sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Reportagem: MS NINA + LA ZOWI [Theatro Circo, Braga]

© Theatro Circo

A noite na cidade de Braga estava igual a muitas outras desta altura do ano, em que o mau tempo cobre a cidade de tons cinzentos, e o simples facto de não chover já é motivo de contentamento. Contudo, dentro do Theatro Circo, o clima que se estava a preparar era bem diferente. 

A confirmação de La Zowi e Ms Nina foi certamente uma surpresa geral, isto apesar da programação do Theatro Circo muitas vezes confirmar alguns nomes arriscados. Esse arriscar da programação foi logo perceptível no início da noite, quando começou a ser visível a pouca afluência de pessoas na sala principal do Theatro Circo. Para além de poucos, muitos também certamente não saberiam para o que iam, isto apesar das duas artistas serem figuras maiores da música urbana espanhola. 

As pessoas eram poucas, mas o ambiente era descontraído tal como exigia o evento, e foi ficando cada vez mais conforme o dj Mark Luva ia avançando no seu dj set, fazendo com que progressivamente algumas pessoas se levantassem dos seus lugares marcados e fossem para os lugares mais próximos do palco para que, de pé, começassem a dançar ao som das passagens de músicas que foram ambientando a sala por uns bons largos minutos antes da La Zowi entrar no palco. 

Se no início esta demora em La Zowi começar o concerto e deixar o ambiente fluir ao comando do seu dj possa ter parecido excessiva para muitos, talvez a opinião tenha mudado quando esta subiu ao palco. É que a cidade de Braga não está habituada a algo assim, e muitas vezes ambientar pode ser bom para as diferenças culturais significativas, principalmente quando esta começa o concerto da melhor forma ao se lançar em grande modo em "Bitch Mode", começando assim logo por explicar em palavras diretas quem realmente ela é e como é a sua vida. 

© Theatro Circo

Rapidamente a temperatura da sala do Theatro Circo começa a aumentar, e por isso está perfeito para ela avisar desse intenso calor com "Bitch te Quemas". Fica a dica. O concerto continua com "Tu o Yo", mas foi em modo ellas que o concerto ficou melhor, quando uma das suas bailarinas se juntou ao concerto, fazendo as delícias de muitas pessoas e a reprovação certamente de algumas, sendo que num certo momento do concerto até a La Zowi diz a apontar para a dança da bailarina "Esto es solo reggaeton". Era verdade, era só trap e reggaeton, mas isso não invalida a reprovação que alguns até já deviam ter sentido logo quando perceberam que a palavra puta é utilizada extensivamente no lirismo das composições da cantora. 

O ponto alto do concerto para muitos terá sido quando essa mesma bailarina vai para a parte da frente da plateia literalmente dar tudo com um espectador. Há pessoas com sorte. E eu ali nas grades, tão perto mas tão longe. No entanto, para quem conhecer a produção de La Zowi, certamente que não consegue dizer qual foi o ponto alto do concerto no meio de tantos hinos urbanos a serem cantados naquela sala artisticamente tão bela, que ainda ficou mais sublime ao som de "Obra de Arte". 

O concerto continuou ao som de músicas como "Oscuro", e como até aí tinha sido pouca vezes pronunciada a palavra puta, seguiu-se a música "Putas", ou ainda depois  "Pussy Poppin" e "Si te Pillo", sempre com uma La Zowi sem papas na língua. É que mesmo sendo noite de halloween e haver alguns jovens mascarados no seu concerto, ela é a matriarca do trap e por isso nunca usa máscaras. 

© Theatro Circo

Certamente muitos nunca teriam visto um concerto assim, que acaba por terminar rápido e em grande ao som de "No Lo Ves", onde a poucas horas de mais um dia de Todos os Santos, La Zowi canta "Tengo dinero pa mi entierro, ¿o es que no lo ves?". É que o trap não é só ostentação na vida, mas também na morte, até porque muitas vezes são mundos que estão muito próximos. Que no entanto ela dure muitos anos para continuar a lançar verdadeiros hinos de trap, e sendo ela a matriarca, ilumine o caminho a seguir. 

