segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Born In Flamez em entrevista: "Acredito que produzir música eletrónica é algo pós-humano"


Há uma relação indissociável entre o humano e a tecnologia. Criamos as nossas próprias ferramentas e estas, por sua vez, moldaram-se a nós. Para Born in Flamez, a tecnologia chega mesmo a ser "bastante humana". As suas produções são o resultado de uma linguagem sincrética que combina o moderno e o clássico, concebendo uma visão futurista do que a música de dança pode ou não ser.   

Pouco se sabe sobre o seu paradeiro para além da música. Os detalhes sobre a sua vida pessoal são escassos e a máscara que apresenta em palco é representativa da procura por uma identidade neutra e sem género. As suas composições caprichosas, igualmente demolidoras e emocionais, nascem a partir de um ideal pop desconstruído onde a voz detém um grande peso, ao qual se junta uma relação intrínseca com as novas tendências da música electrónica.   

A propósito da sua passagem pela próxima edição do Mucho Flow, falamos com Born in Flamez sobre a sua relação com a música club, a tecnologia e a produção do seu mais recente EP, Impossible Love, que relata uma narrativa de amor queer e libertário no atual clima político.


Começaste com esta faceta muito enigmática, e usas máscara com frequência nas tuas atuações. É também muito difícil encontrar dados sobre a tua vida pessoal. O mistério desempenha um papel importante no teu trabalho? 

Não lhe chamaria mistério, é mais um conceito que eu sigo. Acredito que produzir música eletrónica é algo pós-humano. Tu como que te transformas numa rede meio humana, meio mecanizada, então pensei que não podia definir-me apenas como uma pessoa. Isso e a neutralidade de género são as razões pela qual uso máscara em palco.

O teu nome, Born In Flamez, sugere uma posição muito neutra, seja em relação a género ou ao número de membros do projeto - podia muito bem ser o nome de uma banda. Podes dizer-nos porque escolheste este nome? 

O nome é retirado de um filme chamado "Born in Flames", um filme feminista de ficção científica que trata dos tópicos que quero representar com este projeto - no gender, no borders. É um filme muito, muito bom! Também adoro colaborar, então vario por vezes o número de artistas em palco quando toco ao vivo. Gosto de manter as coisas interessantes para mim e experimentar o máximo de novas formas de expressão possíveis.

Fazes parte de uma nova vaga de músicos e produtores que desafiam as normas da música club. A expressão ‘deconstructed club’ é agora um rótulo usado tanto por críticos como por ouvintes e, recentemente, o crítico musical britânico Simon Reynolds debateu este mesmo grupo de artistas, apelidando a sua música de ‘conceptronica’. Qual é a tua relação perante esta exaustiva teorização da música? Sentes que a tua música se enquadra num único género? 

Eu na verdade não faço club music. Por alguma razão sou frequentemente contratadx no contexto club, mas as minhas faixas são muito mais pop do que qualquer coisa que atribuirias a esse género. 

Trabalho muito com voz e melodias e acredito que sou mais músicx do que sound designer. Acho que os géneros musicais são necessários para as pessoas se informarem sobre a música ou para comunicar gostos individuais, mas como músicx, estou interessadx em experimentar coisas diferentes, por isso é difícil atribuir um rótulo para todas as minhas faixas. Posso estar interessadx em música de coro clássica numa faixa, a fundir gabber com drum n bass e reggaeton na seguinte e a fundir ambos com pop numa terceira. 

Nos meus dj sets passo música de dança futurista - alguma deconstructed club, algum grime, algum ballroom com influências de reggaeton, baile funk e hip hop. Adoro passar música e conectar-me com as pessoas através de uma experiência clubbing partilhada, mas acho que é mais difícil definir a minha própria produção. Posso dizer com certeza que estou sempre a usar a minha própria voz de alguma maneira e que geralmente estou interessada em combiná-la com os sons mais brutos dos clubes. Talvez possas defini-la como pop desconstruída?

Podes falar-nos sobre a ideia por trás do teu último EP, Impossible Love? Particularmente, gostávamos de saber mais sobre o teu processo de gravação.

