domingo, 7 de maio de 2017

Reportagem: Jenny Hval [Lux Frágil, Lisboa]


Em vésperas de feriado do dia do trabalhador, nada melhor do que exercermos do nosso direito de ócio e deslocarmo-nos até ao Lux para assistir à uma das atuações da qual falaremos, certamente, no final do ano como uma das melhores.

A norueguesa Jenny Hval visitou Portugal para uma data dupla, passando no dia 29 de abril pelo gnration, Braga, e no dia seguinte pela capital, num concerto inserida na festa de encerramento do BoCA - Biennal of Contemporary Arts. Na bagagem trouxe o aclamado Blood Bitch, álbum editado em 2016 pela conceituado Sacred Bones. Neste último trabalho, a artista adopta um conjunto de canções mais pop, ainda que abstratas, sem nunca esconder a sua veia mais experimental.

Já passava um pouco da hora marcada quando Jenny subiu ao palco acompanhada pelo seu produtor. Vestida com uma espécie de capa vermelha, a lembrar-nos o Capucinho vermelho, com umas leggins de aspecto semelhante aos músculos do corpo humano, Jenny parecia mesmo uma verdadeira Female Vampire.


Sem surpresa alguma, o concerto focou-se principalmente em temas de Blood Bitch, com maior destaque para os singles "Conceptual Romance", onde a artista cobriu a face com o tecido vermelho da sua capa, fazendo-nos pensar num qualquer filme de terror psicológico de grande teor artístico. Destacaram-se igualmente "Female Vampire", com a melhor interpretação da noite, "The Great Undressing" e "That Battle Is Over" de Apocalypse, Girl (2015).

Muito comunicativa com o público, Jenny estava contente por sermos tantos a vê-la. Confessou-nos também que "It's so sad when nobody is there to watch you play", algo que lhe aconteceu na Austrália. A meio do concerto pegou em algo estranho, uma espécie de cachecol a que apelidou de "cachecol de entranhas" ou "um feto de alien". Mas isto não foi o único momento em que a estranheza imperou no Lux. Houve também tempo para descascar um banana, dançar com ela na mão mas não comê-la.

Ao vivo, a voz de Jenny é tão ou mais incrível que o seu registo de estúdio e a música ganha também uma componente ainda mais eletrónica, ao envolver a sua pop de cariz gélido e abstrato com batidas mais techno. Ao todo, foram quase 60 minutos em que o público presente não parou de dançar. Para concluir esta atuação pouco convencional, Jenny recomendou-nos a usarmos as nossas entranhas, que era algo divertido.

Jenny Hval @ Lux Fragil

Texto: Rui Gameiro
Fotografia: Daniel Vintém

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segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Cinco Discos, Cinco Críticas #52


Na última edição do Cinco Discos, Cinco Críticas de 2019 passaram pela nossa playlist os mais recentes trabalhos dos britânicos Coude - Save Our Souls (Influenza Records, 2019); Berhana - HAN (EQT Recordings, 2019); Hannah Diamond - Reflections (PC Music, 2019); A Winged Victory for the Sullen - The Undivided Five (Ninja Tune, 2019) e Jenny Hval - The Practise of Love (Sacred Bones Records, 2019), os quais destacamos no finalizar de mias um ano civil.

Juntamente com os links de escuta aproveitamos também para tecer algumas opiniões sobre as referidas edições, que podem ler-se na íntegra abaixo. Aproveitem para ouvir e ler abaixo.


