segunda-feira, 21 de outubro de 2019

[Review] NNHMN - Chruch Of No Religion


Church Of No Religion | k-dreams Records / Zoharum Records | setembro de 2019
7.5/10

A dupla alemã de electronic dark music NNHMN (sigla para Non Human) estreou-se este ano nos registos longa-duração com o novíssimo Church Of No Religion disco que vem dar sucessão ao EP de estreia second castle a atingir as plataformas de streaming em março do presente ano. Através de uma aura e estética musical altamente hipnotizantes os NNHMN evocam uma sonoridade obtusa pronta para enfeitiçar todas as mentes perdidas, sem rumo ou esperança. A trabalhar na base de uma eletrónica altamente imersiva e escura a dupla formada por Lee e Michal Laudarg começa a escrever uma história bastante interessante dentro do panorama da música underground: eletrónica para enfeitiçar as atitudes e comportamentos de lamúria.

Church Of No Religion apresenta no seu conteúdo uma coleção de poemas do purgatório que envolvem as lamentações da existência humana. O resultado é a construção de um mundo tão característico e singular que explora vigorosamente uma paixão pelo espectro frio dos sintetizadores entre temas como o caminho pessoal da espiritualidade, solidão, obsessões, abismos e o desejo de imortalidade. O disco dos NNHMN aporta uma coleção de nove canções que desmaquilham géneros como o techno, a onda minimal, o dark ambient, entre outros tudo num pano de fundo muito preto. Afinal, ser-se humano e racional é uma tarefa bastante hercúlea.



Entre os temas que serviram de apresentação a este novo registo encontram-se "Shulamite Woman" - uma malha corpulenta a repescar distintas visões da música eletrónica em conjugação com a veia experimental e soporífera em que os NNHMN trabalham - e ainda o tema de abertura "Kedar" - que é uma das melhores composições deste longa-duração e abrange tonalidades e ritmos altamente monocromáticos a provocar um estado de agonia no ouvinte. É caso para dizer: música psicologicamente densa. 


Outro aspeto que se torna evidente com as reproduções sucessivas de Church Of No Religion é a voz efémera e desvanecida na penumbra que Lee nos apresenta e que traz à memória nomes como Alison Lewis (Linea Aspera, Keluar, Zanias) pelo virtuosismo no domínio dos agudos. Estes efeitos na vocalização podem ser encontrados em músicas como "Teutons", "Army Of Mary" ou "Ariel". Destaque ainda para a faixa de encerramento "Crawling" - onde Lee vai numa vibe mais Fever RayApesar de ser quase impossível descodificar a mensagem que Lee nos vai ecoando ao longo de Church Of No Religion a verdade é que o ouvinte é facilmente projetado para um estado de hipnose na conjugação entre o som analógico e os sintetizadores consistentes e profundos - que se destacam em grande foco neste disco. 



Church Of No Religion inicia de forma mais violenta e brutal e vai pouco a pouco abrindo espaço a uma fase mais imersiva e relaxante. As quatro primeiras músicas ("Kedar", "Häxan", "Teutons" e "Army of Mary") apresentam-se mais poderosas e fortemente inseridas num ambiente catártico e angustiante, sendo que "Ariel" marca um ponto de viragem para uma aura mais esperançosa. A última faixa, "Crawling", encerra o álbum de forma eficaz e memorável num clima sinistro e gélido transmitido numa produção altamente luxosa e marcante. 

A estreia dos NNHMN nos longa-duração com Church Of No Religion é ambígua: faz sentir-nos perdidos entre o caos da existência humana mas ao mesmo tempo abrange uma energia que ecoa esperança e otimismo em seguir em frente. Esta ambiguidade - que neste registo funciona como uma fórmula bastante eficaz - faz deste disco um registo muito bem conseguido e pronto para explodir entre o cenário underground europeu. Façam ouvi-lo!

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terça-feira, 15 de outubro de 2019

[Review] Coil - Theme From the Gay Man’s Guide To Safer Sex




Theme From the Gay Man’s Guide To Safer Sex Musique Pour La Danse | junho de 2019
 8.0/10


E se os Coil tivessem composto a banda sonora original de Twin Peaks? Não é por acaso que colocamos a questão que inicia este texto sobre Theme From the Gay Man’s Guide To Safer Sex, a mais recente adição ao arquivo da banda de John Balance e Peter Christopherson. Original de 1992, um ano após o capítulo final da série televisiva de David Lynch, em 1991, o disco, que serviu de banda-sonora para um documentário instrucional sobre sexo seguro, recebeu este ano a sua primeira edição física pela editora suíça Musique Pour La Danse. Tal como uma boa fatia do trabalho dos britânicos, também este disco, que musicou o filme dos realizadores Mike Esser e Tony Carne com o mesmo nome, perdeu-se nas brumas do tempo após a morte dos seus protagonistas (Balance faleceu tragicamente em 2004, seguindo-se o cúmplice Christopherson, com quem mantinha uma longa relação amorosa, em 2010).

O documentário, tão sexual quanto educacional, angariou mais de 10000 libras para o Terrence Higgins Trust, uma instituição de caridade britânica que realiza campanhas e fornece serviços relacionados com HIV e saúde sexual. Numa altura em que a homossexualidade não era amplamente aceite e a SIDA ainda era como que uma sentença de morte, a educação sexual era essencialmente interiorizada através da pornografia. O objetivo do filme era, portanto, criar um documento que educasse e sensibilizasse a comunidade gay da época para os perigos do sexo desprotegido.

