Ontem foi o dia em que o jazz-punk pós-aquático das Sereias finalmente invadiu o Understage do Rivoli. Uma casa bem composta esteve presente nesta noite onde foi apresentado o seu álbum de estreia, O País a Arder, lançado pelaLovers & Lollypopsno passado dia 5 de novembro.
Nós marcámos presença neste concerto que aconteceu no âmbito do Porto/Post/Doc 2019 e que pode ser revisitado através da fotogaleria em baixo ou aqui.
No próximo dia 29 de novembro, o palco do Understage/Rivoli servirá para apresentar o disco de estreia de Sereias, intitulado O País a Arder.
Enquanto o país arde de tédio, as Sereias mergulham uma vez mais com o seu jazz-punk pós-aquático nas águas turvas do junk-zapping pré-píxelástico de Francisco Laranjeira. Um concerto de Sereias promete um ambiente imersivo e sinestésico. Arquivos de filmes super 8, fitas VHS, ruído analógico, video-feedback e glitch, manipulados ao vivo através de instrumentos virtuais e software dedicado, interagem com a poesia mordaz de A. Pedro Ribeiro e seus mascadores sónicos de barba rija. Durante a performance serão usadas imagens dos filmes "Porto Abril 1975", "O 11 de Março de 1975" e "O 25 de Novembro depois…" de José Alves de Sousa, realizados nas ruas do Porto durante o PREC.
O concerto, uma co-produção Rivoli/Lovers & Lollypops, acontece no âmbito do Porto/Post/Doc 2019 e o preço do seu bilhete é de 7 €.
Chega hoje às plataformas online O País a Arder, o disco de estreia dos Sereias. Com selo Lovers & Lollypops, o LP será apresentado ao vivo no Understage do Rivoli - Teatro Municipal do Porto, a 29 de novembro, no âmbito do Porto/Post/Doc, e em Lisboa a 5 de dezembro, no Sabotage.
Os concertos serão acompanhados pelo vídeo de Francisco Laranjeira, que usará imagens dos filmes "Porto Abril 1975", "O 11 de Março de 1975" e "O 25 de Novembro depois…" de José Alves de Sousa, realizados nas ruas do Porto durante o PREC. Os discos físicos estarão disponíveis para compra em ambas as datas.
Os Sereias são: António Pedro Ribeiro (voz), Arianna Casellas (voz), João Pires (bateria), Julius Gabriel (saxofone), Nils Meisel (sintetizadores), Sérgio Rocha (guitarra) e Tommy Luther Hughes (baixo), Celestino Monteiro (documentação) e Francisco Laranjeira (vídeo).
Há um novo festival em Esposende. O Estaleiro, evento que promete levar música a Esposende, acontece nas instalações do Estaleiro Naval da cidade e conta com a presença de Eric Copeland, músico americano que integrou, em tempos, a formação dos seminais Black Dice, grupo que, juntamente com os Wolf Eyes, Lightning Bolt ou Ponytail abalaram de forma indelével o circuito alternativo da América de início do século XXI. A solo, Copeland assina uma sólida carreira, explorando os limites da música eletrónica ao longo de mais de uma dezena de lançamentos. Trogg Modal Vol. 2 é o seu mais recente disco, editado em março último pela DFA Records, e sucede o primeiro volume do disco com o mesmo nome, também lançado pelo selo de James Murphy no ano transacto.
O cartaz do evento, que se realiza ao longo de uma única noite, conta ainda com um cardápio luxuoso de intérpretes portugueses, como é o caso do lendário Allen Halloween, ao qual se junta o humor atípico dos nortenhos Conjunto Corona, o impetuoso supergrupo portuense Sereias, os Iguanas de Lourenço Crespo e Leonardo Bindilatti e a dupla Ohxalá para as horas mais tardias.
Os bilhetes para a primeira edição do Estaleiro, dia 28 de setembro, encontram-se disponíveis em breve e em pré-venda ao preço de 10 euros.
O Estaleiro é uma co-produção do NICE - Núcleo de Intervenção Cultural de Esposende e d’A Macho Alfa - Associação Cultural, de Barcelos, com o apoio da Câmara Municipal de Esposende e da Associação Fórum Esposendense.
2018 foi mais um bom ano para a música portuguesa, com vários projetos nacionais a surgirem e mostrarem o seu talento.
Aqui ficam, por ordem alfabética, os novos nomes da música portuguesa que mais nos surpreenderam e mais potencial demonstraram ter. São artistas que devem dar que falar no futuro, mas que merecem ser ouvidos desde já.
Vindos da região portuguesa com a reputação de menor entropia, os COMPADRES, colectivo composto pelos DJs/turntablists Dj Sims, Fatinch e Mr. Mendez mostram que o Alentejo não esteve parado. Ao longo de sete temas, tiram o pó ao soul, arrastam o funk do armário dos vinis e numa nova roupagem de hip-hop assentam COMPRADES, EP de estreia auto-intitulado. Este compacto de sons orgânicos foi feito para o Movimento Alentejo Unido, uma plataforma cooperativa de união, promoção e organização de cultura urbana alentejana, mas não só.
