei e aprendi-as. Fiz isso também com o disco dos The Parkinsons.

Ricardo - Tu ouvias as nossas para descansares um bocadinho das dos The Parkinsons. Quando já te estavam a doer os ouvidos, metias uma coisa mais calminha (risos). Um bom equilíbrio.

Henrique - Comprei na Lucky Lux o último homónimo dos Ghost Hunts, que foi agora editado pela Lux Records em vinil. Comprei também um dos Millions e  o novo de Shame, Songs of Praise.

Têm alguma mensagem final para os leitores desta entrevista?

Henrique - Visitem Coimbra, a loja Lucky Lux, tem muitos discos bons.

Joana - A baixa de Coimbra precisa de pessoas.

Ricardo - Se tiverem uma banda e queiram gravar o vosso disco vão à Blue House. Com alguma sorte está lá o Rui Ferreira e ele edita-vos o disco, já aconteceu. Venham aos nossos concertos ou a outros concertos. Não vão só a festivais que são muito engraçados. Alimentem o circuito semanal da vossa cidade, de concertos de clube e de sala pequenas, que para mim são os concertos que fazem mais, na minha opinião pessoal. Cada um gosta do que gosta.

Henrique - Limitem o uso de telemóvel nos concertos. Filmem só um bocadinho.

Ricardo - Estás a ser muito ditador.

Henrique - Um boomeranguezinho chega.

Joana - Sejam felizes.

Henrique - Deixem a droga, o tabaco e o álcool (risos).


Entrevista por: Rui Gameiro

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terça-feira, 6 de março de 2018

Birds Are Indie e os seus "Local Affairs" de abril


Os conimbricences Birds Are Indie estão de regresso em 2018 com um novo álbum e "Come into the water" é o primeiro avanço desse trabalho. Local Affairs foi gravado nos Blues House Studios e chega às lojas a 20 de abril com o selo da Lux Records.

"Come into the water" é uma música veraneante que surge nos dias mais chuvosos e frios do ano mas, mesmo assim, não nos impede de querer dar um megulho. O vídeo, filmado por Bruno Pires, em Coimbra, acompanha esta ideia de contraste e transporta Joana Corker, Ricardo Jerónimo e Henrique Toscano, para um cenário de praia, mas dentro de casa. Este tema conta com a participação especial na guitarra-baixo de João "Jorri" Silva (a Jigsaw, The Parkinsons).


Confiram em baixo as primeiras datas da tour de apresentação de Local Affairs.

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quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Reportagem: Bons Sons 2016 [Cem Soldos, Tomar]


Nos passados dias 12, 13, 14 e 15 de agosto fomos até Cem Soldos, Tomar, onde se realizou a sétima edição do Bons Sons. O festival que em 2016 celebrou o seu 10º aniversário contou com grandes nomes da música portuguesa como Keep Razors Sharp, White Haus, Sensible Soccers, Best Youth. Saibam como correu a festa na Aldeia mais cultural e acolhedora de Portugal.

11 de agosto

O Festival começou com uma enorme agitação no parque de campismo, com centenas de pessoas a tentar, simultaneamente, montar as suas tendas. À noite, quando a poeira já tinha assentado e os campistas já tinham jantado, Quem és tu Laura Santos? abriu o festival num palco montado junto à saída do campismo. O DJ fez toda a gente presente dançar e saltar, levando até a um “comboio” com mais de 50 pessoas. O espetáculo ajudou a firmar o ambiente pelo qual o festival é conhecido. Se, há 20 minutos atrás o público só tinha desconhecidos, agora já consiste de vários novos amigos, que dançam ao som de hits pop dos anos 70 e 80, sendo eles portugueses, franceses ou ingleses.

Após o final do espetáculo, explorou-se a aldeia e tentou-se dormir, ato que se viu dificultado com a quantidade de instrumentos musicais a ser tocados pelo parque de campismo.

12 de agosto

Os concertos (para nós) começaram no Palco MPAGDP (Igreja), onde João e a Sombra, o projeto músical do ator e músico João Tempera, apresentava o seu novo álbum Outra Coisa Qualquer. O concerto foi agradável, embora achemos que tenha sido mais forte no início, tendo perdido um pouco a nossa adesão nas últimas músicas.

