João Ferro é um jovem oriundo de Aveiro que desde tenra idade, viu na música um hobby que queria tornar em algo mais sério. O que começou com as ocasionais escapadelas na sala de música a aprender guitarra clássica aos intervalos na escola, tornou-se numa obsessão que tem sido desenvolvida ao longo de vários anos, e que o fez passar por uma banda formada com camaradas chamada Citizens from Mars. A jornada a solo começou em 2017, com o EP Visions. Eventualmente, esse registo captou a atenção de outro camarada musical, Firgun, que em vésperas de tocar na localidade de Lourosa, convidou Ferro a fazer parte desse mesmo serão, e a partir daí foi sempre a abrir portas.
Com influências de nomes contemporâneos como FJK e Tash Sultana e uma fixação por atmosferas easy-listening de cariz alucinatório, Ferro sente-se particularmente à vontade com a manipulação de loops de guitarra eléctrica e teclado, gradualmente adicionados em camadas que quando amalgamadas, culminam num resultado puramente instrumental e muito aprazível que faz com que o ouvinte se perca em cenários imaginados de semblante psicadélico, mas sempre ausente de pretensões e apenas focado em transportar quem ouve para ambientes extrasensoriais, fazendo particular uso do espaço para propagar o som em concertos.
Em jeito de cartão de visita, deixamo-vos com o registo mais recente do jovem músico em baixo, We Don't Believe in Ghosts, para posterior apreciação.
Vindos de Toronto, em Ontario, os canadianos Favours lançaram o seu single de estreia, de seu nome "In The Night", onde revelam a sua sonoridade synthpop influenciada tanto pelas reminiscências da new wave britânica dos anos 80 e 90 como pelas tendências modernas da dream pop.
A música foi gravada com a colaboração do produtor Josh Korody (Dilly Dally, Weaves), e vem com um videoclip cujas cenas foram, segundo os próprios, inspiradas por vários filmes da coleção Criterion, e acaba por intensificar e acompanhar o sentimento de alienação do single.
Quando questionados acerca da inspiração por detrás de "In The Night", a banda menciona que é "uma balada para os que se vêm presos num ciclo rudimentar e repetitivo". Ainda nesse tema, acrescentam que fala sobre escapar da banalidade do dia-a-dia e antecipar o sonho que está fora do alcance. No que toca à identidade sonora da banda, o resultado culmina assim numa sonoridade deleitante e ao mesmo tempo com uma aura de traços soturnos, marcado por um trabalho de baixo palpitante que se encontra taco-a-taco com um som de guitarra bastante vívido e, principalmente, uns sintetizadores igualmente vibrantes e e melancólicos.
Apesar de não haver ainda não confirmação sobre um futuro registo, essa deverá estar para breve.
Com um charme cândido e único, a cantora Melody Prochet lança o seu novo álbum enquanto Melody's Echo Chamber, simplesmente intitulado Bon Voyage. Praticamente seis anos se passaram após o estrondoso álbum homónimo e, após ter lançado um par de singles de forma a anunciar o seu novo registo, a artista foi alvo de um acidente que a fezatrasar as gravações do mesmo e cancelar a tour. Uma vez recuperada,Bon Voyage foi então acabado e lançado em todo o seu esplendor delicodoce e peculiar.
Neste novo capítulo, a artista vai mais além com a sua abordagem à psicadélia, estipulada no primeiro álbum, avolumando-a com mais experimentações espalhadas ao redor de um total de apenas sete faixas que compõem Bon Voyage, e claro está com a voz angelical de Melody sempre presente. O alinhamento começa forte com "Cross My Heart", composto de uma atmosfera mais pastoral que não se coíbe de intercalar com breakbeats a meio da faixa. Por mais estranho que pareça, resulta bem ao ponto de se tornar numa das faixas mais fortes do álbum, além de servir como sinal de que apenas estamos a arranhar a superfície deste disco. A seguir vem "Breathe In, Breathe Out", com uma leve influência no início, que cedo dá lugar a uma musicalidade mais arrebitada, completa com assobiozinhos e coros, sendo uma das faixas mais acessíveis no álbum.
Depois segue "Desert Horse", uma faixa que tem os seus momentos, com leves inspirações do R&B moderno, cortesia do uso alternado entre mais batidas eletrónicas e autotune a meio da psicadélia. "Var Har Du Hart?" é uma cantiga folky engraçada que demonstra o domínio da cantora no que toca à língua sueca, mas no geral, acaba por ter o mesmo impacto de um mero interlúdio. A seguir seguem duas das faixas mais fortes do álbum inteiro, "Quand Les Larmes D'un Ange Font Danser La Neige" e "Visions of Someone Special, On a Wall of Reflections". Ambas as faixas revelam-se bastante coesas e estimulantes, com a sua incrível natureza electro-kraut reminiscente de bandas como Stereolab, que mais fazem por revelar a musicalidade ambiciosa do projeto neste registo. A última faixa "Shirim" tem uma leve brisa do Médio Oriente, e é um tema moderadamente eficaz para encerrar o alinhamento.
Concluindo, pode-se dizer que Melody's Echo Chamber passou o teste do difícil segundo álbum, com o encanto caleidoscópico extravagante e apologista do amor e da vida, a que o registo homónimo nos tinha habituado previamente, intacta. Apesar de alguns dos floreios sonoros tomados a cabo neste álbum poderem chegar a ser encarados como tiros no escuro (ou até mesmo pretensiosismo pegado), Bon Voyage pode também ser encarado como uma aventura que se desenvolve a cada audição. Mas uma coisa é certa: a substancial evolução de Melody Prochet enquanto cantora e songwriter é de louvar no geral, e deixará certamente os fãs na perspetiva acerca do que poderá vir a seguir em termos de futuro do seu brainchild.