Oriundos de Aveiro e com o rock como segunda natureza, os Cosmic Mass emergem com doses substanciais de psicadélia a rasgar, por via de, segundo os próprios, "riffs pesados e melodias hipnotizantes". Para além das influências que partem tanto da golden age do rock psicadélico (Jimi Hendrix, Led Zeppelin, Cream), como da "nova" guarda (Queens of the Stone Age, King Gizzard and The Lizard Wizard), os membros da banda também possuem uma destreza instrumental que resulta em trips sonoras igualmente alucinantes e cativantes, e uma química significativa entre os mesmos. O álbum de estreia, Vice Blooms, está mesmo aí à porta.
Formados em 2015, os portuenses FERE são um coletivo que conta com Jaime Manso (baixo), João Pedro Amorim (guitarra), Pedro Alves (baixo) e José Pedro Alves (bateria) nas suas fileiras, nomes já conhecidos da cena nacional de post-rock. Em 2016, o grupo foi convidado pelo Teatro Experimental do Porto a compor a banda sonora da peça de teatro Nunca Mates o Mandarim tendo sido interpretada ao vivo durante as apresentações da peça no Teatro Nacional São João. No ano passado, a banda estreou-se finalmente ao vivo, apresentando composições baseadas no post-rock mas com momentos mais pesados que se aproximam da sonoridade de grupos como Isis ou Sumac e já em 2018 editaram o seu primeiro álbum, Montedor, com o selo da Raging Planet.
HRNS é o duo composto por Afonso Arrepia Ferreira (FARWARMTH) e Rui P. Andrade, dois jovens músicos e produtores que exploram a beleza insustentável do drone, presente nas suas composições frias e lascivas carregadas de emoção. Aquando de um encontro em Lisboa e de uma atuação no EKA Palace, os dois produtores juntaram esforços para a elaboração de um novo projeto, sendo After the Angels o resultado dessa junção. Composto por três faixas originais, o EP de estreia foi editado pela britânica ACR, que editou também os mais recentes trabalhos de Rui P. Andrade e FARWARMTH.
O techno está a ganhar mais vida e os Judas Triste, banda sediada no Porto e fundada por David Machado, Dora Vieira e Nuno Oliveira, anunciam ao planeta uma nova era de escuridão embevecida pelos experimentalismos eletrónicos que lhe dão origem. Os Judas Triste estreiam-se nas edições com o novo disco homónimo, na casa Favela Discos e é entre descargas explosivas de distorção, atmosferas misteriosas e um ambiente áspero e fortemente inspirado na improvisação que o trio apresenta um disco coerente e conciso, claramente a demarcá-los como uma das bandas revelação do ano. Num total de seis canções que espelham o seu metatechno profético, os Judas Triste registam as suas incursões às profundezas da imaginação e todo este disco funciona como uma viagem explorativa ao seu mundo singular.
Killian resulta da união de Diogo Sanches e Bruno Gonçalves. Este é um dos projetos da Troublemaker Records, editora que aposta no melhor R&B contemporâneo e nacional. Em 2017 estiveram presentes no Festival Termómetro, mas foi em 2018 que o falatório se intensificou com várias atuações na capital. Foi prometido ainda este ano o lançamento do seu álbum de estreia, Flawed Ego, no entanto apenas nos chegaram aos ouvidos os singles “Good Habits” e “Let Me In”, onde é um notória uma excelente produção, deixando-nos certamente com água na boca para mais novidades.
Para os bons conhecedores de música nacional, Mathilda já não é um nome estranho. O projeto a que cantautora vimaranense Mafalda Costa dá a cara editou no final do ano passado o seu primeiro single, “Lost Between Self Expression and Self Destruction”, mas foi em 2018 que embarcou numa série de aventuras pelo nosso país, encantando tudo e todos com a sua voz doce e suave, em atuações de cariz bem intimista (nós que o digamos no ZigurFest). Ora com ukulele ora com guitarra elétrica, consegue aquecer corações com as suas canções de filigrana e veludo, onde retrata e suporta as fragilidades de uma artista bastante madura, mas que ainda só tem 18 anos.
O quarteto que se divide entre Lisboa e Beja é formado por Afonso Serro (teclas), Vicente Booth (guitarra), João Spencer (baixo) e João Romão (bateria). Influenciados pelos valores de BADBADNOTGOOD, Kamasi Washington, J Dilla, Yussef Kamaal, Bruno Pernadas, entre outros, editaram em maio o seu EP de estreia homónimo, composto por cinco canções instrumentais deveras orelhudas e pegajosas onde fundem o hip-hop com o jazz. É sempre bom ver que há espaço para o jazz de fusão continuar a evoluir no nosso país, como também são exemplo os Bruma.