Save Our Souls | Influenza Records | outubro de 2019 

6.5/10 

Os Coude são um quinteto oriundo da Bretanha composto por Dom Le Floch (vocais), Ronan Berréhouc (guitarra e vocais), Ludovic Le Ven (Guitarra), Jean Marc Raphalen (baixo) e Olivier Jupin (percussão). Juntos desde 2015, os Coude integram as fileiras da editora francesa Influenza Records que editou no mês passado o seu mais recente álbum, o EP Save Our Souls. A sonoridade dos bretões é largamente inspirada nas estéticas do garage rock lo-fi - com homenagens óbvias e assumidas pelos próprios aos Sonic Youth - mas também às experimentações sónicas da Lydia Lunch. E ao longo das 5 faixas de Save Our Souls - o sucessor do seu primeiro disco homónimo - os Coude destilam mais uma vez a sua raiva millenial, atingindo neste último disco o ponto alto de toda a experiência com a faixa homónima, que marca o final do EP. E é precisamente na despedida que a banda mais se distancia das suas óbvias influências sonoras e começa, de facto, a revelar a sua verdadeira forma, a catarse de toda a sua angústia em forma de eletricidade que tão bem conseguiram traduzir no seu primeiro disco. 
A minha maior crítica a Save Our Souls  - descontando o facto de que este EP soa mais designs-irado que o álbum de estreia – é que este disco poderia ser inteiramente reduzido ao seu single de despedida sem qualquer tipo de prejuízo para a resposta emocional que retiramos deste disco. Espero somente que a grande despedida que os Coude nos proporcionaram com a última faixa de Save Our Souls seja um presságio para a descoberta de novos territórios sonoros. Caso contrário, correm o risco de trespassar aquela ténue fronteira que separa a homenagem da cópia e não me interpretem mal: não há objetivamente mal nenhum em ser uma boa cópia dos Sonic Youth. Mas se os Coude já mostraram que têm capacidade para se expandirem além das suas influências, porque continuar a jogar pelo seguro? Como diria o outro, "aller grand ou rentrer à la maison".
Edu Silva



HAN | EQT Recordings | outubro de 2019 

8.3/10 

Amain Berhane, mais conhecido como Berhana, é um jovem cantor oriundo da cena artística continuamente seminal da cidade de Atlanta que, após ter reunido algum hype por via de EP aqui e singles ali, lançou por fim o seu álbum de estreia HAN em outubro último. Discutivelmente um dos sleeper hits do ano, HAN pode ser descrito como uma requintada iguaria sonora que é bastante influenciada pelas vivências musicais de Berhana - que possui um estilo vocal tanto harmonioso como ritmado, citando até nomes como André 3000 e Björk como exemplos relevantes a seguir - com doses sucintamente equilibradas de diferentes géneros musicais que vão sendo alternados e/ou combinados entre faixas de forma a dar um resultado final bastante prazeroso e melodioso de ouvir. 
Outro aspeto relevante sobre o background deste registo passa por realçar o apreço significante de Berhana pelas sonoridades de temperatura amena e teor funky feitas no Japão, tendo em bastante consideração os movimentos do new wave e city pop formados em terras nipónicas, pelo que se pode considerar este registo como uma espécie de homenagem a esses movimentos. Esta demanda sonora - que é tanto leve como vivaz - é levada à prática tanto nos interlúdios, como em hinos com laivos semi-revivalistas como os destaques "Lucky Strike" e "California" ou em faixas mais lounge/R&B moderno como "Drnuk" ou "Flasbhack" (ou algo de intermédio como a faixa "I Been"). Todavia, há também algum espaço para 180º turns inesperados como o mais arrockalhado "g2g" que, apesar de parecer completamente deslocado do alinhamento geral, acaba por ser um som agressivo bastante aprazível com o seu próprio mérito. Apesar de ser um álbum relativamente curto, HAN é decididamente uma das melhores surpresas em recente memória que irá de certeza convidar a mais rodagens posteriores.
Ruben Leite



Reflections | PC Music | novembro de 2019

8.6/10

Hannah Diamond tem vindo a lançar música pela editora PC Music desde 2013, tendo-se tornado um dos nomes mais marcantes no panorama do bubblegum bass. Reflections é o seu muito ansiado álbum de estreia, que não está muito longe de ser uma compilação. Seis das suas dez faixas foram lançadas como singles ou EP entre 2016 e 2018. Felizmente, o álbum flui bastante bem e a produção das músicas de diferentes anos é consistente. A.G. Cook, que também trabalhou no álbum de estreia de Charli XCX, foi o produtor principal do disco, tendo colaborado com easyFun em três canções. 
As dez canções que integram Reflections passam pelo pop (principalmente electropop) e pela EDM, com elementos de trance a invadirem faixas como "Invisible", "Concrete Angel" e "Fade Way". A sonoridade do disco é assumidamente digital, repleta de sintetizadores cintilantes e baterias eletrónicas. Também estão bastante presentes efeitos na voz, como glitches e o seu uso como samples, apesar do auto-tune robótico de singles anteriores, como "Pink and Blue", ter sido atenuado. As letras são simples e focam-se em relações amorosas e corações partidos. 
Reflections é um dos lançamentos pop mais interessantes do ano e um álbum obrigatório para fãs de bubblegum bass. Mostra uma faceta mais calma e subtil de um género que costuma ser energético e hiperativo e tem canções imperdíveis como "Never Again" e "Loves Goes On". Esperemos que a PC Music nos continue a presentear com música deste calibre durante a próxima década.
Rui Santos



