quinta-feira, 10 de outubro de 2019

[Review] Danny Brown - uknowhatimsayin

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uknowhatimsayin | Warp Records/Fool's Gold Records | outubro de 2019 
8.3/10 

Instalando-se desde o início da sua carreira como uma personalidade audaciosa e com humor a rodos, e tendo evoluído da cena underground até ao panorama mainstream atual do hip-hop, o artista de Detroit Danny Brown dispensa apresentações. Contando com tiros certeiros na sua discografia como o colossal XXX ou o sufocante Atrocity Exhibition, o rapper de 38 anos tem-se cimentado cada vez mais como um espalha-brasas desmesurado e sem igual, ao mesmo tempo que demonstra uma adaptabilidade invejável a beats com estilos sonoros e disposições díspares a cada disco lançado. É seguro dizer que essa tendência se mantém intacta neste seu sexto álbum de originais, uknowhatimsayin, que conta com onze faixas no seu todo. 

Na cadeira de produtor executivo, Danny Brown conta sobretudo com o auxílio do histórico membro dos A Tribe Called Quest e histórico fabricante de beats Q-Tip, que é dono de um cunho sonoro de cânones mais soulful, enquadrando-o num panorama mais boom-bap, mas ainda assim com uma dose controlada de texturas leftfield pelo caminho, e que serve de veículo para a quantidade imensurável de bravado expressada pela voz caracteristicamente anasalada de Brown ao longo deste disco. Para além de Q-Tip, o rapper conta com o auxílio de mais alquimistas de som, como o colaborador de longa data Paul White, o mestre em aventuras alucinantes sonoras Flying Lotus, e um dos valores emergentes do hip-hop em recente memória, JPEGMAFIA

Quanto às faixas em si, preparem-se porque os temas vulgares tão característicos do homem estão, como sempre, em força, vindo, por exemplo, de vivências carnais que ele teve ao longo da vida, amalgamados com a anteriormente referida basófia, descrita em versos como “I ignore a whore like an email from LinkedIn” (“Savage Beast”) “I eat so many shrimp I got iodine poison” e “Got a foursome with four fours and I called it a twelve/One was chubby, one was ugly, wack as hell” (“Belly of the Beast”), entre muitos outros exemplos. Todavia, neste disco também há imenso espaço para outras temáticas de cariz mais sério, como referências a duras realidades outrora vividas de perto nas ruas, nomeadamente em “Combat” (“It’s the life that we chose, friends become foes/Nobody to trust, that’s the way life goes”) e “Change Up” (“Every other day, always some shit/I'm the underdog but I'm never over it”), mas também lembra o ouvinte de que se tem que persistir face às dificuldades que a vida traz, como no tema-título “uknowhatimsayin” (“My guy, just hol' your composure/And when you're down, it gets cold, I know, ah”) e no single “Best Life” (“'Cause ain't no next life, so now I'm tryna live my best life/I'm livin' my best life”). 



Como não podia deixar de ser, o delivery sempre polivalente de Danny Brown torna a jornada vivida e cativante do início ao fim, e o mesmo se pode dizer dos feats convidados que trazem o seu cunho inerente. Como resultado, tornam-se uma mais-valia à experiência do álbum no geral, como a participação de Blood Orange em “Shine”, que quase torna a faixa em algo saído de um álbum dos Brockhampton, ou o brand mais próprio de ostentação dos Run the Jewels demonstrado em todo o seu esplendor, casado com os beats versáteis de JPEGMAFIA, em “3 Tearz”. E falando em JPEGMAFIA, ele dá o ar da sua graça enquanto convidado de honra no refrão do assertivo “Negro Spiritual” produzido pelo alucinante Flying Lotus. Por fim, os vocais roucos do artista afrobeat Obongjayer são aquele remate inesperado, mas certeiro às faixas "uknowhatimsayin" e "Belly of the Beast".

Seguramente, uknowhatimsayin é no fim de contas um registo digno do progresso alucinante que Danny Brown tem tido ao longo desta sua aventura. Pode-se talvez argumentar que o revamp sonoro aqui tomado a cargo empalidece um bocado em comparação com diligências criativas anteriores como Atrocity Exhibition, mas todavia tem o seu próprio charme irreplicável, além de que compensa bastante com uma inesperada leveza que bate mais certo com o delivery desenfreado do Danny Brown, para não falar dos feats convidados a fazerem parte da jornada. Expectavelmente, uma coisa é certa, sendo essa de que este álbum tem já o lugar cimentado na lista dos melhores do hip-hop feito este ano.

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segunda-feira, 19 de junho de 2017

Reportagem: NOS Primavera Sound 2017 - 7 e 8 de junho [Parque da Cidade, Porto]

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As portas do recinto abrem-se e os festivaleiros correm para as filas para trocarem os bilhetes pelas pulseiras e entrarem no Parque da Cidade do Porto. Procuram-se os melhores lugares possíveis na relva para verem os seus concertos preferidos ou, pelo menos, para colecionarem o máximo possível de brindes oferecidos.

Mesmo após já ter adquirido a reputação de ser um dos maiores festivais nacionais, o NOS Primavera Sound tem várias particularidades que o separa o de todos os outros. Em primeiro lugar, podemos referenciar que, apesar do estatuto e da fama que possui, consegue manter um cartaz relevante, com apostas inovadoras, de qualidade e com bandas que, mesmo não sendo o dito mainstream, conseguem chamar um número incrível de pessoas.

