segunda-feira, 11 de novembro de 2019

[Review] Wildnorthe - Murmur


Murmur | Regulator Records / Raging Planet | outubro de 2019
8.0/10

Os Wildnorthe estrearam-se no mercado da música em 2015 com AWE, o EP de estreia que os levou a uma incorporação relevante no escasso cenário da música nacional de traços negros. Composto por seis malhas onde os sintetizadores mais obscuros combinavam em harmonia com as guitarras poderosas, o disco mostrou-se uma boa surpresa em 2015 mas a revelação estava guardada para 2019, ano em que editam o seu primeiro longa-duração Murmur. Quatro anos que serviram para um processo de maturação altamente refinado que rendeu a produção de um disco que mostra que a darkwave não está assim tão morta em Portugal. 

Murmur não trouxe apenas uma sonoridade requintada e pronta para ouvir em repetição constante, trouxe também um novo membro ao alinhamento da banda ao vivo, com um dos maiores bateristas do panorama português, João Vairinhos (The Youths, LÖBO, Ricardo Remédio) a trazer toda uma nova atmosfera "analógica" ao som amplamente eletrónico criado por Sara Inglês e Pedro Ferreira. As ambiências obscuras estão presentes tal como outrora, mas há uma aposta mais forte na imersão do ouvinte e na apropriação de ritmos altamente hipnóticos. Este efeito é logo experienciado com a reprodução de "Descend", faixa que abre Murmur e que explora desde as camadas mais melancólicas aos ritmos energéticos, com uma astúcia surpreendente na transição de ritmos. Já está muito bom e ainda só estamos a começar. 



O trabalho de estreia, que foi anunciado em outubro, começou por ser apresentado através da faixa "Howler", um cocktail de synthpop incendiário com componentes da darkwave e uma voz masculina a cruzar elegância com poder. Estava ali o primeiro foco de atenção para aquele que viria a ser um disco altamente diversificado e por si só, estimulante. Murmur saiu a 21 de outubro na alçada da portuguesa Regulator Records em co-edição com a Raging Planet (com quem já tinham editado anteriormente AWE) e traz-nos nove faixas que enriquecem a história da música gótica em Portugal. Há elementos únicos que marcam, como é o caso daquele riff de guitarra à post-rock por volta do primeiro minutos e 20 segundos no tema "Death Is Precious"; ou da própria voz de Sara Inglês nos temas "Savage Eyes" ou "Passage" que nos traz à memória o tom vocal de Alison Lewis (Linea Aspera, Keluar, Zanias) e as próprias atmosferas sintetizadas da produtora: poder e fragilidade unidos numa só faixa. 



Em destaque, fora os ritmos soturnos que envolvem todo este murmúrio, encontram-se as faixas mais ritmadas como "Sour" e a homónima "Murmur" (esta última a beber influências à EBM e techno) ou mesmo as mais desafiantes "Branch" e "Passage" - a englobar aquele som trágico altamente estimulante e a colocar em altas o interesse da dupla por temas como a natureza, morte e pela beleza que os sítios mais negros e improváveis aportam. E Murmur é isso mesmo, um retrato da decadência existencial e o próprio resultado dessa decadência como forma de expressão artística e da contemplação do negro como uma filosofia de vida. Um disco desafiador e prospeto para emergir como uma boa surpresa na cena underground que mora em força no panorama da música atual. 

Definitivamente os Wildnorthe chegaram para pôr a mexer o cenário mais gótico em território português e trazem consigo um disco que tem tudo para os levar a tocar nas salas e festivais mais underground da Europa. Há a presença dos elementos que estão em altas no revivalismo gótico mundo fora e uma clara veia portuguesa que é sua e que traz alguns elementos inventivos face ao que se tem produzido na cena ao longo da última década. Murmur é um disco altamente dinâmico que consegue ser emotivo, poderoso, conquistador e acima de tudo, imersivo. Definitivamente um dos álbuns nacionais a ter em consideração nas listas dos melhores de 2019.