Um pouco depois, abrindo o Palco Giacometti (Coreto) estavam as irmãs Pega Monstro, que deram um dos concertos mais explosivos e barulhentos do festival. Tocaram grande parte do álbum que considerámos o melhor álbum nacional do ano passado, Alfarroba. O que mais impressionou neste concerto foi a entrega das irmãs, que nem por um segundo pareceram pensar noutra coisa senão a sua música, tocando-a com uma enorme violência, obrigando o público a render-se.


Mais ao final da tarde, Birds are Indie, trio de Coimbra, deram um dos concertos mais agradáveis de todo o festival. O grupo não se limitou a apresentar o seu novo álbum, tocando temas de todos os seus registos e até covers. A verdadeira magia aconteceu enquanto as músicas eram tocadas, num daqueles momentos em que parece que todas as estrelas se alinham, a temperatura estava agradável, o sol já não bate tão fortemente e a banda cantava e tocava as suas músicas suavemente. Instaurou-se um ambiente em que toda a gente se sentia bem e se divertia, especialmente durante os maiores hits da banda, em que boa parte do público sabia a letra (pelo menos o refrão) e a cantava com o trio.


À noite, ouvimos Best Youth a abrir o palco Eira, começando a marcar o registo positivo que este palco teve ao longo dos quatro dias, tendo dado casa a alguns dos melhores concertos deste festival. O concerto do duo Portuense foi algo diferente do que já tinha visto no resto do dia. Enquanto que o concerto anterior foi íntimo, este passou a outro nível, em que toda a cumplicidade do duo em palco se transferiu para o público, que não parou de dançar ao som do indie pop sensual que vinha do palco.



13 de agosto

Começamos o dia com Grutera no palco Giacometti. O guitarrista oriundo da Nazaré, sendo apenas acompanhado por uma violinista e um dos guitarristas dos Indignu [lat.] (em algumas música), deu a todo o público presente uma experiência quase surreal, embora só estivesse uma guitarra acústica em palco. Podia-se jurar que estava uma orquestra inteira a tocar para nós. No final do concerto, o guitarrista afirmou que este tinha sido o seu concerto de “despedida” e que se ia afastar dos palcos por agora.


A tarde continuou com Few Fingers, no Palco Tarde ao Sol. O duo fortemente inspirado pelo indie/folk foi acompanhado em palco por membros dos Nice Weather For Ducks, Les Crazy Coconuts e da banda que acompanha David Fonseca, formando assim um quinteto. O concerto em si foi algo mais “leve”, em comparação ao anterior, não deixando assim de agradar o público, captando a nossa atenção até ao fim. A banda tocou músicas de todo o seu repertório, com especial atenção ao seu novo álbum Burning Hands.


Logo de seguida regressámos ao Giacometti para assistir ao concerto dos Lavoisier. Munidos apenas duma guitarra elétrica e da voz, levaram o público de volta às nossas raízes enquanto portugueses, cantando temas da música popular portuguesa e algumas adaptações de poemas, de autores como Fernando Pessoa, por exemplo. O concerto foi muito teátrico, com danças e usos poucos comuns da voz.

A começar a noite, Cristina Branco cantou o seu fado, num dos concertos que, infelizmente, teve a menor adesão do público de todos os que assistimos durante o festival. Toda a sua banda tocou excepcionalmente bem, e mesmo a voz não ficou atrás. Apenas foi um pouco mais recolhida do público que o resto das bandas do festival, e talvez por isso, também o público não tenha aderido tão bem ao seu concerto.

Em seguida corremos até ao Palco Eira para assistir a Da Chick. A cantora trouxe até Cem Soldos o funk old-school americano, obrigando toda a gente a dançar. Não tendo medo de responder a insultos do público, a Chick acordou a aldeia depois do concerto mais calmo de Cristina Branco e obrigou toda a gente a fazer barulho e saltar de um lado para outro, enquanto cantava com toda a sua alma os seus temas.


Fechando a noite, os Deolinda atuaram no palco Lopes Graça. A banda que dispensa introduções foi possivelmente a que puxou mais pelo público, tendo posto toda a gente a cantar durante 5 minutos seguidos. O concerto destacou-se também pela enorme presença em palco de Ana Bacalhau, que sempre com grande alegria, dançava e puxava pelo público melhor que ninguém. Sempre em altas, este foi um dos concertos mais divertidos de todo o festival.