Os Melquiades são uma banda de rock experimental lisboeta formados por António Agostinho (guitarra), Diogo Sousa (bateria), Luís Lucena (baixo) e João Nascimento (sintetizadores). O quarteto, que adota ritmos e harmonias latinas na sua sonoridade, diz-se influenciado por Bruno Pernadas, Mars Volta e até pelos seus desenhos animados de infância favoritos. Compostos por membros dos Moullinex e QuartoQuarto, os Melquiades são capazes de criar sons particularmente únicos. Editaram em setembro o seu EP de estreia, Oyster Eggs, onde os trocadilhos, desenhos animados e boa onda se misturam e invadem tanto os nomes das músicas como o nome do próprio EP.
A Troublemaker Records continua a dar cartas, e a Killian junta-se NESS. Alter ego que nasceu nas ruas de Sintra, NESS conta-nos a sua perspectiva sobre o que é viver num mundo onde desde pequena teve que aprender a definição de auto-reflexão, independência e perdão. NESS apresentou em 2018 o seu primeiro single, “Karma”, de influências R&B, soul e eletrónica, afirmando a sua inquietação lírica e graciosidade pela melodia. Já com várias músicas produzidas (como se poder ver na setlist de um concerto que a artista deu no Musicbox em julho), espera-se ansiosamente pelo seu EP de estreia, MESS.
ORLA é o primeiro trabalho a solo de João Pedro Amorim (FERE, Memoirs of a Secret Empire). Mass trata-se de uma viagem cíclica e exploratória pelo universo vizinho, de onde se vê a orla daquele em que julgamos estar. Entre o uso ocasional de instrumentos como o trompete e a guitarra eléctrica, os sintetizadores representam o espaço, ao mesmo tempo que o ocupam e a massa aumenta. Já o tempo, por si só não existe, logo a viagem nunca acaba.
Tomás Frazer é um produtor lisboeta conhecido no mundo da música sob o moniker de Oströl. Com raízes no classicismo, foi pianista e conviveu com a música de Bach, Mozart e Schubert, algo que não o impediu de apostar em sonoridades eletrónica de ritmos mais hipnóticos e densos. Editou em fevereiro o seu álbum de estreia Austral Sounds, pela lisboeta Rotten \\ Fresh, onde é bem audível o uso recorrente de samples, texturas sintéticas e atmosféricas, intercaladas com momentos mais dançáveis, havendo ainda algum espaço para sons de cariz oriental envolvidos em negrume (oiça-se a faixa que título).
O Álbum Desconhecido de P. ADRIX junta-se ao longo catálogo da Princípe Discos de estreias absolutamente avassaladoras. Por entre os ritmos de batida, com um forte ênfase em síncopes reminescentes de DJ NIGGA FOX e uma certa densidade psicológica que DJ FIRMEZA trouxe com Alma Do Meu Pai, P. ADRIX navega habilmente como um conjurador de ritmos de dança aparentemente desconectados. Nascido em Lisboa e com ascendência angolana, encontrou casa em Manchester há 3 anos, algo que se faz sentir ao longo de Álbum Desconhecido - ora ubíquos, ora distantes, ritmos da club scene britânica intrometem-se no pós-kuduro do produtor lisboeta. Neste registo, batida angolana é produzida sublimemente e encharcada de grime e jungle, transportando o ouvinte para a selva urbana de P. ADRIX
António M. Silva apresenta-se ao mundo como Sal Grosso e editou em outubro o seu álbum de estreia através da recém-fundada combustão lenta records. Gravado em casa do próprio durante o inverno de 2017 e o verão de 2018, Lets all just go wild and put our hands in the air a bit é o resultado humilde de uma série de ensaios improvisados com teclados obsoletos, máquinas ruidosas e vários pedais e processadores de efeitos. No seu primeiro registo de longa-duração, o produtor propõe um trabalho criterioso de música sonhadora e desacelerada que vive nos (e dos) territórios comuns ao ambient, noise e minimalismo.
Caracterizam-se como jazz-punk pós-aquático e são formados pelo poeta António Pedro Ribeiro (voz) , Sérgio Rocha (guitarra), João Pires (bateria), Nils Meisel (sintetizadores) e Tommy Luther (baixo). Vêm do Porto com as suas músicas longas movidas a noise rock e no wave irregular. No meio de todo este caos cacofónico, António Pedro Ribeiro declama ferozmente os seus poemas, sendo acompanhado nas performances ao vivo por Kenneth Stitt, homem de speedo que dança livremente com os seus longos braços e pernas, vociferando por vezes algo indecifrável ao microfone.
Simão Simões lançou pela Rotten \\ Fresh o álbum strel, onde apresenta uma sonoridade marcada pela IDM e pelo Glitch. É um disco constantemente interessante, onde sons são cortados, repetidos e manipulados de forma a criar ritmos complexos e dinâmicos em conjunto com ambientes sonoros atmosféricos. Há momentos relaxantes, outros dançáveis e outros que pedem toda a nossa atenção para apreciar a sobreposição e mistura de várias texturas. Não faltam também boas melodias e samples, assim como sons sintetizados que nos puxam para o mundo digital criado pelo artista de Setúbal. strel está entre o melhor da música eletrónica portuguesa.