The Undivided Five | Ninja Tune | novembro de 2019

8.0/10

The Undivided Five é o nome do novo trabalho dos A Winged Victory for the Sullen. Neste novo álbum, o duo composto por Adam Wiltzie e Dustin O'Halloran voltam a trazer-nos momentos instrumentais majestosos de grande introspeção musical. 
Dustin O'Halloran fez larga parte da sua carreira como compositor de bandas sonoras, enquanto Adam Wiltzie é, entre outras coisas, um membro dos mestres de drone/ambient neoclássicos Stars of the Lid, juntamente com Brian McBride. A sua produção sob o nome de A Winged Victory for the Sullen não sai muito dos limites dos seus outros trabalhos, embora exista uma franqueza e um detalhe especial na atmosfera que O'Halloran e Wiltzie trazem para este projeto em conjunto. 
As nove faixas que compõem The Undivided Five traçam o mesmo caminho musical lento, sinuoso e inteligente que têm criado nos seus últimos trabalhos. Debaixo das camadas do piano e dos instrumentos de cordas existem ruídos subtis quase impercetíveis, mas que criam uma sensação perturbadora, uma sensação de inquietação no meio da beleza indescritível que se encontra ao nosso redor. A Winged Victory for the Sullen já nos habituaram a produzir obras de nos tirar o fôlego, de beleza sumptuosa, que talvez aborrecerão aqueles que não estão equipados com a paciência ou o tempo necessário para se aprofundar adequadamente neste trabalho. Um disco que cai bem com o inverno vindouro.
David Madeira



The Practice of Love | Sacred Bones | setembro de 2019

8.5/10

The Practice of Love é o mais recente álbum da cantora-compositora norueguesa Jenny Hval, que partilha o título do drama de 1985 da artista austríaca Valie Export  um anti-romance no qual a protagonista, oscilando entre dois relacionamentos, descobre gradualmente que ambos são impossíveis, não porque os processos subjetivos do amor são defeituosos, mas porque a matriz social objetiva em que os dois amantes atuam é corrupta e imoral. 
Tal como a obra da austríaca, o último disco da autora de Blood Bitch, maravilhosa obra de 2016, oscila também ele entre os defeitos do amor monógamo, procurando ir além das suas definições tradicionais e conservadoras impostas pelo patriarcado. É um trabalho admirável que, tal como o disco de 2016 (e antes com Apocalypse, Girl), manifesta os princípios libertários da norueguesa, celebrando o amor nas suas diferentes formas. É também o trabalho em que a compositora aprofunda mais a sua relação com a música pop, combinando as tendências vanguardistas dos lançamentos anteriores com o espírito hedonista da música trance dos anos 90. O resultado é uma das obras mais acessíveis de Jenny Hval
À voz cálida e serena de Hval juntam-se Vivian Wang, Laura Jean e Felicia Atkinson, que ora auxiliam a norueguesa com vozes adicionais, ora narram episódios e experiências sobre o amor e as suas diferentes conceções. Quando anunciado o lançamento do álbum em julho deste ano, Hval manifestou o interesse em analisar a prática da alteridade de perto. Ao longo das oito faixas que compõem The Practice of Love, a norueguesa comunica melhor que nunca este sentimento, explorando a forma como esta pode expressar amor, intimidade, empatia e desejo.
Filipe Costa


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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Novo EP de Jenny Hval


Jenny Hval anunciou a edição de The Long Sleep, o sucessor de Blood Bitch, um dos melhores LPs do ano 2016. O álbum tem data de lançamento marcada para dia 25 do próximo mês e conta com o selo de qualidade da Sacred Bones.

Abaixo, deixamo-vos o single "Spells" do vindouro EP.