14 de agosto

O dia começa com Madalena Palmeirim, no palco MPAGDP. A cantautora faz-se acompanhar por uma guitarra, bateria e um violino enquanto toca no seu piano (ou ukelele), temas dentro do espectro do indie/folk. Utilizando este concerto para começar a apresentar inéditos do seu futuro álbum, Madalena e a sua banda apresentaram um concerto bastante sólido, pecando apenas por não ter nenhum momento que chamasse mais à atenção do público.

Após uma curta pausa para explorar o que a aldeia tinha a oferecer, sentamo-nos junto ao Giacometti para assistir ao concerto de Dear Telephone. O quarteto inspirado pela sonoridade do rock alternativo mais pesado e pelo shoegaze, tocou na aldeia o seu primeiro concerto de 2016, vindo fresquinhos do estúdio com vários inéditos para apresentar. Não se ficando por aí, o grupo tocou músicas de todos os seus registos num concerto repleto de enormes solos.

Ao início da noite Keep Razors Sharp, arrasaram o palco Eira num concerto que só pode ser explicado como uma explosão sonora. O quarteto composto por elementos de várias bandas (Sean Riley & The Slowriders, The Poppers, entre outras) tocaram temas inspirados pelo shoegaze e pelo neo-psicadelismo. Arrebatando todas as espetativas deram o único concerto do festival onde conseguimos observar crowdsurf. Dando um concerto super energético, ninguém conseguiu ficar indiferente ao barulho que vinha do palco.

SETLIST KEEP RAZORS SHARP
5 Miles
Groove
9th
Brian
By The Sea
Intro
Cold Feet
Lioness
See Yr Face
Sure Thing
Kylie
África


Servindo como um momento para descansar, Carminho tocou no palco Lopes-Graça, desta vez para um público mais amigável do que o que se apresentou à outra fadista que atuou no festival. Apresentando um concerto muito agradável, ficamos com pena de não conseguirmos ouvir do início ao fim o seu concerto.


Saindo de Carminho, partimos para o palco Garagem, onde tocava para um público com cerca de 20 pessoas um duo de um guitarrista e um vocalista (visitantes do festival) que re-imaginavam vários clássicos, como “Knocking on Heaven’s Door”. Não se acanhando, deram-nos uma das maiores surpresas do festival.

Depois do concerto, corremos para o Eira para tentar ainda apanhar White Haus. Embora tenhamos chegado atrasados, o concerto foi extremamente agradável, dando uma continuação às danças já iniciadas em Da Chick, havendo mesmo várias rodas de gente a dançar. O quarteto liderado por João Vieira (X-Wife) deu outro dos concertos mais divertidos do festival, fechando em grande o palco Eira pela noite.



15 de agosto

Como já era costume, o dia começou no palco MPAGDP, desta vez ao som de Diego Armés. O antigo vocalista e guitarrista dos Feromona e atualmente dos Chibazqui, deu na igreja um grande concerto apenas usando uma guitarra acústica e a sua voz. O concerto foi muito agradável, tendo sido repleto de inéditos e de várias ocasiões onde Diego se reinventou a si mesmo, tocando temas escritos por ele, quando ainda se encontrava nos Feromonas.

Logo após o concerto de Diego, a igreja encheu-se de gente, tendo até pessoas sentadas no chão. Flak, mais conhecido como o mega guitarrista dos Rádio Macau. Deu um concerto de outro mundo, transformando a igreja no palco principal do festival. Especialmente no encore, onde não havia ninguém sentado dentro da igreja, estando todos a gritar as letras dos clássicos dos Rádio Macau. O guitarrista tocou em cima do seu amplificador, andou aos saltos em cima do palco e trabalhou o público de uma maneira extremamente cativante, não deixando ninguém indiferente. Sem dúvida um dos pontos altos do festival.

Abrindo o palco Giacometti pela última vez neste festival estiveram as irmãs Falcão, melhor conhecidas como Golden Slumbers. O concerto começou duma forma semelhante a todos os concertos no Giacometti, o público sentado no chão a ouvir a música e a cantar, mas rapidamente inverteram essa situação, pois nem 5 minutos depois grande parte das pessoas presentes já estavam em pé a ajudar a cantar os refrões de todos os temas inspirados pelo folk das irmãs. Com toda a gente a cantar e a dançar, tivemos então mais um grande concerto no palco Giacometti, num dia que desde o início prometia grandes coisas.