Composto por quatro faixas originais e duas renovadas composições, Theme From the Gay Man’s Guide To Safer Sex segue as pisadas anteriormente traçadas em Loves’s Secret Domain, explorando as sonoridades downtempo do disco original de 1992. "Queríamos fazer um pastiche de música de elevador”, explica Danny Hyde, então membro do grupo e atual detentor de boa parte do legado do grupo. A cadência lenta e sedutora de “Exploding Frogs”, uma versão estendida e aprimorada do original “Omlagus Garfungiloops”, remete-nos para o célebre plano em que Audrey Horne, femme fatale da série televisiva de David Lynch, dança pausadamente nos corredores do Great Northern Hotel, enquanto o tema-título nos guia pelas paisagens mais hedonistas da house e dos ritmos baleares. “Nasab Arab”, assim como a sequela com o mesmo nome, exploram um lado mais percussivo e tribal, com padrões circulares de sintetizador a servirem como veículo para uma possível viagem de elevador em ácidos. 

Ao contrário da restante obra dos Coil, Theme From the Gay Man’s Guide To Safer Sex foi produzido num único dia. Os temas originais que integram a obra foram feitos por encomenda, e a sua produção foi imediata e pouco criteriosa. O resultado é um dos trabalhos mais comerciais do grupo. É também um trabalho sem grande recurso a voz, e o papel de Balance pode não estar visível à superfície, mas a sua presença é sentida, nomeadamente na influência balear da música de dança e dos clubs de Ibiza que tanto o fascinaram na década de 1990. O disco mantém, no entanto, a garra idiossincrática e radical dos seus antecessores mais aclamados. A sua audição é, portanto, obrigatória para qualquer fã assíduo do grupo, servindo como mais um documento vital para o melhor entendimento de um dos grupos mais revolucionários dos últimos 40 anos.


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quinta-feira, 10 de outubro de 2019

[Review] Danny Brown - uknowhatimsayin

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uknowhatimsayin | Warp Records/Fool's Gold Records | outubro de 2019 
8.3/10 

Instalando-se desde o início da sua carreira como uma personalidade audaciosa e com humor a rodos, e tendo evoluído da cena underground até ao panorama mainstream atual do hip-hop, o artista de Detroit Danny Brown dispensa apresentações. Contando com tiros certeiros na sua discografia como o colossal XXX ou o sufocante Atrocity Exhibition, o rapper de 38 anos tem-se cimentado cada vez mais como um espalha-brasas desmesurado e sem igual, ao mesmo tempo que demonstra uma adaptabilidade invejável a beats com estilos sonoros e disposições díspares a cada disco lançado. É seguro dizer que essa tendência se mantém intacta neste seu sexto álbum de originais, uknowhatimsayin, que conta com onze faixas no seu todo. 

Na cadeira de produtor executivo, Danny Brown conta sobretudo com o auxílio do histórico membro dos A Tribe Called Quest e histórico fabricante de beats Q-Tip, que é dono de um cunho sonoro de cânones mais soulful, enquadrando-o num panorama mais boom-bap, mas ainda assim com uma dose controlada de texturas leftfield pelo caminho, e que serve de veículo para a quantidade imensurável de bravado expressada pela voz caracteristicamente anasalada de Brown ao longo deste disco. Para além de Q-Tip, o rapper conta com o auxílio de mais alquimistas de som, como o colaborador de longa data Paul White, o mestre em aventuras alucinantes sonoras Flying Lotus, e um dos valores emergentes do hip-hop em recente memória, JPEGMAFIA

Quanto às faixas em si, preparem-se porque os temas vulgares tão característicos do homem estão, como sempre, em força, vindo, por exemplo, de vivências carnais que ele teve ao longo da vida, amalgamados com a anteriormente referida basófia, descrita em versos como “I ignore a whore like an email from LinkedIn” (“Savage Beast”) “I eat so many shrimp I got iodine poison” e “Got a foursome with four fours and I called it a twelve/One was chubby, one was ugly, wack as hell” (“Belly of the Beast”), entre muitos outros exemplos. Todavia, neste disco também há imenso espaço para outras temáticas de cariz mais sério, como referências a duras realidades outrora vividas de perto nas ruas, nomeadamente em “Combat” (“It’s the life that we chose, friends become foes/Nobody to trust, that’s the way life goes”) e “Change Up” (“Every other day, always some shit/I'm the underdog but I'm never over it”), mas também lembra o ouvinte de que se tem que persistir face às dificuldades que a vida traz, como no tema-título “uknowhatimsayin” (“My guy, just hol' your composure/And when you're down, it gets cold, I know, ah”) e no single “Best Life” (“'Cause ain't no next life, so now I'm tryna live my best life/I'm livin' my best life”). 



