quinta-feira, 14 de maio de 2020

[Review] ÀIYÉ - Gratitrevas


Gratitrevas | Balaclava Records | março de 2020
8.5/10

Larissa Conforto é uma compositora carioca de raízes amazónicas que ao longo da carreira já trabalhou como produtora artística de nomes bem-conceituados da música brasileira como Chico Buarque, Gilberto Gil, Alceu Valença e Karol Conká. Depois de seis anos como baterista na banda Ventre e da participação nas bandas de Paulinho Moska, Numa Gama e Ricardo Richaid e do Bloco de Carnaval Calor da Rua, Larissa reinventou-se com o seu novo projeto ÀIYÉ, experimentando novos caminhos sonoros.

Além do seu trabalho como compositora, Larissa conjuga as suas energias artísticas com o ativismo climático e feminista. Faz parte dos grupos internacionais de ativismo climático Extinction Rebellion e Rhythms of Resistance, é voluntária no projeto Girls Rock Camp, é membro integrante do coletivo artvista MOTIM e da promotora cultural SÊLA.

Foi quando participou em 2018 na primeira edição do programa ASA (Arte Sônica Amplificada) do British Council, com mentoria da artista britânica Hannah Catherine Jones (NTS, BBC), que Larissa contactou com a metodologia sonora de colagens e ritmos desconstruídos que incorpora em ÀIYÉ

© Rodrigo Tinoco 

A viver em Lisboa há cerca de um ano, Gratitrevas é o seu primeiro registo discográfico e chegou às diversas plataformas digitais a 20 de março com o selo da Balaclava Records. Enquanto gravava e produzia Gratitrevas, ÀIYÉ foi ensaiando ao vivo as suas composições por cidades como Lisboa, Nova York, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte, ao mesmo tempo que acompanhava a cantora francesa Laure Briard em tour pelo Brasil e vendia todos os seus pertences para viajar para Lisboa.

Gratitrevas apresenta-se ao mundo como um disco assumidamente político, íntimo, em que as trevas de cada um (da artista inclusive) e de todos nós tanto são temidas, como reconhecidas e agradecidas. Ao longo das oito canções ÀIYÉ aborda a espiritualidade, as saudades da avó, os gritos e revoltas contemporâneas e universais. A mensagem, essa, é otimista, uma maneira de olhar para o presente, mesmo com todas as dificuldades inerentes, e enfrentá-lo, recorrendo a toda a sabedoria ancestral que nos for possível. 

O disco começa com “Semente”, a primeira música que Larissa compôs na vida e curiosamente a última a ser finalizada para o disco. Dedicada à sua avó Isis, este tema presenteia-nos com ritmos suaves (ideal para ser escutada num sunset) envolvidos numa percussão electrónica ritualista. "Eu sou semente forte, pode mandar me asfaltar" é o lema que vai ecoando ao longo da música, e esta semente, segundo a avó Isis, representa todo o potencial que existe dentro de nós, toda a liberdade e o conhecimento da natureza que podemos alcançar, mas que está oculto por inúmeras camadas opressivas. A semente irá brotar, por certo, demore o tempo que demorar. 

Segue-se “Pulmão”, tema dominado pela percussão assertiva, a qual nos agarra instantaneamente à melodia e contracena elegantemente com o piano. O primeiro single de Gratitrevas retrata a sociedade em que estamos sujeitos a uma enormidade de estímulos e informação e que, por vezes, é preciso afastarmo-nos de tudo isso. A faixa seguinte, “Silêncio”, inspira-se na cena favorita da artista do filme Mulholland Drive (David Lynch, 2001) e serve de introdução a “Terreiro”, um dos momentos mais fortes de Gratitrevas. Com fortes influências de Radiohead, com um baixo a recordar “The National Anthem” e uma atmosfera textura sintética bem recheada de pormenores minimais e samples de atabaques, “Terreiro” apresenta-se como um tema de cariz espiritual e sagrado, onde Larissa retrata a Umbanda, a religião que segue e se guia pelas máximas do sincretismo, do respeito e da diversidade.
 


A pérola do disco é da responsabilidade de “O Mito e a Caverna”. Tema dominado pela spoken word, traz à tona memórias de Otto, conta com a colaboração de Vitor Brauer e assume-se como uma música de intervenção, com significado político bem explícito. Este tema resultou de uma tour que os dois artistas fizeram em 2018 e se vestiram de vermelho, de modo a consciencializarem as populações de norte a sul do Brasil para as eleições que se avizinhavam. A letra, intimamente ligada à Alegoria da Caverna de Platão, é incisiva e perspicaz, reflete sobre o fogo e a queima (o duo recebeu durante a tour a notícia do incêndio desolador no Museu Nacional do Rio de Janeiro) e manifesta o seu desagrado com o “esquecimento” da História mais recente que leva à veneração de mitos: “Os mitos caem por terra, um após o outro, quando encontram a verdade / E a verdade chega, minha amiga, ainda que tarde/ (…) Pode ser que tudo isso seja só um sonho / E vamos acordar quando dissermos todos juntos: Não”.