Não é só o cartaz que o difere dos outros festivais, também a audiência que o compõe é provavelmente a que varia mais em termos de grupos etários. Tão depressa observamos hippies urbanos a correr para o “Palco. (ponto)” para desfrutarem de uma banda recente que descobriram no canal de Youtube do Anthony Fantano, como é o exemplo dos Death Grips ou os King Gizzard and the Lizard Wizard, como quarentões com um igual sorriso, que caminham na direção oposta para desfrutarem de bandas que ouviam na sua adolescência e que hoje em dia é consideradas de culto, como é o caso de Teenage Fanclub ou de The Make Up.


Outro pormenor que reparo enquanto derreto ao sol e desespero pela fila que não desenvolve, é o olhar maravilhado que os festivaleiros de Lisboa tem pela bela cidade que é o Porto. Muda-se o paradigma de que o pessoal do Norte é que precisa de se deslocar para Lisboa se quer ver concertos, para retirar os lisboetas da sua zona de conforto e desafiá-los a uma aventura numa cidade diferente.

Entretanto no meio desta deambulação uma rapariga do balcão chama-me e pergunta-me o que é que estou ali a fazer. Identifico-me e digo que venho por parte da Threshold Magazine, “venho fazer uma reportagem”, ela entrega-me a pulseira e eu não lhe peço o número porque estava com pressa de ver o Samuel Úria

Mas antes de começarmos a dissertar sobre o que se passou no Parque da Cidade nos dias 8, 9 e 10 de junho, fica aqui um pequeno resumo do que se passou na Invicta no dia 7 de junho. 


7 de junho

Pelo quarto ano seguido, o NOS Primavera Sound estendeu-se ao centro do Porto, tomando de assalto espaços míticos da cidade como o Hard Club, Maus Hábitos, Café Au Lait, Plano B, Passos Manuel e Galeria, dando as boas-vindas a todos o que se deslocaram para assistir à sexta edição do festival. Nós estivemos presentes em algumas das salas de espétaculos e assistimos às atuações de Jessy Lanza e dos Mueran Humanos. Saímos de lá já bem "quentinhos" para o que aí vinha e ainda vimos Richard D. James em pessoa, a lenda da eletrónica que responde pelo nome de Aphex Twin

Jessy Lanza



Jessy Lanza pôs o Hard Club a dançar com o seu R&B alternativo eletrónico marcado por sons de baixo fortes e composições minimalistas. Músicas como “It Means I Love You” e “Never Enough” foram algumas das mais envolventes e cativantes, devido aos seus instrumentais atmosféricos com ritmos dançáveis, que contrastam com a muito boa voz de Jessy. A meio do concerto pode-se ter sentido, em certas canções, alguma repetição, mas a verdade é que foi tudo bem interpretado e nenhuma música conseguiu impedir o público de sair da sala satisfeito.
Rui Santos


Mueran Humanos



Tendo integrado o cartaz do festival no ano passado e actuado a uma hora que pouco ou nada os favoreceu (meio da tarde), os Mueran Humanos regressaram ao Porto a uma hora na qual a música deles é mais aconselhada. A sala do Maus Hábitos estava completamente preparada para o concerto desta banda cujo sonoridade flutua entre darkwave e o industrial. Do início ao fim do concerto a banda argentina sediada em Berlim pôs todos a dançar com, na sua maioria, temas do disco Miseress de 2015 mas também um ou dois novos temas. Depois de cerca de uma hora de concerto, Carmen Burguess e Tomás Nochteff abandonaram o palco para regressar num encore com "Un Lugar Ideal". Ainda que o concerto de 2016 tenha sido uma enorme surpresa para os presentes, o deste ano foi quase incomparável em termos de qualidade tendo este reunido todos os elementos necessários à favorização da sua música.
Francisco Lobo de Ávila



8 de junho

Samuel Úria



O primeiro concerto do festival ficou encarregue a um dos mais influentes músicos da nova geração portuguesa, Samuel Úria. No público era notável ainda aquele ambiente de embasbacamento típico de alguém mais preocupado em reencontrar velhas amizades e por a conversa em dia, beber umas cervejas ou procurar um lugar confortável no relvado para poder apreciar os concertos durante o resto do dia.

Samuel de tudo fez para evitar que o seu concerto fosse apenas uma nota de rodapé e ficasse apenas conhecido “por ter sido o primeiro concerto da edição 2017”. Por isso, puxou das melhores músicas da sua discografia, passeando pelos êxitos do seu mais recente disco, Carga de Ombro, obrigando alguns membros da audiência a trautearam não só a música que partilha o nome do álbum mas também temas como “Dou-me Corda” ou “Repressão”. Houve também oportunidade para revisitar algumas canções mais antigas como “Lenço Enxuto” ou “Teimoso”, e ainda uma versão (a roçar o desconfortável) de uma cover dos Nirvana, da música "Molly’s Lips" dos The Vaselines, interpretada em português e com o título de “Os Lábios da Amália”.


Cigarettes After Sex



O concerto que se seguiu foi altamente criticado pelo horário que lhe foi atribuído. A banda do Texas, conhecida pela sua imagem misteriosa e pelos seus concertos envoltos em fumo de modo a que a audiência não consiga ver a banda, foi colocada a tocar ao final da tarde perante os olhares de todos.

Apesar de a imagem de marca da banda ter saído algo furada, houve muitos olhos a lacrimejar e corações tocados pela atuação, que se inclinou não só para os dois primeiros EPs, mas ainda pelas músicas do álbum de estreia que editado no passado dia 9 de junho.