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Playlist: 6 Songs For The Devil


Esta semana atingimos um marco interessante que só se voltará a repetir daqui a alguns anos. Demorou pouco tempo mas foi giro. Alcançámos 6666 pessoas envolvidas na nossa rede social. Como agradecimento escolhemos 6 canções que de alguma forma têm uma relação com o diabo e o mundo obscuro, que num conceito reduzido e em termos numéricos podem ser representados por 666 e mais 6 à mistura. Assim, com o fim de vos fazer explorar este universo, deixamos abaixo seis canções para o diabo.

1 - Jenny Hval - The Plague


Pegamos na pop mais abstrata e avant-garde de Jenny Hval e eis que surge um disco que nos fala sobre vampiros, ciclos lunares, menstruação e filmes de terror dos anos 90.  O álbum conceptual que Blood Bitch é apresenta-nos um tema que facilmente pode ser retratado como tribal e satânico. Falo pois de “The Plague”, música que nos invade e consome a alma. Sempre acompanhada por sintetizadores arrepiantes, a antiga vocalista de uma banda de metal gótico consegue mergulhar num turbilhão de emoções que envolvem o demónio da solidão, da loucura e, por fim, da redenção. Estamos perante uma caça às bruxas, gritos lunáticos e colagens esquizofrénicas. Um quase exorcismo.

2 - King Dude - Deal with the devil 



King Dude é um já iconográfico homem das trevas. Frequentemente acompanhado pela sua garrafa de whisky, Thomas Jefferson Cowgill, de nome próprio, tem uma voz poderosa que invade a alma do ouvinte e o coloca perante sentimentos de insegurança, nostalgia, brutalidade e uma aura muito obscura, como ser. “Deal with The Devil” não é exceção e através de uma sonoridade muito próxima à de Nick Cave, King Dude pronuncia o nome do diabo enquanto o abraça o ouvinte, num aperto onde a fuga só é possível no findar da canção.

3 - Butthole Surfers - Sweat Loaf


"And by the way, if you see your mom this weekend, Be sure and tell her, SATAN, SATAN, SATAN". 
Assim termina o diálogo que inicia "Sweat Loaf", o tema de abertura do terceiro disco dos Butthole Surfers, seguido de um riff emprestado a "Sweet Leaf", dos Black Sabbath, repetido até à exaustão, num tema que tem tudo para ser apontado como bizarro, perverso e até mesmo diabólico. Uma celebração da droga em homenagem (ou sátira) a uma canção que, por si só, já é dedicada à marijuana.

4 - Slayer – Raining Blood



"Raining Blood", dos Slayer é uma música que fala sobre destruir o paraíso e que acaba com sangue a cair do céu. É difícil fazer algo mais diabólico que isto. Tanto a letra como o instrumental, rápido e barulhento, são muito intensos. Esta música não só tem alguns dos riffs mais icónicos da banda, mas também solos extremamente arrebatadores onde ambas as guitarras gritam e o barulho sobrepõe-se a qualquer melodia. Um dos melhores e mais marcantes momentos do thrash metal.

5 - Black Sabbath – Black Sabbath


Não só um dos mais populares exemplos do Demónio na música popular como um dos primeiros, a música "Black Sabbath", da banda Black Sabbath, do álbum Black Sabbath tornou-se um pilar para todos aqueles que querem inserir influências demoníacas na música.

Reza a lenda que a letra desta música foi inspirada numa experiência de Geezer Butler (principal letrista da banda). Nos primórdios de Black Sabbath (quando ainda se chamava Earth) decidiu pintar o seu apartamento todo de preto e colocar crucifixos invertidos pelas paredes. Para complementar a decoração, Ozzy Osbourne (esta história não ficava completa sem ele) ofereceu ao seu colega um livro sobre bruxaria. Depois de o ler, Geezer colocou-o numa prateleira ao lado da sua cama. Quando acordou, a primeira coisa que viu foi uma figura de negro aos pés da sua cama. Após se ter levantado a figura desapareceu e o livro também.

Para além da letra sobrenatural, também o instrumental contem influências satânicas, uma vez que o riff principal contem o trítono invertido, também conhecido como o Diabolus in Musica. A influência desta musica é incontornável na música moderna tendo gerado não só inúmeras bandas como também diversos géneros.

