Nada previa que a noite de 28 de abril se tornasse tão bonita e perfeita depois de termos feito a escolha de ir ver o primeiro dos dois concertos que Haley Fohr, mentora do projeto Circuit des Yeux, tinha agendado em Portugal. A artista regressou ao nosso país para apresentar Reaching For Indigo, o seu terceiro disco de estúdio, o qual tem sido mencionado como a obra-prima na carreira de Fohr. Tê-lo ouvido ao vivo, no passado dia 28 de abril no Auditório de Espinho – Academia e ainda por cima acompanhada de músicos tão exímios como os que marcaram presença no palco naquele sábado, certamente que fez todos os presentes perceberem a importância de uma obra deste calibre.
Previsto para as 21h30, com abertura de Matchess - projeto a solo de Whitney Johnson, violista de Circuit de Yeux - o primeiro concerto da noite teve arranque pelas 21h36 numa sala praticamente ausente de luz com Whitney Johnson a acender uma vela antes do início da performance musical. Matchess nasceu em 2013 e o seu discurso baseia-se na reprodução de sons e significados através de vários processos históricos e materiais, como a repetição de fita bobina-a-bobina, samples através de cassetes e gravações de campo. O seu concerto teve, se não estou em erro, um total de quatro músicas que foram tocadas sem pausas e sem espaço para aplausos durante a sua execução. Whitney Johnson ia criando uma fusão entre elementos da música clássica contemporânea com a música eletrónico-experimental, enriquecendo-os com um certo misticismo. Entre pausas, numa voz embutida em efeitos, Matchess cantava em plena simbiose com a sua viola, tendo sido uma abertura honrosa para o suprassumo que viria a ser Circuit des Yeux.
Depois do intervalo de 20 minutos entre o primeiro e segundo espetáculo, o projeto da norte-americana Haley Fohr subiu a palco, em formato quarteto, pelas 22h28, para uma performance que faria mais que jus a todas as críticas excelentes que o mais recente disco de estúdio, Reaching For Indigo, tem arrecadado. Esta obra peculiar passeia entre uma folk vanguardista e barroca, tendo marcado a estreia de Fohr nas edições pela Drag City, daí que se perceba a referência de Haley Fohr em concerto, enquanto afinava a guitarra, ao facto de que durante dez anos ninguém quis saber dela, mas que agora as coisas são diferentes.
A abrir concerto com "Brainshift", que logo nos primeiros segundos fez o público encantar-se com as tonalidades tipicamente graves e obscuras que Haley Fohr consegue atingir, foi em "Black Fly" que Circuit des Yeux e companhia surpreenderam toda a plateia do Auditório de Espinho. Todas as sobreposições e desenvolvimentos estabelecidos entre a guitarra de doze cordas (de qual Haley Fohr agora se apoderava), viola, contrabaixo e bateria foram exímios e a vontade do público era certamente de se levantar para libertar todas aquelas sensações lindas que os Circuit des Yeux emanavam do palco. O resultado, incontáveis e entusiastas aplausos vindos de um público de sorriso esboçado ao findar de cada canção. Entre os hits do novo álbum pudemos ainda ouvir "Paper Bag", mais um dos temas inaugurais da noite que satisfez quaisquer dúvidas (se é que ainda as havia) sobre Haley Fohr ser um camaleão ao nível da voz (por vezes a lembrar os tons clássicos de Diamanda Gálas e a voz operática de Laure Le Prunenec, a.k.a. Rïcïnn).
Nas pausas entre as canções Haley Fohr aproveitou ainda para apresentar a banda, dizer uns simpáticos "thank you" e ainda introduzir a última música do concerto dizendo "Thank you very much (…) In America we don’t really do encores because no one wants to hear you (…), so this is going to be our last song, but if you clap then we will play a few more songs". E obviamente que o público aplaudiu com uma força estrondosa para que voltassem, afinal Circuit des Yeux estava a ser uma experiência incrível. Nem tenho como descrever o que se sentiu naquela bela noite de sábado.