Na sua grande maioria o som esteve sempre no ponto certo para reproduzir o trabalho em estúdio da banda, contudo quando o vocalista e guitarrista, Greg Gonzalez, ligava o pedal de distorção, o som da guitarra tornava-se excessivamente pesado e cortava um pouco o ambiente intimista.


Miguel



Um dos concertos mais polarizantes do festival. Se a mistura de hip-hop com glam metal foi recebida com o nariz torcido por muitos que consideraram a sua música demasiado cheesy, outros receberam de braços abertos a energia e o sorriso gigantesco do vocalista que nem por um segundo esteve estático em cima de palco. Miguel foi o artista mais feliz em cima de qualquer palco montado no Porto neste dia.

A banda apresentava o mesmo comportamento genuíno que o seu vocalista e interpretava as músicas de forma competente, com uma batida ritmada que deixava todos os corpos em movimento e um guitarrista que ouviu demasiado Bon Jovi e Motley Crue e procura executar os solos da maneira mais orgásmica possível. 

Pode não ter sido o melhor ou o mais desafiante concerto da edição mas certamente foi um dos mais divertidos.


Arab Strap



Com a difícil tarefa de substituir Grandaddy, a organização do festival optou por trazer uma banda que nada tem a ver com os anteriores mencionados. Entram em cena os escoceses Arab Strap, que após terem acabado pela segunda vez em 2011, voltaram a juntar-se novamente no ano passado e andam a dar concertos desde então.

Estes foram recebidos no Palco Super Bock Super Rock com uma receção calorosa de festivaleiros curiosos para perceberem o que se ia passar naquele palco. O sotaque escocês carregado, as guitarradas indie saídas dos anos 90 misturadas uma dose saudável e atual de eletrónica não deixou baixar os ânimos dos fãs que dançavam freneticamente ao som destes homens que apesar da sua influência na musica alternativa escocesa nunca viram a fama verdadeiramente chegar ao seu colo.

Contudo enquanto o concerto se aproximava do final a maior parte dos festivaleiros com pulseira à volta do pulso já só tinham Run the Jewels na cabeça.


Run the Jewels


  
O regresso ao palco NOS é marcado pela presença de duas mãos enormes em cima de palco a imitar o famoso gesto fist and gun que simboliza a banda e está presente em todas as capas de álbuns do duo.

O duo norte americano conseguiu assim um upgrade, sendo que a última vez que estiveram neste festival em 2014, atuaram no Palco. (antigamente, Palco ATP) e agora sobem para o principal. Merecida evolução notada pela legião de fãs que enchem a colina do Parque da Cidade até se perder a vista. Depois da triunfal entrada acompanhada pela icónica "We Are The Champions" dos Queen, segue-se "Talk to Me", do mais recente álbum do conjunto, Run the Jewels 3, e a fasquia do concerto apenas seria baixada quando os dois homens abandonassem o palco.

Para quem tem dúvidas de como o hip-hop tem vindo a adquirir cada vez mais influência na cena musical contemporânea, este palco mostrou como milhares de pessoas deliram com este género e o sentem na pele. Durante a totalidade do concerto pôde-se observar moches, crowdsurfs, cantorias. O público estava incansável e os Run the Jewels decidiram parabenizá-los com uma das melhores performances do festival.


Entre as músicas, Killer Mike e El-P aproveitavam para mandar umas piadas para animar o ambiente e criar mais intimidade com os fãs. Contudo, houve também momentos para discursos mais sérios em que o duo elogiou a atitude de camaradagem do público, ao ajudar um jovem que tinha caído no crowdsurf, avisando-o também para não assediar as raparigas que se aventuravam neste modo de celebração festivaleira.

No final do concerto houve um encore onde o duo teve oportunidade de revisitar a musica homónima que partilha nome com o primeiro álbum e o conjunto, levando o público aos últimos moches e crowdsurfs da noite. Esta despedida foi dolorosa para alguns fãs que confessam ter presenciados um dos melhores concertos da edição, mas a noite ainda estava longe de ter acabado.


Flying Lotus




Flying Lotus apresentou um set repleto de beats e de visuais elaborados. Diferentes animações carregadas de formas abstratas e efeitos espetaculares foram projetadas ao longo da sua performance. No entanto, todo este aparato visual não foi o suficiente para manter o set interessante. Apesar de produzir álbuns de grande qualidade, FlyLo não impressionou ao vivo.

Os beats soaram repetitivos e não beneficiaram de uma mistura tão bem equilibrada como em estúdio. Se isto terá sido influenciado pelas colunas ou pelas alterações feitas por Steven Ellison, não sabemos, mas a verdade é que apenas os visuais  nos cativaram a atenção. Entre as músicas que integraram a setlist estiveram “Do the Astral Plane”, uma das mais dançáveis e viciantes, que infelizmente foi um pouco arruinada pelo som e pelos comentários de FlyLo no microfone, e “Never Catch Me”, a última e provavelmente melhor música do concerto, distinguindo-se do resto do alinhamento.
Rui Santos


Justice



Com o último concerto da noite a aproximar-se, está na hora de abrir a maior dancefloor do Porto. Os Justice estavam prontos para subirem para cima de palco e meterem todos os corpos do Parque da Cidade a dançarem. A entrada foi logo feita a pés juntos com “Safe and Sound” e “D.A.N.C.E.”, os dois maiores êxitos do duo, a serem as primeiras músicas a serem ouvidas do palco adornado por torres de colunas da Marshall, bem ao estilo de bandas como Megadeth.

