sábado, 1 de junho de 2019

Reportagem: Julia Holter [Centro Cultural Vila Flor, Guimarães]


Quando Julia Holter visitou o Centro Cultural Vila Flor pela primeira vez, a artista norte-americana contava apenas dois álbuns de estúdio como cantora-compositora. Ekstasy foi o mote para a estreia de Holter na Cidade Berço, em 2012, o mesmo ano em que Guimarães foi considerada Capital Europeia da Cultura. Agora, quase sete anos passados, Julia Holter regressou ao polo criativo vimaranenese para apresentar o aclamado quinto disco de originais, Aviary, que recebeu novamente edição pela Domino Records no ano transato. Sucessor direto de Ekstasy, Aviary aproxima-se das abstrações pop do disco de 2012, cruzando essa mesma sensibilidade com arranjos de meticulosa experimentação  progressista. 

O regresso à cidade que a acolheu na sua primeira vinda a Portugal chegou, portanto, num momento mais que adequado. Depois de atingir a aclamação universal com Loud City Songs (2013) e Have You In My Wilderness (2015), a artista residente em Los Angeles goza de um estatuto invejável nos parâmetros da música com um cariz mais experimental. Acompanhada por Sarah Belle Reid, Dina Maccabee, Andrew Jones, Tashi Wada e Corey Fogel, Julia Holter apresentou-se no Auditório Grande para um concerto longe de esgotar, ficando-se por uma modesta mas entusiasmada primeira metade da sala. O caos ordenado de “Turn The Light On” abriu as hostes da noite, com os seis instrumentistas alinhados sob um festim polirrítmico de floreados barrocos. À substância do jazz (há contra-baixo, bateria e diferentes tipos de trombones) junta-se a instrumentação de ordem clássica, que juntamente com as teclas e linhas de sintetizador de Holter e Wada colidem sob o compasso coordenado de “Wether”, tema que se segue sem qualquer tipo de interrupção.



A extensão dos temas que compõem o mais recente disco seriam equilibrados por momentos de maior leveza, com “Sillouettes” ou “Feel You”, temas que integram o disco de 2015, a proporcionar um bonito contraponto com as composições densas e cerebrais de Aviary. Essas tomariam outros níveis com a chegada de “Voce Simul”, com uma interessante justaposição de vozes a criar um paralelismo com as explorações vocais da artista avant-garde norte-americana Meredith Monk. Já “Sea Calls Me Home” e “Les Jeux to You” atingiram novos patamares de intensidade, que culminariam com o extasiante single de avanço do último disco, “I Shall Love 2”, elevando a temática omnipresente do álbum – a alegria – a níveis próximos da apoteose.

Julia Holter joga com a vertigem e o suspense, mas também com o silêncio, que usa como ferramenta essencial para elaboração de paisagens solenes e extremamente profundas, construídas com a minúcia e detalhe de um artesão. A questão de Friedrich Hölderlin, que viria a ser parafraseada pelo poeta e pintor libanês Etel Adnan - “para que servem os poetas nestes tempos indigentes?” – motivou a construção do seu último disco. A resposta, essa, poderá muito bem estar na composiitora e multi-instrumentista de 33 anos, voz maior de uma nova geração de músicos e artistas que nos guiam neste período atribulado e confuso. 



Texto: Filipe Costa
Fotografia: Rui Santos


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domingo, 26 de maio de 2019

Julia Holter dá 3 concertos em Portugal esta semana


É já esta semana que Julia Holter regressa a Portugal para apresentar o excelente e aclamado quinto álbum de estúdio, Aviary. Guimarães, Guarda e Lisboa são as cidades escolhidas para acolher a música e compositora americana.

Criadora de universos singulares, a música de Holter é uma encruzilhada fascinante pelos terrenos tangíveis da pop mais sonhadora e futurista. Depois de atingir a aclamação universal com Loud City Songs (2013) e Have You in My Wilderness (2015), Julia Holter está de regresso às edições com o seu trabalho mais arrojado. Aviary, editado em 2018 sob a alçada da britânica Domino Records, valeu-lhe comparações a artistas como Kate Bush ou Laurie Anderson, marcando um regresso às experimentações pop de Ekstasy, o glorioso segundo álbum de estúdio editado em 2012.