A artista regressou a palco para um encore de três músicas, sendo que a última foi uma cover da Lucinda Williams e contou apenas com a presença de Haley Fohr como pano de fundo (além das projeções e luzes que finalmente lhe iluminavam a cara). Este foi e será, definitivamente, um dos grandes concertos de 2018.
Circuit Des Yeux será talvez a mais conhecida faceta do output criativo da prolífica Haley Fohr. E é já esta semana que a compositora regressa ao nosso país depois de nos ter visitado no ano de 2015. Com a presente digressão teremos a oportunidade de escutar ao vivo Reaching For Indigo, o mais recente disco de Circuit Des Yeux, o qual foi editado no ano transacto
Os concertos decorrem dias 28 e 29 de abril no Auditório de Espinho e na galeria Zé dos Bois, respetivamente, custando os ingressos 7 euros para o concerto em Espinho e 8 para o concerto em Lisboa.
Last saturday, april 7th, we had a chat with Blacklistersin the backstage of Hard Club, Porto. By then, they were in the middle of their 11-concerts tour (alongside with the USA Nails). And that night, before they got on stage, we wanted to find out more about the band. As of now, they released two albums, three EP's, a single and some splits (you can find/buy some of their work here), and you can read the full interview below, to get to know them better.
How's the tour going so far? Because I know you're doing, like, 11 shows in a row. It's tiresome, I can imagine… (Laughs)
Billy - It’s been a bit of a mix…
Steve - It’s been a mixed bag.
Billy - Last night was really fun.
Steve - You had the best night of your life.
Billy - I had the best night of my life! The night before was a bit depressing (Laughs).
Dan - Everywhere we’ve been though, people have been really nice, very friendly country, very comfy beds (laughs) very nice food. People like our music. That’s good. Who are the Blacklisters? As a band, what is your ethos?
Alistair - Have we got an ethos? Dan - Aim high, shoot low (laughs) it seems to work. Billy - Just keep going. Alistair - Basically break even. Dan - (laughs) basically break even (laughs) That’s a good t-shirt. That’s a life lesson (laughs). Billy - Just do it as long as we like it. Steve - Just try to forget it as you go (laugh) Dan -Live in the present. Ask me another question (laughs).
I've never been to the UK. But from reading a couple of interviews you guys gave, I get the impression that Leeds is the best city to form a noise/post hardcore/heavy af rock band. Why is that? Being you guys a part of that community, what do you think?
Billy - I think is ‘cause is like, is not that big. It’s a big university town. But the city isn’t like huge and sprawling, so everyone, all the students are in one place and lots of people coming through all the time. There’s not that many places to play I guess. It’s different to a place like London, where people are all over the place…or Manchester, where people are all over the place, where everyone is kind of in the same place. But, I mean…so that’s kind of why it is, I think. Lots of people come, they stay and then, it’s constantly refreshing ‘cause people move on, bands get old and they stop or whatever but…because there’s always new people coming to town and then they’ll be inspired to perhaps start new bands. It’s always kind of updating and progressing and that’s kind of why I think Leeds has been so good. And continues to, ‘cause even when you think they’re out of bands, suddenly there’s about five more bands that have arrived, there’s a new scene emerging, like well, a bit like old…
Alistair - We’re on the way out (laughs).
Billy - We are. But there are ones coming through who are great.
Alistair - It’s a healthy scene. Sorta DYI, if you like. Independent venues and collectives in Leeds that makes it easy for our kind of band to function there.
What is your creative process? Like, what is a day in the studio with the Blacklisters?
Steve - It’s a bit strange.
Billy - It’s a bit different now. It has changed.
Steve - Well…so, I’ve not been in the band very long and I live in London, which is quite far away from Leeds. Two hours on a train so it’s…yeah. And then, you (pointing at Billy) live in Berlin.
Billy - I moved to Berlin in september. Two hours on a plane.
Steve - So we don’t practice as such. I think before the first gig I did with you we only had one practice.
Billy - And we just kinda stuck to that as a method (laughs).
Steve - But, like, with writing, we send things back and forward via dropbox and listen to it and then meet up every so often.