Se a qualidade da música não bastasse para captar o interesse da audiência, os franceses vieram munidos do seu jogo de luzes incrível que deixaram todos estupefatos com a espetacularidade dos efeitos. O baile prolongou-se durante o resto da noite com os franceses a explorarem músicas dos seus três álbuns, como "Genesis" ou "Fire". No entanto, estes não podiam ficar a noite toda a partilhar música com os seus fãs e eventualmente tiveram que abandonar o palco. Os pés cansados precisavam de recuperar energia para os dois dias que se iam seguir. Sob uma chuva de palmas, estes retiraram-se com o sentimento que tinham feito o seu trabalho. E foi assim, com esta nota alta, que o primeiro dia do festival se encerrou.



Reportagem por: Hugo Geada
Fotografia por: Hugo Lima

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sexta-feira, 12 de maio de 2017

Road to: NOS Primavera Sound #1

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A menos de um mês de começar um dos principais festivais de música alternativa de Portugal, o NOS Primavera Sound, deixamos aqui algumas escolhas dos editores para o que podem ver nos ecléticos palcos do Parque da Cidade durante os três dias que são esta celebração que junta alguns dos melhores artistas e bandas da atualidade.

8 de junho

Flying Lotus - You’re Dead! (2014)


Um dos mais originais compositores dentro do campo do hip-hop, Flying Lotus, de seu nome original Steven Ellison, ganhou reconhecimento pela maneira experimental com que trabalha dentro do seu campo musical. A sua música, para além de conter elementos de hip-hop, apresenta influências de musica eletrónica e free jazz (não seria este familiar do grande saxofonista, John Coltrane). Para além dos elementos musicais, incorpora um imaginário digno de quem passou grande parte da sua infância a ler comics da Marvel e a ver desenhos animados do Cartoon Network.

Todos estes constituintes podem ser ouvidos no seu mais recente álbum. As primeiras quatro músicas instrumentais são uma obra prima do hip-hop com influências psicadélicas e introduzem “Never Catch Me”, que inclui a voz de nada mais nada menos que Kendrick Lamar. Para além deste, podemos encontrar colaborações não só de músicos atuais como Snoop Dogg, Thundercat, e outro alter-ego de Steven Ellison, Captain Murphy (persona que o próprio adota quando faz rap), Kamasi Washington, mas também icónicos músicos intemporais como Herbie Hancock e Ennio Morricone.

Um dos concertos que mais curioso estou para assistir, uma vez que estou curioso para ver como é que FlyLo executa todos estes complexos sons fora de estúdio.

- Hugo Geada



9 de junho

King Gizzard & The Lizard Wizard – I’m In Your Mind Fuzz (2014)


Sem dúvida uma das bandas mais excitantes da atualidade, estes grupo de sete australianos estiveram pela última vez em Portugal no Vodafone Paredes de Coura, naquele que foi um dos mais excitantes concertos da edição. O seu regresso é marcado pela notícia do início do ano em que prometeram lançar 5 discos em 2017, ou seja desde o último concerto destes, já lançaram um álbum novo, Flying Microtonal Banana e estão a preparar-se para lançar mais um, Murder of the Universe, décimo álbum em 5 anos (!).

Contudo, o álbum que vou falar é, pessoalmente, o meu preferido e aquele (que tal como a mim) introduziu uma quantidade incrível de fãs para a música deste conjunto. Para começar, os primeiros 12 minutos e 30 segundos são os melhores minutos que alguma vez entraram num álbum de garage rock. As músicas consistem em “I’m In Your Mind”, “I’m Not In Your Mind”, “Cellophane” e “I’m In Your Mind Fuzz”. Estas costumam ser apresentadas nos concertos em formato de medley, concebendo um efeito imprevisível que, acompanhado pela velocidade e energia com que eles concebem este momento musical, fazem jus ao nome do álbum.

Apesar do restante álbum não ter muito espaço na já saturada setlist, é de salientar momentos como a faixa que dá o álbum por finalizado, "Her and I", ou "Hot Water," liderada pelos calmos instrumentos de sopro, e sem esquecer a épica, "Am I In Heaven?", que a banda tem tocado de vez em quando nos concertos.

- Hugo Geada



Nicolas Jaar – Sirens (2016)


Falar em Nicolas Jaar é falar num dos nomes mais relevantes do atual panorama da música eletrónica. O produtor americano está de volta ao nosso país para se afirmar como um dos principais agentes do renascimento do género. Sobe ao palco no segundo dia do festival e na bagagem traz o seu último trabalho lançado no ano passado, Sirens. Um álbum repleto de fortes mensagens políticas e socias influenciadas pela atual situação do Chile, o seu país de origem. 

Muito aclamado pela crítica, o seu segundo LP tem na sua composição faixas como “Killing Time” e “No”, duas músicas que com certeza farão parte da sua setlist e que demonstram bem a versatilidade musical do artista, tal o contraste de sonoridades e de melodias. Apontado por muitos como um nome de culto, Nicolas Jaar não irá desapontar os seus fãs portugueses, servindo-lhes uma dose de uma eletrónica misteriosa, irreverente e que não deixará nenhum corpo estático.

- Edgar Simões



10 de junho

The Black Angels – Death Song (2017)


Os reis psicadélicos de Austin voltam a Portugal depois de terem estado na edição de 2014 do Reverence Valada. E que saudades deixaram.

Vêem apresentar o seu novo álbum, Death Song, alusão ao nome da música dos The Velvet Underground onde estes retiraram o seu nome, “The Black Angel’s Death Song”, naquele que é o álbum com mais conotações politicas e mensagens de intervenção. Por exemplo, em “Medicine” estes criticam a indústria farmacêutica e em “Currency” espetam uma faca no sistema capitalista.