Para nós a maior surpesa do festival revelou-se no concerto seguinte: Desbundixie. A banda de jazz (fortemente inspirada pelo movimento do Dixieland, mais facilmente caracterizado pelos temas oriundos de Nova Orleães nos anos 20 do século passado), fechou o palco Tarde ao Sol, num concerto tão cheio que até se viam pessoas a dançar no andar de cima da igreja. O conjunto de sete elementos deu um concerto fantástico, tocando clássicos como “Royal Garden Blues” e “All of Me”. Ninguém parou de dançar, havendo até dois casais seguidores da banda que deslumbraram todo o público com os seus passos de dança no meio da multidão.

Após Desbundixie sentimos que precisávamos de descansar, por isso descemos ao Auditório, onde infelizmente não conseguimos assistir a nenhum concerto. Dor acentuada pela quantidade de vezes que passamos por Joana Sá neste quarto dia, mas aproveitamos para assistir a algumas Curtas em Flagrante, projeto onde são mostradas algumas curtas realizadas independentemente, por criadores lusófonos.

Já jantados, fomos assistir a Les Crazy Coconuts, que se preparavam para obrigar o público a dançar ao ritmo do sapateado do trio. De origem leiriense, este grupo deu um concerto que foi desde os ritmos mais simples do rock até alguns de dança um pouco mais complexos. Nunca tirando o pé do acelerador, o concerto fez toda a gente saltar de um lado para o outro até ser (infelizmente) hora de acabar.

Embora tenhamos ficado tristes por Les Crazy Coconuts ter terminado, não foi durante muito tempo, visto que em seguida veio o concerto de Jorge Palma. O músico de renome, atualmente faz-se acompanhar por um grupo de jovens e cremos que isto seja pelo melhor. Parece que deram uma nova energia ao músico e origem a uma maior dinâmica em palco. O concerto começou com alguns clássicos, seguidos de dois temas a solo no piano, que serviram para mostrar que mesmo com 66 anos o músico não está perto de parar, continuando tão genial como há 20 anos. O concerto continuou sempre animado e culminou num encore onde o artista fez o público gritar do fundo dos seus pulmões ao som de “Jeremias o Fora-da-Lei”, “A Gente Vai Continuar” e “Picado Pelas Abelhas”.

SETLIST JORGE PALMA
O Fim
Dormia Tão Sossegada
Eternamente Tu
Cara D’Anjo Mau
Quarteto da Corda
Dá-me Lume
Escuridão
Estrela Do Mar
Terra dos Sonhos
Frágil
Deixa-me Rir
Encosta-te a Mim
Portugal, Portugal
Jeremias, o Fora-da-Lei
A Gente Vai Continuar
Picado Pelas Abelhas

Fechando os palcos principais do festival, os D’Alva trouxeram a sua boa disposição habitual à aldeia, obrigando todo o público a fazer barulho e a cantar os parabéns. Embora não tenha sido um dos nossos concertos favoritos do festival, reconhecemos o seu mérito e aplaudimos a energia do grupo em palco, que conseguiram fazer todo o público rir e saltar, enquanto a banda mostrava o seu amor pelo pop.

Chegamos ao festival sem saber muito bem o que esperar, mas em retrospetiva, podemos dizer que era tudo o que poderíamos pedir e mais.

Sem dúvida que este festival tem um ambiente muito especial, mágico de experienciar durante os 4 / 5 dias que durou. Toda a gente tinha sorrisos na cara, ninguém resmungava, sempre prontos a ajudar os outros. Tal como diz o slogan do festival, parecia que estávamos mesmo a viver a aldeia e não apenas a visitá-la.

Além da qualidade do ambiente, os concertos em si também foram, no geral, geniais. Finalmente, queremos também agradecer à organização do festival que nos recebeu de maneira excelente e sempre dispostos a ajudar.


Fotos dia 12 de agosto

Bons Sons '16 (1º dia)

Fotos dia 13 de agosto

Bons Sons '16 (2º dia)

Fotos dia 14 de agosto

Bons Sons '16 (3º dia)

Texto: Bernardo Sequeira
Fotografia: Rafaela Suzano

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