Nihilus é o disco de estreia de Bruno Costa sob o moniker Spiralist, editado em maio pelo selo Microfome. Criado tanto como uma reação à morte de projetos musicais e bandas anteriores, como devido à necessidade de materializar a sua visão artística, Nihilus conta a história de um personagem sem nome que é gradualmente corrompido pela entidade epónima do álbum, a nível físico, psicológico e até mesmo moral, num conto metafórico que espelha os efeitos da depressão em si. Para fãs do black-metal e de elementos da música doom, hardcore-punk e ambient.
Os Terebentina, sexteto com base no Porto, têm vindo a agitar o cenário independente da Invicta com algumas das performances mais abrasivas que nos recordamos de assistir nos últimos tempos, delineando os limites da experimentação com um som que tem tanto de refrescante como de familiar. Influenciados pela corrente exploratória e subversiva da América dos anos 1970, de Glenn Branca a DNA, os Terebentina apresentam um conjunto portentoso de canções de difícil categorização, uma exploração expressiva e visceral que só sente o conforto na vertigem.
Em 2007, o harpista Eduardo Raon, a pianista Joana Sá e o violoncelista Luís André Ferreira criaram um ensemble de música improvisada que dá pelo nome de Powertrio. Agora em 2018 foi a vez de Luís José Martins, na guitarra clássica, e Nuno Aroso, percussionista, se juntarem a este trio e formarem o coletivo Turbamulta. Estes cinco músicos são responsáveis por uma sonoridade clássica contemporânea e minimalista, e editaram em março o seu disco de estreia homónimo, com o selo da Clean Feed. Neste último podemos encontrar melodias oníricas e delicadas, texturas enigmáticas e articuladas, tudo com base no improviso.
vau é o projeto onde Nuno Craveiro revela uma faceta completamente oposta à do seu outro projeto Névoa, com seis composições ambiente/drone cuidadosamente trabalhadas durante os últimos quatro anos. ways of stilness é o seu primeiro lançamento a solo e um disco bastante pessoal, atingindo o seu objetivo de imergir o ouvinte num espaço de tranquilidade onde o tempo parece ter abrandado através, especialmente, dos inúmeros field recordings utilizados. ways of stilness foi editado no passado mês de novembro pela britânica Whitelabrecs.
O ZigurFest realizou entre 29 de agosto e 1 de setembro a
sua oitava edição, recebendo em Lamego vinte e quatro dos nomes mais criativos e inovadores
da música nacional. Foram quatro dias em que a música se fundiu com o vasto património
milenar apresentado pela cidade, propagando-se por oito palcos - Teatro Ribeiro
Conceição, sala de Grão Vasco do centenário Museu de Lamego, Núcleo
Arqueológico da Porta dos Figos, Castelo, largo da Olaria, Parque Isodoro
Guedes (também conhecido como Alameda), Largo da Cisterna e Capela de Nª. Srª.
da Esperança.
Como já passaram umas algumas semanas após o ZigurFest, decidimos escolher os concertos que mais gostámos nesta edição. Infelizmente não estivemos presentes no primeiro dia, que contou com as atuações de Ulnar + Sal Grosso, Zarabatana e Dullmea.
Mathilda – 30 de agosto
Após algum tempo à procura da Capela de Nª. Srª. da Esperança, conseguimos chegar a tempo do concerto de Mafalda Costa, cantautora vimaranense mais conhecida por Mathilda. Completamente à pinha, já não cabiam mais pessoas no adro da capela, cuja iluminação criava o ambiente intimista certo para a ocasião. Dona de uma voz doce e suave, com apenas um ukulele nas mãos e acompanhada por Gobi Bear (Diogo Pinto) na guitarra acústica, como já é costume, Mathilda aqueceu os corações de todos os presentes com as suas canções de filigrana e veludo, onde retrata e suporta as fragilidades de uma artista bastante madura, mas que ainda só tem 18 anos. Ouviram-se na capela temas como “Oddest of Things”, primeira música que lançou com 17 anos, “Unloved”, música de Gobi Bear que conta a colaboração de Emmy Curl em estúdio, e ainda “No Love Song”, onde Mathilda ficou sozinha em palco com a sua guitarra elétrica. Pediu para sermos gentis pois ainda está a aprender a lidar com esta situação. E nós assim o fomos.
Sereias – 30 de agosto
Não há muitas bandas em Portugal que nos preparem para o que
vimos esta noite. Caracterizam-se como jazz-punk pós-aquático e dão pelo nome
de Sereias. Formados pelo poeta António Pedro Ribeiro e Kenneth Stitt na voz, Sérgio
Rocha na guitarra, João Pires na bateria, Nils Meisel nos sintetizadores e
Tommy Luther no baixo, a banda do Porto apresentou-se no palco Alameda com as suas
longas músicas movidas a noise rock e no wave irregular. No meio de todo o
caos, as atenções estavam especialmente focadas em António Pedro Ribeiro, que declamava
ferozmente os seus poemas enquanto a banda tocava, e em Kenneth Stitt, homem de
speedo que dançava livremente com as suas longas pernas e braços, vocifernado por
vezes algo indecifrável ao microfone. Esquizofrenia é a palavra certa para definir este
concerto.