Com o seu som, sempre muito visual, este pode levar-nos a uma viagem a um campo de morangos (referência aos beatles) nos anos 60 na Califórnia, como tão depressa nos fazem embarcar numa bad trip alucinogénica. Esta variação, de momentos felizes para passagens mais introspetivas, é o que tornam os Black Angels uma banda tão especial. No final do álbum podemos sentir esta variação com a épica “Life Song”, onde o sombrio instrumental contrasta com a esperançosa letra da música.

- Hugo Geada



Weyes Blood – Front Row Seat to Earth (2016)


Esta bela jovem americana começa a ser presença assídua por terras lusas, sendo que desta vez vai pisar um palco maior, digno do seu talento, o do NOS Primavera Sound no Porto.

Weyes Blood inspira-se no seu folk psicadélico influenciado desde Fleetwood Mac a Joni Mitchell, sempre com o toque lo-fi que representa os gloriosos finais dos anos 60. Em Outubro de 2016 lançou o seu aclamado álbum Front Row Seat to Earth, onde se afirmou como uma artista em ascensão graças aos largos elogios da crítica e a quem devemos dar uma atenção especial ao seu futuro trabalho discográfico.

Podemos ouvir no sucesso de “Seven Words” que é uma canção retratada nos sentimentos amorosos e numa melancolia de um baixo bem vincado ligada a uma secção rítmica que acompanha na perfeição as linhas de guitarra e um órgão angelical que parece que estamos a ouvir o “Oceano Pacífico” numa viagem de regresso a casa numa madrugada de nevoeiro.

Naquilo que será um possível magnífico dia quente do Primavera, certamente, será um dos concertos mais aguardados, que irá aquecer muitos corações bem como satisfazer os fãs mais acérrimos desta artista que nos brinda com a sua voz delicada.

- Eduardo Coelho

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terça-feira, 28 de julho de 2015

Sobre o "To Pimp A Butterfly"...

Antes de mais, a Threshold pede desculpa a vós, os leitores, por não ter dado o seu parecer atempado e detalhado acerca do To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar. No caso particular deste redactor, compromissos relacionados com trabalho e academia impediram-no de tecer uma crítica que estivesse à altura da obra e que procurasse descortinar algum pormenor que poderia ter falhado em leituras mais superficiais a este To Pimp A Butterfly. Consideramos que uma review detalhada ao LP é uma tarefa que, no presente, já não se justifica. Este LP já foi encaixado em inúmeras escalas de avaliação aquando do seu lançamento e foi unanimemente aplaudido pela crítica.
A Threshold também o aplaudiu. Aliás, prestou-lhe uma ovação de pé, galardoando-o com o estatuto de melhor álbum editado no primeiro semestre de 2015.


Posto isto, mais importante que pontuar To Pimp A Butterfly será tentar descodificar alguma da linguagem que este álbum usa, num esforço para que todos se possam aproximar de uma leitura mais clara da sua narrativa. Queremos também apurar o que é que mudou 4 meses após To Pimp A Butterfly e, se possível, dar resposta às seguintes questões:

O álbum mudou aos olhos dos ouvintes e da crítica?
O seu autor mudou aos olhos do público?
Quais o ecos de To Pimp A Butterfly?

Sobre Kendrick Lamar, o rapper que assina To Pimp A Butterfly, pouco há aqui a acrescentar ao que já foi dito. Se houvesse quem não o conhecesse ou quem duvidasse das suas capacidades enquanto MC, To Pimp A Butterfly mudou isso.
To Pimp A Butterfly é um 10 em 10 seja qual for a escala utilizada para mensurar os seus contornos. As letras são ricas, as mensagens são fracturantes e a sua malha instrumental brilhante e complexa. To Pimp A Butterfly impõe-se como uma das mais brilhantes fábulas da música contemporânea e desde já como um dos marcos da história do hip hop.
Outra característica notável de To Pimp A Butterfly é que faz convergir alguns dos maiores astros que alguma vez cruzaram o plano celeste da música a algumas das promessas desta geração.
George Clinton Flying Lotus dão o seu contributo na primeira faixa deste LP.
Snoop Dogg liberta o contador de histórias que existe nele, qual Slick Rick a contar uma história a crianças na "Institutionalized".
Pharrel Williams surge duas faixas depois em "Alright" e Sufjan Stevens participa na "Hood Politics".
Mesmo sem contar com as presenças vocais de Grandes como Dr. Dre, Fela Kuti e Tupac, é seguro afirmar que o elenco convidado para dar substância a To Pimp A Butterfly é de luxo. Os acima referidos são os astros. Falemos das promessas.
Nessa categoria, duas personagens despontam de forma brilhante e regular neste LP: Kamasi Washington e Thundercat.


Kamasi no Saxofone e Thundercat no baixo
Kamasi Washington é um saxofonista e é natural de Compton, assim como Kendrick. Talvez um ilustre desconhecido para vós, até que o seu saxofone soou em To Pimp A Butterfly.
Mas talvez ele não seja assim tão desconhecido quanto isso. Provavelmente já todos ouvimos alguma peça interpretada por ele. Afinal, Kamasi é um colaborador regular da Brainfeeder, a label de Fly Lo. Por lá, prestou os seus pulmões em inúmeras obras, sendo que a mais recente participação somada é no You're Dead!, o último LP de Fly Lo.