Impossible Love pondera as restrições e táticas do amor queer no atual clima político. As letras são baseadas em lugares-comuns das comédias românticas e ideais heteronormativos do "único e verdadeiro amor ". As noções do ideal monogâmico heteronormativo e o chamado amor queer "livre" são sondados como pólos binários num mundo de tinder e uma tendência crescente de não comprometimento. A pressão constante do hipercapitalismo aumenta com uma impotência do contacto físico, mas o capitalismo também é construído sobre o ideal de "valores familiares" – "se amas, esqueces o mundo" (e o teu apelo à mudança). Muitas das letras com as quais trabalhei no EP nasceram da necessidade de transportar esta narrativa para a música. Tentei ser realmente fiel a mim mesma e, apesar de me considerar uma pessoa muito política, não senti vontade de cantar sobre o estado do mundo, mas sobre experiências íntimas.  

Gravei as músicas ao longo de 9 meses entre Berlim, Cidade do México e Los Angeles. A minha vida na altura estava numa fase de transição.

Podemos esperar um álbum em breve?

Estou a trabalhar nisso! Talvez no final de 2020, lançar discos tornou-se um processo tão demorado. 

Encontras-te neste momento em digressão com a Bbymutha, que também passará pelo festival. Como te sentes ao partilhar o palco com uma artista tão promissora e talentosa? 

É uma experiência fantástica. Ela é uma pessoa incrível e estou feliz por poder auxiliá-la com os espetáculos. Aprendi muito com ela e o modo como aborda cada performance. 

Planeiam colaborar no futuro? 

Estamos a planear umas jam sessions para janeiro, vamos ver o que sai daqui.

O que podemos esperar da tua atuação no Mucho Flow?

Vou tocar um set de música de dança futurista, com alguns edits pessoais e excertos de algumas das minhas próximas faixas por isso vai ser divertido. 

Quais são os teus planos para o futuro? 

Acabei de lançar um single em julho e o próximo vai sair pela Friends of Friends no dia 31 de outubro com um vídeo, e estou a planear um lançamento gratuito em dezembro com alguns trabalhos em progresso que virão junto com o meu novo merchandising. Os procedimentos vão para uma iniciativa pró-imigração que luta contra a ICE (Imigração e Controlo da Alfândega dos Estados Unidos da América). Depois disso, vou andar em digressão pela América Latina e participar numa residência na Cidade do México, que esperemos que me dê tempo para trabalhar no meu álbum.

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sábado, 26 de outubro de 2019

Shapednoise substitui Mun Sing no Mucho Flow



A organização do Mucho Flow, que se realiza nos próximos dias 1 e 2 de novembro em vários pontos da cidade de Guimarães, anunciou que o concerto de Mun Sing, originalmente agendado para a próxima edição do festival, foi cancelado. No lugar do britânico estará o produtor italiano Shapednoise, que se apresentará em Guimarães dias antes do lançamento do seu novo disco.

Shapednoise é o produtor siciliano Nino Pedone, fundador da REPTICH Recordings e da Cosmo Rhythmatic e autor de obras por selos como a Type ou a americana Hospital Productions, por onde editou o álbum de estreia The Day of Revenge em 2013. Depois de um percurso inovador dedicado às interseções entre o techno e a música industrial, o italiano prepara-se para lançar Anesthesia, o primeiro álbum de Shapednoise em 4 anos. Justin K Broadrick, Drew McDowall, entre outros participam no disco que marcará a sua estreia pela Numbers, dia 8 de novembro.

Este ano, o festival organizado pela promotora Revolve realiza-se pela primeira vez durante dois dias, com concertos distruibuídos por 3 espaços distintos - o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, o antigo edifício dos CTT e o Centro de Artes e Espectáculos São Mamede.

Os passes gerais encontram-se disponíveis ao preço de 30€, enquanto que os bilhetes diários podem ser comprados ao custo de 20€. Já os bilhetes de acesso ao clubbing de cada dia possuem o custo de 10€. 


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segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Anunciada programação diária do Mucho Flow



O Mucho Flow 2019 vai acontecer nos dias 1 e 2 de novembro, em Guimarães. O cartaz do festival conta com artistas como Iceage, Amnesia Scanner, Croatian Amor e Heavy Lungs.

Os concertos vão decorrer em três espaços distintos: o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, o antigo edifício dos CTT e o Centro de Artes e Espectáculos São Mamede.