Como não podia deixar de ser, o delivery sempre polivalente de Danny Brown torna a jornada vivida e cativante do início ao fim, e o mesmo se pode dizer dos feats convidados que trazem o seu cunho inerente. Como resultado, tornam-se uma mais-valia à experiência do álbum no geral, como a participação de Blood Orange em “Shine”, que quase torna a faixa em algo saído de um álbum dos Brockhampton, ou o brand mais próprio de ostentação dos Run the Jewels demonstrado em todo o seu esplendor, casado com os beats versáteis de JPEGMAFIA, em “3 Tearz”. E falando em JPEGMAFIA, ele dá o ar da sua graça enquanto convidado de honra no refrão do assertivo “Negro Spiritual” produzido pelo alucinante Flying Lotus. Por fim, os vocais roucos do artista afrobeat Obongjayer são aquele remate inesperado, mas certeiro às faixas "uknowhatimsayin" e "Belly of the Beast".

Seguramente, uknowhatimsayin é no fim de contas um registo digno do progresso alucinante que Danny Brown tem tido ao longo desta sua aventura. Pode-se talvez argumentar que o revamp sonoro aqui tomado a cargo empalidece um bocado em comparação com diligências criativas anteriores como Atrocity Exhibition, mas todavia tem o seu próprio charme irreplicável, além de que compensa bastante com uma inesperada leveza que bate mais certo com o delivery desenfreado do Danny Brown, para não falar dos feats convidados a fazerem parte da jornada. Expectavelmente, uma coisa é certa, sendo essa de que este álbum tem já o lugar cimentado na lista dos melhores do hip-hop feito este ano.

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quarta-feira, 9 de outubro de 2019

[Review] Leopard Skull - Welcome Home


Welcome Home | EXAG Records | setembro 2019
8.0/10

Leopard Skull, é assim que Harm Pauwels, multi-instrumentalisma de Ghent, Bélgica, se apresenta a solo no mundo da música. Deu os primeiros passos em 2014, quando gravou os seus três primeiros temas e foi convidado a dar o primeiro concerto no Incubate Showcase Festival, na Holanda. Partindo destas canções, Leopard Skull começou a estar mais atitvo, ora a tocar em garagens locais e eventos da cena psicadélica, ora a marcar presença em festivais internacionais, como foi exemplo o Lugano Buskers Festival, na Suíça. Nas suas atuações ao vivo Leopard Skull faz-se sempre acompanhar pelos The Hunters.

Foi no ano de 2017 que Leopard Skull se estreou nos registos discográficos, com o EP homónimo a ser lançado pela editora belga Belly Button Records. Mais recentemente, no passado mês de setembro, o artista belga trouxe ao mundo Welcome Home, o seu primeiro longa-duração pelas mãos da EXAG Records, editora de Bruxelas, por onde já saíram trabalhos de SLIFT e Phoenician Drive, bandas que passaram recentemente pelo nosso país.


À primeira audição, num serão familiar, Welcome Home soou muito a Beatles, como disse a minha mãe. Sim, é verdade, as influências da fase mais tardia e psicadélica dos Beatles estão todas lá, mas após várias audições, consegui entender a personalidade de Welcome Home, assim como todas as suas influências.

Welcome Home é iniciado pelo tema “7 Nights at The Week”, o qual resume bem as sonoridades que vão ser abordadas ao longo deste disco. Este tema introdutório apresenta também um interessante arranjo de instrumentos de sopro. Segue-se “Breakfast”, um dos temas mais fortes de Welcome Home, tanto a nível musical – transporta-nos facilmente para os anos 60 - como lírico “Your Breakfast always keeps me sane / Your coffee will get me awake / When I’m feeling numb in my head / You use your tricks to make me feel great”. Outra influência bem notória em Welcome Home é a do neozelandês Connan Mockasin, da sua voz característica e dos seus ritmos de guitarra, principalmente nos temas “I Want to Go” e “Birthday Cake”. O tema “Big Leaf” apresenta-nos uma faceta lo-fi pouco comum neste disco, ao jeito de Ty Segall.

“House” é a faixa com maior duração deste álbum, aproximadamente 8 minutos, e a mais bela deste conjunto de 12 canções. Os seus primeiros minutos têm o único propósito de nos embalar-nos até casa, guiados por um conjunto de sintetizadores sonhadores. Por sua vez, os minutos finais desta faixa mostram um Leopard Skull mais virado para as sonoridades características do britpop, assim como o tema seguinte “People I Don’t Know”, que parece retirado da discografia dos Oasis.


O primeiro single a ser conhecido de Welcome Home foi o tema “My Thoughts”, o qual me despertou logo a atenção para este trabalho e me levou a querer ouvir mais de Leopard Skull. “My Thoughts” está envolvido numa atmosfera sintética e em algum reverb, sendo a par de “House”, o tema que mais gente irá atraír até este álbum. A percussão também tem espaço para brilhar neste disco, principalmente em “Sun”, tema que traz à tona a sonoridade dos Foxygen.

Welcome Home é um disco que reúne a melhor psicadelia dos anos 60 e 70 e lhe dá um toque de contemporaneidade. Marcado por sonoridades que não são de todo originais – é cada vez mais difícil ser-se inovador no mundo saturado da psicadelia -, este disco apresenta uma coleção de músicas bem produzidas, com uma interessante componente lírica e uma atmosfera lisérgica muito própria.

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domingo, 6 de outubro de 2019

Cinco Discos, Cinco Críticas #50


Já são 50 as edições do Cinco Discos, Cinco Críticas e, no total, 250 discos sobre os quais opinámos desde que lhe demos início. 

