domingo, 17 de fevereiro de 2019

[Review] Montanhas Azuis - Ilha de Plástico

Ilha de Plástico | Revolve | fevereiro de 2019
9.0/10


A Revolve, editora e promotora portuguesa, serviu de casa a algumas das colaborações mais interessantes dos últimos tempos da música portuguesa - é impossível esquecer projectos como Filho da Mãe & Ricardo Martins, PAPAYA (Bráulio Amado, Óscar Silva e Ricardo Martins) ou Chinaskee & Os Camponeses serão os nomes que mais rapidamente nos saltam à cabeça. No dia 15 de fevereiro, chegou um novo supergrupo à Revolve. Montanhas Azuis, a combinação hipnagónica de Norberto Lobo, Marco Franco e Bruno Pernadas, tem como primeira manifestação Ilha de Plástico, um álbum que existe entre o sonho, a pop experimental e o jazz.

Há algo de perfeitamente natural no aparecimento de Montanhas Azuis: Norberto Lobo afirmou-se primeiro como um dos primeiros proponentes de uma nova vaga de primitivismo americano em Portugal e tornou-se mais tarde numa figura incontornável do jazz português, Bruno Pernadas sempre se caracterizou na interface da indie e de grandes produções de jazz, enquanto Marco Franco sempre habitou os campos do jazz, tendo trabalhado no passado com artistas como Rodrigo Amado e até mesmo com Norberto Lobo em Estrela, editado em 2018 pela editora suíça three:four records. O terreno que esta cordilheira encontra em comum, um pop-jazz sem semblante, é maioritariamente composto por Marco Franco, baterista do projecto, e dificilmente se aproxima de alguma coisa em concreto - talvez haja alguns elementos de pop espacial e electrónica progressiva à la Mort Garson, talvez um pouco de easy-listening interacalado com jazz modal, talvez guitarras reminescentes dos 70s ou de uma ilha tropical perdida no pacífico - o que importa verdadeiramente é que, por muito que se decomponha a Ilha de Plástico, ela continua a existir como um elemento único no arquipélago de edições de qualquer um dos artistas.

© Vera Marmelo 
O tema que abre o disco, "Ilha de Plástico", é a entrada subtil que as Montanhas Azuis oferecem nesta meia hora de fantasia composta quase exclusivamente por Marco Franco - um improviso modal de uma guitarra distorcida, encharcada, irreconhecível, sobre uma sequência repetitiva de acordes cria a letargia que acompanha todo o álbum. Depois desta "A Lotus On Irish Streams" da idade espacial, "Faz Faz" abre uma nova fase do sonho e intromete-se com uma dream pop orelhuda que, de alguma maneira mágica, cria o prelúdio ideal para a profunda calma da guitarra e sintetizadores de "Flor de Montanha" existirem. 

"Dezanove Acordes" consegue mais uma vez mudar o panorama do álbum como um tema pop forasteiro e jingão, não impedindo que "Nuvem Porcelana", uma ode à música progressiva electrónica subitamente transite para um ímpeto em vocoders contagiante e arpejos hipnotizantes. "Sururu", a única faixa composta por Norberto Lobo, segue-se e pede emprestados os vocoders que se destacaram na música anterior, em mais uma demonstração de uma sensibilidade pop admirável. 

"Duas Ilhas" vê o piano a surgir como um elemento considerável, enquanto uma guitarra deslizante e um sintetizador ominoso contagiam os espaços vazios. "Coral de Recife" revela uma vez mais uma estrutura fortemente assentada em algo profundamente orelhudo e contagiante, deixando os improvisos de teclado criarem a agradável estranheza que acompanha todo o álbum. Em jeito de despedida, "Marianas", tema gravado no MagaFest de 2018, é o único que junta os três músicos na composição e na sua simplicidade deixa pena por simbolizar o fim daquele que é um disco tremendo. Montanhas Azuis fecham assim Ilhas de Plástico, numa sobreposição lenta entre erguer e adormecer, reforçando a hipnagogia que marca todo o álbum.