Hoje foi anunciada a distribuição dos artistas pelos dois dias e começou a venda dos bilhetes diários, por 20€, e os bilhetes de acesso ao clubbing de cada dia, por 10€. Os passes gerais custam 25€ até às 18h de hoje, hora a partir do qual o valor sobe para 30€.

Podem ver a programação diária aqui:



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quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Warm up Mucho Flow: Chinaskee apresenta nova formação no B.Leza a 23 de outubro


A muita aguardada sétima edição do Mucho Flow acontece já daqui a duas semanas e em jeito de promoção o festival vimaranense está a preparar duas noites especiais. Este sábado, dia 19 de Outubro, o Oublá em Guimarães contará com uma noite que trará para a pista alguns dos principais temas das bandas alinhadas para este ano.

A segundo noite de warm up do Mucho Flow é em Lisboa, a 23 de outubro, numa parceria com as noites Tutilipa, e vai servir para Chinaskee apresentar pela primeira vez na capital a sua nova formação - Bernardo Ramos na guitarra, Ricardo Oliveira na bateria e Inês Matos no baixo. Servirá também para ouvirmos canções de todos os discos de Chinaskee, onde se inclui Bochecha, próximo longa-duração a ser editado pela Revolve em 2020.  

O concerto vai ter lugar no B.Leza, a partir das 22h30, com uma série de convidados especiais - Miguel Ângelo, Miguel Estrada, Violeta Azevedo, Rakuun, Bia Maria, Alex D'Alva Teixeira, Filipe Sambado e Primeira DamaA noite contará ainda com a actuação de Savant Fair, jovem produtor e radialista de Lisboa. Os bilhetes para o warm-up lisboeta promovido pela Revolve e a Tutilipa custam 6 euros e estão à venda na Ticketline e locais habituais.

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quarta-feira, 2 de outubro de 2019

Mucho Flow com cartaz fechado



Foi hoje revelado o programa completo da próxima edição do Mucho Flow, o festival dedicado à divulgação das novas tendências da música contemporânea que este ano se estende, pela primeira vez, a dois dias. Em jeito de celebração, o festival vimaranense comemora os dez anos de atividade da editora e promotora Revolve, que organiza o evento desde 2013, e traz mais um cartaz de matriz surpeendentemente eclética. CIAJG (Plataforma das Artes de Guimarães)Edifício dos CTT e São Mamede CAE são os espaços que acolhem o festival durante os dias 1 e 2 de novembro.

Os dinamarqueses Iceage, que também cumprem uma década de existência este ano, são o grande destaque do certame, juntando-se assim ao já confirmado duo finlandês Amnesia Scanner e ao grupo rock britânico Heavy Lungs, assim como os portugueses Dada Garbeck, Chinaskee e o supergrupo Montanhas Azuis, composto por Norberto Lobo, Marco Franco (que também vai tocar a solo) e Bruno Pernadas. A banda de Elias Bender-Ronnefelt regressa a Portugal depois de duas atuações de apresentação do mais recente disco Beyondless em 2018, no Porto e em Lisboa.





A nova música dinamarquesa é ainda representada por um showcase especial da editora escandinava Posh Isolation, também ela a celebrar dez anos em 2019, com a tripleta Damien Dubrovnik, composto pelos fundadores do selo Christian Stadsgaard e Loke Rahbek, que também atua a solo enquanto Croatian Amor, e a cantora-compositora CTM a servir como amostra para uma das mais preciosas labels da década.

De Nova Iorque chega-nos Hiro Kone, que ao lado da produtora espanhola Jasss, também presente no cartaz, e do britânico Mun Sing, membro dos demolidores Giant Swan, prometem trazer a faceta mais fabril da música eletrónica a Guimarães. A germânica Born In Flamez e a MC americana Bbymutha estreiam-se em Portugal no festival, e os portugueses Holocausto Canibal alargam os horizontes do festival à música mais extrema. Djrum, Gabriel Ferrandini, Tendency e Dj Lynce completam o certame.

Os passes gerais encontram disponíveis online ao preço promocional de 25 euros até 25 de Outubro.