O segundo concerto desta noite ficou a cargo da joven y guapa rainha do reggaeton Ms Nina, que veio apresentar o seu recente álbum lançado em julho deste ano, Perreando por Fuera, Llorando por Dentro. O nome do álbum já diz muito, sendo assim uma mistura entre perreo e música sentimental. Trata-se de arte portanto, e por isso mesmo, entre tantos estilos artísticos com neo qualquer coisa, podem agora acrescentar o neoperreo. 

Tal como aconteceu no concerto anterior, Ms Nina não se apresentou logo no palco quando começou o concerto, ficando o início entregue ao dj Mygal X, mas como a festa já estava iniciada, demorou menos tempo a subir ao palco. 

© Theatro Circo

Dois dias depois de ter lançado o videoclip, atirava-se a "Coqueta". E apesar de não ser verdade quando cantava "Vamos a perrearnos toda la noche", restava aproveitar ao máximo a hora de concerto para a ouvir e a ver juntamente com as suas bailarinas em movimentos sincronizados, e assim também aprender como se perrea. Aliás, todo o concerto foi um ensinamento "Rico Rico" em relação a aprender a perrear, sendo a regra básica o "palante y pa´ trás", ou seja, o mesmo ensinamento que o mestre Daddy Yankee já apregoava há algum tempo. Pam pam, boas influências dão bons resultados. 

Essa influência é tão assumida (e ainda bem), que antes de começar a tocar a música "Gata Fina", passou nada menos que "Gasolina" de Daddy Yankee. Tudo certo, porque a gata fina da Ms Nina quer gasolina. E só faltava mesmo gasolina para incendiar o Theatro Circo conforme o calor na sala ia aumentando. "Hace mucho calor aqui", dizia ela. Alguns palpitavam de que o ar condicionado devia estar avariado, mas como é que algum ar condicionado pode resistir a uma noite assim? 

Sensatos foram aqueles que foram ao bar buscar finos durante o intervalo entre La Zowi e Ms Nina para se assim se refrescarem durante o concerto. Afinal, tal como é apregoado em "Los Angeles", nada como "un poco de perreo, un poco de cerveza" até porque naquela sala estava montada uma "Noche de Verano" porque Ms Nina esteve ali para dar tudo. "Te Doy", disse e cantou ela nos inícios do concerto. Não mentiu, tal como depois se viu em "Traketeo" com a máxima de "y no pares hasta que sude", continuando depois o concerto ao som de músicas como "Y Dime", a acelerada "Danger" ou ainda "Tu Sicaria", para assim acabar em grande um concerto latino bem movido de tanto puxar para bailar.

Texto: Óscar Santos

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quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A Z U L  C A L C A N H O T T O


Adriana Calcanhotto regressou a Portugal para findar a trilogia iniciada com Marítimo em 1998, enfrentou a Maré em 2008 e desembarcou num porto de abrigo com Margem em 2019. O Teatro Tivoli BBVA, em Lisboa, encheu-se de pessoas, no dia 16 de novembro, para a acolherem e lhe mostrarem “o seu bem-querer". Adriana sentiu de perto esse apego.

Ao longo de quase duas horas de concerto, foi revisitando vários temas destes álbuns, acompanhada por Rafael Rocha (vocal, bateria, tambores, percussão, assobio), Bruno Di Lullo (contrabaixo) e Bem Gil (guitarra).

Os três trabalhos levam-nos a pensar o quanto Adriana gosta da brisa marítima, da maresia, tal como o sublinha num dos temas tocado no encore. O vento, a cor azulada das águas e os longos passeios à beira-mar certamente lhe darão o bem-estar, pessoal e criativo, de que a artista necessita.