É difícil tecer comentários gerais sobre o álbum que não sejam puramente qualitativos - Ilha de Plástico é um álbum tão hipnotizante como brilhante, tão inovador como estranhamente familiar. Num disco onde tudo parece ter razão para existir, só se torna difícil ouvir o silêncio que os poucos segundos finais protagonizam - esta viagem cujo destino não importava, este sono do qual não queríamos acordar, inevitavelmente acaba. E não há nada a fazer a não ser reouvir esta Ilha de Plástico e viajar pelos mares que a rodeiam.

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

STREAM: Montanhas Azuis - Ilha de Plástico


Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas são Montanhas Azuis, o mais recente projeto dos três virtuosos músicos e exploradores portugueses que editam hoje Ilha de Plástico. O aguardado disco de estreia do grupo, que recebe o selo da editora e promotora vimaranense Revolve, encontra-se agora disponível em todas as plataformas.

Ilha de Plástico junta os três músicos para um trabalho de essência insular. Os caminhos trilhados pelo trio ao longo das nove peças que compõem o disco cruzam rendilhados bucólicos e hipnotizantes, abstrações deformadas em linhas de sintetizador e desenvolturas harmónicas de ordem jazzística que colidem, lentamente, em camadas texturizadas de rugosidade analógica pura e imediata.

A primeira oportunidade para o ouvir ao vivo acontece precisamente hoje, dia 15 de fevereiro, na Culturgest em Lisboa, onde o trio se fará acompanhado pelas imagens de Pedro Maia, o guia cinemático desta aventura excursionista que conta colaborações com artistas tão notáveis como Fennesz, Vessel ou Demdike Stare. 

Em baixo, fiquem então com as belíssimas canções que compõem Ilha de Plástico.


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terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Montanhas Azuis apresentam Ilha de Plástico na Culturgest


Chega em Fevereiro às lojas e aos palcos o disco que junta Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas. Ilha de Plástico, o longa duração a ser editado pela Revolve, sela a colaboração que os três músicos iniciaram no ano passado sob o nome Montanhas Azuis. A primeira oportunidade para o ver ao vivo já está marcada: dia 15 de Fevereiro na Culturgest, em Lisboa. O single de avanço "Faz Faz" já se encontra disponível.   
O combo de Marco Franco, Norberto Lobo e Bruno Pernadas remete-nos para sul, para um continente isolado, e para paisagens desconhecidas nos caminhos trilhados pelos três virtuosos. Assim, o grupo cruza os rendilhados bucólicos de Lobo, o expressionismo de Franco e a desenvoltura harmónica de Pernadas num exercício geográfico novo para os membros desta contração de paragens tão distintas. Sintetizadores e guitarras colidem, lentamente, em camadas texturizadas com rugosidade analógica. O que acontece em concerto às mãos deste trio de luxo é perene, e habita esse espaço plena e singularmente. As imagens também estão presentes pelas mãos de Pedro Maia, o guia cinemático desta aventura excursionista.  
Os bilhetes para o concerto de apresentação do álbum custam entre 6€ (com descontos) a 12€ e estão à venda nas bilheteiras da Culturgest e online.

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domingo, 20 de janeiro de 2019

STREAM: Dada Garbeck - The Ever Coming


Dada Garbecknovo projeto do vimaranense Rui Souza, editou na passada sexta-feira (18 de janeiro) o seu disco de estreia com o selo da Revolve, The Ever Coming. Este longa duração é o primeiro tomo de uma quadrilogia onde a música serve com ponto de reflexão sobre a teoria do eterno retorno e a dimensão não linear do tempo. "This is not Mysanthropy " foi o primeiro avanço de The Ever Coming.

