Em 2018, Black Bombaim e João Pais Filipe juntaram-se para um trabalho conjunto em torno do filme Dragonflies with Birds and Snake do realizador alemão Wolfgang Lehmann, na sequência de um desafio lançado pelo Curtas de Vila do Conde. O inebriante resultado, é agora editado em disco pela Lovers & Lollypops.
O trabalho será apresentado, ao vivo, ainda este mês em Guimarães, CCVF (22 de novembro), Lisboa, ZDB (23 de novembro) e no Porto, Auditório de Serralves (24 de novembro). Caso não consigam ir a qualquer data, é possível ouvir o disco na sua íntegra abaixo.
Em novembro, o músico e compositor germânico Sote passa pelo grande auditório de Serralves, no Porto, para apresentar o seu mais recente álbum, Parallel Persia. Os portugueses Black Bombaim juntam-se ao percussionista João Pais Filipe para uma colaboração encomendada pelo festival Curtas de Vila Conde.
Sote é Ata Ebtekar, músico, compositor e intérprete sediado em Tehran, no Irão, figura central da música eletrónica no Médio Oriente e um dos mais entusiasmantes na prática e união entre o elétrico e o acústico. A sua música é ora delicada ora abrasiva, alterando as caraterísticas modais da música tradicional persa para criar um admirável mundo novo de paisagens sintéticas e vívidas. Parallel Persia é o seu mais recente projeto, editado em maio pela Diagonal Records e que continua a busca incessante de Sote por esta experiência persa sintética. Em palco, Sote apresenta-se ao lado de Arash Bolouri (santour) e Pouya Damadi (tar).
Em julho, o power trio de Barcelos Black Bombaim convidou João Pais Filipe, baterista/ percussionista do Porto, para colaborar na criação da banda sonora do filme Dragonflies with Birds and Snake, do realizador Wolfgang Lehmann, cujo som - originalmente silêncio - contém um elemento rítmico omnipresente causado pelo corte e edição. Tal como o filme, também a a performance será dividida em três partes: nascimento, sexo e morte – o ciclo da vida. Os concertos acontecem dia 24 de novembro pelas 18h00.
Nasce do desafio do Curtas de Vila do Conde a mais recente adição ao catálogo de discos da Lovers & Lollypops para o ano de 2019. Black Bombaim & João Pais Filipe - Dragonflies with Birds and Snake é editado a dia 12 de novembro e tem já datas de apresentação em Guimarães, CCVF (22 de novembro), Lisboa, ZDB (23 de novembro) e Porto. O LP regista assim o trabalho desenvolvido para o filme-concerto que, em 2018, juntou o trio barcelense e o percussionista para um espectáculo original em torno do filme homónimo, do realizador alemão Wolfgang Lehmann. O tema de avanço já pode ser ouvido no bandcamp da editora. Já confirmada está também a estreia de "Black Bombaim", o documentário que registou o processo de trabalho para a criação de Black Bombaim w/ Luís Fernandes, Jonathan Saldanha e Pedro Augusto. Com realização de Miguel Figueiras e argumento de Manuel Neto, o filme regista a criação musical e a sua relação com a paisagem enquanto espaço de criação de mitologias e de somatização de fantasmas. Esta operação fílmica e sonora organiza-se numa trilogia, que é também a trilogia musical composta pela banda em processo de trabalho com três compositores distintos: Pedro Augusto, Luís Fernandes e Jonathan Saldanha. Estreia no Porto/Post/Doc em novembro. Após o lançamento disco de remisturas para o seu LP de estreia, João Pais Filipe prepara-se para uma tour Asiática que passará pela Tailândia, Macau, Hong Kong, Taiwan e Japão. Em Outubro, o percussionista viaja, ainda, para o Perú onde fará uma residência com o mestre percussionista Manongo Mujica, que culminará com uma apresentação no Museu de Arte Contemporânea de Lima.
A BoCA – Biennial of Contemporary Arts, está de regresso a Portugal. Lisboa, Porto e Braga são as cidades escolhidas para a realização da bienal de artes contemporâneas que tem a sua segunda edição entre 15 de março e 30 de abril de 2019. Com direção artística e programação de John Romão, a BoCA tem como missão a promoção da criação contemporânea, com especial atenção para propostas de caráter transversal mediante quatro eixos de atuação: produção, programação, difusão e educação artística.