A consciência para o estado dos oceanos e a chamada de atenção para as questões ambientais é uma constante também em alguns dos seus trabalhos mais recentes, nomeadamente no guarda-roupa, nos cenários em palco e nas artes visuais dos seus vídeos. O seu “figurino” é um alerta para os sucessivos atentados ecológicos que o mundo, diariamente, vai assistindo na televisão e nas redes sociais,
incomodado, mas infelizmente demasiado sereno.

“Ainda tem o seu perfume pela casa | Ainda tem você na sala | Porque o meu coração dispara...” Vambora!


Texto e Fotografia: Virgílio Santos

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terça-feira, 19 de novembro de 2019

Fotogaleria: DarkMAD 2019


No passado mês de outubro fomos até Madrid para marcar presença no novo festival gótico da capital espanhola, o DarkMAD. Decorreu no fim-de-semana de 25 a 26 de outubro e deixou na memória uma série de lembranças que tão cedo não se esquecerão. Por lá passaram nomes mais históricos como Fields Of The Nephilim, CovenantLords Of Acid, Ancient Methods, Signal Aout 42, A Split Second, The Cassandra Complex entre outros artistas de renome no panorama atual como She Past Away.

O sucesso do festival foi tanto que a próxima edição já está confirmada. Até lá, ótima oportunidade para se rever as fotografias das atuações das bandas na sempre atenta lente do fotógrafo Miguel Silva. Ora espreitem:



Fotografias: Miguel Silva

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X-Wife – 15 anos de “Feeding The Machine” no Musicbox


A banda portuense, formada em 2002 por João Vieira (guitarra e voz), Fernando Sousa (baixo) e Rui Maia (caixa de ritmos e sintetizadores), passou por Lisboa, no dia 14 de novembro, para festejar o 15º aniversário do lançamento do seu álbum de estreia - Feeding the Machine.  Depois de uma mini tour em vários locais, foi a vez do Musicbox acolher este trio de dance rock, para revisitarem temas do trabalho que lhes deu projeção. 

A entrada em palco, onde utilizaram os instrumentos originais, foi calorosamente acolhida por um público que, visivelmente, ali se deslocou para participar nesta noite que era de “festa entre amigos”. Depois de tocarem o álbum na íntegra e com o mesmo alinhamento, a banda regressou para um encore, presenteando a simpatia do público com uma surpresa: “Transmission” dos Joy Division, banda dos “nossos corações”. Terminaram a noite com “Trun it up” do álbum de transição Side Effects (2006).

Os X-Wife, apesar de nos últimos anos terem abraçado projetos alternativos e pessoais, mostraram que, em coletivo, continuam energicamente sintonizados. Isto remete-nos para a falta de bandas deste género no nosso panorama musical. 

A simbiose entre a música de dança e o rock nem sempre é feliz. Os Primal Scream conseguiram-no em parte e os nova-iorquinos LCD Soundsystem, idem, idem, aspas, aspas. Em Portugal continuamos a ter os X-Wife!


Texto e Fotografias: Virgílio Santos

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quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Fotogaleria: Odete + DJ Nigga Fox [ACUD MACHT NEU, Berlim]


Na celebração do trigésimo aniversário da queda do muro de Berlim, a Galeria Zé dos Bois levou até à capital da Alemanha os portugueses DJ Nigga Fox, Odete e Gabriel Ferrandini a tocar no ACUD MACHT NEU, num evento inserido na European Club Night. O evento que pretende ser um exemplo para uma Europa sem fronteiras abriu com Gabriel Ferrandini cuja performance não nos foi possível ver. 

Apesar disso a noite foi pautada essencialmente pelas batidas emergentes de Odete e DJ Nigga Fox, numa celebração que pode ser revisitada em fotografias, através da fotogaleria abaixo.