Para encerrar esse mágico número nesta edição relembramos os lançamentos de estreia dos portugueses Omie Wise, com To Know Thyself (self-released); Lola's Pocket PC com o homónimo Lola's Pocket PC (self-released) e ainda a grande surpresa na cena darkwave os Figure Section com o EP Spectre (Aufnahme + Wiedergabe). Já nas bandas que se repetem nos discos entram os californianos Monarch com Beyond The Blue Sky (El Paraiso). Para fechar, a estreia do novo projeto da editora Kaczynski Editions, com a edição de THE URBAN TAPE pelos artistas zerogroove e Alessandro Bocci.

Aproveitem para descobrir melhor estes trabalhos no Cinco Discos, Cinco Críticas #50.


To Know Thyself | self-released | setembro de 2019 

7.7/10 

Fundados em 2016, e depois de um EP de estreia (1808) que serviu como pretexto para vários concertos por inúmeros festivais e que foi fulcral para reunir um quinhão de atenção como parte dos novos valores portugueses musicais, os bracarenses Omie Wise mandam assim para fora o seu primeiro registo em formato longa-duração, intitulado To Know Thyself
Destes marmanjos, pode-se esperar um hard rock de tendências progressivas e de peito feito, mas sem nunca descurar as sensibilidades mais melódicas que lhes dão uma faceta mais modernizada. Os arranjos musicais aqui tomados a cabo adotam sons reminiscentes de nomes como Jethro Tull e Blue Oyster Cult, ou seja, estes meninos não se coíbem de ser influenciados por exemplos mais old-school e, como resultado acabam por demonstrar uma faceta mais madura no seu ADN. Quer-se com isso dizer que pegando nessas mesmas influências, moldam-nas de modo a formar uma sonoridade sem pretensões de maior e que se revela tanto etérea como de barba rija, mas sem grandes surpresas, para o bem e para o mal. Momentos de dimensão épica como o órgão intimidante em "Umbra", a aventura sonora em forma de tensão contida em "Dead Wings Fly Higher Pt.1 e 2", o folk psicadélico com floreados medievais de "Make a Knot" e a agressividade pseudo-stoner em "Something Wicked Stands Behind Me", revelam que estes meninos dominam a arte de rockar como gente crescida.
Rúben Leite





Lola's Pocket PC | self-released | janeiro de 2019

7.0/10

Lola's Pocket PC é um dos projetos de Sputnik, mais conhecid@ por Weatherday. Enquanto que os lançamentos por esse nome envolvem uma sonoridade lo-fi noise pop, com guitarras e distorção, Lola's Pocket PC abraça um som eletrónico, onde a estética DIY se junta a um electropop alternativo e minimalista. O lançamento de estreia deste projeto é um álbum homónimo conceptual e narrativo no qual é contada uma história sobre uma rapariga chamada Lola, que "hackeia" o telemóvel da narradora e a relação entre as duas. 
A narrativa desenlaça-se ao comando de uma voz envolta em efeitos e rodeada por sintetizadores. Imersos em reverb e acompanhados por drum machines, estes parecem saídos dos anos 80 e definem toda a estética do álbum. As principais melodias instrumentais escondem a voz enquanto arpejos, acordes e simples linhas de baixo preenchem o fundo sem grandes variações de ritmo. Esta falta de dinâmicas entre as diferentes faixas faz com que estas demasiado uniformes e possam tornar-se apenas música de fundo para os ouvintes menos interessados ou atentos. 
Não é inovador e a composição das canções não é especialmente brilhante, mas fãs do género podem encontrar em Lola's Pocket PC uma agradável meia hora, na qual sobressaem "Pocket PC" e a extensa "Lola", com 15 minutos de duração.
Rui Santos





Spectre EP | Aufnahme + Wiedergabe | outubro de 2019 

8.0/10 

Os Figure Section são a mais recente adição ao catálogo da alemã Aufnahme + Wiedergabe e chegam numa estreia em curta duração com Spectre, um EP a situar-se nos espectros do techno, industrial e minimal synth, com uma eletrónica altamente poderosa e abrasiva. A dupla formada pela cantora e atriz austríaca Olivia Carrère e o produtor belga Yannick Franck (Raum, Orphan Swords), estreia-se nas edições de estúdio com três novas faixas completamente imersivas, onde a eletrónica conduz o ouvinte a uma ação quase instantânea. 
O EP abre com o tema homónimo "Spectre" - cuja estrutura musical faz lembrar o ambiente sonoro que os Boy Harsher têm produzido nos últimos anos (e que se tem mostrado uma fórmula de sucesso mundo fora) e a voz, por vezes pálida, traz algumas referências à persona de Larissa Iceglass (Lebanon Hanover). É, contudo, em "Disfigured Section" que os Figure Section mais nos provocam criando um ambiente altamente característico e pessoal. A voz de Olivia Carrère torna-se só sua e a eletrónica de Yannick Franck entranha-se quase de automático no ouvido, trazendo ainda umas colagens sonoras no final, bastante bem incutidas. "Slick" dá por encerrado o primeiro trabalho com uma produção altamente estimulante e uma ambiência industrial manipulada na quantidade certa. 
Os Figure Section chegam em 2019 ao catálogo das novas bandas que, dentro em breve, estarão a circular pelos festivais mais góticos da Europa. Com o primeiro single "Teutonic Knights" a chegar às playlists dos mais atentos em março, é com este Spectre que a dupla se começa a integrar no novo cenário underground com boa distinção, deixando os ânimos bem altos para um longa-duração de estreia. A ver vamos.
Sónia Felizardo