Para a sua segunda edição, a BoCA volta a contar com uma programação pluridisciplinar que vai da instalação à performance, passando pelo cinema, a multimédia e a música. No último campo, os destaques vão para as performances de Linn da Quebrada, Caterina Barbieri (na foto) e Wolfgang Tillmans. O último, que expôs No Limiar da Visibilidade em Serralves em 2016, irá partilhar, num acontecimento inédito, aquele que é descrito como "o lado mais obscuro da sua arte": a música eletrónica. O concerto Before I Knew It tem lugar no Lux Frágil, dia 12 de abril.
Caterina Barbieri regressa ao país depois de ter atuado, pela última vez, no Salão Medieval da Reitoria da Universidade do Minho, aquando da oitava edição do festival Semibreve, em Braga. A música e compositora italiana é uma das porta-vozes da eletrónica progressiva moderna de agora, explorando na sua linguagem minimalista e sintética o potencial dos sintetizadores modulares. A tenra mas entusiasmante discografia da produtora conta edições por selos tão respeitados como a Caussana ou a Important Records, por onde editou o belíssimo Patterns of Consciousness, de 2016, e o mais recente Born Again In the Voltage, de 2018. Apresenta-se na capital nas Carpintarias de São Lázaro, dia 23 de março, rumando ao norte para uma atuação no Passos Manuel, no Porto no dia seguinte.
Linn da Quebrada é a artista multidisciplinar, MC e ativista trans mais audaz e necessária a sair do Brasil. Pajubá, o seu primeiro trabalho longa-duração, é o mote para o regresso ao país que visitou pela última vez em 2018, com três datas distribuídas pelo Porto e Lisboa. Na BoCA 2019, Linn da Quebrada apresenta-se no Lux Frágil, em Lisboa (dia 30 de abril) com uma equipa de DJs, vocalistas e bailarinos, entre os quais BadSista, Jup do Bairro, a percussionista Dominique Vieira e o DJ Pininga.
Ainda na música, o Coro Gulbenkian irá cantar Stimmung, uma das mais notáveis peças do compositor alemão Karlheinz Stockhausen. Concebida para seis vozes solistas, a obra é agora deslocada para um dos templos da nossa contemporaneidade - a discoteca (Lux Frágil, dia 5 de abril). Jonathan Saldanha é mais um dos interveninetes da programação. O artista pluridiscplinar, conhecido pelas contribuições em projetos como HHY & The Macumbas, Fujako ou Mécanosphère, irá desenvolver um projeto de investigação que surge a convite da Escola das Artes – UCP para o desenvolvimento de uma peça vocal que reflete os arquétipos da paixão de Cristo. Scotoma Cintilante parte de uma mundivisão onde a relação tátil com a matéria inanimada é a fonte primordial da construção do som. Integrando uma escultura e um coro de cegos, este concerto-performance inscreve-se entre matéria e anima, pré-linguagem e superfície. Para ver dia 9 de abril no Auditório Ilídio Espinho, no Edifício das Artes da Universidade Católica Portuguesa.
Ainda no contigente nacional, a programação integra também performances de Adolfo Luxúria Canibal, João Pais Filipe e Gabriel Ferrandini, assim como dj sets assinados por Terzi, Nídia e Black.
Programa do gnration open day, dia aberto que celebra o aniversário do gnration, convida público a conhecer novas abordagens à música eletrónica e à tecnologia.