Billy - Do a weekend of writing and then, you know, go away and then try again, a bit further down the line, that’s what we’ve done so far. It’s changed quite a lot in this last year ‘cause of me moving to Berlin, but yeah, that’s how we’re doing it.
From what I've read, you think the lyrics more in terms of how they sound rather that the message they convey. Was there ever a case when the opposite happened, like "we need to say this, exactly this"?
Billy - No. Lyrics haven’t been important to me, really. Plus, the whole sound of the band is to kind of like have the vocals be a part of the music rather than being about the song. The song is the thing! With all of the instruments and the voice is one of those. It's not really important what I'm talking about…
It's all in the same layer.
Billy - All in the same layer, very two-dimensional (laughs).
What influences your sound? And also, what influences the visual of your videoclips?
Billy - Good people who’ve worked with us. We don’t like to take things too seriously, I guess. We don’t like things to be too serious. Because when I think you’re an aggressive band it’s quite easy for people to think that you’re angry and we’re not serious at all.
Dan - Are we not serious? (laughs)
Billy - We like to keep things quite light and kind of have fun with it and be a bit dumb.
Alistair - Daft.
Billy - Daft!
Alistair - Dan did some artwork for our last 7 inch cover.
Dan - Oh yeah. What influenced me there? My own face (laughs), pictures on the internet (laughs) and the rest of my own face (laughs). Yeah. Just stuff that happens innit, and mistakes (laughs)
Billy - We had a bit of a heavy night last night and so I think we’re all feeling a bit worn today. There two are great (Steve and Alistair), I’ve curled up in a ball of my own sadness in the back of the van as we drove here.
You just said it was like, your best night ever.
Billy - Yeah exactly! But that’s why.
Dan - This is the low off after that.
Billy - Yeah, yeah.
Dart, the follow-up of Adult, the EP you've released through the late and great Too Pure Singles Club. And even though it is an EP, I find in Dart a much more in-your-face approach than I did in Adult. Will you guys be aiming for a similar approach in your next album? What can we expect?
Dan - Yeah, I think we’re trying to write simpler songs and songs that you can tap your foot to and have a dance. And ‘cause of our circumstance now, writing songs quicker, just making the process quicker and not always adding stuff. Just being kinda decisive about it, so maybe, I don’t know it that makes it…
Alistair - Somehow it makes it more direct.
Dan - Yeah maybe. But not intentional, but maybe out of necessity.
Billy - Yeah, we don’t know how it’s gonna shape up but that’s the intention. Whatever we do, our next thing, our next album or whatever, we don’t know how it’ll sound like. But what we’re trying is to not take too long deciding. Years gone by and the first two albums took fuckin’ ages because we just couldn't ever make our minds up, so we’re just making our minds up quicker.
Dan - I think it’s like, you’re trying to get somewhere with it, so you’re trying to force yourself, you know? Like, further, to get somewhere as well.
Billy - For like, this tour, we didn’t rehearse. We just turned up and (laughs). Just turned up to do tours and then just got better as we go along and, like, relying on the fact that we’re actually quite good. We kinda have enough experience at doing a band (laughs). Yeah, that’s what I think. Hopefully, that’ll come across in the way the next record sounds like.
Ten years have passed since the birth of the band. What can we expect from the…
Dan - The next ten? (laughs)
Billy - It’s a difficult time to ask that question (laughs). We had a frank chat of whether we should split up or not because we’ve been doing it for such a long time. This was a couple of years ago. And we all agreed that we’d keep on doing stuff while it was fun. So, when it’s fun, it’s great! Which is why when you kind of play a few, like, bad shows you start to argh…
Alistair - Ten more years of fun…
Billy - Ten more years of fun (laughs). I dunno. We do it for as long as we wanna do it, I guess. We kind of reached the point where I think we’re not gonna get any bigger and none of us have any hopes to achieve anything particularly. So we’ll just keep on putting out records and playing I guess, for as long as we want to.
Steve - I think is similar to what USA Nails just said. It’s a thing we do, it’s not thought out.
Billy - No. Any of that sort of stuff died a very long long long long long time ago.
Steve - There’s no ambition.
Billy - Going to new places is quite nice.