Este ano, Kamasi lançou via Brainfeeder o seu primeiro LP a título individual, o The Epic. Neste, uma banda escolhida a dedo por si leva a cabo a hercúlea tarefa de interpretar cerca de 3 horas de jazz. 3 horas de jazz brilhantemente escrito e executado, diga-se de passagem! Coltrane - John Coltrane isto é - teria orgulho no amigo do seu neto (Fly Lo) se pudesse escutar The Epic. E quando começamos a desfiar um pouco a malha de To Pimp A Butterfly, começamos a dar conta dos laços de amizade que existem entre os arquitectos.
"It's all family. Most of the guys that worked on Kendrick's record and on [Flying] Lotus's record [You’re Dead!], we've known each other since before we played music.
My dad's a saxophone player -- he actually played flute [on the album] -- so that's how I started. My dad and Thundercat’s dad played together, we've known each other since we were babies. Actually I knew Thundercat before, when he was just an idea, like, “Let's have another kid” [laughs]. His brother [Ronald Bruner, also on TPAB] and I had been friends since we were two.
L.A. is like a really big little town, where New York is like a really small big city. The jazz scene is spread out, so when people come here they don't really know where it is -- but we all grew up together. We all played in Multi School Jazz Band in high school, and we all grew up in Leimert Park, playing at the World Stage and Fifth Street Dick’s.
...
Myself, Terrace, Thundercat -- we all musically grew up playing with Snoop and the Snoopadelics (his band). I've played on a couple of Snoop's records -- a lot of my first gigs. My first major gig actually, I think, was with Snoop.
...
I met Lotus a long time ago -- we did the John Coltrane competition... Years later, Thundercat started working with [Lotus], and reminded me about him. Lotus and I ran into each other randomly at a jam session -- he sat in, and we connected then. He asked me if I wanted to do a record with Brainfeeder."
 
Kamasi Washington @ Billboard
Outro dos ilustres desconhecidos de To Pimp A Butterfly é Thundercat. Stephen Bruner é o indivíduo por detrás do pseudónimo Thundercat é um virtuoso baixista que soma colaborações com grandes nomes do r&b e do hip hop. Mais recentemente, Thundercat lançou o álbum The Beyond/Where the Giants Roam via Brainfeeder, label na qual ele se integra, juntamente com o seu amigo Kamasi Washington. Curiosamente, Thundercat, Kamasi e Kendrick são todos nativos de South Central. De entre os 3, Thundercat  é discutivelmente quem apresenta o currículo mais impressionante: ainda na pré-adolescência, tocou baixo nos Suicidal Tendencies, tocou baixo na banda da Erykah Badu e, mais recentemente, tocou baixo no To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar.
"He'll play you a piece of a song and you'll go, 'OK,' and then he'll suddenly add the melody in and it becomes this brilliant thing...It's like seeing a great painter with a canvas that looks like a lot of nothing, and then one little stroke goes and you're like, 'Wow you saw that the whole time?" 
Kamasi Washington sobre Thundercat @ Rolling Stone
Serendipidade é um termo que me ocorre quando falamos de To Pimp A Butterfly. Ou assim seria se Los Angeles não fosse a terra dos astros. Seria inevitável que alguns deles se conhecessem à priori ou, como é o caso aqui relatado, alguns sejam mesmo amigos de infância. Parece-nos portanto legítimo afirmar que To Pimp A Butterfly foi mais que fruto de esforço colectivo: foi o ponto de convergência de algumas das mentes mais brilhantes da música contemporânea. To Pimp A Butterfly foi não só a consagração de nomes já instituídos da música, mas também a rampa de lançamento de outros para o estrelato.
Mas falemos agora um pouco do álbum e do seu autor, Kendrick Lamar.

Foto de uma das sessões de gravação de To Pimp A Butterfly
Kendrick Lamar era um MC diferente antes de To Pimp A Butterfly. Aliás, quem era Kendrick Lamar antes de To Pimp A Butterfly? O MC que agitou o mundo do rap ao desafiar toda a gente com as suas polémicas estrofes? O autor de Good Kid, M.A.A.D. City? Estes são os seus feitos mais recentes. Analisemos um pouco a sua história.
Kendrick começou por se auto-intitular de K-Dot, assinando em 2003 uma mixtape intitulada Youngest Head Nigga in Charge (Hub City Threat: Minor of the Year). Foi essa mixtape que lhe garantiu entrada na TDE, label pela qual ele editou a grande maioria dos seus trabalhos, incluindo To Pimp A Butterfly. Tinha 16 anos na altura.



Seguiu-se Training Day, uma mixtape editada em 2005. A essa mixtape, seguiram-se actuações e digressões com Grandes como Jay Rock, The Game e Lil Wayne. Depois de aparecer no vídeo da "All My Life (In The Ghetto)", Lil Wayne apoiou-o no lançamento da sua terceira mixtape, C4. Estávamos no ano de 2009 e Kendrick Lamar ainda assinava as suas obras com o pseudónimo K-Dot.



Nesse mesmo ano, decidiu formar o colectivo Black Hippy com os seus companheiros Jay Rock, Ab-Soul e Schoolboy Q. Foi também a partir desse ano que começou a assinar todas as suas obras com o seu nome verdadeiro: Kendrick Lamar
Depois disso, seguiram-se colaborações e digressões com ilustres como Tech N9ne, RZA e Dr. Dre (supostamente, Kendrick terá colaborado na produção do altamente esperado e eternamente adiado Detox). Em 2011 lançou o seu primeiro longa-duração, o Section 80. Meses depois, os seus pares apelidam-no "O Novo Rei da Costa Oeste".