A mini-digressão de Holter em Portugal arranca já amanhã, para a primeira de um total de três datas a começar em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor (o mesmo espaço que a acolheu pela primeira vez em 2012). Acompanhada por Sarah Belle Reid (trompete), Dina Maccabee (violino, viola, voz), Andrew Jones (contrabaixo), Tashi Wada (sintetizadores, gaita de foles) e Corey Fogel (percussão), Julia Holter passa ainda pelo Teatro Municipal da Guarda, no dia 28 de maio, e pelo Capitólio, em Lisboa, para uma performance integrada nas celebrações do 25ª aniversário da ZDB, dia 29 de maio.

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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Weyes Blood, Thurston Moore e Nihvek celebram 25º aniversário da ZDB

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A Galeria Zé dos Bois comemora em 2019 o seu 25º aniversário e para assinalar esta data especial, são vários os artistas que fazem parte da sua história e se vão apresentar numa série de concertos fora de portas. É já na próxima semana que Julia Holter sobe ao Capitólio, seguindo-se Kevin Morby no S. Luiz e os agora anunciados Weyes Blood no B.Leza, Thurston Moore a solo na Igreja de St. George e Nihvek, o novo projecto de Liz Harris (Grouper), também na Igreja de St. George.

Natalie Mering afirmou-se na memória colectiva como uma compositora excepcional, nela reside uma serenidade invulgar e a sua voz abre-nos a porta desse espaço de tranquilidade que é Weyes Blood. Foi no alto da sua sensibilidade que por três vezes desarmou públicos na ZDB, é por isso, um regresso ansiado e pleno de felicidade. Desta vez o encontro será no B.Leza no dia 6 de Novembro. Outro nome incontornável, que dispensa apresentações pomposas é Thurston Moore. A irreverência de Moore sempre concedeu espaço para mais, fundou novos projectos curiosos e insólitos. E, foi através dessa mesma enraizada irreverência que viu na ZDB uma casa para se estabelecer, desta ligação ao seu abrigo lisboeta nasceu um livro resultante de uma residência artística. Neste regresso dá-se uma celebração simbólica, a voz e a guitarra acústica. Encontro marcado para o dia 13 de Julho na Igreja de St. George, local que também receberá Nivhek, uma espécie de entidade paralela em relação ao seu percurso sob Grouper. Resultado de duas residências artísticas (uma nos Açores em parceria com o Tremor e a ZDB e outra na Rússia), o disco duplo After its own dead/ Walking in a spiral towards the house soa definitivamente arrojado como nunca soara antes e apresenta este novo capítulo da melhor forma possível. Por esta altura existe já um elo muito familiar entre Liz Harris e a ZDB num plano de admiração e colaboração contínuas. Como tal, voltar a recebê-la cá, desta vez em duo e na Igreja de St. George, e em tão distinta ocasião, é quase um acto de partilha. 


Para além dos concertos fora de portas a ZDB anuncia ainda parte significativa da programação para os próximos meses. Junho termina da melhor maneira com uma apresentação e estreia da banda CHÃO MAIOR de Yaw Tembe, Norberto Lobo, Leonor Aurnaut, João Almeida, Yuri Antunes e Ricardo Martins que levam Círculos ao Aquário, uma série de composições para 3 sopros, guitarra, voz e bateria. Entre os destaques para o Verão encontram-se também os americanos Prison Religion com um som extremo feito de rimas gritadas, ruído abrasivo e beats que parecem cuspidos pelas entranhas de uma qualquer unidade metalúrgica em estreia nacional no dia 4 de Julho. No dia seguinte um regresso muito aguardado: Sir Richard Bishop, guitarrista e compositor nascido no Arizona que a solo conta já com onze discos editados por cinco editoras diferentes.