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sexta-feira, 8 de novembro de 2019

Diário de bordo: The Danse Society e Wildnorthe no Sabotage Club


É já quase um diário de bordo este meu périplo de um fim de semana super sónico. Sábado, 2 de Novembro, de novo no Sabotage. Há The Danse Society e na primeira parte, o projecto nacional Wildnorthe. A boa afluência do público confirma-se. A mística do nome The Danse Society é um forte chamariz, este desejo de ver e ouvir pela primeira vez ao vivo este nome e as suas canções (ouvidas vezes sem conta nas agora velhas cassetes BASF), até porque com o passar dos anos estes continuam a fazer parte da lendária colheita de nomes consagrados dos anos oitenta, alguns mais do que outros, certamente, e continuam acesos nas almas sedentas de bons concertos e que hoje, neste caso, se deslocaram ao Sabotage.

Tivemos uma actuação muito interessante dos Wildnorthe que ali foram apresentar o seu primeiro álbum Murmur, numa elaborada prestação e de uma concentração absoluta. Ao longo da intro que deu inicio ao concerto, um ritual diferente: de olhos fixos no horizonte, de foco centrado ao fundo da sala, e se o tecto fosse céu, era para ali que estariam a olhar. Sara Inglês e Pedro Ferreira, assim planaram numa energia sonora distinta e linear até ao 'estouro' da bateria forte de João Vairinhos. Impressionaram pela concentração demonstrada, o single “Howler”, exemplo perfeito da sonoridade do grupo: teclados fortes com ritmos industriais, guitarras subtis e, lá no fundo,  uma amalgama de sons coerentemente desenhados para surpreender com as vozes de Sara Inglês e de Pedro Ferreira. “Sour” revelou uma sonoridade que porventura me fez lembrar a boa maneira de Siouxsie Sioux a cantar com a electrónica, e é nesse detalhe das prestações alternadas entre canções dos dois vocalistas que reside o charme deste grupo, certamente mais dinâmico e impactante com a bateria de João Vairinhos.


Depois de um concerto com novidades e a apresentação de um disco ainda desconhecido, acabado de sair, foi um bom momento de música ao vivo que certamente terá despertado a curiosidade e a vontade de ouvir este disco dos portugueses Wildnorthe, de quem se espera e deseja um futuro brilhante e que lhes traga, claro, muitos mais discos e concertos!

Deu-se a habitual azáfama da retirada de palco dos instrumentos, dos teclados, da pedalaria e dos restantes artefactos, a quantidade de coisas que rapidamente se mudam de um lado para o outro… a esforço porque o intervalo não convém ser demasiado longo. Num ápice, assim foi, entram em palco os The Danse Society, havia alguma ansiedade entre o público ávido de os ver e escutar ao vivo. Mas para quem não acompanhou a estória recente da banda, não saberá porventura que já não é Steve Rawlings o cantor, por indisponibilidade do mesmo. A voz dos The Danse Society há já alguns anos é agora assegurada, quer em novos discos, quer naturalmente ao vivo, pela cantora Maethelyiah, desde 2011. Assim, assistimos a uma reinterpretação do todo, a uma reinterpretação instrumental e claro, a uma vocalização diversa pelo registo naturalmente feminino do que ouvimos em disco dos The Danse Society de outrora.