Fotografias: Guilherme Caeiro

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X-Wife nos Maus Hábitos - a alquimia de 15 anos a “alimentar a máquina”


Os X-Wife regressaram, no dia 7 de novembro, à “casa-mãe” para celebrarem 15 anos de Feeding the Machine, a primeira grande “peugada musical” da banda no panorama discográfico do início deste século, apesar de terem gravado em 2003 o EP Rockin' Rio e o single “Fall”, cujos temas viriam a fazer parte do álbum de estreia (2004).

A banda portuense criada em 2002 por João Vieira (guitarra e voz), Fernando Sousa (baixo) e Rui Maia (caixa de ritmos e sintetizadores) foi desde logo rotulada com uma sonoridade indie rock e pós-punk. Ao longo destes 17 anos editaram vários trabalhos como colectivo, mas abraçaram também outros projectos: João Vieira e Rui Maia, White Haus e Mirror People, respetivamente, e Fernando Sousa juntou-se aos Best Youth, There Must Be a Place e PZ.

A vontade de revisitarem e relembrarem o início da banda levou-os a juntarem-se em palco em vários locais do país, para uma simbólica tour de comemoração do Feeding the Machine.  No Porto, a segunda cidade por onde passaram, a noite foi entre “amigos”. Um retorno às origens e ao calor humano de todos os que ali se juntaram para participar na festa do regresso do “bom filho que à casa torna”.


Foi neste ambiente informal que João Vieira, Fernando Sousa e Rui Maia, entraram em palco, fazendo questão de utilizarem os instrumentos originais, para revisitarem os 11 temas do seu primeiro álbum: "New Old City", "Eno", "Fall", "Second Best", "Action Plan", "Clinic", "The Sound Of You", "Rockin' Rio", "Outside", "We Are" e "Taking Control". As pausas, entre músicas, pautaram-se por uma interação muito próxima com o público, o que intensificou a envolvência “familiar”, que nunca comprometeu, bem pelo contrário, a sua excelente e contagiante atuação.

A noite passou num ápice, mesmo que brindada com um encore. No final, o público deixava transparecer a enorme satisfação deste reencontro, que lhes proporcionou reviver e recordar, ao vivo, músicas tocadas com entrega, vigor e energia.

Parabéns X-Wife pela noite que nos proporcionaram, por nos fazerem recuar no tempo, sem nostalgia, mas sim com a vontade do vos ver juntos mais vezes!

Texto: Armandina Heleno

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Mucho Flow: Um festival eclético que celebra o melhor da música contemporânea


A 7ª edição do Mucho Flow decorreu em 2 dias, ocupou 3 espaços diferentes e contou com atuações de 21 artistas. O festival organizado pela Revolve, promotora que comemorou este ano o seu 10º aniversário, é marcado por um enorme ecleticismo. Nomes de campos diferentes da música contemporânea reuniram-se em Guimarães nos dias 1 e 2 de novembro num cartaz para todos os gostos. Três dos nomes presentes (CTM, Croatian Amor e Damien Dubrovnik) integram a editora Posh Isolation, que também celebrou os seus 10 anos.

O CIAJG (Centro Internacional das Artes José de Guimarães) recebeu os primeiros concertos de cada dia, divididos entre uma sala do museu, onde os artistas e a audiência se encontravam rodeados pelas obras lá expostas, e a blackbox do mesmo edifício. Foi no museu que tocaram o pianista Marco Franco e a cantautora CTM. Esta apresentou o seu pop experimental a solo, servindo-se de um sintetizador e um computador. Juntou sons acústicos e eletrónicos muito limpos de forma imprevisível, criando uma atmosfera fria e serena. Foi uma pena quase todos os instrumentos terem sido reproduzidos em faixas pré-gravadas.