Beyond the Blue Sky | El Paraiso | agosto de 2019



7.0/10

Há poucas coisas nesta vida que temos o poder de prever com verdadeira exatidão. Justo dizer que amanhã o sol vai nascer, que o céu vai continuar a ser azul e que o próximo álbum a ser lançado pela El Paraiso vai ser um deleite psicadélico. 
Desta vez, a prolífica e consistente editora dinamarquesa lançou um álbum dos californianos Monarch, o seu segundo álbum de longa duração. A banda constituída por Dominic Denholm, Thomas Dibenedetto, James Upton, Matt Weiss e Andrew Ware apesar de estar separada por um vasto oceano dos seus colegas de editora, bandas como Causa Sui (cujos membros Jakob Skøtt e Jonas Munk são fundadores da editora supramencionada) ou os Mythic Sunship, apresentam um som bastante semelhante a estes conjuntos europeus, no que diz respeito às longas jams dentro das músicas unidas, não com cuspe, mas sim com ritmos kraut, composições inspiradas no rock progressivo dos Emerson, Lake and Palmer e alguns devaneios jazz com belos instrumentos de sopro a lançarem em selvagens solos. 
Dada a influência geográfica dos Monarch, estes apresentam uma subtil (mas grande) diferença quando comparado com o restante elenco da El Paraiso e confere-lhes uma personalidade diferente. O toque americana nas suas músicas (que na faixa homónima do álbum chega a roçar o country) faz lembrar as malhas mais tempestuosas de bandas como Lynyrd Skynyrd ou os The Allman Brothers Band e tem momentos onde dão uma clara piscadela de olhos ao Ted Nugent solos e riffs muito rock and roll. 
Beyound the Blue Sky é um deleite para os sentidos. As suas longas e descomprometidas faixas tanto dão vontade de soltar os cabelos ao vento enquanto conduzimos uma pick-up por um árido deserto como são perfeitas para ouvir com fones enquanto estamos deitados numa refrescante sombra de olhos fechados. Mais um belo álbum com selo da El Paraiso, que se confirma como uma das melhores e mais consistentes editoras dentro do rock psicadélico mais experimental, e dos Monarch que se afirmam como um nome sério dentro deste estilo musical.
Hugo Geada





KACZYNSKI TAPE SESSIONS - THE URBAN TAPE (zerogroove/Alessandro Bocci) | Kaczynski Editions | outubro de 2019 

7.0/10 

A editora italiana Kaczynski Editions tem um novo lançamento agendado para este mês, tratando-se de uma edição inserida numa nova série a que chamaram KACZYNSKI TAPE SESSIONS que consiste na edição de uma cassete com um total de 30 minutos de duração, dois artistas convidados, 15 minutos para cada artista e um tema base no qual os sons resultantes se devem inspirar. 
A primeira cassete conta com a participação de Giuseppe Fantini (zerogroove, guitarra e maquinaria nos projetos ranter's Groove e zero23) e Alessandro Bocci (membro regular dos Starfuckers, banda de culto de vanguarda italiana) e chega às prateleiras a 15 de outubro sob o cunho de THE URBAN TAPE. Nesta cassete ambos os artistas propõem a sua visão urbana do som, num total de sete músicas, quatro trabalhadas por zerogroove - a mostrar a sua imagem esquizoide dos subúrbios urbanos - e três assinadas por Alessandro Bocci - numa abordagem sombria e alucinada da paranoia urbana. Esta é uma edição altamente estimulante para os fãs da eletrónica, onde ganham destaque temas como "ASESINO (samba overdrive)" - assinado por zerogroove e a fazer lembrar o clássico single dos Kraftwerk, "Autobahn" - e ainda "SHAKE THE GATE", assinado por Alessandro Bocci, a trazer uma abordagem mais punk ao resultado final deste trabalho colaborativo. 
THE URBAN TAPE - a primeira série de um projeto que artisticamente transparece ser muito rigoroso, bem pensado e pronto para surpreender os fãs da eletrónica contemporânea - apresenta a peculiaridade de ser uma cassete feita em madeira e pintada à mão com spray. Esta edição, bastante singular e ultralimitada estará disponível a partir do dia 15 de outubro, mas já a podem disfrutar na íntegra abaixo.
Sónia Felizardo



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terça-feira, 24 de setembro de 2019

[Review] Black Bombaim - Black Bombaim


Black Bombaim | Lovers & Lollipops com Cardinal Fuzz | março de 2019
8.0/10

Na música electrónica, o foco que era dedicado à composição e experimentação foi roubado pela produção - cada vez mais existem sons-tipo para cada produtor, altamente derivados de material e diferentes técnicas. No rock, contudo, esta luta dissipou-se - em grande parte substituída por uma sede de intensidade (um fenómeno fundamental para grande parte da música hoje produzida que ficou conhecido como loudness wars), a produção teve cada vez mais um papel menos relevante, levando a uma homogeneização do género e ofuscando as contribuições que nomes enormes como Todd Rundgren e Brian Eno tinham criado.