André Gonçalves é um dos exploradores sónicos mais relevantes
do panorama nacional, ora através da construção de sintetizadores modulares
pela ADDAC, ora através da música que produz. Música Eterna (2015) é o melhor
exemplo disso, “álbum” que existe dentro de uma aplicação para iOS e permite compor
música que nunca se irá repetir, “recorrendo a uma partitura que joga com múltiplos blocos sonoros que vão desfilando com o tempo, encaixando miraculosamente sem nunca nos deixar desamparados pelo aparente jogo de sorte”.
No Castelo de Lamego não foi diferente e André presenteou-nos com um set de
colagens onde convivem sons do quotidiano com algumas vozes e por vezes alguns
glitches, ao género de Oneohtrix Point Never. Perante a música ambiente que se
fazia sentir, o público sentia-se relaxado, havendo até quem se deitasse na
relva e fechasse os olhos para sentir todas as singularidades da viagem.
David Bruno – 31 de agosto
Na primeira incursão do festival no Teatro Ribeiro Conceição, fomos assistir à apresentação d’O Último Tango em Mafamude, álbum editado este ano por David Bruno e muito aclamado pela crítica, onde expressa o seu amor pela cidade de Vila Nova de Gaia, revestindo-se de roupagens dos anos 90, enriquecidas com ritmos de hip-hop, um imaginário soul e músicas românticas. Iniciou o concerto com “Alfa Romeu e Julieta”, música sobre os domingueiros que só tiram o carro da garagem aos domingos. Agradeceu por não estarmos a assistir ao concerto dos Amor Electro, que essa noite estavam também a atuar em Lamego. Acompanhado pelos calorosos solos de guitarra de Marquito, esse prodígio de Barcelos, pelas representações visuais do seu álbum como fundo e, não esquecendo, pelo naperon a adornar a sua mesa de mistura, David Bruno interpretou temas como “Monte da Virgem Platónico”, “Amor Anónimo”, onde há a famosa referência a Marante e Toy, “Mesa Para Dois”, onde nos recomendou a comermos no balcão dos snack bars e a mantermos vivas as travessa de alumínio. Foi com “Lamborghini na Roulotte”, música que o artista só apresenta ainda ao vivo, que o público entrou completamente em delírio. Após uma pequena pausa em que foram lançados para a audiência bases de copo alusivas ao Último Tango em Mafamude, David regressou ao palco para terminar a atuação com “150 mL”, tema da altura em que o artista respondia por dB.
Foi uma experiência incrível ver esta personagem caricata interpretar as suas músicas tão tipicamente portuguesas que nos enchem de um orgulho imenso.
NU – 31 de agosto
Quem também atuou no Teatro Ribeiro Conceição foram os NU. A banda veio de Santo Tirso e apresentou-se em palco com sete elementos, apesar de serem um sexteto formado por Rui Pedro Almeida na voz, Miguel Filipe Silva e Vitor Duarte nas guitarras, André Soares no baixo, Ricardo Coelho na bateria e Urbano Ferreira na eletrónica. Apresentaram o seu rock experimental bem aguerrido e desconcertante, com uma percussão violenta, influenciado por nomes lendários como os Swans, Einstürzende Neubauten e os Mão Morta. Aliás, eram bem notórias as semelhanças do vocalista com Afonso Luxúria Canibal, tanto na voz como no seu estilo devaneante em palco. O elemento extra presenteou-nos com o seu saxofone, o que conferiu um carácter ainda mais experimental à atuação da banda. Durante quase uma hora estivemos perante um ambiente psicologicamente denso dotada de visuais negros e niilistas, em que a banda não se dirigiu ao público.
Os Lavoisier foram os primeiros a entrar em ação no último dia do ZigurFest no palco da Olaria. A dupla formada por Patrícia Relvas e Roberto Afonso recria a tradição musical portuguesa, respeitando a lei da conservação da matéria do químico Antoine Lavoisier: "Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", interpretação esta que assenta no minimalismo da guitarra e a voz (e corpo) moldável de Patrícia. Partiram para Berlim em 2009, mas decidiram regressar em 2013 para viver apenas da música. Em Lamego apresentaram o seu disco É Teu (2017), tocando temas como “Vira”, uma versão de “Marcolino” de Fausto Bordalo Dias, “Romance do Cego”, música tradicional portuguesa que a avó de Bragança cantava, “Estátua”, resultante de um poema de Judith Teixeira, “Fauna”, música que retrata o quão bonito e assustador pode ser viver ao pé do mar, e “Opinião”, coisa que toda a gente tem. O duo aventurou-se também num tema novo, “Frustração”, que irá fazer parte de um novo trabalho onde vão musicar Miguel Torga. Nada melhor que um situação ao vivo para testar a força das canções.