6 -  Burzum - Beholding The Daughters Of The Firmament


Apesar de Varg Vikernes não se afirmar como satânico, não há nada que grite mais '666' que Burzum. A banda norueguesa, no qual Varg é o único integrante, tem uma história algo conturbada com homicídios e queimas de igrejas. Ainda assim, a sonoridade distorcida e lo-fi de Burzum continua a inspirar inúmeras bandas de metal (e não só). O projeto terminou, mas o legado de Filosofem continua vivo até aos nossos dias. "Beholding The Daughters Of The Firmament" é uma das músicas deste disco, um álbum que ficou escrito nos anais do black metal.

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domingo, 7 de junho de 2015

[Review] Jenny Hval - Apocalypse, Girl


Apocalypse, Girl // Sacred Bones Records // junho de 2015
8.2/10

Jenny Hval é uma mulher norueguesa de talentos inigualáveis. Começou a sua carreira como vocalista numa banda de goth metal norueguês e entretanto foi estudar escrita criativa e performance para a Austrália onde foi também vocalista de umas outras bandas desta vez centradas no indie rock e quando se cansou desta rotina de ser "só" uma vocalista, novamente na Noruega, decidiu lançar um EP só seu em 2006, Cigars. Este EP fez tal sucesso que adoptou o nome Rockettothesky e foi contratada pela Trust Me Records, lançando dois álbuns de estúdio, To Sing You Apple Trees em 2006 e Medea em 2008.  Mas Jenny sentia que faltava algo, um elo que não conseguia conectar entre a sua música e si mesma e foi então que decidiu passar a usar o seu nome de baptismo como nome artístico, sem personalidades que não a sua mesma, saiu da sua antiga discográfica e alistou-se na Rune Grammofon, uma das mais conceituadas discográficas de música experimental e eletrónica da Noruega, e, foi aí que começou a sua emancipação, com letras chocantes para os mais sensíveis, músicas com uma atmosfera mais sombria mas sempre de vez em quando tropeçando numa espécie híbrida de freak folk com indie pop e, claro, banalizando a sexualidade e desmitificando o tabú de que mulheres não são seres sexuais como os homens.

Viscera e Innocence is Kinky são uma fase completamente diferente da que o novo se enquadra, enquanto que estes dois foram produzidos pela Rune Grammofon, o novo é da Sacred Bones, a mesma discográfica que lançou artistas como Amen Dunes, Pharmakon e Lust for Youth, e este ano lançou álbuns de bandas como The Holydrug Couple e Blanck Mass. Apesar do liricismo de álbum para álbum ter sempre um cariz de uma mulher independente, Apocalypse, Girl é um álbum muito mais coeso no que quer retratar usando palavras chave de faixa para faixa que transparecem quase que como a história de vida de uma mulher no mundo; e isto é só liricamente falando claro, porque a nível instrumental Apocalypse, Girl é sem dúvida a obra-prima da Hval. Contando com a presença de Thor Harris dos Swans em algumas das músicas do álbum este é o mais minimalista, macio e meticulosamente bem pensado na carreira da norueguesa que traça uma grande barreira em relação ao álbum anterior, que é muito mais barulhento e furioso, explorando muito as progressões vocais com um órgão, sintetizadores e percussão como se ouve muito bem em "That Battle Is Over", o primeiro single do álbum.



"Kingsize" é a faixa que é tocada no teaser do álbum e também a de abertura do álbum e em semelhança a Innocence is Kinky é um monólogo, não um monólogo de 30 segundos de como as mulheres também têm apetite sexual, mas um monólogo que transforma-se quase num relato e num conselho e numa reflexão e num enigma. "Think big, girl! Like a king, think kingsize!" são as primeiras palavras que ouvimos no álbum e são as que definem toda esta nova atmosfera, sem medo de arriscar mas mantendo-se fiel ao experimental com barulhos saídos dos primeiros 5 minutos do 2001: A Space Odyssey. E depois aparecem bananas que apodrecem no colo norueguês, a procura de assimilação subcultural numa própria subcultura que não existe tal como as bananas que são embaladas e "What is soft dick rock?", a frase que a cantora escolheu para representar esta nova era.