  

Recorrendo aos sons analógicos de uma era em que a música se complexificava excessivamente, Dada Garbeck despe-se de artifícios técnicos para a deixar aguçada e incisiva. O que fica, qual sedimentação textural de melodias que se harmonizam camada em camada, é um caminho mais expressionista, em que cada nota tem um propósito clínico de mover ou impactar. O vimaranense constrói a sua paisagem, rugosa e escarpada, de frase em frase, inscrevendo nos tímpanos cada intenção e sensação, algo que o disco de estreia The Ever Coming firma com clareza.

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quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Mucho Flow: uma celebração de música urgente

SKY H1
Foi no passado sábado que se realizou mais uma edição do Mucho Flow, o festival que, anualmente (e ao longo de apenas um dia), tem vindo a propor alguma da melhor oferta cultural à cidade berço, que acolhe o evento desde 2013. Na sua sexta edição, o festival organizado pela Revolve regressou com uma aposta forte na diversidade, propondo um cardápio de luxo que reflete um pouco do que de melhor e mais emergente se anda a produzir nas esferas da música contemporânea. Seguindo uma linha de pensamento coerente para com a edição transacta, que contou, entre outros, com a presença de God Colony, Flohio, Sega Bodega e Nadia Theran, o Mucho Flow voltou ao Centro para os assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) para mais um dia recheado de estreias e novidades, com o grime, o jazz, o rock e a eletrónica a ecoarem bem alto.

O dia começou cedo com os concertos de Huggs e Vaiapraia, que partilharam o palco Noc Noc para dois concertos de acesso gratuito. Seguiu-se o primeiro ato internacional do cartaz, os norte-americanos Ditz, que se estrearam em Portugal para um festim breve mas eletrizante de riffs sujos e contagiantes. Hilary Woods, uma das mais recentes entradas no sempre fascinante repertório da Sacred Bones, foi mais uma das estreias do festival. A música e compositora irlandesa apresentou-se a solo no palco Super Bock, acompanhada de teclado e guitarra elétrica que alternava entre canções de uma pop crua e refinada. Explorando temáticas que vão da tristeza e o abandono à constante mutação do amor, Woods reconfortou o público com o seu próprio desconforto, equilibrando acordes de guitarra despojados com tessituras atmosféricas e industrias geradas por piano e sintetizador.

Fire!
Mais abrasiva seria a performance dos Fire!, que se seguiriam logo após no Palco Revolve. O supergrupo sueco liderado por Mats Gustafsson apresentou-se pela primeira vez em Guimarães para um dos momentos mais poderosos da noite, uma demonstração que juntou peso, virtuosismo e explorações electrónicas. Acompanhado pelos comparsas Johan Berthling, no baixo, e Andreas Werliin, na bateria, o power trio escandinavo apresentou os temas de The Hands, o mais recente trabalho do grupo pela Rune Grammofon, proporcionando aquilo que pode ser descrito não como um duelo, mas sim como um diálogo entre titãs. Aos rasgos desenfreados do saxofone tenor de Gustafsson juntam-se as linhas de baixo certeiras de Berthling e a bateria irrequieta de Werliin, intersectando os terrenos mais libertinos do jazz com a costela omnipresente do rock. Num concerto claramente mais curto que o apresentado uns meses antes em Serralves, os Fire! mostraram-se, no entanto, bem mais focados e concisos, encerrando a performance com um tema explosivo que representa o melhor das experimentações sónicas deste empolgante organismo.

Um dos nomes mais emergentes a surgir da costela da PAN, Sky H1 apresentou-se pela primeira vez em Portugal com uma atuação promissora no palco Super Bock. Depois de um EP pela Codes (do produtor Visionist) e de integrar o alinhamento de mono no aware, a compilação que juntou a produtora belga a Yves Tumor, M.E.S.H e Bill Kouligas, Sky H1 tem vindo a gerar um discreto mas curioso burburinho dentro das esferas do experimentalismo contemporâneo. Perante uma sala não muito composta, a produtora esboçou linhas dissonantes de sintetizador que se juntavam a vozes incorpóreas aplicadas através de samples, produzindo padrões esparsos e circulares carregados de emoção. A atmosfera que gera através das suas composições é multicolor, turva e extremamente profunda, tornando o digital em algo tão humano como o próprio luto, tema que serviu de mote para a produção do seu mais recente EP, Motion. Talvez por isso as reminiscências aos drones de Tim Hecker tenham feito tanto sentido, aproximando o universo frio e complexo da produtora às produções encorpadas e cristalinas do canadiano. 