É por isto que Black Bombaim, o último álbum de estúdio dos barcelenses Black Bombaim é tão importante. Não só é assinado por um dos grupos mais notórios e relevantes da música psicadélica portuguesa como serve de exercício de experimentação e comparação para diferentes estilos de produção no rock: o sexto álbum de estúdio do trio nortenho combina seis faixas gravadas em três locais distintos (um auditório velho, uma sala vazia num posto de correios abandonado e uma sala de reverberação numa universidade de engenharia) e produzidas por três nomes incontornáveis da música portuguesa atual - Pedro Augusto, a figura por detrás de Live Low, um dos projectos mais interessantes em solo nacional da última década, Luís Fernandes, mais conhecido pelo seu papel em peixe:avião mas com colaborações ambiciosas no mundo da música clássica contemporânea com nomes como Joana Gama Rodrigo Leão e Jonathan Uliel Saldanha, o mentor dos HHY & The Macumbas, um projecto que continua, desde a sua concepção, a desafiar os limites da música. Um conceito ambicioso - raras são as vezes em que a coesão de um álbum não é factor decisivo na sua apreciação - mas com resultados que compensam largamente esta aventura na qual os Black Bombaim e três produtores nacionais embarcaram.

É claro que, não obstante ao interesse imediato que estas colaborações suscitam, Black Bombaim continua, intuitivamente, a tratar-se de um álbum de Black Bombaim - o psicadelismo capaz de conjurar montanhas continua lá, a expansividade que colocou Barcelos no mapa do rock nacional está ao virar de cada transição. Entre temas agorafóbicos como "Zone of Resonant Bodies", cuja dimensão e dinâmica deixam o ouvinte desolado numa paisagem sónica eterna, peças mais quintessençais dentro do género psicadélico como "20171216", com a inegável marca da intemporalidade das reverberações e repetições, ou a ginga clássica do rock psicadélico a rasgar de "20180224", Black Bombaim é um disco que existe confortavelmente dentro daquilo a que os barcelenses nos habituaram, mas também cria a vontade inegável de ver estas colaborações únicas concretizadas cada uma no seu próprio álbum. É difícil ter de ficar só pela imaginação de até onde é que o krautrock electrónico de "20180415" podia ir, mas por agora as bençãos ficam-se contidas nestas seis faixas.

Em completa verdade, é impossível, não importa a extensão, cobrir tudo aquilo que Black Bombaim pode representar e aquilo que é - apesar de ter escutado o álbum incontáveis vezes desde que saiu, em parte concentrado naquilo que podia dizer sobre ele, continuo sem conseguir particularmente concretizar em palavras o que acho sobre o álbum, daí ter escolhido a brevidade. Black Bombaim neste disco apresentam-se tão refinados como crus, criativos como sempre e tão indesculpavelmente iguais a si próprios como nunca. Ao convidarem três novos produtores para a sua casa, abriram alas a um tornado refrescante num género que, quer queiramos quer não, já foi batido e recaldado vezes sem conta. Para o futuro fica a esperança de que mais deste género se faça, que mais se experimente. Para já, contudo, fica a marca e o corpo cansado deixados por Black Bombaim.

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quinta-feira, 19 de setembro de 2019

[Review] Buda XL - Arte de Propósito


Arte de Propósito | Contentor Records | maio de 2019
7.5/10

Numa espécie de reinvenção do homem do renascimento musical temos João Conde, um nome que é difícil de igualar no panorama do hip hop nacional - multi-instrumentalista com participações alargadas na Contentor Records e um aparente acesso a um sem fim de anacronismos musicais. No seu álbum a solo de estreia, Arte de Propósito, João Conde veste a sua pele de Buda XL, nome artístico que empunha e que tem usado para os projectos que incorpora. 
Arte de Propósito é um álbum que no enquadramento atual do hip hop tuga é raro. Instrumentalmente, há uma larga derivação de uma compreensível veneração dos anos 70, traduzida num calor que está presente ao longo de todo o disco - samples existem envolvidas de uma qualquer saturação ou ruído orgânico, numa emulação da produção que seria esperada num Pieces of a Man de Gil Scott Heron. As letras, para destoar do instrumental, não soam a velho - têm uma certa frescura que a voz compassada e quase rouca de Buda XL ajusta ao instrumental. 
Apesar de haver uma certa coesão na qualidade ao longo de todo o disco, é impossível não fazer o ocasional destaque de algumas faixas, em particular algumas que contam com a participação de Ricardo Pereira - Mano Hugo (com produção de spock) e Lugar Comum. A voz fora do comum usada num registo quase expectável cria a estranheza cativante que, apesar de presente ao longo de todo o álbum, realmente solidifica o álbum numa peça única. Noutra direção, HOPA combina Mr. Papz e Miguel Ablaira na produção numa ensemble de revivalismo psicadélico e reverberações, terminando num misto de krautrock e trip-hop. O Velho destaca-se por uma razão muito peculiar - não dava para esperar que um instrumental de grunge combina-se tão bem com um tema de hip hop, mas nesta curta viagem já devia ter percebido que Buda XL transita facilmente entre o previsível e o inesperado, operando nos espaços vazios que muitos músicos deixam por encher. 
O disco acaba com Reborn, uma sensação com a qual nos conseguimos identificar depois de ouvir este disco. Como um passeio por uma floresta, temos elementos que são velhos mas que não deixaram de crescer, e Buda XL construiu a sua própria floresta, não deixando que ela perdesse o seu carácter orgânico. A Arte é de propósito, mas não é por isso que perde o encanto.