Situado na recentemente intitulada cidade criativa da UNESCO para as Media Arts, que teve como pilar maior da sua candidatura o trabalho realizado pelo gnration nos campos da arte digital e da música contemporânea, o projeto resultante da Braga 2012: Capital Europeia da Juventude assinala em abril seis anos de existência e fá-lo novamente com as portas abertas e um leque variado de iniciativas culturais. A 27 de abril, sábado, o sexto aniversário do creative hub bracarense será celebrado com um conjunto de atividades gratuitas para todas as idades, que se unem por uma curiosa e nova abordagem à eletrónica e à tecnologia. Entre música, instalações e workshops, a programação do dia preenche-se com a presença de muitos projetos musicais, entre os quais os portugueses Sensible Soccers, que se preparam para lançar o aguardado terceiro longa-duração da sua carreira, desenvolvido em residência artística no gnration. Agora com nova formação, os autores de "Villa Solledad" irão apresentar o novo disco em primeira mão no gnration open day. Ainda no campo nacional, o percussionista João Pais Filipe, conhecido pelas contribuições em projetos como HHY & The Macumbas e Rafael Toral Space Quartet, apresentará o seu primeiro disco a solo, de título homónimo, editado em 2018 pela Lovers & Lollypops.
Ammar 808 (na foto), projeto produzido e desenvolvido pelo aclamado produtor tunisino Sofyann Ben Youssef (Bargou 08, Kel Assouf), também se apresentará no espaço cultural bracarense para uma performance descrita como uma autêntica "viagem pelo Norte de África a bordo da lendária caixa de ritmos TR-808". “Maghreb United”, disco de estreia lançado em 2018 pela Glitterbeat, junta composições eletrónicas a canções dos legados do targ, do gnawa e do raï de modo único e singular. Algobabez, dupla feminina composta por Shelly Knotts e Joanne Armitage, criam música eletrónica a partir de dados. Som sujo, estranho e barulhento mas extremamente aditivo e dançável, produzido por dois cérebros e dois computadores.
Músico e artista autodidata, o britânico Graham Dunning é mais um dos destaques da noite. O músico explora o som como textura, timbre e ainda como algo táctil. Recorrendo ao vinil enquanto matéria sonora, Duning apresentará “Mechanical Techno”, projeto mais recente que apresentou já no Boiler Room Londres. A juntar ao cardápio de nomes internacionais estará também o icónico DJ K-Sets, encarregue de encerrar a festa de aniversário do gnration e de regresso ao nosso país após uma passagem pelo festival Milhões de Festa, em Barcelos. A terminar o programa de música, a Escola do Rock Paredes de Coura, iniciativa da Câmara Municipal de Paredes de Coura e dirigida pelo Space Ensemble, viaja até Braga para apresentar um espetáculo que contará com a comunidade de jovens músicos bracarenses,
No programa de instalações, que estarão disponíveis para visita apenas até à uma da manhã, o artista digital francês Maotik dará a conhecer Wavelenghts of Light, uma instalação audiovisual baseada em nanotecnologia e resultante do Scale Travels. Na galeria gnration, e em parceria com a BoCA - Bienal de Arte Contemporânea, a artista visual e compositora portuguesa Diana Policarpo mostra Total Eclipse, uma instalação sonora e performance audiovisual criada com base na partitura original e incompleta de Status Quo/Music of the Spheres, da alemã Johanna Magdalena Beyer. A completar o programa, o gnration propõe um conjunto de atividades de serviço educativo. Para o aniversário, o gnration propõe duas atividades que aliam tecnologia e aprendizagem. Mini Mapa Sonoro, projeto do Serviço Educativo Braga Media Arts, promovido pelo Município de Braga, desafia os mais pequenos a fazer uma viagem pelo património material e imaterial de Braga, explorando locais de referência para os participantes, culminando na ilustração do seu próprio mapa e na gravação dos sons que o rodeiam e caracterizam. No final da atividade, o mapa visual e sonoro ficará disponível em formato interativo. Com âmbito alargado de faixa etária, a Estação Exploratória convida todos a descobrir um sistema audiovisual em rede que permite interação, colaboração e reprodução entre artistas (profissionais, amadores ou curiosos) em grande escala. Concebido como ferramenta de criação e performance colaborativa, o utilizador poderá interagir com a instalação através de um dispositivo móvel ou de um computador. O programa do gnrationopen day integra o programação cultural para o trimestre de abr-jun do gnration, onde consta já um nome anunciado - a compositora e multi- instrumentista japonesa Eiko Ishibashi que se apresenta a 17 de maio para um espetáculo focado nos trabalhos lançados ao longo dos últimos anos. Com entrada livre, o programa do gnration open day arrancará pelas dez da manhã e encerrará às quatro da manhã, dividindo-se por vários espaços do edifício.