The Dirty Coal Train – 1 de setembro
Todos sabemos que quando menos esperamos algo de extraordinário acontece. Foi isso que aconteceu com os Dirty Coal Train, banda que veio substituir à última da hora os Moon Preachers. O trio formado por Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues, na guitarra e voz, e Nick Suave, na bateria, editou em maio o novo álbum Portuguese Freakshow e conseguiu vir até Lamego atuar pois estava a passar férias ali perto. Só precisaram que alguém lhes emprestasse uns instrumentos. Uma das guitarras até estava assinada por Malcolm Young, membro falecido dos AC/DC. Ao todo foi quase uma hora de garage punk puro e duro, com direito a mosh e a crowdsurf por parte do endiabrado público. Não menos endiabrados, Ricardo e Beatriz andaram também pelo público a dar tudo, dando a oportunidade a algumas pessoas de agarrarem no micro e gritar o que lhes ia na alma. Dose diária recomendada de rock para aqueles que assistiram a este vendaval.
Scúru Fitchádu – 1 de setembro
Para quem nunca tinha visto Scúru Fitchádu ao vivo e só tinha ouvido algumas músicas em casa, nada os podia preparar para a bojarda que aí vinha. O relógio já marcava as 3h da manhã quando Marcus Veiga aka Sette Sujidade entrou no palco Alameda com o seu produtor. Scúru Fitchádué um projeto que vive para as atuações ao vivo, dono e senhor de uma música bastante física e intensa, a qual não dá para viver sentado. Funde a distorção e o ruído do punk com os ritmos dançantes do funaná de Cabo Verde e a bass music. Isto tudo cantado vigorosamente em crioulo, com a ajuda de uma faca que bate freneticamente sobre o ferro e nos “obriga” a dançar até mais não. Foi um concerto que se prolongou por mais de uma hora e nos obrigou a ir aos limites. Incrível, épico, o melhor concerto desta edição do ZigurFest.
P.S.: Um dos melhores festivais nacionais, o ZigurFest mostrou-se em excelente forma, excecionalmente organizado. Integrado nas festividades de Lamego, funcionou como uma alternativa às festas mais populares, permitindo chamar público de todas as idades. Os belíssimos locais onde se dão os concertos são muito bem escolhidos e adequam-se perfeitamente ao tipo de música e à cidade milenar de Lamego. O convívio com bandas é bastante facilitado e podemos ver de perto como tocam pois não há barreiras entre nós e estas. Toda a cidade é contagiada pelo ZigurFest e nós sentimo-nos bem a fazer parte dessa família. Esperamos voltar por muitos e bons anos.
O ZigurFest vai para a sua oitava edição, continuando a espalhar o caos musical nas ruas de Lamego. De 29 de agosto a 1 de setembro, a cidade recebe 24 nomes emergentes da música portuguesa, espalhados por 8 palcos, do qual se destaca o Teatro Ribeiro Conceição, a sala de Grão Vasco do centenário Museu de Lamego, o Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos, o Castelo de Lamego, o largo da Rua da Olaria, o espaço verde do Parque Isodoro Guedes (também conhecido como Alameda), o Largo da Cisterna e a Capela de Nª. Srª. da Esperança. Serão quatro dias em que a música se funde com o vasto património milenar apresentado por Lamego.
Ao mesmo tempo, a Casa do Artista (localizada no histórico Bairro do Castelo) transforma-se numa galeria temporária onde estarão albergados os trabalhos das artistas em residência da Sofia Mascate e da Serena Barbieri. Adicionalmente, serão apresentadas duas peças da autoria de Manuel Guimarães e João Pedro Fonseca, havendo ainda espaço para dois workshops ligados à produção musical, por twistedfreak e Francisco Pina.
A celebração da música e arte portuguesa arranca a 29 de agosto, com o concerto de Ulnar + Sal Grosso no Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos (17h30), e encerra com a maratona electrónica dos 2Jack4U na Alameda, no Sábado de madrugada. A entrada no festival é completamente gratuita.
Caminhem connosco pelas ruas de Lamego, passo a passo.
29 de agosto
O primeiro dia do ZigurFest conta apenas com três espetáculos e a colaboração caseira Ulnar + Sal Grosso é a primeira a abrir as hostes nesta oitava edição. O Núcleo Arqueológico da Porta dos Figos vai receber às 17h30 o que de melhor se faz em Portugal na música ambiente e noise. Às 18h30 rumamos todos ao Largo da Cisterna para assistir à atuação de Zarabatana. O trio feérico de Yaw Tembe, Bernardo Alvares e Carlos Godinho traz consigo O Terceiro Corno, a imprevisibilidade e um transe eterno sustentado pelo diálogo voluptuoso entre percussões, contrabaixo e trompete. Por fim, Dullmea, máscara que Sofia Faria Fernandes enverga em palco, atua às 22h00 na Sala de Grão Vasco no Museu de Lamego. Com um disco editado em 2018, Dullmea remete-nos para os tempos transcendentes e delicados daquele álbum da Björk gravado só com vozes.