Com uma faceta mais convencional, “Isadora” mostra-se como um samba que Larissa fez para a sua irmã mais nova, com o intuito de ensinar a lidar com a morte e a solidão. Os dois últimos temas de Gratitrevas surgem num formato mais introspetivo, repletos de texturas sintéticas. “Sombra (US)” foi escrita numa altura em que Larissa sofria de depressão, tendo sido musicada por cima de um sample da sua música favorita de Fiona Apple, "Fast As You Can", e foi apenas com a ajuda do produtor Hugo Noguchi que este tema ganhou vida e feições de Gratitrevas. A música que fecha o disco, “Astrosoma (Wake Up)”, funcionava como um interlúdio que a artista fazia nos seus concertos, em inglês e espanhol, de modo a provocar o público que não entendia as letras em português. Ah! E está relacionada com experiências ufológicas.

Gratitrevas releva-se como um disco muito agradável e fácil de ouvir, especialmente em tempos de primavera/verão. Coerente de início ao fim e sonhador, o disco de estreia de ÀIYÉ é marcado pela experimentação eletrónica e pela sua produção exímia. Um registo futurista que olha para a ancestralidade.
 

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quarta-feira, 13 de maio de 2020

MAAT celebra Dia Internacional dos Museus com programa dedicado à Nyege Nyege Tapes

© Thomas Lewton

Nyege Nyege: Uma Nova Esperança é o título do programa que o MAAT preparou para dia 18 de maio, Dia Internacional dos Museus, e o primeiro capítulo do novo programa de música e som do museu, Terra Irada, com curadoria de Pedro Gomes e que se irá desenvolver ao longo dos próximos meses sob a temática “diversidade e inclusão”.    

Fundada pelos europeus Arlen Dilsizian e Derek Debru em Kampala, no Uganda, a Nyege Nyege tem sido "um bastião de ideias e de iniciativas construtivas e positivas para a era pós-colonial". O Nyege Nyege Festival, evento anual que realizam desde 2015 na cidade de Jinja, assim como as duas editoras discográficas – a Nyege Nyege Tapes e a sucursal Hakuna Kulala – têm servido como "canais viáveis a partir dos quais culturas insulares e com pouca exposição podem apresentar-se".  

Nesta colaboração inédita com o MAAT, o programa transmite seis emissões diferentes a partir de seis localizações no mundo — África do Sul, Mali, Tanzânia, Santa Lúcia nas Caraíbas, Ilha da Reunião e Uganda – que acolhem as performances de Menzi com os dançarinos Tshipo e Amabhotela, DJ Diaki, Jay Mitta com MC Anti Vairus, DJ Chengz, Jako Maron e o português HHY, ou seja Jonathan Saldanha, que comandará um espetáculo com o The Kamapala Unit (editam novo disco pela Nyege Nyege Tapes no início de Junho). 

A programação, que pode ser consultada no site do MAAT, inclui ainda uma conversa moderada por Shannen SP entre Pedro Gomes e os fundadores do coletivo.


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JE T'AIME celebram um ano do lançamento do disco de estreia com um vídeo DIY

JE T'AIME celebram um ano do lançamento do disco de estreia com um vídeo DYI

Há cronologicamente um ano atrás os franceses JE T'AIME estavam a lançar cá para fora o disco homónimo Je T'Aime, uma coleção de onze temas imperativos num registo essencialmente cru, sujo, controverso, mas altamente aditivo e incrível, tal como o amor. Desde então até à data os JE T'AIME orgulham-se de terem conquistado um grande renome entre a comunidade underground, muito por culpa da sua atitude arrojada e claramente genuína. Em jeito de celebração do feito a banda lança agora uma nova reinterpretação de alguns dos temas que fizeram incendiar as pistas de dança caseiras. Num novo vídeo que incorpora "The Sound", "A Million Suns" e "Dance", a banda regista o período de uma sociedade em isolamento, sem nunca deixar de ser produtiva.

Dada a situação atual e com toda a incerteza que pauta relativamente ao futuro dos eventos ao vivo, Tall BastArd, Crazy Z e Dany Boy "juntaram-se" em teletrabalho e decidiram oferecer um pequeno retrato caseiro da energia poderosa que prometem fazer ecoar ao vivo. Podemos estar ainda um pouco longe de dividir o mesmo espaço físico que a banda, mas nunca estivemos tão perto de sentir aquela aura única que eles tão bem aportam. Tudo isto à distância de um clique abaixo.