Programa
música 15:30 –João Pais Filipe– pátio exterior 16:30 –Escola do Rock– praça 17:30 –Graham Dunning– blackbox 22:00 –Sensible Soccers– praça 23:00 –Quadra– blackbox 00:00 –Ammar 808– praça 01:00 –Algobabez– blackbox 01:00 –DJ K-Sets– sala multiusos
Está marcado o regresso dos Gnod a Portugal. O coletivo britânico, que integra na sua formação a portuguesa Marlene Ribeiro (Negra Branca), irá juntar-se ao percussionista e artesão portuense João Pais Filipe (HHY& The Macumbas, Paisiel) para uma performance a ter lugar no Maus Hábitos, dia 9 de março. Como mote para a apresentação estará um novo projeto a ser cozinhado nas próximas semanas, algures numa sala pelas ruas de Campanhã.
Just Say No to the Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine (2017) e Chapel Perilous (2018) são as mais recentes adições à extensa e sempre imprevisível discografia dos Gnod, cujo corpo de trabalho se tem vindo a assumir como um dos mais camaleónicos a sair da nova Inglaterra bizarra (à falta de melhor tradução para "new weird britain"). A sua música de difícil categorização cruza os terrenos do drone, da nova psicadélia e do noise rock num organismo bruto, intenso e fortemente politizado.
João Pais Filipe teve um ano de 2018 agitado. O músico português manteve-se extremamente prolífico ao longo do ano, contribuindo para discos tão aclamados como Beheaded Totem, dos magníficos HHY & The Macumbas, estreando-se nas edições como Paisiel (duo que partilha com o saxofonista alemão Julius Gabriel) e CZN (ao lado da italiana Valentina Magaletti), e ainda com o aguardado disco de estreia em nome próprio. Para além disto, João Pais Filipe integrou uma residência artística promovida pelo Criatório, que juntou Talea Jacta (projeto que junta Filipe e Pedro Pestana) a músicos tão notáveis como Rafael Toral, Wendy Mulder ou André Couto.
Os bilhetes para o concerto já se encontram disponíveis ao preço único de 8 euros, podendo ser adquiridos via bol.pt.
“Começou com uma conversa de café. Eu e o Pestana apercebemo-nos que tínhamos a mesma ideia: pegar noutros projetos e a solo como nós, pô-los no mesmo carro e fazer disso um festival. Assim combatíamos a solidão da estrada sem deixarmos de estar sós em palco.”
Manuel Molarinho – cofundador do Um ao Molhe
O que acontece quando se consegue juntar um (ou 2) carro(s) e alguns dos melhores músicos nacionais com projetos a solo? E o que muda quando se continua a fazê-lo durante 5 anos?
Na verdade, muito mudou, mas continua tudo igual. O Um ao Molhe volta a deixar tudo para trás e a fazer-se à estrada, e o Cubo (mascote do festival) leva à boleia alguns dos mais originais músicos solitários no Sapo e na Kátia (as acarinhadas viaturas oficiais). O objetivo principal é, como sempre foi promover uma amostra do melhor que se tem feito ao nível de "bandas de um só" em Portugal e criar um circuito para o crescente número de músicos emergentes.
Mas 5 anos de Cubo são muitos anos e o Cubo está hoje mais maduro e preciso de sentir um propósito maior. O Cubo hoje quer fazer menos, mas melhor. O Cubo quer estar rodeado de amigos. O Cubo quer ser um festival com princípios.
As quatro primeiras edições do Um ao Molhe superaram largamente as expetativas, com um notório crescimento de edição para edição. Até 2017 o Um ao Molhe realizou-se em 3 a 4 meses intensivos de estrada. Além de digressões nacionais, realizaram também cerca de 20 datas no estrangeiro. A título de exemplo, em 2017, o Um ao Molhe seguiu com os projetos de Surma, O Manipulador e Tren Go! Sound System para 12 lugares diferentes em Espanha e França. 2018 foi um ano de reflexão sobre o modelo de organização do festival em que foi adotado um modelo experimental mais espaçado e com menos apresentações. Desta forma, foi dada mais atenção à divulgação local, à curadoria, à garantia de melhores condições para os envolvidos e planear de forma mais definitiva a edição de 2019.