A 15 de Julho acontece a primeira edição de Som Crescente um workshop dedicado à performance musical que unirá músicos dos mais diversos quadrantes para apresentações únicas em formato de banda. Peter Evans guiará o workshop todos os meses com a ajuda de um convidado especial. Para a primeira apresentação Peter Evans convida Gabriel Ferrandini. Destaque final para o quarteto de William Parker, Hamid Drake, Luís Vicente e John Dikeman com estreia marcada na ZDB na noite quente de 19 de Julho e com um workshop do mestre Parker, a acontecer no dia anterior.

Além de todos os nomes já referidos, há ainda, entre os previamente anunciados, MC Carol (matiné, 2 de Junho), Cüneyt Sepetçi (matiné, 3 de Junho), a estreia portuguesa dos Built To Spill (5 de Junho), Steve Gunn (4 de Setembro) e os Black Midi, banda sensação da música independente britânica (25 de Setembro). E venham mais 25!

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quinta-feira, 11 de abril de 2019

Tashi Wada Group (e Julia Holter) em Portugal para duas datas



O norte-americano Tashi Wada passa hoje pela Galeria Zé dos Bois, em Lisboa, para o primeiro de dois concertos em Portugal, rumando ao norte dois dias depois para uma performance no Centro Cultural Vila Flor, em Guimarães, inserido na programação da sexta edição do Westway LAB. Filho do compositor japonês Yoshi Wada, um dos membros mais celebrados do movimento Fluxus nos anos 60, Tashi Wada tem vindo explorar as possibilidades da música minimalista, apoiando-se para isso dos mais reputados músicos e artistas, com quem colaborou em diversas edições por respeitados selos como a HEM ou a RVNG Intl., por onde editou o 14º volume da série 'FRKWYS', Nue.

Na sua primeira passagem por Portugal, o músico norte-americano vem acompanhado de ilustres - Julia Holter, que nos visitará também em maio, acompanhará Tashi Wada nas teclas e voz, enquanto o norte-americano Corey Fogel os auxilia na percussão. Fruto de uma residência artística na ZDB, esta será uma oportunidade única para experienciar em primeira mão o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido ao longo dos últimos dias.

A entrada para o concerto em Lisboa possui o custo de 8 euros (10 à entrada), e os bilhetes encontram-se disponíveis na Flur Discos, Tabacaria Martins e ZDB. Em Guimarães, os bilhetes custam 20 euros e garantem acesso a concertos de Jacco Gardner, Batida ou Paraguaii


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quarta-feira, 6 de março de 2019

Jacco Gardner, Tashi Wada Group e Julia Holter na sexta edição do Westway LAB


Pelo sexto ano consecutivo, de 10 a 13 de abril, Guimarães converte-se em cidade da música, ao conjugar de forma inovadora a realização de um evento assente em 3 dimensões: Processo (residências artísticas), Pensamento (Conferências PRO) e Produto (concertos).  

Para a sua sexta edição, o Westway LAB expande-se até ao outro lado do atlântico, apresentando o Canadá como país em destaque para esta edição. A 12 de abril, a representação canadiana no Westway LAB2019 será alimentada pelas vozes femininas das cantautoras Sarah MacDougall e Megan Nash, pelos The East Pointers, os Tribe Royal e, ainda, a dupla Les Deuxluxes. Na mesma noite, e à semelhança do ano passado, o Westway LAB volta a receber um dos eventos de divulgação da mais recente música nacional promovida pelo gabinete de internacionalização da música portuguesa, Why Portugal, que este ano convida Neev, Marta Pereira da Costa e Vaarwell.  

Tendo o Centro Cultural Vila Flor como base de operações, a 6ª edição do evento irá novamente alastrar-se para diversos locais da cidade, através dos city showcases que irão converter Guimarães num grande palco tomado por artistas e público. Durante a tarde de sábado, 13 de abril, vai ser possível encontrar o duo austríaco Mickey, a sueca Elin Namnieks ou os polacos Izzy and the Black Trees, três projetos que integram parte da seleção da rede INES para 2019. Da Grécia chega-nos o multinstrumentista e compositor Theodore. O cartaz compõem-se ainda pelo músico e compositor holandês Jacco Gardner, que apresenta o seu mais recente disco, Somnium, no dia 10 de abril, assim como a cantautora italiana Violetta Zironi, que atua no dia seguinte.  