Je T'Aime foi lançado no dia 13 de maio de 2019 em formato vinil e CD numa co-edição entre a Icy Cold Records e a Many Depression Records. Podem comprar o vosso formato preferido aqui.

A banda encontra-se neste momento em processo de composição do novo disco e tem disponibilizado alguns teasers do proresso nas suas redes sociais. Aproveitem para os seguir no Facebook ou no Instagram.

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segunda-feira, 11 de maio de 2020

[Review] Morte Psíquica - Suite Nº Zero

Review- Critica - Morte Psíquica - Suite Nº Zero

Suite Nº Zero | Zodiaque Musique | abril de 2020
8.0/10

O cenário do post-punk contemporâneo português não tem visto uma atividade muito frequente quando comparado com outras andanças sonoras de apetrechos mais eletrónicos e cores vibrantes. O clima, pouco temperamental e a habituação ao sofrimento como parte integrante da vida de um português pode estar na explicação. Este não é um ensaio sobre o sofrimento, mas é um ensaio sobre como a Morte Psíquica está a colocar o cunho português na vanguarda do revivalismo gótico: na lírica e composição sonora.

Já não é de agora que a Morte Psíquica faz escutar-se entre os corações mais melancólicos e saudosistas. O agora projeto a solo de Sérgio Pereira - atualmente sediado no Canadá - teve génese corria o ano de 1993 em formato banda. O grupo passou, postumamente, por um período de hibernação que acordou já com os novos anos 10 em desenvolvimento, durante o ano de 2014. Tendo lançado o marcante Fados do Além em 2016, foi em 2018 com o novo EP Maneirismos que Morte Psíquica se passava a fixar como um one man project e a exportar a sua sonoridade para outros continentes. 

Num ano pautado pela fixação da incerteza e consequente destabilização emocional, chega também às prateleiras o novo longa-duração da Morte Psíquica - Suite Nº Zero - trabalho que nasce para deixar o seu marco. O disco, anunciado com o mês de fevereiro passado trazia a boa nova no primeiro single de avanço, "Labirinto". Numa canção genuinamente melancólica, esculpida entre as arquiteturas sonoras do movimento gótico dos anos 80 e o novo revivalismo post-punk, Sérgio Pereira destaca-se essencialmente como letrista, apresentando uma poesia de traços decadentes e existencialistas a que tão bem nos tem habituado, desde as origens. Se, já com Maneirismos e Fados do Além, era notório que a Morte Psíquica, acima de um projeto musical tecia toda uma conspurcação  lírica em força, neste Suite Nº Zero isso tornou-se claro através do tema de avanço, essencialmente no refrão: "Uma coisa que me põe triste é que não exista o que não existe". 

Suite Nº Zero traz uma coleção de oito temas onde se incluem os já anteriormente apresentados "Olham e Sorriem", "Sensações Descontroladas" e "O Conforto do Desconforto", presentes no EP Maneirismos (Z22, 2018) e ainda "Fado da Vertigem", tema presente na coleção Z vinte e dois compilation, editada o ano passado. Além destes temas - que foram regravados e novamente masterizados - destaque também para "Em Teu Sonho Acordado", tema original de Ode Filípica, a que Sérgio Pereira deu uma nova roupagem no espectro sonoro, mantendo a lírica originalmente escrita por Carlos Matos (Broto Verbo, Fade In). A cover foi feita originalmente para a compilação de tributo à Ode Filípa, intitulada Misantropia e editada em 2018 pelo selo ANTI-DEMOS-CRACIA. Também na produção e promoção do novo disco participou a artista canadiana Xarah Dion com o trabalho audiovisual para o tema "Labirinto", um vídeo de estética lo-fi que talhou uma espectativa sensacionalista para aquilo que viria a ser Suite Nº Zero na íntegra. 




Um facto que se tornou óbvio e bastante claro com as edições sob o cunho Morte Psíquica é que este é, sem margem para dúvidas, um dos melhores projetos portugueses na atualidade, a atuar dentro das estéticas do post-punk contemporâneo e das tonalidades mais góticas da música rock. Há poucos que se dedicam ao espectro, mas nenhum deles tem a capacidade de atingir a amargura do existencialismo como a Morte Psíquica o faz. Não é apenas o trabalho das guitarras cintilantes contrastado pela decadência vocal que tece uma unicidade singular na produção resultante, mas claramente, a mensagem que a música aporta consigo. Escrita de forma brilhante e carregada em nefastas metáforas, Sérgio Pereira pode facilmente ser comparado a uma Florbela Espanca destes novos anos 20, mas menos romântico e mais pessimista. No trabalho dos dois solidão, tristeza e saudade intercalam em sintonia, mas Sérgio Pereira conduz o ouvinte a um rumo mais decadentista e depressivo. 