Everyone - Yeah!
Billy - Opportunities, like, when USA Nails went to America. That’s kind of, like, a cool thing to do, I’d like to do that.
Dan - I’d like to play on top of a building like U2.
Billy - (laughs) Okay, easy. We can probably do it on top of it here.
Dan - Tonight.
Billy - Yeah.
I don't know if you can 'cause the top is like…
Billy - Glass!
Alistair - Yeah.
No it's not glass is like (I do a triangle with my hands)…
Billy - It’s pointed!
Dan - (Spreading his legs) Maybe just stand like that and (laughs)
Billy - Just lotta sitting in the splits. Sorry.
No worries.
Guys, last question. It's not exactly a question. Do you have any words of wisdom that you'd like to share?
Billy - Eat bread. Be in a van as much as you can.
Steve - Omellet sandwiches in Portugal contain ham, I learned today (laughs). I was so hungry that I just ate it anyway. I’m a vegetarian (laughs). That’s a bit of wisdom.
Dan - You love bacon though.
Steve - So my mother says…So, check the ingredients…
Billy - And be in a van…
Steve - And be in a van, yes! That’s the most fun time.
Billy - (Laughs) Yeah it is. People think it’s the playing but actually, they’re wrong. The best bit of being in a band is sitting in the van. Going between places and don’t let anybody tell you differently (laughs).
Steve - We’ve got nine hours of it tomorrow.
Billy - Yeah, nine hours tomorrow. Yeah, we’ve traveled almost, like, three thousand miles…so, that’s a lot of time in the van.
Alistair - Quality time.
Billy - Quality time in the van, yeah.
Is it a comfortable van at least?
Everyone - Yeah!
Steve - It’s got a fridge, so yeah, it’s pretty comfortable.
Billy - I know it sounds like we’re takin’ a piss, but there is something about like, it’s kind of like a thing you get into because you sit in a van so much…
Dan - Well, it becomes the only constant. ‘Cause you’re always going somewhere new, everything’s different every night, the van’s always the van. It’s always the van.
Steve - Yeah, so you kinda get drunk on it, drunk on the idea of being in a van all the time. Yeah…I know, I know…
Os dreamweapon fazem parte da prata da casa da Fuzz Club, a label que se tornou o porto de abrigo de todas as bandas que exploram o ruído e o psicadelismo. A banda que atualmente está baseada no Porto lançou este ano o LP SOL, o qual irá apresentar ao vivo por essa Europa fora. A tour europeia dos dreamweapon começa no Porto, data na qual terão o apoio dos Summer of Hate.
Abaixo deixamos o tema "Monte da Virgem", single de avanço de SOL.
JPEGMAFIA vai andar em digressão europeia esta primavera, passando por Portugal no mês de abril: no dia 10 de abril no Ginjal Terrense em Almada; dia 12 nos Maus Hábitos no Porto; dia 13 na BangVenue em Torres Vedras.
Veteran, disco editado este ano, é um trabalho introspectivo, distanciando-se — mas não muito — da crítica inflamada à realidade sócio-política norte-americana que marca a lírica de JPEGMAFIA. Abaixo fica o poster da tour europeia e o link para Veteran. Em todas as datas portuguesas, teremos os franceses Daisy Mortem a abrir para JPEGMAFIA.
Os ingleses Blacklisters (AKA BLKLSTRS) dedicam-se à exaltação do noise rock e exploração das fronteiras deste género com o post-hardcore e o punk. Claramente influenciados pela sonoridade dos Jesus Lizard e dos Big Black, os Blacklisters citam em entrevista ao website Louder Than Waros Shellac e os DEVO como influências basilares tanto na sua sonoridade como no seu ethos. No ano transacto o coletivo lançou Dart, um EP que irá apresentar ao vivo, em Portugal, já em abril deste ano. A acompanhar os Blacklisters nesta digressão estão os também ingleses USA Nails, outra banda que também se dedica à exploração do noise rock e do post-punk.