Chegam a 2019 como responsáveis pela organização e curadoria de 550 concertos em 166 datas em 3 países e 70 localidades diferentes. 108 é o número de músicos solitários em palco e 20000 é o número de pessoas de fluxo de público, sendo que mais pessoas ainda ficaram a conhecer o festival e os músicos através do forte entorno mediático que se deu nos meios de comunicação e redes sociais. Os número deixaram a organização particularmente satisfeitos, sobretudo tendo que conta que são um festival de inverno, com uma forte aposta em nomes emergente e que percorrem sobretudo salas com pequenas dimensões, que apresentam sempre públicos muito heterogéneos.
O Um ao Molhe está quase a chegar, um pouco por todo o país. Para mais informações sobre os eventos podem consultar a página da organização.
Em 2018 a matriz do talento nacional não sofreu mutações significativas e a receita continua a ser a mesma dos anos anteriores: ecletismo musical. Fomos brindados com a experimentalidade ritualística dos HHY & The Macumbas, o hip-hop nortenho e jocoso do Conjunto Corona, a portugalidade e o romantismo contemporâneo embebidos nos beats de David Bruno, o minimalismo melancólico de Francisco Oliveira e as baladas insulares de MEDEIROS/LUCAS. Fiquem a conhecer os 30 melhores álbuns nacionais que se destacaram este ano.
MEDEIROS/LUCAS são uma dupla formada por Pedro Lucas (Lisboa)
e Carlos Medeiros (São Miguel) e com o disco Sol de Março deram fim à trilogia
iniciada com Mar Aberto (2015) e Terra do Corpo (2016). O álbum lançado em
março pela Lovers & Lollypops é composto por doze canções que abordam a
parte da razão e do pensamento e brincam com as relações entre a luz e a
sombra, mantendo o habitual tom melancólico e de balada em temas como
"Podre Poder" e "Elena Poena". Neste novo trabalho os
caminhos fazem-se conduzidos pela voz de Medeiros que nos mostra agora novas
facetas, com melodias mais vincadas e com maior alcance. As canções essas,
continuam a ser escritas sobretudo por Pedro Lucas, a partir das letras do
escritor açoriano João Pedro Porto, explorando ao mesmo tempo um novo
território sonoro, do blues ao jazz e à eletrónica.
A pegada musical do artista pluridiscplinar Francisco Oliveira espalha-se por projetos como Deepbreathers, Terebentina ou Holoscene 85', mas também sob uma vertente mais íntima e pessoal que explorou pela primeira vez, este ano, em nome próprio. On the Act Of Reminding, o primeiro registo de Francisco sob este novo formato, vê o músico e produtor sediado no Porto enveredar pelos caminhos de um minimalismo puro e bucólico. Em jeito de carta de amor, Francisco explora as potencialidades do tempo e da memória, sua e dos seus antepassados. Foi, aliás, no piano de casa de sua avó que o músico construiu cuidadosamente as cinco peças que compõe este trabalho, apropriando-se do estado de uso e desuso do instrumento para uma obra despojada e visceral que tem tanto de cru quanto de delicado.
Vila Nova de Gaia é a temática de estudo deste novo álbum de David Bruno, mais conhecido por estas andanças por dB, membro integrante do Conjunto Corona. O Último Tango em Mafamude, lançado pela 1980, sucede então a 4400 OG de 2016, sendo um álbum mais acutilante que se dedica a contar o amor não correspondido pelo artista à sua cidade Vila Nova de Gaia.
Um álbum com cheiro a "Novycera" ou aquele Alfa Romeu Julietta, tema da primeira canção, daquele tio ou avô de amigo que usa cuidadosamente desde a sua compra nos anos 70 ou 80 quiçá. É mesmo isso que David Bruno pretende, mostrar através também de vídeo o bom ou o que fica dos anos 90. Carros com design que actualmente estão "out" em termos de "fashionismo", anúncios televisivos com cores berrantes, restaurantes ou "snack-bars" icónicos de Gaia, que poderiam ser da cidade de qualquer um dos ouvintes.