Inexoravelmente o existencialismo e a ausência de sentido são metaforicamente explorados em temas como "Olhem e Sorriem", como se ouve: "A minha alma partiu-se // como um vaso vazio" (…) "olha os cacos, absurdamente conscientes // mas conscientes de si mesmos // não conscientes deles". Em "Alienado", como o próprio nome indica, Morte Psíquica foca-se no tema do alienismo, que continua a ser explorado com o sucessor "Fado da Vertigem": "Quando olho para mim // não me percebo // tenho tanto a mania de sentir // que me extravio às vezes // ao sair, das próprias sensações que eu recebo". Já na música de despedida, "O Conforto do Desconforto", Sérgio Pereira arrasa com a temática da auto-aversão: "Meu cérebro faz lembrar descomunal jazigo // nem a vala comum encerra tanto morto // o tédio, fruto infeliz da incuriosidade // alcança as proporções da imortalidade".



No espectro sonoro esta tendência para o profundo descontentamento continua em vigor, embora pontualmente afagada pelo brilho luminoso do trabalho da guitarra. Apesar disso, ao longo deste Suite Nº Zero é o lado monocromático que vigora em força, essencialmente ao nível das linhas de baixo que, na maioria das vezes, se sobrepõem ao ritmo orgânico produzido pela bateria. Ainda no campo da estética sonora, menção para os primeiros segundos de "Em Teu Sonho Acordado" a mostrar todo um lado semi-industrial e experimental face à abordagem usual da Morte Psíquica. O tema destaca-se essecialmente por se apresentar como uma excelente reinterpretação do tema original. Arriscar-me-ia a dizer que melhor que o original, que é coisa rara no "mundo das covers". 

Voltando à ideia inicial de que tão poucos artistas portugueses conseguem, no campo da vanguarda dark underground, atingir o equilíbrio harmonioso entre lírica e composição sonora, eis que Morte Psíquica volta a frisar que está aí com uma fórmula tão única e singular para iluminar almas em sufoco. Suite Nº Zero compila oito temas que coadunam, num disco moderno, uma estética ora clássica e revival, mas na essência sempre muito emotiva. Numa mensagem que permanecerá intemporal enquanto não se desacelerar o crescimento de expectativas irrealistas em vigor na sociedade atual, Morte Psíquica oferece um meio de extravio da realidade cruel num ponto de compreensão e conforto para as almas mais perdidas: a Suite Nº Zero.



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sábado, 9 de maio de 2020

PARKING DANCE - "SOBER CINEMA" (video) [Threshold Premiere]

PARKING DANCE - "SOBER CINEMA" (video) [Threshold Premiere]

After some years exploring the bedroom aura of frenetic rhythms painted in post-punk tones and shoegaze textures, PARKING DANCE came back to the radar of the underground scene, last year, with its first official long-player WHAT MORE? (2019, Icy Cold Records). Now, about five months after that milestone, the french producer is back with a new music video for the drunken ambiance single "SOBER CINEMA", which you can watch first-hand, below.

The solo project which Matthieu Bonnécuelle gave birth in the year 2017 got us used, from the beginning to a typically colorful sound intertwined with monochromatic rhythmic structures and the noisy strokes of shoegaze. In an attitude that could be described as "I don't really care about the production as long as I can extract the craziest feelings from people", PARKING DANCE automates a genuine emotion that was born to conquer the most sensitive hearts. Like the light in the middle of chaos.

In "SOBER CINEMA", PARKING DANCE ignites that sonic world that explores rhythm boxes, throbbing guitars and a typically deep voice to create a mix between coldwave, grunge, lo-fi rock and a big distortion campus. The video for the theme shows us this sound essence through some footage of PARKING DANCE playing live, the quicky standards of nowadays living, and the light as a guide to nowhere. All of this sculpted in cold-colored film work - directed by PARKING DANCE and Evi:Ke from Icy Cold Records - that you can watch in full here or there.


WHAT MORE? was released on December 16th in vinyl and digital by the incendiary Icy Cold Records label. Make sure to buy your copy here or directly via his bandcamp page

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STREAM: Choir Boy - Gathering Swans

STREAM: Choir Boy - Gathering Swans

Em 2016 os Choir Boy estreavam-se nas edições de estúdio com Passive With Desire o disco que trouxe ao mundo a sua sonoridade badalada recheada pelas veias da música independente, onde pautava uma sensibilidade quase inerte. Nos últimos quatro anos a banda natural de Salt Lake City forjou um caminho seguro com lançamento de singles, demos e EP's enquanto preparava o público para o aguardado Gathering Swans. O disco que começou por ser apresentado, corria o mês de fevereiro, através do single aditivo "Complainer", elevava as expectativas do público para um patamar bastante alto. Numa letra de carácter existencial era nos ritmos e emaranhados sonoros que os Choir Boy faziam a luz vibrar. Pouco depois chegava ao radar "Toxic Eye" single que fez a comunidade do Instagram envolver-se na promoção do disco com o famoso filtro que possibilitava qualquer ouvinte fazer a sua versão alternativa para a capa de Gathering Swans.