Os USA Nails irão apresentar ao vivo Work Work Work, o seu mais recente EP, o qual foi editado este ano. Esta digressão representa a oportunidade única de vermos ao vivo duas bandas emergentes da cena do noise rock, ambas no pico da sua forma e com material novo para apresentar ao vivo.
Abaixo deixamo-vos uma faixa do Dart e as datas da tour europeia desta dupla.
30-03-2018 FR, BOURGES - BRASSERIE BOS
31-03-2018 FR, JURANçON - LA FERRONNERIE 01-04-2018 SP, LLODIO - ORBEKO ETXEA 02-04-2018 SP, MADRID - *TBC* 03-04-2018 SP, SEVILLA - SALA 04-04-2018 PT, SANTARÉM - A9 05-04-2018 PT, CASCAIS - STAIRWAY CLUB 06-04-2018 PT, MARINHA GRANDE - CLUBE DOS MÚSICOS 07-04-2018 PT, PORTO - HARD CLUB 08-04-2018 FR, ANGRESSE - CONTAINER 09-04-2018 FR, RENNES - BAR HIC
No passado dia 18 de abril, o Hard Club recebeu os Soviet Soviet. A última vez que vimos o trio foi nos Maus Hábitos, na sua digressão de apresentação de Fate. Em 2017, eis que a banda voltou ao nosso país para nos apresentar Endless, o seu mais recente trabalho, no contexto da mesma digressão que lhes valeu grande atenção mediática devido à interrupção forçada da extensão norte-americana da mesma. Isto porque desde o dia 6 de março do presente ano, Donald Trump decidiu reforçar o controlo sobre a imigração, implementando novas directrizes de controlo mais restritas para músicos que querem atuar nos EUA.
E no rescaldo de um episódio que se desenrolou com culpas de ambas as partes (aparentemente) os Soviet Soviet foram barrados de entrar nos EUA, presos e, finalmente, deportados. Bem, os EUA é que perdem. Os italianos continuam explosivos e a deixar-me surdo sempre que os vejo ao vivo. Isso, e o baixo do Andrea continua a soar incrivelmente bem, ainda que neste último trabalho a instrumentação tenha perdido destaque para dar maior presença aos vocais. Espero sinceramente que esta tendência não se mantenha. Ninguém ouve os Soviet Soviet para ouvir baladas, mas sim para ouvir o post-punk mais sujo e rápido que se produz no mediterrâneo. Nunca duvidem de uma coisa: os Soviet Soviet são os herdeiros legítimos dos Bauhaus e dos Jesus and Mary Chain. Nenhuma parte dessa herança deve traduzir-se em baladas e muito menos, baladas que nos privem de ouvir o baixo do Andrea, sendo que este é praticamente o quarto elemento dos Soviet Soviet.
Em suma: deixem-se de baladas e continuem com o gesso.
E nunca se esqueçam: cá, serão sempre bem vindos.
Obrigado mais uma vez à MIMO por continuar a apostar na diferença da oferta musical.
Falta menos de uma semana para termos entre nós Moor Mother. Camae Ayewa — o nome de baptismo de Moor Mother — é uma fotógrafa/artista/activista inconformada com o status quo dos EUA contemporâneos. Em particular, Ayewa abomina a segregação racial que continua a afetar diariamente a comunidade negra. Fetish Bones — o último disco de Moor Mother — é um testemunho cru desta realidade e é este o disco que a artista nos irá apresentar nesta vindoura digressão.
Abaixo deixamo-vos as datas da sua tour pelo território nacional.
19 de abril . Moor Mother + Mada Treku _ Café Au Lait
20 de abril . Moor Mother + Joana da Conceição _ ZDB
Learning Exercises on How to Move On || Favela Discos || Abril de 2016
7.5/10
MADA TREKU é o heterónimo de Nuno Loureiro, um jovem realizador e produtor audiovisual portuense, eLearning Exercises on How to Move On é o disco que este lançou via Favela Discos, marcando a sua estreia nas edições musicais. Na génese de Learning Exercises on How to Move On, reside o desejo de traduzir uma obra audiovisual em expressão puramente sonora, havendo a clara “intenção de interpretar a personagem principal de Milennium Mambo”.