Na blackbox ouviu-se o goregrind dos Holocausto Canibal e o sintetizador modular de Hiro Kone. O seu concerto foi um dos mais dinâmicos do festival, havendo espaço para ambientes calmos e envolventes, mas também para momentos dançáveis de grande intensidade. A artista, impossível de enquadrar numa só caixa, levou o público numa fascinante viagem pelo mundo abrangente da música eletrónica, com passagens pelo IDM, o industrial e o techno. No dia seguinte, o quarteto português brindou um público pouco energético, mas bastante recetivo à sua música extrema, com uma grande dose de faixas de toda a sua discografia. Fizeram-se acompanhar de imagens sexuais ou violentas de diversos filmes e demonstraram um bom sentido de humor perante a falta de atividade e mosh pits. “Esta roda está espetacular”, comentou o vocalista a certa altura.



Foi num antigo edifício dos CTT que tocaram vários dos artistas mais esperados do festival. O rés-do-chão do espaço funcionou como uma pequena zona de restauração, com os concertos a realizar-se numa sala espaçosa alguns andares acima. Loke Rahbek, mais conhecido por Croatian Amor, foi o primeiro a subir ao palco. O co-fundador da Posh Isolation apresentou o seu mais recente álbum, Isa, cuja sonoridade pós-industrial incorpora sintetizadores etéreos e vozes robóticas. De seguida, subiram ao palco os Heavy Lungs, jovem banda britânica de pós-punk que lançou dois EP’s este ano. Num concerto especialmente intenso e energético, onde o vocalista chegou a cantar fora do palco e a guitarra passou pelas mãos das primeiras filas, o quarteto britânico deu tudo o que tinha e conquistou o público com singles como “Blood Brother” e "(A Bit of A) Birthday". Os Heavy Lungs não têm a criatividade e presença em palco dos seus amigos Idles, mas são uma banda em emergência que promete crescer nos próximos anos. Tocaram depois os muito ansiados Iceage, perante uma sala preenchida e umas primeiras filas especialmente entusiasmadas. A banda focou-se principalmente no seu último disco, Beyondless, e deu um concerto competente, marcado por alguns problemas de som. Destacaram-se as canções “The Lord’s Favorite” e “Catch It”, duas das melhores amostras do som atual da banda, sempre à volta do pós-punk e do punk rock.

No segundo dia foi no mesmo palco que se ouviu Chinaskee, BbyMutha e o trio Montanhas Azuis, composto por Norberto Lobo, Bruno Pernadas e Marco Franco. As composições da banda são tocadas em três sintetizadores ou dois deles e uma guitarra. A bateria eletrónica utilizada ocasionalmente e os sons dos sintetizadores são bastante retro, fazendo lembrar em certos momentos as bandas sonoras dos videojogos 16-bit. A atuação da banda foi calma e suave, repleta de improvisações por parte dos três membros. Por vezes parecia que as canções perdiam o seu rumo, com melodias intermináveis a estendê-las mais do que seria necessário, e um dos sintetizadores esteve exageradamente alto em comparação com os restantes instrumentos, mas o concerto foi uma boa amostra dos talentos deste supergrupo da Revolve.


As noites terminaram no Centro de Artes e Espetáculos São Mamede, onde ocorreram as performances mais tardias, a maior parte delas DJ sets. Foi aqui que tocaram os Damien Dubrovnik, dos quais é membro Loke Rahbek, neste caso também no papel de vocalista. Com os seus gritos poderosos e distorcidos a transmitir uma sensação de angústia, acompanhados por instrumentais densos e desorientadores que reforçaram esta ansiedade, o concerto foi ruidoso e intenso. Um dos mais surpreendentes do festival.

No entanto, o melhor ficou para o fim. Foi na reta final do segundo dia de festival que subiram ao palco os Amnesia Scanner. Autores de verdadeiros bangers como “AS Too Wrong” e “AS Chaos”, estão entre os artistas mais criativos e marcantes da música eletrónica atual e a sua atuação foi impressionante. Escondido por luzes fortes e acompanhado por dois pequenos ecrãs com visuais distorcidos e saturados, o duo finlandês criou um ambiente espetacular onde tanto os visuais como a música foram excessivos. Ouviu-se variações do seu trabalho de estúdio, com a incorporação recorrente do que pareceram ser samples de voz em português muito distorcidos. É nesses sons que se nota um dos maiores talentos do grupo, a desfiguração de samples e sintetizadores até estes se tornarem caóticos e ruidosos, criando timbres futuristas e ásperos que utilizam em composições dançáveis onde até podem ser incorporados ritmos de reggaeton.