Nos meses que anteciparam o lançamento do álbum os Choir Boy jogaram pelo lado do envolvimento da comunidade e mostraram cada vez mais que, envolver o público na promoção de um disco vale mais que qualquer dúzia de tostões pagas a agências de promoção. O futuro do marketing são as pessoas e os Choir Boy aprenderam essa lição muito bem nos quatro anos que levaram para colocar o novo disco cá fora. "Sweet Candy", o terceiro tema de apresentação chegou recentemente ao radar e Gathering Swans preparava-se assim para chegar a 2020 como a tag de edição aguardada. Embora em termos sonoros não haja um espectro inventivo explorado ao pormenor, há a tendência para cativar os ouvintes numa sonoridade que é badalada e claramente doce. O disco pode agora ouvir-se na íntegra abaixo e, além dos mencionados temas, forte destaque para gemas como "It's Over", "Nites Like This" e "Shatter". Tropical dream pop para consumir em força, abaixo.

Gathering Swans foi editado esta sexta-feira (8 de maio) pelo selo Dais Records. Podem comprar a vossa cópia física em vinil e CD aqui. A versão digital encontra-se disponível abaixo.


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sexta-feira, 8 de maio de 2020

O dungeon synth vive em força no novo single de Offermose

Offermose Sjælens Ruin New Single Third Coming Records

Dois anos depois de se ter estreado nos longa-duração com Mørkt Forår (2018, Third Coming RecordsPomperipossa), Offermose está de regresso às edições com novo tema, "Sjælens Ruin". Num cocktail de dungeon synth, onde se misturam ondas ambient e uma eletrónica poderosa e experimental, o produtor dinamarquês pinta-nos um retrato decadente e insípido numa estética pura criada pelos samples de sons da natureza. Influenciado pela escola alemã na abordagem sonora que esculpe, em "Sjælens Ruin" Offermose consegue conduzir o ouvinte a uma viagem aos campos da eletrónica ligeira e contemplativa, de forma mais afincada que nas edições anteriores.

Agora, num registo mais intenso e futurista que se despe das ondas escuras do passado, Offermose apresenta uma faixa de duração aproximada a 5 minutos onde ganham destaque os samples e os pormenores sonoros ligados à calma do universo. Ao redor todo um exercício sonoro slow motion pronto para desacelerar um mundo em agonia. O novo tema serve de antecipação ao sucessor de Mørkt Forår (2018), que está previsto para chegar às prateleiras no outono, na chancela de qualidade da Third Coming Records. Enquanto os pormenores adicionais não são revelados aproveitem para ouvir "Sjælens Ruin" na íntegra, abaixo.

"Sjælens Ruin" foi editado esta sexta-feira (8 de maio) em formato 7'' single pelo selo Third Coming Records.


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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Morreu Florian Schneider, fundador dos Kraftwerk



Morreu Florian Schneider, um dos fundadores do grupo alemão Kraftwerk. A notícia foi confirmada ao jornal britânico The Guardian por um dos seus colaboradores, que avançou que o músico alemão morreu há uma semana, vítima de cancro. Tinha 73 anos.  

Nascido em 1947, em Düsseldorf, Schneider participou desde cedo na comunidade musical mais desalinhada da cidade. Em 1967, forma os Pissoff com Eberhard Kranemann, e três anos depois junta-se a Ralf Hütter no trio rock psicadélico Organisation. A relação com o último daria origem à primeira formação dos Kraftwerk, um dos mais importantes nomes da cultura popular e pioneiros da música eletrónica de dança.  

Depois de lançarem três álbuns como dupla, com algumas colaborações excecionais que incluíram o multi-instrumentista Michael Rother (Harmonia, NEU!), os Kraftwerk expandiram a formação para quatro e lançaram o seminal Autobahn, de 1974, que encetou por uma orientação mais minimalista centrada nas potencialidades do sintetizador. A tendência continuaria com uma influente ronda de discos como Radio-Activity (1975), Trans-Europe Express (1977), The Man-Machine (1978) e Computer World (1981).  “The Model”, tema do disco de 78, conquistou a primeira posição na tabela de singles britânica em 1982.  