"Taipei. A voice off-camera looks back ten years to 2000, when Vicky was in an on-again off-again relationship with Hao-Hao. She's young, lovely, and aimless. He's a slacker. Cigarettes and alcohol fuel her nights. We see bits of her life: when Hao-Hao steals his father's Rolex and the police detain them; when she gets a job as a club hostess, where she meets Jack, who becomes her patron and protector; when Hao-Hao comes to the club, insisting on talking to her; when she visits Yubari, Japan, for its film festival in the dead of winter; when Jack must go to Japan to straighten out trouble caused by one of his acolytes. Does Vicky have any expectations? Does time simply pass"?
Eu não vi o filme inteiro, mas vi-o meio na diagonal via youtube e li algumas críticas e sinopses. Não posso afirmar, portanto, que Learning Exercises on How to Move On me evoque memórias do Millenium Mambo. Em mais do que um sentido, este disco soa-me ao Palmbonen II, o disco que Palmbonen compôs após passar o verão inteiro a consumir copiosas quantidades de episódios de X-Files. Creio que o Nuno tem em mente a mesma ideia que Palmbonen tinha ao editar Palmbonen II: homenagear a obra audiovisual e o seu realizador — Millenium Mambo e Hou Hsiao-Hsien — incluindo o seu nome lado-a-lado do seu neste trabalho, como forma de agradecimento pelas horas em que este o entreteu e inspirou.
E, de facto, aqui não há nenhum pastiche. Uma obra dissocia-se da outra e tem a sua própria expressão individual. A atmosfera sonora pesada e sombria de Learning Exercises on How to Move On — em particular nas faixas “Eye Candy” e a “Dawn” — evoca-me o Dark Red, o disco que Shlohmo compôs para através dele exorcizar os seus demónios interiores. Se pensarmos que este Learning Exercises on How to Move On surge a partir da película Millenium Mambo, não é de todo descabido pensarmos em estabelecer paralelos — ambos remetem para universos de perda e auto-destruição, um deles no mundo real e o outro no mundo da ficção. E se interpretarmos o universo ficcional presente no núcleo de Learning Exercises on How to Move On, encontramos em “Qishu” — a faixa na qual reside o coração do álbum — o momento mais dançável de todo o disco, com uma percussão bastante vincada, aproximada ao universo da tech house e provavelmente inspirada nas cenas de clubbing de Millenium Mambo.
Still de Millenium Mambo.
Learning Exercises on How to Move On assume-se, antes de mais nada, como um trabalho ansioso.
À primeira vista, Learning Exercises on How to Move On assume uma forma confusa e abjecta, visto que conjuga díspares influências e gêneros musicais. E nós, enquanto massa crítica, podemos escolher acreditar que Learning Exercises on How to Move On é um trabalho que vive no vácuo, sem ligação com o futuro de MADA TREKU e que deve portanto ser analisado como tal. E, se assim for, pouco foi concretizado e resta-nos apenas afirmar que o Nuno é um grande produtor de sonoridades e que andou a beber inspiração de todas as fontes corretas. Porém, eu recuso-me a classificar este álbum dessa maneira.Learning Exercises on How to Move Ondenuncia um espirito criativo que transcende a natureza deste EP. Eu sei que o Nuno tem mais para nos oferecer, e quero acreditar que este EP é um apalpar do terreno, uma etapa necessária para MADA TREKU atingir a sua matura forma de expressão. Quero acreditar que MADA TREKU tem muito mais para dizer e que a ansiedade que esteve por detrás deste Learning Exercises on How to Move On é a característica que denuncia o nervosismo do Nuno aquando da edição do seu primeiro EP. O que dizer? Como dizer? O que incluir e o que deixar de fora? Preocupações normais de um perfeccionista. E a destemida atitude de ainda assim editar este EP revela o cariz experimental da obra e a vontade do Nuno de desafiar o status quo e produzir alguma coisa. E nesse sentido, eu acredito que Learning Exercises on How to Move On é um estudo, um conjunto de exercícios de aprendizagem para se chegar a um estado de maturação. E sendo assim, nenhuma desta ansiedade me afecta nem tampouco elimina a minha ânsia para ouvir mais. Os estudos querem-se assim: destemidos. Não se pode deixar nada de fora nos rascunhos.