De seguida temos a balada "Take Care of Yourself" que fala de como é que uma mulher irá cuidar de si mesma neste mundo ("Getting payed? Getting laid? Getting married? Getting preagnant? Fighitng for visibility in your market") tudo se resumindo aos dogmas (como por exemplo a depilação) que definem as mulheres na nossa sociedade patriarcal heteronormativa e depois à negação destes mesmos e na aceitação dos valores morais que a constroem como pessoa. Desde faixas que desconstroem a ideia de como o sexo tem que ser visto para uma mulher, a submissão ("I don't think it's about submission, I think it's about holding and being held"), até a faixas que falam em problemas de gender identity, ainda vai um longo caminho e Jenny andou tudo de pés descalços em 40 minutos. E quando chegamos ao final do álbum atingimos um desassossego de 10 longos minutos, "Holy Land", uma faixa que fecha um capítulo envolvendo-nos num ambiente divino, como se estivessemos no afterlife a caminhar em direção à luz, apazinguando-se com a introdução dos vocais etéreos da cantora, foi ter um brilho da cara de Deus, rejeitá-lo e acordar com a voz que prendia as estrelas no céu.



Mas há três faixas têm que ser tomadas em especial consideração: "That Battle Is Over", a que arranca com o fim da anterior "What it is to take care of yourself? What are we taking care off?", é a faixa de Apocalypse, Girl que fala desta revolta da cantora pela conformidade humana contrastando a ideia do que nós queremos ser com o que os outros querem que nós sejamos e com o que estamos programados para ser, usando críticas bem explícitas quase que a cuspir nos mídia como por exemplo em "Statistics and newspapers tell me that I am unhappy and dying" e depois num tom jocoso ela fala desta vez para o a ciência e para a religião "I am more likely to get breast cancer and it's biology, it's my own fault, it's divine punishment of the unruly", finalizando a música em arpeggios cada vez mais intensos entoando a palavra "Heaven" caindo depois a pique para algo muito mais soturno ecoando "Sleep tight forever..."; e é com o eco de "Heaven" que se escolhe a próxima faixa a ter atenção, "Heaven", esta faixa é a que faz a transição do álbum que estava embebido em sombras e barulhos estranhos vindos de um canto estranho no Universo, começando com o som das ondas do mar, para trás e para frente, e uma voz à capella que diz "Oh heaven" brilhantemente pensado a nível simbólico usando isto assim para a lavagem da carga tão intensa que o final de "That Battle Is Over" tinha deixado para "White Underground" arrastar e aqui fazendo várias referências religiosas como "I'm 33 now, that's Jesus age" e ouvimos no fundo dos murmúrios de Hval um coro gospel quase apagado dando ainda mais aquela atmosfera de religiosidade construindo lenta mas fortemente para o epíteto do álbum, o grito de "So much death!" acompanhado de uma harpa tocada de tal maneira que é só mais um adereço não só para a voz de Hval mas também para a contribuição da atmosfera explícita na faixa, desvirtuando-se em segundos depois e transportando-nos para o início da faixa dizendo "So much death, a hole to nowhere"; e para última faixa temos "Sabbath", para quem não sabe sabbath tem vários significados em várias religiões, como por exemplo o sétimo dia da semana no judaísmo, mas acho  que o que a norueguesa estava a apontar aqui com esta faixa era o sabbath celta, o calendário que tinha 8 celebrações principais entre equinócios e solstícios e ironicamente "Sabbath" é a oitava faixa do álbum e apesar da introdução da faixa ser "I'm six or seven and dreaming that I'm a boy" a música é toda muito como o sabbath celta, é uma celebração feminina, preenchida com falsettos lindos fazendo-nos sentir como se estivéssemos à volta de uma fogueira, nus, a dançar, em que a sexualidade, erotismo e tudo o que é tangente a esses tópicos é bastante presente e vívido naquele momento mágico misturado com um órgão pagão, a música finalizando-se como se tirassemos um disco do leitor e com algumas palavras em norueguês.



No fundo, Apocalypse, Girl é um álbum sobre a revolução e a libertação do que somos sujeitos todos os dias, um álbum extrememante anti-religião interpretado na voz de um anjo, um anjo que caiu das nuvens e viu como as coisas realmente eram. Apocalypse, Girl é um guidebook sobre feminismo na voz de um anjo que veio para nos iluminar. Um álbum que é o que a própria aconselha aos outros, kingsized thoughts.