Depois de lançar o último álbum com os Kraftwerk, Tour De France, em 2003, e de ingressar numa longa tour de promoção do mesmo (atuaram em Lisboa um ano depois), Schneider deixou o grupo em 2008.  

Para além do importante contributo para a música eletrónica, o grupo que ajudou a fundar é tido como um dos pilares do movimento krautrock, termo popularizado pela imprensa inglesa para descrever, ainda que pejorativamente, a efervescente comunidade experimental alemã da época. 

A faixa-título de Trans-Europe Express foi samplada por Afrika Bambata, em 1982, no seu disco Planet Rock, e podemos escutar o legado da banda nos desenvolvimentos da música house e techno da Detroit de finais dessa década. O tema "V-2 Schneider", de David Bowie, é considerado por muitos como uma homenagem ao grupo. 


   


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Eartheater partilha novo single, Below the Clavicle



Alexandra Drewchin, isto é, Eartheater está de regresso às edições com “Below The Clavicle”, o primeiro single da cantora-compositora americana desde a mixtape Trinity, lançada em 2019 pela sua editora Chemical X, e o mais recente trabalho lançado pela berlinense PAN, que editou o seu último álbum, IRISIRI, em 2018.  

“Below The Clavicle” é uma composição de 4 minutos composta por Drewchin em conjunto com a harpista Marilu Donovan, da dupla art-pop LEYA, e o ensemble contemporâneo CSMA, que contribuiu com preciosos arranjos de câmara. “Escrevi “Below The Clavicle” quando esperava entender mais sobre uma situação antes de falar sobre ela”, sublinha a cantora em comunicado, que adianta algumas considerações sobre o sucessor de IRISIRI: “No meu próximo álbum, pensei muito em lava e vulcões e na formação de pedras e montanhas”.  

O tema encontra-se disponível em todas as plataformas digitais e pode ser escutado desde já em baixo. 


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Bibio anuncia novo álbum, Sleep on the Wing


Bibio está a preparar o lançamento de um novo trabalho já no próximo mês de junho. Sleep on the Wing é o sucessor de Ribbons, disco editado em abril de 2019, e reafirma a aposta do produtor Stephen Wilkinson nas texturas atmosféricas e na estética mais tradicional da folk. Gravado maioritariamente no ano passado no estúdio caseiro de Bibio nas Midlands, Inglaterra, Sleep on the Wing chega às lojas a 12 de junho com o selo da Warp

Na faixa título já disponibilizada é possível sentir as marcas da medievalidade, num tema onde a guitarra nos guia por sonoridades simples mas contemplativas, acompanhada pela voz suave de Bibio e pelo contributo interessante das flautas. Segundo a press release, a "Sleep in the Wing" foi inspirado por um pássaro, o andorinhão, e sua capacidade de dormir durante o voo.  Ainda sobre o novo tema: 

Lyrically, I feel that the song has two aspects to it. The idea of being in the wake of a loss, and with hope, continuing the life of someone who has passed, through allowing oneself to be inspired by what they did during their lifetime and what they left behind, whether it’s the things they said, the knowledge they shared or the things they made. The other aspect to the song is perhaps more direct, and talks of escaping the city to find peace in the countryside, but the title is more a celebration of dreaming and the liberating power of imagination, not necessarily a physical escape. Music has the power to inspire dreaming and fuel the imagination, and that’s what I’ve always found so addictive about music.

O novo tema teve também direito a um vídeo animado da autoria de Sonnye Lim, a qual acrescentou "I wanted to capture the feeling of a temporary escape from the bustling city. The swift provides a glimpse of a serene, and carefree world". Podem vê-lo em baixo.



Entretanto também já estão disponíveis a tracklist e a artwork de Sleep on the Wing.

Sleep on the Wing:

01 Sleep on the Wing
02 A Couple Swim
03 Lightspout
04 Oakmoss
05 Miss Blennerhassett
06 The Milkyway Over Ratlinghope
07 Awpockes
08 Crocus
09 Otter Shadows
10 Warching Thus, the Heron Is All Pool






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terça-feira, 5 de maio de 2020

New Ceremony é o single de antecipação para o novo disco dos Ghost Hunt

Pedro Medeiros

"New Ceremony" é o tema de avanço para II, o segundo disco de originais do duo de electrónica de Pedro Chau e Pedro Oliveira. O longa duração dos Ghost Hunt é editado a 28 de maio via Lovers & Lollypops, em formato digital. 