O Mucho Flow 2019 contou com um cartaz multifacetado que é muito pertinente nos dias de hoje. As barreiras entre géneros musicais são ultrapassadas por muitos artistas contemporâneos e pelos seus ouvintes, fazendo todo o sentido existir um festival com tamanha variedade de sonoridades. Esperamos repetir a experiência em 2020.


Texto: Rui Santos
Fotografia: Ana Carvalho dos Santos

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A maravilhosa mas despercebida passagem de David J pelo Hard Club



No passado dia 18 de outubro, o lendário David J atuou no Hard Club, Porto, para um público constituído no máximo por 40 pessoas, um espetáculo forçosamente intimista cuja falta de adesão não deixou de fazer sentir um certo desconforto.
Não é novidade que o membro fundador dos Bauhaus e Love & Rockets é mal amado em Portugal e os seus concertos têm fraca afluência, porém, era expectável que o seu espetáculo novo de apresentação de Missive To An Angel From The Halls Of Infamy And Allure, disco cuja data de lançamento coincidiu com a do concerto e que comemora toda a carreira musical do artista, reunisse mais fãs e curiosos e até aqueles com esperança de ouvir clássicos das suas antigas bandas. Esta tour de David J pouco antes do regresso aos palcos (passados 13 anos e um último concerto em Paredes de Coura) dos Bauhaus, provando que o seu novo trabalho e tour advêm do amor à arte de fazer e tocar música.

Acompanhado por um teclista e uma violista, o músico, não pareceu desanimado ou desapontado com a pequena audiência que o esperava. Começou o concerto com a nova versão de “The Author” e fez questão em explicar que esta era uma música nova, do seu novo trabalho, mas também uma musica antiga (do disco The Guitar Man) “é difícil de explicar e confuso”, completou ele e continuou a classificar do mesmo modo alguns outros temas.

Em palco, David J, tem duas personas diferentes, uma mais calma, introspetiva e sentimental, quando tira o chapéu e toca guitarra, e outra mais inspirada em cabarés e teatral, quando põe o seu chapéu. Ambos os momentos foram muito interessantes e fascinante a quantidade de histórias que o músico conta e tem para contar, variando no modo como o faz. Durante cerca de uma hora teve tempo para mostrar o seu novo disco, visitar temas antigos do seu projeto a solo, uma versão de “It Was a Very Good Year” de Ervin Drake e passagens de luxo por Love & Rockets e até Bauhaus. “Shelf Live” e “The Dog-End Of A Day Gone By” não faltaram a par de uma versão extremamente expressiva, mais que emotiva, de “Who Killed Mister Moonlight” que contrastou com o momento mais emocionante do concerto “The Day That David Bowie Died”, tema escrita no dia em que David “Bowie” Jones faleceu.

É louvável o esforço da Lemon Live Entertainment por trazer um músico de tal calibre ao nosso país e um concerto que, certamente, ficará na memória dos (poucos) presentes. É também lamentável a falta de afluência do público mesmo numa numa sala que pode ser considerada pequena para a dimensão do artista.

Texto: Francisco Lobo de Ávila

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quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Reportagem: Moonspell + Rotting Christ + Silver Dust [Capitólio, Lisboa]


“Diz-me quem é que lá vem...”

O Capitólio (Lisboa) foi o cenário escolhido para uma noite sísmica, tendo os Moonspell sido os responsáveis por este abalo sonoro, com réplicas sucessivas numa soirée metálica que marcou o início de Novembro. 