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sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Mucho Flow 2019 anuncia primeiras confirmações



O Mucho Flow está de regresso a Guimarães no próximo mês de novembro. A sétima edição do festival que antecipa o futuro da música contemporânea marca também o décimo aniversário da editora e promotora vimaranense Revolve, que organiza o festival desde 2103, e extende-se, pela primeira vez, a dois dias. O evento, que tinha o Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) como berço, expande-se agora para vários salas da cidade e acontece nos dias 1 e 2 de novembro.

As primeiras confirmações já são conhecidas, e a matriz do festival continua a mesma - a da aposta em nomes que vão dar que falar no futuro. Foi assim com  Nadia Tehran, Sega Bodega ou Black Midi, todos eles a assinarem as primeiras atuações em Portugal neste evento.

Este ano, o Mucho Flow celebra a emergência com os finlandeses Amnesia Scanner. A dupla composta por Ville Haimala e Martti Kalliala (ex-Renaissance Man) é uma das mais entusiasmantes apostas da nova música club, e as suas composições aliam uma amálgama polirrítmica de batidas quebradas à mais evoluída tecnologia (ou não fossem eles os criadores de Oracle, voz gerada através de inteligência artifical que complementa boa parte dos seus temas). Another Life, o primeiro longa-duração do duo, é uma epopeia de extremos onde o maximalismo dita a ordem (ou desordem) do cada vez mais apocalítico mundo digital, e mereceu edição pela respeitada editora germânica PANDepois de integrarem o cartaz da última edição do festival Madeiradig, em 2018, os Amnesia Scanner estreiam-se finalmente no continente com uma performance única em Guimarães.

Já os Heavy Lung, que também integram o primeiro leque de confirmações, vêm de Bristol e trazem post-punk com brilho e gravilha. São reflexo de uma nova uma linhagem rock britânica que tem nos Black Midi, Idles e Fontaines D.C. os seus porta-vozes, e contam apenas dois EPs. O seu som é dotado de uma energia invejável, e o seu vocalista é nada mais, nada menos que Danny Nedelko, o imigrante ucraniano que é estrela no teledisco de "Danny Nedelko", dos comparsas Idles. A estreia dos britânicos em Portugal faz-se, também ela, no Mucho Flow.

Os bilhetes encontram-se disponíveis por um número limitado de passes gerais a 20 euros, e podem ser adquiridos aqui.





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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Mucho Flow: uma celebração de música urgente

SKY H1
Foi no passado sábado que se realizou mais uma edição do Mucho Flow, o festival que, anualmente (e ao longo de apenas um dia), tem vindo a propor alguma da melhor oferta cultural à cidade berço, que acolhe o evento desde 2013. Na sua sexta edição, o festival organizado pela Revolve regressou com uma aposta forte na diversidade, propondo um cardápio de luxo que reflete um pouco do que de melhor e mais emergente se anda a produzir nas esferas da música contemporânea. Seguindo uma linha de pensamento coerente para com a edição transacta, que contou, entre outros, com a presença de God Colony, Flohio, Sega Bodega e Nadia Theran, o Mucho Flow voltou ao Centro para os assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) para mais um dia recheado de estreias e novidades, com o grime, o jazz, o rock e a eletrónica a ecoarem bem alto.

O dia começou cedo com os concertos de Huggs e Vaiapraia, que partilharam o palco Noc Noc para dois concertos de acesso gratuito. Seguiu-se o primeiro ato internacional do cartaz, os norte-americanos Ditz, que se estrearam em Portugal para um festim breve mas eletrizante de riffs sujos e contagiantes. Hilary Woods, uma das mais recentes entradas no sempre fascinante repertório da Sacred Bones, foi mais uma das estreias do festival. A música e compositora irlandesa apresentou-se a solo no palco Super Bock, acompanhada de teclado e guitarra elétrica que alternava entre canções de uma pop crua e refinada. Explorando temáticas que vão da tristeza e o abandono à constante mutação do amor, Woods reconfortou o público com o seu próprio desconforto, equilibrando acordes de guitarra despojados com tessituras atmosféricas e industrias geradas por piano e sintetizador.