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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Cinco Discos, Cinco Críticas #49


Quase a chegar à meia centena de edições regressamos com mais cinco críticas a cinco discos que se têm realçado nossa playlist. Num ano que começa lentamente a aproximar-se do seu fim, destaque então para as novas edições de Black Mass - Animated Violence Mild (2019, Sacred Bones Records); Silent EM - The Abscence (2019, Disko Obscura); Glass Beach - The First Glass Beach Album (2019, self-released); The Black Furs - Stereophonic Freak Out Vol.1 (2019, self-released) e drowse - Light Mirror (2019, The Flenser).

Podem ler a 49ª edição do Cinco Discos, Cinco Críticas, bem como ouvir os mencionados discos, na íntegra, abaixo.

Animated Violence Mild | Sacred Bones Records | agosto de 2019

8.0/10

Animated Violence Mild é o título do mais recente trabalho de Benjamin John Power, um dos membros fundadores da banda Fuck Buttons, mais conhecido por Blanck Mass. Depois do sucesso de álbuns como Dumb Flesh ou World Eater, Power reformulou o seu estilo e tornou a sua eletrónica mais poderosa e catártica, criando assim uma torrente viciante de ruído apocalíptico que culminou neste seu último trabalho.
Neste álbum, Power cria uma espécie de pista de dança onde se alia uma evisceração industrial a um techno que já é habitual em Fuck Buttons. Talvez arrisque dizer que este álbum é uma espécie de "música de carrinhos de choque" com uma dose avassaladora de música electro-industrial e gritos viscerantes, tornando-o único e extremamente viciante. Fica claro que Benjamin John Power poderia facilmente optar por um género musical mais dançante se assim o entendesse. Não obstante, parece não ter interesse nisso, já que cada música é mais uma experiência sonora inigualável. 
Um trabalho surpreendente, abrasivo e incandescente. Pode muito bem ser o melhor disco a solo de Power, congruente com a última década e meia de exploração por novos domínios no mundo da música. Nos últimos oito anos, Blanck Mass avançou lentamente para se tornar um dos produtores experimentais mais empolgantes do Reino Unido. Animated Violence Mild é uma experiência sonora fantástica e delirante, que estará certamente nos tops musicais de 2019.
David Madeira





The Abscence | Disko Obscura | julho de 2019

7.5/10

Jean Lorenzo, o artista por trás da identidade Silent EM lançou em julho deste ano mais um longa duração pronto para arrasar as pistas de dança mais góticas mundo fora. Com um historial por trás de bandas de post-punk desde a tenra idade foi, em 2010, com a mudança para uma nova cidade que as caixas de ritmos e os sintetizadores construíram o seu caminho a solo no mundo da música. Cinco anos mais tarde, depois de alguns EP's e 7'' singles surge então o primeiro trabalho em colaboração com Ortrotasce, Common Loss (2015) que o leva a algum reconhecimento pela América. Em janeiro do ano passado, na alçada da Detriti Records, Silent EM lançou o LP Foreign States e chega um ano depois para se afirmar na Europa com The Abscence, um disco recheado de hits altamente energéticos e aliciantes para os fãs da eletrónica mais gravativa e obscura.
A explorar temas como desilusão, guerras e utopias de amor perdido, Silent EM cria uma sonoridade que vai beber influências ao industrial, EBM, synth-punk e alguma coldwave francesa. Neste The Abscence destaque para temas como "Machine" - altamente recomendado a fãs de QUAL e Lebanon Hanover; "Last Rites" - a explorar a interseção entre synthwave e techno; a grande malha do álbum "No Rest" e, ainda, "Wraith" a fazer lembrar nomes icónicos da EBM como Nitzer Ebb e Front 242 e ainda as paisagens mais contemporâneas de nomes como Poison Point
Numa eletrónica contextualmente negra e pesada Silent EM constrói um disco que - sem acrescentar algo novo ao que já se tem vindo a produzir dentro destas atmosferas eletrónicas mais sombrias - consegue surpreender e proporcionar uma certa reação no ouvinte. Sem dúvida, o trabalho mais coeso de Jean Lorenzo até à data.
Sónia Felizardo