A representação nacional está entregue aos Holy NothingFrancisco Sales, Beatriz Nunes e o quarteto vimaranense Smartini.  

Na última noite do festival, a música alastra-se pelo CCVF numa grande celebração. Através de um passe geral, pelo valor de 20 euros, vai ser possível assistir aos concertos dos The Black Mamba, Tashi Wada Group feat. Julia Holter, Batida presents The Almost Perfect DJ, Captain Boy, Mister Roland, Paraguaii e Whales. Os primeiros 150 passes dão, ainda, acesso exclusivo ao concerto de abertura com Jacco Gardner.

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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Julia Holter, Puce Mary e Croatian Amor juntam-se à programação da ZDB



Julia Holter sedimentou-se como compositora essencial dos nossos tempos, aprofundando a pop, tornando-a num registo artístico profícuo de tacto barroco. Regressa agora à ZDB para um concerto fora de portas no Capitólio a 29 de Maio (dia 27 no Centro Cultural Vila-Flor e 28 no Teatro Municipal da Guarda). Espectáculo muito especial, inserido nas comemorações do 25º aniversário da ZDB, que apresentará ao longo de todo o ano uma série de concertos fora de portas. 


Na música de Julia Holter há lugar para inúmeros espaços, todos eles ocupados de tudo e até de silêncios que podem parecer vazios, embora sejam esculpidos para se preencherem de respirações que ficam em suspenso. Aviary, editado em 2018, é o seu quinto disco oficial. É mais um lugar suis generis na obra da compositora, um disco repleto de referências, que no entanto, não descura os arranjos vocais ousados regularmente presentes nos trabalhos do passado. Conferem-se momentos de expansão ilimitada, reflectem-se inspirações assumidas — Kate Bush, cânticos tibetanos e música medieval — reconstruindo-se sobre teclas vulneráveis, formando fortalezas sonoras que se aparentam efémeras, mas renascem robustas e culminam em noventa minutos de belas canções. Julia Holter subirá ao palco do Capitólio na presença de sete músicos, momentos de partilha e imponência contrastantes com a solidão do passado, em que a introspecção se agitava no epicentro da sua excentricidade musical.

The Drought (PAN records) é o mais recente trabalho de Puce Mary que cruza o industrial com sonoridades bizarras, uma estreia em Lisboa a acontecer já no próximo dia 20 de Março, com os madeirenses Rui P. Andrade & Aires na primeira parte. E imediatamente na semana seguinte sentir-se-à a sensibilidade pós-humana, por vezes próxima de Arca ou Tim Hecker, do iconoclasta Croatian Amor que põe em prática a melhor feitiçaria em prol de um registo que não pertence ao mundo real. Loke Rahbek apresenta o seu mais recente trabalho Isa (2019) em primeiríssima mão na ZDB no dia 29 de Março. A estes nomes juntam-se os já previamente anunciados Downtown Boys (8 Março), Sarah Davachi (13 Março), Colin Stetson na Igreja de St. George (8 Abril) e Giant Swan (16 Abril).

Josephine Foster, nome incontornável da história da folk norte-americana dos últimos 15 anos, apresenta-se também no aquário do Bairro Alto no dia 3 de abril. A artista  apresenta-se em formato quarteto, contando com a colaboração de Victor Herrero, Rosa Gerhards e Josefin Runsteen .


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sábado, 12 de janeiro de 2019

Os melhores álbuns de 2018


Eleger os melhores discos que ouvimos ao longo do ano não é tarefa fácil. É ingrato para os discos que saem logo no início do ano e que nos parecem tão longínquos no termino do mesmo, é ingrato para os milhares de discos que surgem no mercado, dos quais apenas conseguimos ouvir uma pequena amostra desse universo tão variado. Agora com 2018 bem lá atrás, apresentamos um conjunto de 50 álbuns eleitos como os melhores do ano pela nossa redação.