Fire!
Mais abrasiva seria a performance dos Fire!, que se seguiriam logo após no Palco Revolve. O supergrupo sueco liderado por Mats Gustafsson apresentou-se pela primeira vez em Guimarães para um dos momentos mais poderosos da noite, uma demonstração que juntou peso, virtuosismo e explorações electrónicas. Acompanhado pelos comparsas Johan Berthling, no baixo, e Andreas Werliin, na bateria, o power trio escandinavo apresentou os temas de The Hands, o mais recente trabalho do grupo pela Rune Grammofon, proporcionando aquilo que pode ser descrito não como um duelo, mas sim como um diálogo entre titãs. Aos rasgos desenfreados do saxofone tenor de Gustafsson juntam-se as linhas de baixo certeiras de Berthling e a bateria irrequieta de Werliin, intersectando os terrenos mais libertinos do jazz com a costela omnipresente do rock. Num concerto claramente mais curto que o apresentado uns meses antes em Serralves, os Fire! mostraram-se, no entanto, bem mais focados e concisos, encerrando a performance com um tema explosivo que representa o melhor das experimentações sónicas deste empolgante organismo.

Um dos nomes mais emergentes a surgir da costela da PAN, Sky H1 apresentou-se pela primeira vez em Portugal com uma atuação promissora no palco Super Bock. Depois de um EP pela Codes (do produtor Visionist) e de integrar o alinhamento de mono no aware, a compilação que juntou a produtora belga a Yves Tumor, M.E.S.H e Bill Kouligas, Sky H1 tem vindo a gerar um discreto mas curioso burburinho dentro das esferas do experimentalismo contemporâneo. Perante uma sala não muito composta, a produtora esboçou linhas dissonantes de sintetizador que se juntavam a vozes incorpóreas aplicadas através de samples, produzindo padrões esparsos e circulares carregados de emoção. A atmosfera que gera através das suas composições é multicolor, turva e extremamente profunda, tornando o digital em algo tão humano como o próprio luto, tema que serviu de mote para a produção do seu mais recente EP, Motion. Talvez por isso as reminiscências aos drones de Tim Hecker tenham feito tanto sentido, aproximando o universo frio e complexo da produtora às produções encorpadas e cristalinas do canadiano. 

Black Midi
E porque a urgência é uma das palavras que melhor descrevem este festival, nada melhor do que trazer uns Black Midi em fase embrionária. Composto por quatro jovens estupidamente talentosos, a banda tem vindo a ser descrita como a próxima grande cena britânica, possuindo até à data um único single editado. O corpo de trabalho da banda assume-se, portanto, nas suas atuações ao vivo, onde se demonstram senhores de um som portentoso que bebe tanto das estruturas matemáticas de Louisville (Slint, June of 44, et al) como da estranheza dos PIL (a voz do vocalista poderá ser descrita como um misto entre John Lydon e Nina Simone). As suas músicas são ferozes, intensas e peculiares, mas também complexas e impenetráveis, gerando uma sensação de caos contido que anda sempre próximo da vertigem. Foi sob este ritmo frenético e sufocante que os rapazes se apresentaram no Palco Revolve, conquistando um público babado pela mestria e virtuosismo precoce de um dos mais promissores projetos a surgir da sombra do Reino Unido. 

Se nos Black Midi podemos encontrar uma das forças fundamentais da nova música britânica, em GAIKA encontramos um dos seus maiores representantes. Mais estabelecido que os anteriores, o natural de Brixton tem vindo a assumir-se como força vital da música suburbana, um híbrido de difícil categorização que se insere nos quadrantes do grime e do hip hop menos ortodoxo, aos quais junta influências da cultura caribenha e ainda elementos que vão do bass ao garage. O seu mais recente disco pela Warp, Basic Volume, marca a estreia do MC britânico nos registos de longa-duração. Foi sob este mote que GAIKA se apresentou pela primeira vez no festival vimaranense, onde apresentou uma lição de poesia electrónica no seu estado mais puro, carregada de motivações políticas e apelos à mudança e revolução. Apoiado por boas doses de auto-tune e linhas de baixo de peso, GAIKA revela um universo único, alienígena e sombrio que é reflexo do período obscuro e imprevisível verificado no Reino Unido, que confronta como poucos são capazes. Responsável por um dos momentos mais acesos da noite, GAIKA contagiou os presentes com o seu flow caraterístico e embriagado, envolvendo o espaço numa atmosfera tão densa quanto festiva.