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quinta-feira, 26 de maio de 2016

[New Album] Jenny Hval e a continuação de Apocalypse, girl


Jenny Hval, a nossa bruxa pagã preferida, depois de passar ineditamente por terras lusas na edição do ano passado do Vodafone Mexefest, agora já tem pronto o álbum que se segue ao dos melhores discos que foram editados no ano passado Apocalypse, girl. O nome é Blood Bitch, curiosamente de mesmo nome e significado da faixa que Cocteau Twins nos apresentam em Garlands, e irá ser editado a 30 de Setembro pela Sacred Bones Records tendo nós já acesso a não só à tracklist do novo disco mas também já a um novo single: "Female Vampire". Este álbum segundo a artista é uma ode à menstruação, uma ode a todas as mulheres "the virgins, the whores, the mothers, the witches, the dreamers, and the lovers", o álbum que segundo Jenny será o seu mais pessoal contando uma história bastante íntima voltando às suas raízes da exploração do drone tão presente na cena do black metal norueguês, um álbum que volta às origens.
E o single "Female Vampire", para quem a viu ao vivo no festival do ano passado, não nos é desconhecido; de facto, a artista tocou esta faixa como uma das faixas sem nome no seu set, um single que é tão leve como nuvens e tão pesado como se essas mesmas nuvens fossem feitas de mercúrio. Oiçam já aqui em baixo:



Blood Bitch:
01 Ritual Awakening
02 Female Vampire
03 In The Red
04 Conceptual Romance
05 Untamed Region
06 The Great Undressing
07 Period Piece
08 The Plague
09 Secret Touch
10 Lorna

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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Jenny Hval anuncia novo álbum, The Practice of Love



Jenny Hval anunciou novo álbum. The Practice of Love é o nome da mais recente aventura da cantora e compositora norueguesa, que partilha o título do drama de 1985 da artista austríaca Valie Export. O sucessor do fabuloso Blood Bitch, de 2016, e do mais recente EP The Long Sleep, de 2018, chega dia 13 de setembro via Sacred Bones e aprofunda a relação da artista com a música pop. Vivian Wang, Laura Jean Englert e Félicia Atkinson compõem o elenco luxuoso de colaboradores que auxiliam Hval na procura pela alteridade, e na forma como esta pode expressar amor, intimidade, empatia e desejo.  

“Ashes to Ashes” é o primeiro avanço de The Practice of Love e podem encontrá-lo em baixo, juntamente com a capa e respetiva tracklist do disco.





The Practice of Love

01. Lions (feat. Vivian Wang) 
02. High Alice 
03. Accident (feat. Laura Jean) 
04. The Practice of Love (feat. Laura Jean & Vivian Wang) 
05. Ashes To Ashes 
06. Thumbsucker (feat. Félicia Atkinson & Laura Jean) 
07. Six Red Cannas (feat. Vivian Wang, Félicia Atkinson & Laura Jean) 
08. Ordinary (feat. Vivian Wang & Félicia Atkinson)

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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Os melhores EP's de 2018


Com belos lançamentos por parte de artistas como Jenny HvalAphex Twin e Sextile, não podíamos deixar de destacar os melhores EP's de 2018. Numa lista marcada por uma grande varieadade de géneros e uma presença dupla dos Thou, conheçam aqui os nossos EP's preferidos do ano passado.

16- Sega Bodega - self*care


 

15-Wreck and ReferenceAlien Pains

 



14- James Ferraro - Four Pieces for Mirai




13- Blume Attempt – Just Like You




12- Negative Gemini - Bad Baby




11- Thou – The House Primordial




10- Sufjan Stevens - Mystery of Love



9- Thou – Rhea Sylvia




8-Hatchie - Sugar & Spice




7- Black Thought - Streams of Thought, Vol. 1




6- Kero Kero Bonito - TOTEP




5- boygenius - boygenius




4- Iglooghost - Clear Tamei




3- Sextile – 3




2- Aphex Twin - Collapse EP




1- Jenny Hval - The Long Sleep


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