Feitas as 'pazes' com esse facto e com os olhos no futuro, este grupo apresentou para além dos clássicos indispensáveis (faltaram alguns, é certo), os novos originais que deverão fazer parte de um novo registo da banda, isto para além de músicas como “Freak Show”, ou da versão de “White Rabbit” dos Jefferson Airplane, e outras canções que fazem parte dos discos já gravados na segunda vida da banda com a voz da cantora Maethelyiah. No que aos clássicos diz respeito, tivemos por exemplo “Heaven is Waiting” ou, “Danse/Move”, e claro, a famosa versão de "2000 Light Years From Home” dos The Rolling Stones. No final, sabendo ao que íamos não nos sentimos defraudados, para quem ainda não sabia do presente e futuro deste grupo poderá eventualmente ter ficado surpreendido com as mudanças, esperando ver a clássica formação reunida. Pelo que me resta constatar que são bons músicos. Vivem com um legado talvez demasiado pesado para estar sempre a fazer justiça ao nome, e fizeram-no à sua maneira. Nesta noite foram de alguma forma as novas canções que soaram melhor, talvez pela falta de expectativas ou imagem auditiva pré-concebida que não teríamos delas. Ou, como porventura acharíamos que deveriam soar. Há que dar lugar ao que é fresco, e não interessa já muito aqui olhar para o passado. Uma actuação competente e simpática destes músicos que de certo terão apreciado a maneira concentrada e respeitosa do público português no que diz respeito à escuta ávida desse passado e também do futuro. 


Texto: Lucinda Sebastião
Fotografia: Virgílio Santos

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terça-feira, 22 de outubro de 2019

STREAM: Wildnorthe - Murmur




Já está cá fora o disco de estreia dos Wildnorthe. O projeto de Sara Inglês e Pedro Ferreira, ao qual se junta agora ao vivo João Vairinhos (The Youths, LÖBO, Ricardo Remédio) apresenta um total de nove canções tingidas com o lado mais negro dos sintetizadores e prontas para fazer suar as pistas de dança mais arrojadas pelo país fora. O revivalismo das ondas mais obscuras parecia estar meio esquecido entre o panorama da música nacional mas os Wildnorthe fazem questão de o reviver. Entre a eletrónica mais obscura com camadas sinistras e um ambiente denso os Wildnorthe esculpem um disco poderoso e bastante bom que os deverá levar a atingir o público internacional.

De Murmur já tinha anteriormente sido divulgada a faixa "Howler", uma malha de synth-pop a trazer à memória as sonoridades à lá Depeche Mode. Agora, ao longo das nove faixas são várias as paisagens sonoras que os Wildnorthe incorporam neste novo trabalho de estúdio e que tanto o enriquecem musicalmente. Além de "Howler" recomenda-se vivamente a audição de "Savage Eyes" - a fazer lembrar as ambiências destroçadas de nomes como Linea Aspera - a vibe industrial presente em "Branch" - e ainda o tema homónimo "Murmur".

Murmur foi editado esta segunda-feira (21 de outubro) em formato CD, cassete e digital numa co-edição entre a Regulator Records e a Raging Planet.



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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Wildnorthe anunciam disco de estreia, Murmur

© João Pascoal

Os portugueses Wildnorthe, dupla composta por Sara Inglês e Pedro Ferreira, vão lançar o seu primeiro disco longa-duração este ano mas as notícias não se ficam por aqui. O sucessor do EP Awe (2015, Ranging Planet) chamar-se-à Murmur, já tem o primeiro tema de avanço divulgado - "Howler" - e marca um período em que a dupla se junta a João Vairinhos (The Youths, LÖBO, Ricardo Remédiopara juntos, proporcionarem um futuro promissor de concertos hipnotizantes e altamente obscuros. A darkwave em Portugal nunca esteve tão viva.

Quatro anos depois da estreia os Wildnorthe trazem-nos nove temas inéditos que nos projetam aos mundos sinistros da eletrónica mais dark, com notadas influências de géneros como o industrial, synth-wave e electro post-punk. No novo tema de avanço, "Howler" - a trazer reminiscências de Depeche Mode - temos a primeira amostra do interesse da dupla em temas como a natureza, morte e pela beleza que os sítios mais negros e improváveis aportam. Agora disfrutem aí desta malha:


Murmur chega às prateleiras já este mês de outubro numa co-edição entre a Regulator Records e a Raging Planet

Murmur Tracklist:

01. Descend
02. Death Is Precious
03. Savage Eyes
04. Sour
05. Howler
06. Branch
07. Passage
08. Murmur
09. Foresee

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