GAIKA
O ritmo frenético continuaria com uma incendiária atuação dos Mourn, o quarteto catalão que regressou a Guimarães para mais um concerto de proporções épicas. Tenros em idade mas maturos na mentalidade, os Mourn apresentam-se mais oleados do que nunca, com um novo disco tão portentoso quanto a energia que apresentaram ao vivo. Perante uma das salas mais cheias da noite, os Mourn provaram ser transcendentes aos rótulos que lhes são atribuídos, mostrando um rock apuradíssimo de influência post-hardcore que ganha pela garra e determinação com que é vociferado. 

A noite não ficaria por aqui, com Nídia a proporcionar duas horas de ritmos e batidas viciantes. Do casamento feliz entre a música tradicional africana e o house aos ritmos sensuais do tarraxo, a produtora conquistou o público com mais um set irrepreensível, dado que se demonstra cada vez mais adquirido. DJ Lynce encerrou uma noite que se fez longa mas sorridente, culminando mais uma edição de luxo do festival que se tem assumido cada vez mais como espaço para a melhor melhor produção contemporânea.

Fotogaleria completa aqui.
Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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domingo, 30 de setembro de 2018

Mucho Flow: 5 concertos a não perder


Encontramo-nos a dias de mais uma edição do Mucho Flow, o evento que, anualmente, antevê as tendências que ditarão o futuro próximo da música. Na sua sexta edição, o evento organizado pela promotora vimaranense Revolve traz-nos mais um edição rica em estreias e novidades, com um certame de luxo que promete colocar a cidade de Guimarães no mapa da vanguarda. Realizado mais uma vez no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA), no dia 6 de outubro, o Mucho Flow volta a oferecer uma pequena amostra da melhor música produzida nas esferas do experimentalismo contemporâneo, apostando nalgumas das suas forças mais vitais.

Em baixo, fiquem com cinco sugestões dos concertos que não podem perder nesta edição.

Sky H1
O percurso de Sky H1 é o de uma curta mas promissora carreira com muito por desvendar. Com apenas dois lançamentos de curta-duração no repertório, a produtora belga integra já o catálogo da Codes, uma subsidiária da germânica PAN por onde editou o mais recente EP, Motion. As suas produções de cunho ambiental, alicerçadas em elementos percussivos esparsos e composições vaporosas, conquistaram os ouvidos da indústria mais atenta, assim como um lugar em algumas das compilações mais emergentes do momento (mono no aware, Bala Comp, Vol.1). Desconstruindo as normas da música de dança, Sky H1 promete agitar as águas com um som que é tão cerebral quanto deliciosamente dançável.



GAIKA
Diretamente de Brixton chega-nos GAIKA. O MC britânico apresenta-se incansável desde 2015, ano em que editou a sua primeira mixtape de produções vaporosas e vozes fantasmagóricas que bebem tanto das raízes jamaicanas como das experiências vividas nos subúrbios londrinos. Spaghetto, EP editado em 2016, viu-o integrar o catálogo da  Warp, a mesma por onde editou o seu primeiro registo de longa-duração. Basic Volume, o nome do disco em questão, vê GAIKA atingir a sua total maturação, apresentando um conjunto coeso de canções politicamente conscientes de apelo à revolução. Do amor nutrido pelos ritmos caribenhos junta-se a poesia aguçada do grime e do hip hop, adornada por um universo alienígena e único de explorações electrónicas que fazem desta uma audição absolutamente imperativa. O reencontro com Portugal acontece dia 6.



Fire!
Os Fire! são Mats Gustafsson (saxofone), Johan Berthling (baixo) e Andreas Werliin (percussão), três músicos da cena exploratória escandinava que, quando juntos, reescrevem as regras do rock e do free jazz através de uma linguagem improvisada em constante mutação. Em 2010, juntaram-se a Jim O’Rourke para uma digressão, resultando dessa colaboração o disco de estreia Unreleased. Desde então, o supergrupo sueco colaborou com o músico e compositor australiano Oren Ambarchi, expandindo-se posteriormente para uma formação de 31 membros como Fire! Orchestra. The Hands, o mais recente álbum dos Fire! e um dos melhores registos do primeiro semestre de 2018, marca o regresso da formação como trio para um trabalho de portentosas explorações sónicas capazes de demolir as fronteiras que separam o rock das suas intersecções com os domínios do jazz. Depois da abrasiva performance efetuada na última edição do Serralves em Festa, Mats Gustafsson e companhia regressam mais uma vez a Portugal para um concerto imperdível, desta feita em Guimarães para mais uma edição do Mucho Flow.