Black Midi
E porque a urgência é uma das palavras que melhor descrevem este festival, nada melhor do que trazer uns Black Midi em fase embrionária. Composto por quatro jovens estupidamente talentosos, a banda tem vindo a ser descrita como a próxima grande cena britânica, possuindo até à data um único single editado. O corpo de trabalho da banda assume-se, portanto, nas suas atuações ao vivo, onde se demonstram senhores de um som portentoso que bebe tanto das estruturas matemáticas de Louisville (Slint, June of 44, et al) como da estranheza dos PIL (a voz do vocalista poderá ser descrita como um misto entre John Lydon e Nina Simone). As suas músicas são ferozes, intensas e peculiares, mas também complexas e impenetráveis, gerando uma sensação de caos contido que anda sempre próximo da vertigem. Foi sob este ritmo frenético e sufocante que os rapazes se apresentaram no Palco Revolve, conquistando um público babado pela mestria e virtuosismo precoce de um dos mais promissores projetos a surgir da sombra do Reino Unido. 

Se nos Black Midi podemos encontrar uma das forças fundamentais da nova música britânica, em GAIKA encontramos um dos seus maiores representantes. Mais estabelecido que os anteriores, o natural de Brixton tem vindo a assumir-se como força vital da música suburbana, um híbrido de difícil categorização que se insere nos quadrantes do grime e do hip hop menos ortodoxo, aos quais junta influências da cultura caribenha e ainda elementos que vão do bass ao garage. O seu mais recente disco pela Warp, Basic Volume, marca a estreia do MC britânico nos registos de longa-duração. Foi sob este mote que GAIKA se apresentou pela primeira vez no festival vimaranense, onde apresentou uma lição de poesia electrónica no seu estado mais puro, carregada de motivações políticas e apelos à mudança e revolução. Apoiado por boas doses de auto-tune e linhas de baixo de peso, GAIKA revela um universo único, alienígena e sombrio que é reflexo do período obscuro e imprevisível verificado no Reino Unido, que confronta como poucos são capazes. Responsável por um dos momentos mais acesos da noite, GAIKA contagiou os presentes com o seu flow caraterístico e embriagado, envolvendo o espaço numa atmosfera tão densa quanto festiva.

GAIKA
O ritmo frenético continuaria com uma incendiária atuação dos Mourn, o quarteto catalão que regressou a Guimarães para mais um concerto de proporções épicas. Tenros em idade mas maturos na mentalidade, os Mourn apresentam-se mais oleados do que nunca, com um novo disco tão portentoso quanto a energia que apresentaram ao vivo. Perante uma das salas mais cheias da noite, os Mourn provaram ser transcendentes aos rótulos que lhes são atribuídos, mostrando um rock apuradíssimo de influência post-hardcore que ganha pela garra e determinação com que é vociferado. 

A noite não ficaria por aqui, com Nídia a proporcionar duas horas de ritmos e batidas viciantes. Do casamento feliz entre a música tradicional africana e o house aos ritmos sensuais do tarraxo, a produtora conquistou o público com mais um set irrepreensível, dado que se demonstra cada vez mais adquirido. DJ Lynce encerrou uma noite que se fez longa mas sorridente, culminando mais uma edição de luxo do festival que se tem assumido cada vez mais como espaço para a melhor melhor produção contemporânea.