50- Thou - Magus




49- The Body - I Have Fought Against It, But I Can’t Any Longer




48- The Soft Moon - Criminal




47- Low - Double Negative




46- Death Grips - Year of the Snitch




45- Shame - Song of Praise




44- Lotic - Power




43- Kamasi Washington - Heaven and Earth




42- Avantdale Bowling Club - Avantdale Bowling Club




41- Jorja Smith - Lost & Found




40- Superorganism - Superorganism




39- Let's Eat Grandma - I'm All Ears




38- Clarence Clarity - THINK:PEACE




37- Conjunto Corona - Santa Rita Lifestyle




36- Anguish - Anguish



35- Haru Nemuri - Haru to Shura




34- serpentwithfeet - soil




33- Ovlov - TRU




32- Vessel - Queen of Golden Dogs




31- Melody's Echo Chamber - Bon Voyage




30- Parquet Courts - Wide Awake!




29- Nils Frahm - All Melody




28- Mitski - Be the Cowboy




27- Beach House - 7




26- Kamaal Williams - The Return




25- Clau Aniz - filha de mil mulheres




24- Zeal & Ardor - Stranger Fruit




23- Mount Eerie - Now Only




22- Tommy Cash - ¥€$




21- Deafheaven - Ordinary Corrupt Human Love




20- Confidence Man - Confident Music for Confident People




19- Kero Kero Bonito - Time 'n' Place




18- YOB - Our Raw Heart




17- Sleep - The Sciences




16- Laurel Halo - Raw Silk Uncut Wood




15- Dedekind Cut - Tahoe




14- Tim Hecker - Konoyo




13- Gazelle Twin - Pastoral




12- Elza Soares - Deus é Mulher




11- David Bruno - O Último Tango em Mafamude




10- SOPHIE - OIL OF EVERY PEARL'S UN-INSIDES




9- MGMT - Little Dark Age




8- Yves Tumor - Safe in the Hand of Love




7- Anna von Hausswolff - Dead Magic





6- Earl Sweatshirt - Some rap songs




5- IDLES - Joy as an Act of Resistance


Para quem não esteve a dormir em 2018, o nome IDLES não é completamente desconhecido. O álbum Brutalism com a orelhuda “Mother” causou um bom burburinho (chegou a ser incluído na nossa lista de melhores álbuns do ano anterior em 24º lugar). Contudo nada indicava a força e o impacto que este novo álbum iria revelar. 
Com uma aclamação bastante positiva por parte da crítica, os britânicos tornaram-se num fenómeno e conseguiram roubar o coração de inúmeros fãs. Desde as linhas de baixo musculadas que assinalam o início de “Colossos”, a contagiantes faixas como “Danny Nedelko” ou “Samaritans”, até “Rottweiler”, este álbum está repleto de inúmeras mensagens, tanto políticas, focando-se no BREXIT e nas políticas de imigração inglesas, como pessoais, leia-se a masculinidade tóxica (com referências a vários lutadores de wrestling), o amor ou a auto-estima.
Os IDLES vieram para ficar (já anunciaram um novo álbum para o presente ano) e pretendem fazer as suas vozes serem ouvidas com uma grande atitude e presença honesta. Uma lufada de ar fresco no panorama musical, uns mestres na arte de modernizar o eterno punk.



4- Julia Holter - Aviary


Para deleite dos fãs de música com um fascínio por influxos experimentais, 2018 foi um ano tremendo para a carreira de Julia Holter. O ano que agora finda contemplou o lançamento do incrível quinto álbum da artista, Aviary, em que a mesma não se coibiu de usar todo o seu condão na concepção deste registo e assim revela mais uma vez ser capaz de manusear a sua chamber pop de cariz sonhador e cerebral. 
Com influências substancialmente jazzy pelo meio, envolve partes orgânicas e electrónicas em medidas iguais, com a destreza comparável a de um alquimista que desenvolve proezas com efeitos irreais e arrebatadores, só mesmo lido em livros de mitos e lendas. As faixas “Whether”, “I Shall Love 2” e “In Garden's Muteness” provam um craftsmanship ímpar no panorama da música experimental, sendo partes integrantes daquela que é mais uma adição eficaz na discografia de Holter.