O resto do seu percurso já todos nos conhecemos: em 2012 lança o Good Kid, M.A.A.D. City. Seguem-se tours com o Yeezus, colaborações com Grandes como Eminem, Fly Lo e Taylor Swift, os Grammys e, finalmente, To Pimp A Butterfly.
Sobre o seu passado, estes são os highlights. Mas, e sobre a sua história recente? Será que Kendrick é o mesmo MC que ouvimos em To Pimp A Butterfly? Alguns dizem que não e apontam o dedo à sua mais recente colaboração com a Reebok.


Muitos argumentam que depois de um trabalho tão profundamente enraizado em mensagens anti-capitalismo como o é To Pimp A Butterfly, ver Kendrick a promover uns ténis é um acto de profunda hipocrisia. Esse sentimento aguça-se quando verificamos que o copy do anúncio contém uma mensagem revolucionária, que se opõe fortemente às normas da sociedade, encorajando cada indivíduo a pensar e a defender-se pelos seus próprios meio para não aceitar aquilo que os poderes instaurados lhes forçam. Os críticos argumentam que este anúncio, com o uso dessa mensagem revolucionária para promover algo tão pedante como uns ténis é uma completa traição às mensagens contidas em To Pimp A Butterfly.
Talvez seja esse o caso. Ou talvez estejamos todos a ser demasiado mesquinhos. Digam-me, de cabeça, 3 MCs que conheçam que nunca tenham usado a sua imagem para promover alguma marca (até o DOOM, esse Colosso do underground, cedeu a sua imagem para promover um modelo de calçado da Clarks). 


Talvez seja inveja da nossa parte. Afinal de contas, quantos de nós nos insurgimos diariamente contra as maleitas da existência moderna comandada pelo grande capital? E quantos de nos se insurgem do alto das suas Nike e usam o seu iPhone para comunicar uns com os outros? Quem de nós não possui sapatilhas ou produtos de marca? Quem de nós nunca caiu nas tramas da publicidade? Será Kendrick diferente? Porquê? Porque insurge-se contra o capitalismo com umas Reebok calçadas? Qual é o mal? Outros no lugar dele já fizeram o mesmo e ninguém disse nada. Porque é que Kendrick é avaliado de maneira diferente?
Talvez porque ele é mesmo o Rei disto tudo. Caso contrário, passaria despercebido. E, falando verdade, ele já passou despercebido. Fiquem sabendo que antes de ele ser o Rei, ele já cedia a sua voz e a sua imagem para publicitar marcas e produtos. 



Façam a leitura que quiserem dos factos, mas este género de manobras sempre aconteceram na publicidade. Se, como eu, viram o Kendrick o ano passado no NOS Primavera Sound, não precisavam de desviar muito o olhar do palco para ver o grande totem da NOS que se encontrava mesmo junto do mesmo. Amigos, mentalizem-se de uma coisa: a publicidade paga. E paga muito bem. E a troco desse pagamento as marcas querem, obviamente, ver o seu produto exposto. No caso da ReebokKendrick apresenta-se como uma montra privilegiada para o produto em questão. E, do ponto de vista de marketing, essa decisão faz sentido! Kendrick é jovem, atlético, "fixe", um artista e, acima de tudo, é um indivíduo com uma mensagem para transmitir. Talvez aquilo que a Reebok quer é corromper-nos a todos para comprarmos as Ventilator, usando para esse efeito o Kendrick. Talvez o que ela pretenda fazer é dar-nos uma alternativa de qualidade no que toca a calçado. Afinal de contas, o Kendrick confia neles, e ele é o Rei!
Mais, esse voto de confiança já vem de trás, antes da ressurreição das Ventilator.


Enquanto fã, acho que estamos todos a dar demasiada atenção a um pormenor. O facto de Kendrick promover um par de ténis é um pormenor para mim. Um pormenor que em nada lhe tira o mérito de ser um brilhante MC e um exímio escritor de canções. Um pormenor que em nada desvaloriza o brilhante que é To Pimp A Butterfly. Aliás, como poderia um pormenor como um par de ténis desvalorizar toda a sua obra até à data? Como poderia um par de ténis demolir as mensagens de To Pimp A Butterfly? Como poderia isso acontecer, se Kendrick faz uso da Reebok, essa mesma marca que ele promove, para transmitir uma mensagem anti-ódio?



Pormenores e ténis à parte, To Pimp A Butterfly continua a ser brilhante, especial e inspirador. É uma homenagem às mais marcantes obras, personagens e raízes que povoam o imaginário de praticamente toda a gente que se identifica com o hip hop não só enquanto movimento, mas enquanto cultura e forma de vida. 
Poderia destacar várias faixas e vários momentos ao longo do disco, mas, como foi dito acima, uma análise detalhada ao disco é, no presente, uma tarefa escusada. Já tudo foi dito sobre To Pimp A Butterfly e sobre cada faixa por inúmeras publicações a nível global. Preferimos, portanto, terminar esta resenha com a decomposição da complexa identidade gráfica do disco. O que representa o título "To Pimp A Butterfly"? O que representa a sua imagem de capa?

Inicialmente o álbum foi chamado “To Pimp a Caterpillar", representando uma provável homenagem a TupacTo(U) Pimp A Caterpillar. Um dado que suporta esta teoria é a data de lançamento do LP, coincidente com os 20 anos do lançamento de Me Against The World, um dos álbuns seminais do rap. 