Fotogaleria completa aqui.
Texto: Filipe Costa
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Passatempo: Ganha bilhetes para o Mucho Flow 2018

SKY H1 © Camille Blake
Mucho Flow é um evento organizado pela Revolve que todos os anos se realiza no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) em Guimarães (a cidade onde nasceu esta promotora). Esta será a sexta edição do certame que todos os anos (e ao longo de um único dia) oferece à sua audiência uma amostra da música que se anda a produzir nas esferas do experimentalismo contemporâneo. GAIKAblack midiFire!SKY H1Mourn, Hilary Woods, Ditz, Nídia, Vaiapraia e as Rainhas do Baile, Huggs e DJ Lynce são os nomes que fazem parte do cartaz.



Em parceria com a Revolve, estamos a oferecer dois bilhetes duplos para o Mucho Flow, no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) em Guimarães, que se realiza no dia 6 de Outubro. Se queres ser um dos contemplados só tens de participar neste passatempo e seguir as instruções em baixo:

1. Seguir a Threshold Magazine no facebook.

2. Partilhar este passatempo no facebook em MODO PÚBLICO e identificar pelos menos 2 amigos.



3. Preencher o seguinte formulário:



O passatempo termina no dia 4 de outubro às 22:00, e os bilhetes serão sorteados de forma aleatória através da plataforma www.random.org.

Boa sorte!



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Atualizado às 8h10 de 5 de outubro de 2018

Os vencedores do passatempo são:
Ricardina Estefânia da Oliveira
João Pedro Baptista Marques



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domingo, 30 de setembro de 2018

Mucho Flow: 5 concertos a não perder


Encontramo-nos a dias de mais uma edição do Mucho Flow, o evento que, anualmente, antevê as tendências que ditarão o futuro próximo da música. Na sua sexta edição, o evento organizado pela promotora vimaranense Revolve traz-nos mais um edição rica em estreias e novidades, com um certame de luxo que promete colocar a cidade de Guimarães no mapa da vanguarda. Realizado mais uma vez no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA), no dia 6 de outubro, o Mucho Flow volta a oferecer uma pequena amostra da melhor música produzida nas esferas do experimentalismo contemporâneo, apostando nalgumas das suas forças mais vitais.

Em baixo, fiquem com cinco sugestões dos concertos que não podem perder nesta edição.

Sky H1
O percurso de Sky H1 é o de uma curta mas promissora carreira com muito por desvendar. Com apenas dois lançamentos de curta-duração no repertório, a produtora belga integra já o catálogo da Codes, uma subsidiária da germânica PAN por onde editou o mais recente EP, Motion. As suas produções de cunho ambiental, alicerçadas em elementos percussivos esparsos e composições vaporosas, conquistaram os ouvidos da indústria mais atenta, assim como um lugar em algumas das compilações mais emergentes do momento (mono no aware, Bala Comp, Vol.1). Desconstruindo as normas da música de dança, Sky H1 promete agitar as águas com um som que é tão cerebral quanto deliciosamente dançável.



GAIKA
Diretamente de Brixton chega-nos GAIKA. O MC britânico apresenta-se incansável desde 2015, ano em que editou a sua primeira mixtape de produções vaporosas e vozes fantasmagóricas que bebem tanto das raízes jamaicanas como das experiências vividas nos subúrbios londrinos. Spaghetto, EP editado em 2016, viu-o integrar o catálogo da  Warp, a mesma por onde editou o seu primeiro registo de longa-duração. Basic Volume, o nome do disco em questão, vê GAIKA atingir a sua total maturação, apresentando um conjunto coeso de canções politicamente conscientes de apelo à revolução. Do amor nutrido pelos ritmos caribenhos junta-se a poesia aguçada do grime e do hip hop, adornada por um universo alienígena e único de explorações electrónicas que fazem desta uma audição absolutamente imperativa. O reencontro com Portugal acontece dia 6.