Só uma banda como esta poderia recriar de forma metafórica a tragédia do terramoto de 1755, homónimo do seu último trabalho, tendo como pano de fundo uma tela alusiva às ruínas do Convento do Carmo, detalhe que adensou o ambiente. Na primeira voz, este trabalho é descrito como "um álbum agressivo, dinâmico, melódico, porque também tenta associar a metade do século XVIII, na zona de Lisboa, toda aquela grande fusão musical e linguística que havia".

Ao longo da noite revisitaram vários álbuns, privilegiando temas do seu mais recente disco, dos quais destacamos “In Tremor Dei" (sem Paulo Bragança), "Evento" e "Todos os Santos”, efusivamente acolhidos e participados pelos fãs de Fernando “Moon”, o frontman da banda. Com uma setlist bem recheada, os Moonspell fizeram eco com “Abysmo”, tema retirado de Sin / Pecado, álbum que será reeditado em Dezembro (reedição de luxo em vinil e CD-digipak que inclui o EP 2nd Skin e um booklet de 24 páginas), incluindo também: "Em Nome Do Medo", "Opium", "Night Eternal", "Extinct", "Everything Invaded", "Mephisto", "Vampiria", "Alma Mater", "Full Moon Madness", surpreendendo ainda com "Ataegina".



Apesar da generalidade dos temas serem cantados em inglês, as influências portuguesas estão bem presentes na música dos Moonspell, através dos poemas líricos, nomeadamente de Mário Cesariny (os primeiros quatro versos de “Than the Serpents in my Arms”) e Álvaro de Campos (“Opium” com um verso do Opiário).

Este espectáculo foi o 13º de 50 concertos em 52 dias e vinte países, na maior digressão europeia da história da banda, coadjuvados no start-up da noite pelos gregos Rotting Christ e os suíços Silver Dust, com passagem pela Turquia, países bálticos e Escandinávia. A atuação dos Moonspell ficará bem presente na memória da “alcateia” (como os próprios designaram, com emoção e orgulho, todos os que marcaram presença no Parque Mayer), que não se amedronta e acata o chamamento do “uivo”. 

As cortinas do espectáculo foram abertas pelos Silver Dust, às 19:30, hora pouco apelativa para um público latino, o que poderá justificar uma sala ainda pouco composta. A sonoridade alternativa e um look steampunk desta banda, de origem suíça (liderada Lord Campbell, vocalista/guitarrista) foi um pouco diferente do restante cartaz, com contornos de um metal gótico e industrial onde se notava, por vezes, a influência dos System Of A Down.


Antes dos protagonistas da noite foi a vez dos Rotting Christ subirem ao palco, já com a sala mais preenchida e que aguardava com euforia as duas bandas principais da noite. Com novos elementos em palco (Giannis Kalamatas e Kostas Heliotis), que deixaram transparecer ainda uma certa falta de “à vontade”, os Rotting Christ, tocaram vários temas do agrado dos fãs. Preteriram temas de Theogonia (2007), centrando-se em faixas de Kata Ton Daimona Eaytoy. Ao contrário do que seria de esperar, do álbum lançado em 2019, só tocaram dois temas: "Fire, God and Fear" e "Dies Irae"; de Rituals a tribal "Apage Satana" e na reta final, a cover de "Societas Satanas", a estrondosa "King of a Stellar War" e as já habitués "In Yumen-Xibalba" e "Grandis Spiritus Dia volos".  Terminaram com "Non Serviam" sob fortes aplausos e efusivas manifestações por parte do público.

Em jeito de briefing da noite, é inegável que a banda de Fernando Ribeiro, Ricardo Amorim, Pedro Paixão, Mike Gaspar e Aires Pereira, continua a dar cartas tanto em Portugal como além-fronteiras, sendo considerada (por muitos) a melhor banda nacional. Só temos que os enaltecer pelo seu profissionalismo, entrega e exímia performance.

Resta-nos dizer que a magnitude sonora rebentou a Escala de Richter no Capitólio! Melhor era impossível!



Texto e fotografia: Virgílio Santos

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