30 de agosto
O segundo dia de ZigurFest estende-se a outros espaços de Lamego, entre eles o palco Castelo, onde os Mazarin abrem o dia às 17h30. O quarteto editou este o seu EP de estreia homónimo, composto por canções instrumentais deveras orelhudas e pegajosas onde fundem o hip-hop com o jazz, na mesma onda dos valores de BBNG e Eabs. A festa continua no palco Castelo com os Terra Chã às 18h30. Formados por Fabrizio Reinolds (dj, coleccionador e produtor) e Ricardo Fialho (Inversus), editaram o seu EP de estreia, Dupla Insolariade, pela recém-formada Zabra Records, subsidiária da ZigurArtists, e são donos de uma house mais onírica. A dança como libertação é o mote para uma hora de ginga baleárica que não vamos esquecer tão cedo.
É já de barriga cheia que vamos assistir ao concerto de Mathilda pelas 21h30. A cantautora vimaranense lançou em novembro do ano passado , com apenas 17 anos, o single “Lost Between Self Expression and Self Destruction” e desde aí que tem estado nas bocas do mundo da música nacional mais alternativa. Em Lamego vamos encontrá-la envolta num cenário especial, a Capela de Nª. Srª. da Esperança, onde vai apresentar as suas canções de filigrana e veludo, pensadas para expor e sustentar bravamente as suas fragilidades, tocadas ora por um ukulele, ora por uma guitarra eléctrica. Às 23h00 fazemos a primeira incursão do festival no palco Alameda para assistir ao concerto de Gume, um dos ensembles mais entusiasmantes do país. Formados por Yaw Tembe, Pedro Monteiro, Sebastião Bergmann, André David, Tiago Fernandes e David Menezes, trazem o seu groove de cosmologia afro-futurista para nos fazer dançar e celebrar com alma à luz de nomes como Fela Kuti, Sun Ra, Last Poets ou The Roots.
Quando se atingirem as doze badaladas é a altura de ouvir o canto das Sereias no palco da Alameda. A banda do Porto que ainda está a dar os seus primeiros passos é movida a noise rock feroz e no wave sem forma, destino aparente ou referências óbvias. Agarrem-se bem para esta viagem. Continuando na Alameda, o último concerto da noite (01h00) fica a cargo de Inversus, projeto do produtor Ricardo Fialho. Activo há mais de uma década em Portugal, Ricardo estreou-se finalmente a solo em 2017 pela Zigur com Sobrena. Em Inversus ouvem-se laivos de synth-pop, hip-hop, electro e outras variantes da música electrónica - sempre com uma embalagem policromática e psicadélica qb.
31 de agosto
André Gonçalves vai presentear-nos com a primeira atuação do dia, às 17h30, no palco Castelo. André tem-se cimentado como um dos exploradores sónicos mais fundamentais além e aquém fronteiras. Fá-lo sempre com as mãos comandadas pelo coração: seja na construção de synths modulares pela ADDAC, seja na música, Eterna como gosta de a apelidar. Continuando no castelo, às 18h30 é a vez das Savage Ohms, quarteto puramente feminino de música livre e ruidosa que junta Beatriz Diniz (April Marmara), Teresa Castro (Calcutá), Joana Figueiroa e Violeta Azevedo. Isto é Kraut à séria, para viajar sem destino certo, assente no conforto de uma teia de efeitos meticulosamente tecida pelo encontro de guitarras e sintetizadores.
Às dez da noite vamos todos ao Teatro Ribeiro Conceição pela primeira vez nesta edição do ZigurFest. Ocasião?
O concerto de David Bruno, ou dB, como era anteriormente conhecido. Na bagagem traz O Último Tango em Mafamude, disco editado este ano e muito acarinhado pelo público. Vestido com uma roupagem dos anos 90 e enriquecido com ritmos do hip-hop, um imaginário soul e músicas românticas, O Último Tango em Mafamude demonstra o amor que David Bruno tem pela sua cidade de Vila Nova de Gaia. A atuação vai contar com a presença de Marquito, guitarrista responsável pelos calorosos solos, e ainda com algumas projeções de momentos bem portugueses retirados da RTP Memória.
Quando forem 23h00 é a vez dos NU subirem ao palco do Teatro. A banda de Santo Tirso vem apresentar o seu rock experimental fundido com outros elementos como a literatura, o vídeo e a performance, e influenciado por gigantes como os Swans, Einstürzende Neubauten, Mão Morta. Desconcertantes e incendiários, os NU podem muito bem vir a ser a grande surpresa do rock mais mecânico em Portugal. Quando passarem 30 minutos da meia noite, vamos até à Olaria ver os Vaiapraia e as Rainhas do Baile, coletivo recente, mas já definitivamente icónico em Portugal. As suas aparições têm tanto de concerto como de performance, misturando a pop punk mais doce com a mais aguerrida - isso deve-se não só ao companheirismo raro entre os músicos, mas também à vulnerabilidade que Rodrigo imprime na banda. Com eles, menos é mais e a força com que as canções de 1755 se fazem sentir trazem tanto de inspirador como de emancipador.