Fire!
Os Fire! são Mats Gustafsson (saxofone), Johan Berthling (baixo) e Andreas Werliin (percussão), três músicos da cena exploratória escandinava que, quando juntos, reescrevem as regras do rock e do free jazz através de uma linguagem improvisada em constante mutação. Em 2010, juntaram-se a Jim O’Rourke para uma digressão, resultando dessa colaboração o disco de estreia Unreleased. Desde então, o supergrupo sueco colaborou com o músico e compositor australiano Oren Ambarchi, expandindo-se posteriormente para uma formação de 31 membros como Fire! Orchestra. The Hands, o mais recente álbum dos Fire! e um dos melhores registos do primeiro semestre de 2018, marca o regresso da formação como trio para um trabalho de portentosas explorações sónicas capazes de demolir as fronteiras que separam o rock das suas intersecções com os domínios do jazz. Depois da abrasiva performance efetuada na última edição do Serralves em Festa, Mats Gustafsson e companhia regressam mais uma vez a Portugal para um concerto imperdível, desta feita em Guimarães para mais uma edição do Mucho Flow.



Nídia
Nunca é demais falar de Nídia. A produtora sediada em Bordéus é uma das vozes sonantes da Príncipe, que ao longo da última década tem vindo a impulsionar alguma da produção mais desafiante da esfera da música de dança contemporânea. As suas performances eletrizantes, assim como a presença assídua em alguns dos clubes mais conceituados do mundo têm vindo a cimentar o percurso da produtora como uma das mais inovadoras figuras da electrónica mundialNidia é Má, Nídia é Fudida, o primeiro longa-duração lançado em 2017, assume-se como a sua obra mais recompensadora, uma onde o espírito libertador da noite lisboeta se materializa num equilíbrio perfeito entre a música do subúrbio e as raízes africanas de Nídia, do kuduro à tarraxinha, passando pela batida e o afro-house.



Black Midi
Dos Black Midi ainda pouco se conhece. O seu repertório está longe de ser extenso, por enquanto, com apenas um single disponível desde junho. No entanto, as suas performances ao vivo têm vindo a ser descritas como autênticos festins de explorações sónicas, um híbrido de difícil categorização que junta estruturas complexas e progressivas a lirismos de sarcasmo bem apurado. A presença em festivais consagrados como o Le Guess Who, assim como o apoio por parte de alguns dos meios de comunicação mais especializados (The Fader, NME), fazem deste enigmático quarteto um dos mais curiosos e promissores atos a surgir da sombra do Reino Unido. 



Os horários para o evento também já se encontram disponíveis:


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quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Reportagem: No Age [Hard Club, Porto]


Os No Age já não são estranhos para ninguém. Entre vários concertos e festivais, o duo natural de Los Angeles foi estabelecendo uma relação duradoura com o público português, que os recebeu novamente para as duas primeiras datas em Portugal em cinco anos. O reencontro fez-se na semana passada em Lisboa, na ZDB, seguindo-se o Porto com um concerto no Hard Club ao lado dos portugueses El Señor

Formados em 2005, o duo composto por Dean Spunt, baterista, e Randy Randall, guitarrista, nasceu do interesse mútuo pela cena DIY, que canonizaram ao longo da adolescência e rapidamente alcançaram com um contrato pela mítica Sub Pop, essa meca da música independente por onde editaram três álbuns de estúdio – Nouns (2008), Everything In Between (2010) e An Object (2013). Snares Like a Haircut, o regresso do duo às edições sob a alçada da norte-americana Drag City, serviu de mote para o reencontro com o nosso país.

“Cruise Control”, o poderoso tema de abertura de Snares Like a Haircut, deu o pontapé de arranque, mostrando um duo longe de se encontrar em piloto automático. No seu primeiro álbum em cinco anos, os No Age encontram-se mais maduros, confiantes e confortáveis com as peripécias que a vida lhes tem vindo a proporcionar. Agora pais e casados, o duo está de regresso e em boa forma, com um disco aclamado pela crítica internacional especializada que o tem vindo a descrever como a sua obra mais progressiva e aprimorada, uma onde a frustração jovial e furiosa dos primeiros registos encontra finalmente a paz, abrindo caminho para um trabalho de meticulosa coerência.