Aguardo ansiosamente por um estudo final, por um disco que me revele a forma final de MADA TREKU. Porque nesta instância, o projeto carece de maturação. Maturação não em termos de destreza — o Nuno é claramente um produtor sonoro competente, capaz de construir cenários sonoros — mas sim em termos da sua mensagem — o que, de facto, MADA TREKU quer dizer e o lugar que pretende ocupar.
Até lá, julguem por você próprios o trabalho do Nuno, já que ele disponibilizou o Learning Exercises on How to Move On de forma gratuira via soundcloud. A minha curiosidade ele já a angariou, mas eis que chego ao final da minha decima audição do EP e não receio dizer que ele angariou a minha atenção.
Suuns and Jerusalem In My Heart // Secretly Canadian // abril de 2015
7.4/10
Suuns and Jerusalem In My Heart é um LP que surge da colaboração dos Suuns com o Jerusalem In My Heart. Falemos primeiro dos Suuns.
Os canadianos Suuns são um dos bastiões do circuito do rock alternativo atual. No ano de 2013 lançaram Images du Futur, o seu mais recente trabalho. Em Images du Futur, os Suuns continuaram a explorar o filão de experimentalismo que funde a EDM com o rock. O mesmo filão que tinham aberto com Zeroes GQ.
O malhão do disco, na opinião do autor desta crítica.
Agora, em 2015, lançaram Suuns and Jerusalem In My Heart em colaboração com o Jerusalem In My Heart. Em que medida este álbum constitui um digno sucessor de Images du Futur?
Não constitui. Suuns and Jerusalem In My Heart procura ocupar o seu próprio espaço. Um espaço distante dos universos distópicos criados pelos Suuns, aproximando-se um pouco mais das paisagens quentes do médio oriente, de onde Jerusalem In My Heart é nativo.
Mas quem é, exactamente, Jerusalem In My Heart?
Jerusalem In My Heart é Radwan Ghazi Moumneh, um artista multimédia libanês radicado em Montreal. A sonoridade de Moumneh enquanto Jerusalem In My Heart é caracterizada por um denso manto de cordas, vocais, foleys e outros elementos sonoros que dão vida a uma atmosfera rica e exótica, digna de uma qualquer paisagem luxuriante do médio oriente. Uma paisagem exótica para nós — gente do ocidente — mas que faz parte das raízes de Moumneh. E é esta paisagem à qual Moumneh procura dar vida no seu trabalho enquanto Jerusalem In My Heart.
Jerusalem In My Heart é o produtor de Suuns and Jerusalem In My Heart. É natural que se notem traços dessa paisagem ao longo de todo o álbum. No entanto, a paisagem descrita em Suuns and Jerusalem In My Heart uma versão mais conturbada das paisagens criadas por Jerusalem In My Heart nos seus trabalhos a título individual. Os foleys e cordas foram catalisados por electricidade, kraut e motorik. O resultado final é uma sonoridade exótica e quente — com a influência da produção de Jerusalem In My Heart — enclausurada numa qualquer distopia, corrompida por guitarras elétricas e pela dominância de elementos da EDM.
O anúncio da colaboraçãoentre os Suuns e o Jerusalem In My Heart surgiu na primavera de 2015. Quando Suuns and Jerusalem In My Heart foi anunciado, ficámos surpreendidos. De que forma iria o rock frio dos Suuns conviver com a electrónica quente de Jerusalem In My Heart? A “Gazelles In Flight” — a primeira faixa do álbum a ser divulgada — deixou-nos curiosos por mais. As diferenças entre os traços sonoros dos canadianos Suuns e do libanês Jerusalem In My Heart eram, na altura evidentes, mas o resultado denunciava uma espécie simbiose entre os dois traços sonoros. O tempo veio a provar que aquilo que escutámos na “Gazelles in Flight” se viria a repetir ao longo de todo o disco.