Por volta da 1h30 é a vez de Ângela Polícia subir ao palco da Olaria. O projeto de Fernando Fernades, nascido em Braga em 2015, procura de forma sábia e paciente uma expressão sonora que faça jus à sua lírica: crua, interventiva e esquizofrénica qb. Encontrou-a em 2017, no delicioso e perigoso Pruridades, álbum onde funde o hip-hop ao dub, ao punk e ao grime. Antes de irem para a cama, há Mutual na Olaria às 2h30. Formados por André Geada e Manuel Bogalheiro, agitadores de pista no coletivo No She Doesn’t e produtores em nome próprio, dedicam-se aos cantos mais fumarentos da electrónica e percorrem caminhos não muito distantes dos trilhados por Demdike Stare, Millie & Andrea ou Andy Stott.
1 de setembro
No último dia de ZigurFest os Lavoisier são os primeiros a entrar em campo às 17h30, na Olaria, palco onde terminou a festa na passada noite. Encontro feliz entre Ricardo Afonso e Patrícia Relvas, duas almas musicais que parecem ter sido feitas a pensar uma na outra, os Lavoisier criam música portuguesa envolta em expressionismo e assente num binómio indestrutível - o minimalismo da guitarra e a voz (e corpo) moldável de Patrícia. Por volta das 18h30 sobem ao palco da Olaria o percussionista João Pais Filipe e o saxofonista alemão Julius Gabriel. Juntos formam Paisiel, duo que se move livremente entre géneros como a música experimental, o jazz e o rock, procurando atingir o delírio sónico e cósmico.
Após o jantar (22h00) vamos uma vez mais ao Teatro Ribeiro Conceição, assistir ao concerto dos Bardino, coletivo nortenho que aposta nas sonoridades psicadélicas em pleno 2017. Mas não se enganem com esta descrição tão usual nos dias que correm, pois o quarteto prefere mergulhar na rara tranquilidade introspectiva e escapista do psicadelismo antigo, em vez de recorrer aos tão aborrecidos riffs. Alicerçados na herança do rock progressivo e suas variantes tingidas a funk e jazz-fusão, os Bardino editaram em outubro do ano passado o seu EP de estreia homónimo com o selo da ZigurArtists.
Podem continuar bem sentadinhos no teatro que às 23h00 sobe ao palco O Carro de Fogo de Sei Miguel. Figura ímpar da música portuguesa do século XXI, colaborador dos Pop Dell’Arte, Sei Miguel tem produzido alguma da música mais intrigante de que há memória. Aliado a um mistério contínuo que tem rodeado a sua pessoa - e que encaixa como uma luva nas suas composições que têm tanto de vanguardista como de psicadélico -, tem construído de forma serena um legado riquíssimo. Chega a Lamego com a promessa de um disco novo, em que se relevam as melhores intenções fusionistas dos anos 70 do século passado.
Rumando à Olaria, vamos ver os Moon Preachers quando passar meia hora após a meia noite. Com uma sonoridade punk do mais rápido e poderoso que há, o duo do Seixal tem andado a rebentar tímpanos por todo o nosso país. Editaram o seu álbum de estreia, A Free Spirit Death, em março. Os vossos ouvidos vão ficar a zumbir durante uns tempos por isso usem ear plugs. O palco Alameda espera por nós à 1h30. Allen Halloween é um dos nomes incontornáveis da história do hip-hop tuga. Autêntica alma intocável, na composição e nos beats, claro, mas acima de tudo nas histórias que imortaliza a cada canção que lança, chega a Lamego embalado por um momento prolífero. Além do portentoso Híbrido – um puro acto de contrição cantado não recomendado aos mais sensíveis - tem-se sabido redescobrir e reinventar via Unplugueto, disco admirável pela sua simplicidade e pela abordagem honesta à música. Ponto alto do festival e da música nacional, história a fazer-se diante dos nossos olhos. Continuando a festa, os Scúru Fitchádu sobem ao Alameda às 2h30. Provando que não há limites para além daqueles impostos por nós próprios impomos, a banda liderada por Sette Sujidade (e que conta ainda com Chullage e Ronaldo D’Alva Teixeira nas aparições ao vivo) tem aberto caminho com o seu cruzamento imparável de punk e hardcore com funaná. Ou, como o próprio Sette Sujidade lhe chama sem pudor, música de pancada. E como tudo tem um fim, os 2JACK4U vão ser os últimos a atuar na oitava edição do ZigurFest, às 3h30 da manhã. Colecionadores ávidos de máquinas analógicas e exploradores sónicos, os 2Jack4U são uma locomotiva capaz de puxar para o centro da pista até o mais empedernido dos dançarinos. Têm no acid techno como força motriz para criarem a sua música e desengane-se quem acha que um só género os define: no âmago da dupla sobressai o espírito aventureiro, próximo de um rocker, mas para quem dançar é vital. No ZigurFest, está prometida uma maratona incendiária para encerrar o festival.