Percorrendo um alinhamento extensivo, o duo intercalou os temas mais recentes do repertório com algumas das canções mais marcantes da sua já longa carreira, desde potenciais hinos esquecidos – “Sleeper Holder”, “Glitter”, “Fever Dreaming” – a novos capítulos de uma carreira que parece não ceder à passagem do tempo - “Send You”, “Drippy”, “Stuck In The Charger”. 

“Teen Crips”, esse grito que marcou a quintessência dos No Age, não escapou ao ânimo inevitável do escasso mas conhecedor público que se apresentava na sala 2 do Hard Club, que cantou e celebrou a fúria contida de um tema que soa tão refrescante como soava há dez anos atrás. “Every Artist” e “Boy Void”, temas que inauguram Weirdo Rippers, recordaram os passos iniciais dos No Age como força vital do espírito enraizado no mítico The Smell (o mesmo espaço que emoldurou a compilação de 2007), encerrando esta onda nostálgica ao som de mais duas canções do acarinhado disco de estreia, “Miner” e “Ripped Knees”. 

Entre novidades e revivalismos, os No Age proporcionaram um serão ruidoso e abafado de canções ricas em textura, distorção e a intensidade que sempre nos acostumaram, reunindo novos e antigos fãs para uma noite de celebração do som que marcou uma década.

 No Age + El Señor [Hard Club, Porto]

Texto: Filipe Costa
Fotografia: Edu Silva

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terça-feira, 11 de setembro de 2018

Esta semana: No Age em Portugal para duas datas


O reencontro com os norte-americanos No Age faz-se esta noite. O duo noise-rock apresenta-se novamente em terras lusas para duas datas de apresentação do mais recente álbum Snares Like a Haircut, o quarto dos naturais de Los Angeles e primeiro sob a cinta da Drag City (casa mãe para nomes como Circuit des Yeux, Ty Segall ou Joanna Newson).

Formados em 2005, os No Age demarcaram-se desde o início como "embaixadores" de um dos mais icónicos espaços do circuito DIY californiano, o mítico The Smell por onde já passaram algumas das identidades mais urgentes do movimento. Desde então seguiram-se três discos de estúdio pelo selo importantíssimo da Sub Pop, assim como uma carrada de concertos, tours e presença em alguns dos festivais mais badalados. Snares Like a Haircut, o primeiro disco em 5 anos, marca uma nova etapa do duo e tem vindo a ser descrito pela crítica internacional especializada como o seu registo mais aprimorado. 

O coletivo atua hoje na Galeria Zé dos Bois (com Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs Pigs e Sun Blossoms na abertura), rumando ao norte para uma atuação no Hard Club no dia seguinte (pela mão da vimaranense Revolve). Os bilhetes para o concerto do Porto já se encontram à venda por 12 euros, disponíveis na Ticketea e bilheteira do Hard Club. 

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segunda-feira, 30 de julho de 2018

Mucho Flow 2018 desvenda os primeiros nomes do seu cartaz


O Mucho Flow é um evento organizado pela Revolve que todos os anos se realiza no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) em Guimarães (a cidade onde nasceu esta promotora). Esta será a sexta edição do certame que todos os anos (e ao longo de um único dia) oferece à sua audiência uma amostra da música que se anda a produzir nas esferas do experimentalismo contemporâneo. E a julgar pelas primeiras confirmações, parece que o foco da programação não se alterou: GAIKAblack midiFire! e SKY H1.