Thank Your Lucky Stars // Sub-Pop // Outubro de 2015
8.5/10
No espaço inferior a um trimestre, eis que temos mais um álbum dos Beach House em mãos. 3 anos passaram desde que os Beach House editaram Bloom. E no entanto, menos de 3 meses separam Depression Cherry de Thank Your Lucky Stars, o seu sexto e mais recente LP. Ao olharmos para trás, os Beach House já nos tinham dado bastantes pistas sobre este Thank Your Lucky Stars. Desde a faixa então desconhecida que tocaram em 2014 num concerto em Saskatoon — essa faixa é a "One Thing" — chegando às letras de músicas e fotos dos Beach House em estúdio espalhadas pelo depressioncherry.com — endereço que foi posteriormente actualizado para dcandtyls.com — e acabando nas pistas que eles lançaram via twitter, parece que a intenção dos Beach House foi sempre lançar estes dois álbuns em conjunto. Portanto, dado o calendário que os Beach House nos ofereceram, também nos parece ajustado analisar Thank Your Lucky Stars à sombra de Depression Cherry.
Os Beach House em estúdio.
Quando comparamos ambos os LP, o facto é que Thank Your Lucky Stars está num local bastante distante do planalto de reverbs e shoegaze arquitectado em Depression Cherry. Os Beach House de Thank Your Lucky Stars não estão tão centrados na produção de um monólito etéreo e primam pela produção de uma pop sensível com o auxílio de sintetizadores e teclados.Em Thank Your Lucky Stars temos uns Beach House mais individualistas. Individualismo esse que é audível na expressão dos instrumentos e na voz de Victoria Legrand. As camadas que compõem a paisagem sonora de Thank Your Lucky Stars são mais perceptíveis e fáceis de dissecar do que as de Depression Cherry. As teclas e os sintetizadores perdem destaque para as guitarras. A voz de Legrand destaca-se da instrumentação e alcança o seu próprio patamar. Por tudo isto, respira-se muito mais “pop” do que “dream” em Thank Your Lucky Stars. Mas à semelhança de Depression Cherry — e à imagem da obra dos Beach House — a mensagem da sua música encontra-se enraizada nas mais primárias emoções humanas: a saudade, a paixão, a ansiedade, a nostalgia, o amor, a morte…enfim, a vida.
Na nossa review ao Depression Cherry, afirmámos que este era um álbum de inverno lançado no verão. Se tal é verdade, Thank Your Lucky Stars é um álbum de verão lançado em pleno outono. Ainda que ambos os álbuns tenham sido gravados na mesma sessão de estúdio, as canções que compõem Thank Your Lucky Stars foram escritas entre julho e novembro de 2014 — imediatamente após a escrita das canções que compõem Depression Cherry. Tal facto condicionou a sonoridade das canções, resultando numa atmosfera quente e pop que se distancia da do seu antecessor. Conseguimos quase testemunhar duas versões diferentes dos Beach House: uma mais "dream" em Depression Cherrye outra mais "pop" em Thank Your Lucky Stars. Dir-se-ia até que a sonoridade dos Beach House de Thank Your Lucky Stars está mais próxima da dos Beach House que surgiram no ano de 2006. Por esse facto, não deixa de ser curioso o facto de Thank Your Lucky Stars ter sido gravado na mesma sessão de estúdio de Depression Cherry.
Apesar de todas as tentativas de separar Thank Your Lucky Stars do seu antecessor e tentar analisá-lo em vácuo, o curto intervalo de tempo que separa os dois LPs inviabiliza esse exercício. O intervalo de tempo entre os dois discos é demasiado curto e as diferenças entre os dois álbuns são demasiado notórias para não ser pertinente uma análise de Thank Your Lucky Stars à luz daquilo que o distingue de Depression Cherry. As comparações são também inevitáveis porque ainda não tivemos tempo de digerir Depression Cherry. Haverá quem defenda que nunca podemos ter demasiado de uma coisa boa. De facto, tanto Thank Your Lucky Stars como Depression Cherry são álbuns brilhantes. Mas precisamente por serem álbuns excelentes é que consideramos que estes deveriam ter um espaço de tempo considerável a separar cada um deles. Isso evitaria exercícios de comparação entre os dois álbuns (iriamos analisar o álbum enquanto álbum e não enquanto conjunto) e daria tempo para que o álbum fosse devidamente absorvido pelo seu ouvinte. Acreditamos que o segundo ponto sai prejudicado pelo primeiro. Por tudo isto, é impossível analisar ambos os álbuns em vácuo, quando ainda mal tivemos tempo para encaixar um deles.
Por outro lado, nenhum exercício de comparação que possamos fazer entre os dois LPs lesa os Beach House. Afinal de contas, estamos a comparar dois discos da mesma banda e ambos excelentes por sinal. Mais ainda, os Beach House não têm nada a provar. A sua discografia é excelente e, enquanto banda, os Beach House serão talvez uma das maiores referências — se não "A Referência" — da dream pop actual.
Relembramos nesta review que os Beach House vão brevemente iniciar a sua extensa tour europeia e que esta vai passar por Portugal — mais precisamente pelo Armazém F em Lisboa (os bilhetes para este concerto já estão esgotados) e pelo Teatro Sá da Bandeira no Porto. A última vez que os Beach House estiveram entre nós foi em 2013, para apresentarem o Bloom. A digressão que vai trazer os Beach House até nós em novembro deste ano foi agendada ainda antes do lançamento de Depression Cherry. Portanto, os Beach House trazem não um, mas dois álbuns novos para apresentar ao vivo. Estamos em pulgas.
Enquanto novembro não chega, fiquem com o vídeo do malhão de Thank Your Lucky Stars e com as letras do mesmo para irem aprendendo.