The First Glass Beach Album | self-released | maio de 2019

8.5/10

Nas suas músicas mais diretas, os Glass Beach apresentam um power pop e pop punk moderno, mas a banda parte dessa essência para múltiplas direções, fundindo várias sonoridades. As fronteiras entre a música pop e géneros como o midwest emo, a indietronica e o pop mais progressivo são desafiadas em faixas que ultrapassam os seis minutos de duração ou curtos interlúdios eletrónicos. Entre os refrões emotivos e as guitarras energéticas - que evocam artistas como Jeff Rosenstock - há espaço para sintetizadores ("Bone Skull"), pianos jazzy ("Bedroom Community"), baterias digitais ("Dallas") e, ainda, auto-tune ("Soft!!!!!!"). 
The First Glass Beach Album é bastante dinâmico e equilibra músicas bombásticas e calmas, guitarras distorcidas e sintetizadores limpos, composições simples e complexas. Esta diversidade torna-o ocasionalmente confuso, mas a ambição e versatilidade da banda dão um encanto especial ao disco. As linhas de baixo são funky, algumas melodias de voz catchy (como nas primeiras duas faixas) e a produção e mistura de J McClendon, líder do projeto, são excecionais. As letras agridoces, cantadas de forma sincera e impetuosa, retratam temas como amor, solidão e alienação. 
Os Glass Beach estreiam-se em grande, com uma coleção de canções imprevisível, eclética e muito peculiar, onde se destacam as enormes "Bedroom Community" e "Dallas". É um álbum longo, mas que nunca se torna cansativo. Não o deixem passar despercebido.
Rui Santos





Stereophonic Freak Out Vol​.​1 LP | self-released | agosto de 2019


8.0/10

É da Argentina que nos chega um dos melhores álbuns de stoner (e de qualquer tipo género de música que envolva distorções e fuzz em instrumentos de cordas) do ano. Stereophonic Freak Out Vol.1 LP é o segundo álbum de longa duração dos The Black Furs e apresenta-se com tal pujança que os argentinos já parecem uns veteranos nesta cena musical. Um casamento perfeito entre o mais sujo dos blues e os punitivos graves do doom metal, com uma narrativa colada através de emissões de rádio (recordar o Songs For the Deaf dos Queens of the Stone Age) este álbum vai certamente revelar-se um grande deleite para todos os fãs deste som descendente dos Black Sabbath
Apesar de ser fácil etiquetar esta banda como stoner ou doom, os The Black Furs têm uma personalidade e identidade muito forte. As raízes latinas não são esquecidas com ritmos exóticos nas percussões, algo que ajuda a banda a conseguir o seu distintivo som, auxiliado também pela utilização de instrumentos pouco convencionais como o mandolim, o berimbau, shakers e guitarras slide. Algo que os afasta do esterótipo stoner, é a ritmada cavalgada com muito groove e mais acelerada do que é mais frequentemente associado a este género. O único problema que este afastamento pode acarretar é agravar o risco de um torcicolo provocado pelo headbang descontrolado. 
Na introdução da música "Black Limousine Blues", um dos interlúdios radiofónicos do álbum, uma apresentadora pede aos ouvintes para ouvirem a nova música da banda "mais pesada, mais suja, e mais maléfica da Argentina, os The Black Furs" e, sem qualquer tipo de bazófia, ela é capaz de ter acertado por completo na sua descrição.
Hugo Geada





Light Mirror | The Flenser | junho de 2019 

8.0/10 

O sucessor do LP Cold Air (2018) é o terceiro disco lançado por Kyle Bates sob o pseudónimo drowse e o segundo que conta com a chancela da Flenser, uma casa que se dedica à oferta e curadoria de música extrema e experimental, na qual podemos também encontrar os Have a Nice Life, o Planning for Burial, os Wreck and Reference, entre outros. Light Mirror é, à imagem do que sucede em Cold Air, um trabalho extremamente pessoal, marcado pelo extenso período em que Bates permaneceu na residência artística NES, que teve lugar em Skagaströnd, uma região localizada no norte da Islândia. Ainda que tenha desenvolvido durante essa residência o projeto Fog Storm, grande parte do tempo de Bates foi passado em isolamento forçado durante o qual ocorreram largos períodos de introspeção e contemplação acerca da natureza humana e de como esta reage à solidão. 
De regresso aos EUA, seguiu-se um trabalho quase ininterrupto e obsessivo de gravação de um disco que refletisse o seu estado de espírito emocional. Bates foi diagnosticado com Transtorno Bipolar Tipo I, o que o obrigou simultaneamente a lidar e a aceitar não só a sua condição de saúde, mas também o forçou a lidar com a sua postura introspetiva em relação a tudo o que o rodeia, encontrando na sua música um escape e uma forma de conectar com essas diferentes realidades. Desse confronto interno resulta um álbum extremamente pessoal, que trespassa o seu recente diagnóstico no tema "Bipolar 1" - Bipolar 1 / Definition is a mirror / So I’ve been running half my life / Alone with voices in the night / Can you feel their floating warmth in the night sky? / All the fields are swelling up, giving new - a sua introversão crónica em "Between Fence Posts" - Fence in Winter / Overgrown / And closed / Four sides / Nothing enters / Just silent snow / Trust that it won’t open up; / Seasons change and it remains untouched - e a perda de entes queridos em "Betty" - You never pictured you'd live to watch / Your own body giving up / Your hands shake too much to paint; / Alone at 93, all thoughts and memories / Know that I found love / She’s an artist too; / She faces the world openly / Shining through / Just like you
Lírica à parte, a sonoridade é complexa, com várias camadas que compreendem vocals, instrumentação, field recordings de elementos naturais e gravações de conversas antigas entre Bates e amigos seus. Fãs de Grouper, Slowdive e Mount Eerie irão encontrar aqui motivos de alegria ou talvez, melhor dizendo, algum consolo e conforto emocional ao saber que alguém algures a tentar transformar alguma da tristeza desta existência terrena em algo belo.
Edu Silva



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