GAIKA é já um conhecido nosso, tendo-nos visitado há dois anos atrás por ocasião do Milhões de Festa e ainda este ano veio à Zé dos Bois. O londrino que lançou a semana passada o LP Basic Volume via Warp Records tem redefinido a paisagem sonora da música negra, transportando o som das ruas para um novo plano que é simultaneamente mecânico, escuro, experimental e melódico. Num diálogo constante entre as raízes jamaicanas e a infância passada em Brixton, a música que faz é síntese electrónica com partículas vindas do grime, dance hall, garage, hip hop ou R&B, que transporta “o verdadeiro som de Londres” para um universo digital e alienígena e, por isso mesmo, único.



A partilhar o voo vindo de Londres com o Gaika teremos os black midi. O quarteto é caracterizado pela sua sonoridade frenética, inventiva e elástica, que atravessa vários limites: do math, ao prog e até do post-punk. Com apenas um single editado, gravado num par de horas em estúdio, o colectivo, que se estreia agora em Portugal, tem vindo a deixar um rasto de actuações memoráveis um pouco por toda a Inglaterra, país que fervilha debaixo das crescentes tensões raciais e económicas. Hot topics que marcam o seu contemporâneo mas acima de tudo, problemáticas palpáveis que são indiscutíveis catalisadores para a força motriz dos black midi.


© Johan Bergmark
Os Fire! são por Mats Gustafsson (saxofone), Johan Berthling (baixo) e Andreas Werliin (percussão). Três músicos da cena exploratória da Escandinávia que alcançaram o estatuto de lendas e que atuam juntos sobre o pseudónimo Fire! desde o ano de 2009. OFire! já assumiram diversas formas: em 2010 andaram em digressão com o Jim O’Rourke, resultando dessa colaboração o LP Unreleased, lançado no ano seguinte; em 2012 colaboraram com Oren Ambarchi, resultando dessa colaboração o LP In The Mouth - A Hand; em 2013, expandiram-se para 31 membros, formando a Fire! Orchestra e editando o álbum Exit. Atualmente, os Fire! atuam em formato trio (com o alinhamento original dos 3 membros fundadores da banda) e lançaram este ano The Hands, um LP que nós consideramos ser um dos melhores álbuns do primeiro semestre deste ano.



A última aquisição deste leque de confirmações do Mucho Flow é SKY H1, uma produtora belga que se dedica à construção de paisagens sonoras etéreas. Lançou em 2016 o EP Motion com o selo de qualidade da prestigiada PAN e garantiu um lugar no belíssimo Mono No Aware, uma das melhores compilações de IDM editadas no ano transacto (podem ler a crítica ao mesmo aqui).

O Mucho Flow tem lugar no dia 6 de outubro, no Centro para os Assuntos da Arte e Arquitetura (CAAA) em Guimarães, e os bilhetes custam 10 euros.

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quarta-feira, 20 de junho de 2018

Há festa de verão no Anjos70 esta sexta-feira


É na próxima sexta-feira que a Spring Toast, a Revolve e a Colado vão-se juntar para dar as boas vindas ao verão que tanto esperávamos. Sun Blossoms, Chinaskee & Os Camponeses e Co$tanza foram as "colheitas" escolhidas para este evento, e nada melhor para celebrar a chegada do sol do que o lançamento de novos registos destas bandas. Co$tanza vai apresentar o seu EP de estreia 1 Ano de Celibato, 100 Kali Uchis, e podem ouvir a primeira faixa deste projecto aqui. Chinaskee & Os Camponeses vão editar e apresentar o EP Metro e Meio também neste dia, estando depois disponível para audição nas plataformas habituais. E por fim (mas não por último), Alexandre Fernandes alem de actuar como BRONZE nessa tarde, vai também apresentar o seu novo EP como Sun Blossoms intitulado Cruising, que podem ouvir em baixo.

 

Este evento batizado com o nome Colheita de Verão irá acontecer no dia 22 de junho pelas 17 horas no Anjos70, com o preço dos bilhetes a custar 4 euros. Podem ver os horários das actuações aqui.


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