3- Spiritualized - And Nothing Hurt


6 (longos) anos. Foi o tempo que tivemos de esperar por este novo disco de Spiritualized. Uma espera morosa para quem é adepto ferrenho das melodias espaciais e contempladoras de Jason Pierce, mas que obviamente tem razões. Em 2012 foi lhe diagnosticada uma doença grave no fígado devido aos anos de intenso consumo de drogas pesadas, o que acabou por servir de inspiração para a composição de Sweet Heart Sweet Light. Mas não foi só por isto que esperámos este tempo todo por And Nothing Hurt. J. Spaceman também já disse em várias entrevistas que só escreve álbuns quando acha que são um contributo positivo para a sua discografia.
And Nothing Hurt não foi gravado num grande estúdio com vários músicos, técnicos de som e tudo mais a ajudá-lo. Jason Pierce basicamente comprou um portátil, instalou o Pro Tools e ocupou um quarto da sua casa em Londres com a artilharia necessária para gravar este disco. Ele conta-nos que fez isto porque estava falido e não tinha dinheiro para alugar um estúdio “de verdade”.
Neste trabalho voltamos a sentir aqui aquela serenidade espacial incrível, como se tudo o que estivesse errado na nossa vida finalmente fizesse sentido. As melodias ecoam infinitamente pela nossa cabeça, calmas e contemplativas, onde nos podemos imaginar a viajar sem fim pelas estrelas no universo, numa nave espacial desenhada de raiz por J. Spaceman



2- HHY & The Macumbas - Beheaded Totem


Há álbuns que nos fazem questionar a própria definição de jazz. Outros, aquilo que é esse chavão distante e impossível de concretizar que é a música do mundo. Ainda outros ousam em quebrar para lá das barreiras da conotação experimental. Beheaded Totem, álbum de 2018 dos HHY & The Macumbas, é um compacto vitamínico que expande o conceito da música de dança experimental do século XXI. 
As secções de sopro são quase nobres e sacrilégios em simultâneo - a sua dimensão em faixas como "Danbala Propagada" tornam-nas quase adequadas a um enquadramento clássico, não fossem os elementos de improvisação e ecos que quebram a previsibilidade. Os ritmos de dança latinos e africanos preenchem o espaço que rodeia a improvisação dos Macumbas graças aos quatro percussionistas que integram a banda. Entretanto, graças ao mesmo quarteto, faixas como "Ergot Glitter" reformulam a música electrónica de club numa versão electro-acústica pós-tribal. Será ainda impossível esquecer os momentos de maior liberdade musical como "A Scar in the Skull". 
Talvez o melhor ponto de equivalência para este álbum será um intermédio entre o seminal jazz de fusão de Bitches Brew de Miles Davis e os ritmos electrónicos de editoras como a Príncipe Discos. É óbvio que HHY & The Macumbas não é igual a Miles Davis, Chick Corea ou Dave Holland, tal como não é DJ Nigga Fox ou Niagara; é apenas o produto de séculos de música a convergirem num transe ritualístico de jazz de dança. É só, e apenas isso.



1- Daughters - You Won’t Get What You Want


Oito anos após o seu último lançamento, os experimentalistas post-hardcore Daughters regressam com um novo disco, You Won’t Get What You Want, que desconstrói o seu próprio som e o reanima num novo “monstro” sonoro. Partindo do seu autointitulado álbum de 2010, o quarteto liderado por Alexis S.F. Marshall expande e escurece a tonalidade, utilizando efeitos de guitarra e teclados que soam ainda mais esquizofrénicos do que antes. 
O ritmo desenfreado continua a ser um elemento comum, conseguindo mesmo assim obter alguns ritmos mais moderados, uma instrumentação industrial minimalista e um trabalho de bateria inigualável. Os sons que o guitarrista Nicholas Andrew Sadler tira dos seus instrumentos são incomparáveis, e o seu estilo frenético tem poucos contemporâneos.
Os Daughters estão de volta, mas não como antes. Ainda se mantém difíceis de definir, mas com You Won’t Get What You Want reinventaram-se e passaram para algo mais inquietante e catártico, porém mais arrebatador e brilhante que nunca.

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