"That was the original name and they caught it because the abbreviation was Tupac, Tu-P-A-C...Me changing it to Butterfly, I just really wanted to show the brightness of life and the word "pimp" has so much aggression, and that represents several things. For me, it represents using my celebrity for good. Another reason is, not being pimped by the industry through my celebrity."  
Kendrick Lamar @ MTV News

To Pimp A Butterfly pode também prestar homenagem a To Kill a Mockingbird, um dos maiores escritos de Harper Lee. Este livro faz parte do património literário da humanidade e é uma das exposições mais brutais do fenómeno da desigualdade racial nos EUA alguma vez escrito.

Frame da adaptação cinematográfica de "To Kill A Mockingbird", dirigida por Robert Mulligan
Curiosamente, a primeira leitura que eu fiz do título de To Pimp A Butterfly não coincide com nenhuma destas hipóteses acima colocadas. Para mim, To Pimp A Butterfly é um jogo de palavras, uma apropriação da imortal frase de Muhammad Ali: Float like a butterfly, Sting like a bee.
Através deste jogo de palavras, Kendrick coloca-se num novo pedestal, comparando-se a Ali na sua altura áurea: um lutador, um defensor da igualdade de direitos e da igualdade entre as raças, um guerreiro com plena consciência das suas capacidades, confiante em si próprio. Assim o era Ali e assim o é Kendrick. Um no ringue, outro no rap, mas ambos seres prodigiosos.


To Pimp A Butterfly pode conter todos estes significados e outros tantos ocultos. Podemos, por outro lado, estar todos errados. Alguém me ensinou que o grau de complexidade de uma obra se mede pelo número de interpretações que é passível de se fazer. Quer isto dizer que quanto mais tivermos a dizer sobre uma obra, mais substancial e pertinente ela é. O oposto, por sua vez, é também verdade. Mas, como já disse anteriormente, o problema aqui não reside na falta de palavras para descrever To Pimp A Butterfly. Muito pelo contrário. Há muito a dizer. Isto porque Kendrick diz muito em To Pimp A Butterfly. E a complexidade abre lugar para a discussão. Não só para a discussão, mas para a interpretação da obra. E mais importante que as suas palavras, é sem dúvida a forma como estas nos atingem, como nós as absorvemos. Até a polémica capa pode parecer um acto de violência para os ignorantes. No entanto, ela representa Kendrick a exercer o seu pleno direito à liberdade. Liberdade artística, liberdade de discurso e, em última instância, liberdade de espírito. E ainda que a Casa Branca seja o plano de fundo da capa, Kendrick não esquece nunca as suas raízes. Pelo contrário, honra-as e respeita-as. Não é por acaso que o estado da Califórnia o honrou pelo seu contributo não só para com a sua comunidade, mas também para com uma vindoura geração que Kendrick tem vindo a inspirar.


"I think the future of my generation is entrepreneurs times a hundred. We’ll probably be one of the most prosperous generations in history. Not only do we have the belief, but we have the work ethic to go out there and get it. We are very independent. We are very confident in our own identity, which is a great thing. Because what this [generation] has is more people starting their own business and not being confined to what [an existing] company has to offer [them]. But, on the other hand, our belief system is gonna play a major part in it. Our belief system is not the way how my parents were, how my grandparents were, and the more and more time goes on, we lose that thought or idea of God and energy. So what happens is we stop caring for people and we stop honoring and respecting people, you feel me? So I think once we grab that aspect back into my generation we’re gonna be alright." 
Kendrick Lamar @ Hypetrak
Este é o presente.
Já falámos do passado de Kendrick e dos ecos causados por To Pimp A Butterfly.
Resta-nos somente falar do futuro. 

O que podemos esperar de Kendrick?

Sabemos que Kendrick tem evitado tocar ao vivo músicas de To Pimp A Butterfly. Actualmente, os seus sets são compostos por um ou dois temas retirados de To Pimp A Butterfly, sendo que o remanescente do alinhamento é composto por material antigo. Possivelmente, esta decisão pode ser motivada pelo facto de Kendrick ainda não se sentir preparado para interpretar o álbum ao vivo com a força que este pede (não nos parece que seja isso). Ou então, esta decisão foi tomada porque para interpretar o disco ao vivo com completa fidelidade seria necessária uma verdadeira orquestra e uma sala com uma acústica perfeita. Condições dessas não são fáceis de reunir.
Porém, uma alternativa à convergência dessas complicadas circunstâncias pode residir na escolha de um formato diferente para a apresentação ao vivo dos temas. Lembre-mo-nos por exemplo da performance de Kendrick no programa da Ellen, no qual tocou a "These Walls".




Talvez parte da solução passe por abolir a orquestra nas suas performances ao vivo, procurando novas formas de comunicar a sua mensagem. Pensar não só no aspecto musical do espectáculo, mas também no aspecto multimédia e introdução de possíveis performances extra-música. Nunca é fácil reunir as condições necessárias para produzir um espectáculo visualmente impressionante. Mas quando tudo é feito com cuidado, criatividade e, acima de tudo, paixão, transpomos a barreira daquilo que foi gravado em estúdio, dando lugar a uma interpretação única e verdadeiramente especial.
Acho que, no fundo, o que todos queremos de Kendrick é precisamente isso: que ele nos continue a proporcionar momentos únicos através da sua arte.

Esperamos que To Pimp A Butterfly seja para vocês tudo aquilo que é para nós. Esperamos que as palavras contidas neste álbum vos marquem tanto como nos marcaram. Esperamos que To Pimp A Butterfly ganhe um lugar não só no vosso arquivo musical, mas também um lugar especial nas vossas cabeças e corações. Ou então não.

Seja como for, vamos ficar todos bem.
O Rei dixit.

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