Este trabalho explora as mais diversas sonoridades, do soul e R&B ao psych rock e early hip hop, acompanhados por vezes de uma guitarra vibrante. Não esquecer também Marante, inspiração para a capa e para a mística do álbum e Toy, famoso e prodigioso cantor de baladas de amor. É mesmo esse hook "Romântico como o Marante, apaixonado como o Toy", que faz a música “Amor Anónimo”, a par da forte guitarra eléctrica como nos filmes eróticos do antigamente.
Fazer um álbum sobre a religião das bombas de gasolina e receber uma aclamação positiva geral por parte da crítica e dos fãs é uma obra incrível. Logos e dB (que não se dá por satisfeito ao participar em apenas um dos melhores álbuns do ano) escreveram mais um capítulo na conturbada vida de Corona, que depois do falhanço do negócio de Cima de Vila Velvet decide virar-se para a religião e a espiritualidade.
Santa Rita Lifestyle trás algumas mudanças neste novo álbum, nomeadamente músicas mais curtas e com menos letras, contudo a identidade e espírito permanecem intactos com a referência a inúmeros regionalismos da zona do Porto, Gaia e arredores e com a utilização de samples tão inacreditáveis que nos deixam a pensar se o David Bruno não deveria passar menos tempo na internet e ir passear para um sítio verde enquanto refresca os pulmões com um pouco de ar puro.
As músicas continuam icónicas e memoráveis, de salientar a faixa que partilha nome com o álbum, “Eu Não Bebo Cola Cola eu Snifo”, “Perdido na Variante” com a contribuição do incomparável PZ e “Dali Somali”, pessoalmente, a que tem a melhor sample e que dá uma enorme vontade de encher umas flexões na pista do Rock’s.
Há álbuns que nos fazem questionar a própria definição de jazz. Outros, aquilo que é esse chavão distante e impossível de concretizar que é a música do mundo. Ainda outros ousam em quebrar para lá das barreiras da conotação experimental. Beheaded Totem, novo álbum dos HHY & The Macumbas editado pela House of Mythology, é um compacto vitamínico que praticamente sem se esforçar expande o conceito da música de dança experimental do século XXI. A verdade, é que os rótulos existentes não chegam para enquadrar este trabalho no panorama da arte sonora contemporânea.
Enquanto que muitos dos trabalhos que têm saído dentro do mundo do jazz de fusão ou de forma livre são edificados nos moldes que já tinham sido construídos, o grupo liderado por Jonathan Uliel Saldanha - discutivelmente um dos artistas portugueses mais interessantes da atualidade - desconstrói o jazz, a música electrónica, a "world music" e a música de dança e a partir destes destroços edifica um ritual único e estranhamente dissociado das suas origens. Beheaded Totem existe não só enquanto álbum, mas também como um exercício de arte pós-moderna bem sucedido.
As secções de sopro são quase nobres e sacrilégios em simultâneo. Os ritmos de dança latinos e africanos preenchem o espaço que rodeia a improvisação e condução de Jonathan Uliel Saldanha graças aos quatro percussionistas que integram a banda. Nos intervalos desta sonoridade e graças ao mesmo quarteto, faixas como "Deep Sleep Routine", "Ergot Glitter" e "Swisid Mekanize Rejiman" reformulam a música electrónica de club numa versão electro-acústica pós-tribal.
Talvez o melhor ponto de equivalência para este álbum será um intermédio entre o seminal Bitches Brew de Miles Davis, um álbum que ficou conhecido pela maneira como revolucionou o jazz ao integrar ritmos repetitivos facilmente associados a processos ritualísticos e instrumentos eléctricos neste cenário, e os ritmos electrónicos de editoras como a Príncipe Discos. É óbvio que HHY & The Macumbas não é igual a Miles Davis, Chick Corea ou Dave Holland, tal como não é DJ Nigga Fox ou Niagara; é apenas o produto de séculos de música a convergirem num transe ritualístico de jazz de dança. É só, e apenas isso.