Os Ghost Hunt não andam à caça de fantasmas, nem querem assustar ninguém, mas a música que fazem podia ser a banda sonora de um filme de ficção científica ou de uma festa numa casa assombrada. Pedro Chau, dos The Parkinsons, sempre esteve mais ligado ao punk; e Pedro Oliveira, ex-membro de Monomoy, andou sempre mais perto do universo indie. Hoje, já mais velhos, formam a dupla electrónica Ghost Hunt, através da qual nos fazem chegar, em maio, o segundo disco de originais, II.

O disco será apresentado ao vivo, online, a 5 de junho, no âmbito da parceria que a Lovers & Lollypops estabeleceu com Circulo Católico de Operários do Porto.

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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Cinco Discos, Cinco Críticas #56

cinco-discos-cinco-criticas-56-threshold-magazine-los-halos-neon-lies-kanaan-double-sun- mamaleek-come-and-see-elder-omens

Abril foi pautado pela suspensão de concertos e se, não podemos experienciar a música ao vivo, nunca outrora foi tão estimulante explorá-la em estúdio. Na 56ª edição do Cinco Discos, Cinco Críticas - entre as edições que saíram este ano e as que fomos buscar ao baú - escolhemos opinar sobre os novos discos de  Elder - Omens (2020, Stickman Records), Kanaan - Double Sun (2020, El Paraiso Records); los halos - los halos (2001, Loveless Records); Mamaleek - Come and See (2020, Flenser Records) e Neon Lies - Loveless Adventures (2020, Black Verb Records, Wave Tension Records, Cosmic Brood, Cut Surface, Mental Healing, Peryphilla).

Numa viagem sonora que vai do rock matemático à conjugação entre free jazz, post-rock e space-rock, passando pelos territórios do indie rock, black metal e darkwave, esta é umas das mais ecléticas rubricas do nosso cardápio do Cinco Discos, Cinco Críticas. Ora explorem:


Elder-Omens-Review-Stickman-Records-april-2020
Omens | Stickman Records | abril de 2020 

8.9/10 

Donos de uma sensibilidade bastante aguçada em termos sonoros, os Elder retornam aos discos com o novo Omens editado este mês. No seguimento dos álbuns anteriores da banda de stoner (Lore e Reflections of a Floating World) e, tal como esses mesmos álbuns, o som denota uma evolução ainda mais dramática e imponente demonstrada no decorrer de Omens
Apesar de contar apenas com cinco faixas, as mesmas são longas o suficiente para a banda dar asas à sua imaginação e capacidade técnica e atirar-se assim a uma mão-cheia de jams instrumentais constantes e arrebatadoras que levam o ouvinte para mais uma aventura pelo cosmos sónico. A anteriormente mencionada evolução sonora dos Elder também conta com a inclusão mais intensa de sintetizadores que, ao proporcionar um travo mais kraut e jazzy no geral, acrescenta bastante à experiência alucinante com variadas texturas sonoras. O trabalho de riffs demonstra em pleno a direção mais progressiva e épica tomada a cabo neste álbum, assim como umas passagens mais discretas mas bonitas de violino (especificamente em "Omens", "Embers", e "One Light Retreating"). O único percalço sério é de que os vocais podem ser um gosto adquirido, no melhor dos casos, mas esse aspeto acaba por não ser muito relevante uma vez que a cantoria está praticamente relegada ao backseat. De resto, Omens é mais um capítulo bem-sucedido de uma banda de barba rija, que continua a fazer por desenvolver e amadurecer o seu som de forma a continuar na linha da frente do género.
Ruben Leite



Kanaan-Double-Sun-El-Paraiso-Records-april-2020
Double Sun | El Paraiso Records | abril de 2020

8.0/10 

O trio norueguês Kanaan, um dos muitos frutos que caiu da árvore da editora El Paraiso Records, tem dedicado a sua carreira a compor música que faça as mentes mortais transcender os seus corpos e nos leve a viajar por outras galáxias. Foi o que fizeram em Windborne, o seu excelente álbum de estreia de 2018, o que mantiveram em Odense Sessions, um aperitivo baseado em jam sessions lançado no início de fevereiro deste ano, mas agora, em Double Sun, lançado no dia 24 de abril, expandem este território com um disco bastante mais ambicioso a nível de instrumentação e produção, com mais camadas musicais oferecidas por guitarras acústicas e sintetizadores. A base de rock psicadélico, com raízes em bandas escandinavas como os suecos Träd, Gräs & Stenar ou uns mais contemporâneos Causa Sui, naturais da Suécia, é complementada e floreada com influências de free jazz e post-rock para criar longas faixas que fazem o ouvinte perder-se na sua audição. Estas músicas, com uma estrutura mais abstrata, são perfeitas para nos distrairmos de todos os problemas que têm surgido pelo mundo fora e para situarmos a nossa mente num ponto mais pacífico e relaxado sem necessitarmos de uma sessão de mindfulness.
Hugo Geada