Nídia
Nunca é demais falar de Nídia. A produtora sediada em Bordéus é uma das vozes sonantes da Príncipe, que ao longo da última década tem vindo a impulsionar alguma da produção mais desafiante da esfera da música de dança contemporânea. As suas performances eletrizantes, assim como a presença assídua em alguns dos clubes mais conceituados do mundo têm vindo a cimentar o percurso da produtora como uma das mais inovadoras figuras da electrónica mundialNidia é Má, Nídia é Fudida, o primeiro longa-duração lançado em 2017, assume-se como a sua obra mais recompensadora, uma onde o espírito libertador da noite lisboeta se materializa num equilíbrio perfeito entre a música do subúrbio e as raízes africanas de Nídia, do kuduro à tarraxinha, passando pela batida e o afro-house.



Black Midi
Dos Black Midi ainda pouco se conhece. O seu repertório está longe de ser extenso, por enquanto, com apenas um single disponível desde junho. No entanto, as suas performances ao vivo têm vindo a ser descritas como autênticos festins de explorações sónicas, um híbrido de difícil categorização que junta estruturas complexas e progressivas a lirismos de sarcasmo bem apurado. A presença em festivais consagrados como o Le Guess Who, assim como o apoio por parte de alguns dos meios de comunicação mais especializados (The Fader, NME), fazem deste enigmático quarteto um dos mais curiosos e promissores atos a surgir da sombra do Reino Unido. 



Os horários para o evento também já se encontram disponíveis:


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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O Mucho Flow já tem o cartaz fechado


 O cartaz para a quinta edição do Mucho Flow fechou esta segunda-feira (18 de setembro), com Dedekind Cut (na foto) - produtor norte-americano anteriormente conhecido como Lee Bannon  - e Sega Bodega - produtor escocês, que tem vindo a conquistar as pistas de dança pela sua abordagem única ao UK dance - nos principais destaques. O festival vimaranense, que invade o CAAA - Centro para os Assuntos de Arte e Arquitetura - no dia 7 de outubro, contará ainda com o pop onírioco de Filipe Sambado, o punk-rock trepidante dos 800 Gondomar, o ié-ié minhoto dos El Señor, as cumplicidades da dupla Veer e os novíssimos Młynarczyk e Dada Garbeck, a fechar o lote de anúncios.


Depois dos já anunciados Horse Lords - que se estreiam em Portugal para apresentar o álbum Interventions -, Nadia Tehran, God Colony, Chinaskee & Os Camponeses e Scúru Fitchádu, o cartaz do Mucho Flow conta agora com um total de treze concertos e ainda um dj set que animam Guimarães no primeiro sábado de outubro. A organização volta a estar a cargo da promotora e selo Revolve.


Os bilhetes já se encontram à venda nos locais habituais tendo um preço de 10€. Todas as informações adicionais aqui.

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terça-feira, 19 de julho de 2016

Blanck Mass nas primeiras confirmações do Mucho Flow 2016



Foram hoje confirmados os primeiros nomes da quarta edição do festival Mucho Flow. O festival vimaranense que já contou com nomes como Amen Dunes, CAVE, Circuit des Yeux e Girl Band volta a realizar-se no CAAA - Centro para os Assuntos de Arte e ArquiteturaO destaque das primeiras confirmações vai para Blanck Mass, o projeto a solo de Benjamin John Power dos Fuck Buttons e que irá apresentar o seu segundo disco Dumb Flesh em Guimarães. Quem também está confirmado são os NAKED, grupo escocês que se apresentará pela primeira vez em Portugal, assim como os portugueses Toulouse, banda da casa que regressa ao festival onde se apresentaram ao vivo pela primeira vez.

O festival realiza-se no dia 8 de outubro e os bilhetes encontram-se disponíveis ao preço de 10 euros, e podem-se adquirir aqui.


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