Não são visíveis quaisquer semelhanças entre Suuns and Jerusalem In My Heart e os trabalhos que ambos os artistas desenvolvem a título individual. A atmosfera que se sente no álbum não é própria dos Suuns. A futurista e fria linha de montagem sonora, na qual são encaixados os instrumentais de uma banda rock “normal” — guitarra, baixo e bateria — com elementos EDM e lírica delirante foi parcialmente abolida. A atmosfera é quente. Sente-se o calor da primavera árabe, ainda que este álbum tenha sido gravado no quase-inverno de 2012. Mas apesar deste calor exótico, a sonoridade de Suuns and Jerusalem In My Heart distancia-se daquela criada por Jerusalem in My Heart a título individual. Os elementos eléctricos e maquinais — nomeadamente o drone e o motorik — são, em Suuns and Jerusalem In My Heart, demasiado proeminentes para uma paisagem que se imporia como harmoniosa caso se este álbum se tratasse de um trabalho a título individual de Jerusalem In My Heart.
Como dissemos antes, Suuns and Jerusalem In My Heart foi gravado no quase-inverno do ano de 2012, mais precisamente no mês de Novembro. No entanto, o seu lançamento foi adiado, porque cada uma das partes envolvidas no álbum estavam prestes a lançar discos — os Suuns o Images du Futur e Jerusalem In My Heart o Mo7it Al-Mo7it. E o curioso é que, apesar de todos os trabalhos terem sido editados sensivelmente na mesma altura, Suuns and Jerusalem In My Heart reserva uma grande distância dos discos lançados a título individual pelos seus respetivos autores.
Cremos, portanto, que Suuns and Jerusalem In My Heart nasceu da livre expressão de ambos as partes envolvidas dos seus respectivos géneros musicais. Esta livre expressão foi gradualmente alimentada por um processo de feedback contínuo, no qual os Suuns e o Jerusalem In My Heart trabalharam de forma intensiva em perfeita sinergia simbiótica. O resultado final — Suuns and Jerusalem In My Heart — reclama o seu próprio espaço. Um espaço bastante distante do seu ponto de partida, no qual não podemos afirmar que uma das partes se sobrepõe à outra. Se faixas como a “In Touch” destacam a veia eletrónica dos Suuns, na “3attam Babey” e na “2amoutu I7tirakan” é proeminente a atmosfera e o traço de Jerusalem In My Heart, visível inclusive no título das faixas. Mas em todas as etapas de Suuns and Jerusalem In My Heart há um contributo mútuo. Sejam os vocais e foleys de Jerusalem In My Heart ou as cordas e o drone da instrumentação dos Suuns, ambas estas influências convergem em Suuns and Jerusalem In My Heart. E, em última instância, é atingido o ponto de equilíbrio. Não há sobreposição de nenhuma das partes nesta relação simbiótica que são os Suuns and Jerusalem In My Heart.
Desta colaboração pontual resultou este LP, Suuns and Jerusalem In My Heart. Falta saber se o eixo Montreal-Beirute continuará ativo para mais edições no futuro ou se este trabalho é um fim em si mesmo. Caso a colaboração dos Suuns and Jerusalem In My Heartacabe com este Suuns and Jerusalem In My Heart, é uma lástima. Há aqui ideias muito boas e percurso muito viável de se explorar. Caso a colaboração perdure, aguardamos por mais.
A edição deste ano do Jameson Urban Routes oferece-nos uma montra privilegiada para este projeto, ao ter agendado uma atuação dos Suuns and Jerusalem In My Heart para o dia 31 de outubro deste ano.
Os Suuns and Jerusalem In My Heart.
Ao que parece, as performances ao vivo dos Suuns and Jerusalem In My Heart não são centradas na reprodução das faixas de Suuns and Jerusalem In My Heart, mas sim na recriação emotiva das várias etapas que formaram a composição do álbum — com a devida margem para experimentações e derivações sonoras. Caso o projeto Suuns and Jerusalem In My Heart continue, serão presenteados com uma estreia do coletivo em Portugal. Caso os Suuns and Jerusalem In My Heart desapareçam a seguir à tour, serão presenteados com um momento único e irrepetível.