Los-Halos-Los-Halos-Review-Loveless-Records-2001
los halos | Loveless Records | 2001

9.5/10 

Os los halos são uma banda norte-americana de indie rock formada no final dos anos 80 por Eli Wegner AKA Samezvous e uns amigos, que começaram a compor música no final dos anos 80 em Filadélfia e que, se basearam posteriormente em Phoenixville, Pensilvânia. O quarteto lançou um total de três álbuns ao longo da sua carreira, todos eles editados pela Loveless Records, uma editora baseada em Seattle, gerida por John Richards, dj, locutor e programador da reputada KEXP, e todos eles agora disponíveis gratuitamente no seu bandcamp: o homónimo los halos (2001); for ramona… (2002); leaving va. (2003). O seu primeiro disco, o homónimo los halos, é todo ele uma catarse emocional. Com 7 músicas e como mais ou menso 70 minutos de duração, abre com "you should've known by now", uma faixa que em crescendo, atinge o climax com as vozes exaltadas pelo refrão a trespassarem a cacofonia da instrumentação a lembrar uns Lift To Experience ou uns …And You Will Know Us by the Trail of Dead
No tema seguinte, a voz e a lírica vira-se para dentro - "it gets so lonely that you’re almost real/it gets so lonely that you’re almost real" - e faz lembrar Daniel Johnston e Smog. Depois "infinity bitch", outra faixa explosiva e depois "lucifer", outro momento de introspecção. "black thread" é uma balada - "the truth is such a simple lie/told on to a trusting eye/I trust you will not go away/trust me, I will always stay" -, "tornado" (a maior faixa do álbum com 18 minutos) é a derradeira explosão emocional - "for you I feel" - antes de "unending", a faixa que encerra o disco em decrescendo. 
Sobre os los halos, existe pouca informação relativamente a entrevistas, críticas e concertos que eles tenham dado durante a sua curta carreira. Não são uma das bandas mais citadas - possivelmente são uma das mais desconhecidas - e a sua pegada no panorama musical é, sejamos honestos, residual. Mas basta uma nova audição ao seu primeiro disco para me tornar a questionar como é que uma banda destas não desfruta de um estatuto de culto.
Edu Silva




Mamaleek-Come-and-see-review-flenser-records
Come & See | Flenser Records | março de 2020 

9.0/10 

Come & See é o mais recente lançamento de Mamaleek, banda que se apresenta como um projeto de black metal, mas cujas raízes nesse género se escondem num som eclético que escapa à rotulação por géneros, fruto do seu carácter experimental. Este duo anónimo é aqui acompanhado, pela primeira vez, por uma banda de suporte, o que permitiu a gravação ao vivo de todas as faixas, com o mínimo de overdubs. Através deste álbum, a banda propõe-se analisar, citando, "o impacto emocional dos espaços que ocupamos, as forças surreais por detrás da aparência da realidade física e os resíduos que estas deixam para trás". 
Este é um álbum pesado, barulhento e imprevisível, dono de uma agressividade arrasadora e estruturas pouco convencionais com mudanças de secção surpreendentes, como ilustrado pela caótica "Cabrini-Green". As letras, cantadas em rugidos agressivos que nos assombram a cada momento, são difíceis de desvendar, mas a voz poderosa sobressai por entre o caos. 
A instrumentação inclui uma série de melodias estranhas ou paredes de som tocadas em guitarras, ora limpas, ora completamente distorcidas. As linhas de baixo e os ritmos de bateria são incisivos e constantes, enquanto que o saxofone vai surgindo de vez em quando, sinistro e assombroso, protagonizando os momentos mais jazz do disco. Estas influências podem ser encontradas em "Elsewhere" ou na melodia de teclado do final de "White of the Eyes (Cowards)". Curiosamente, também há piscares de olho ao blues, nomeadamente nos solos de guitarra de "Eating Unblessed Meat" e "Street Nurse", e à música eletrónica, com alguns sons aparentemente sintetizados a surgir ocasionalmente. Todos estes elementos encontram-se em harmonia e equilíbrio. Os Mamaleek dão passos em várias direções garantido, no entanto, uma grande coesão ao longo das várias faixas. 
Come & See é obrigatório para fãs de música pesada e exploratória. Um álbum poderoso e multifacetado que merece ser ouvido atentamente.
Rui Santos




Neon-Lies-Loveless-Adventures-Review-Black-Verb-Records-Wave-Tension-Records-Cosmic-Brood-Cut-Surface-Mental-Healing-Peryphilla
Loveless AdventuresBlack Verb Records, Wave Tension Records, Cosmic BroodCut Surface, Mental Healing, Peryphilla | abril de 2020

7.0/10

Dois anos depois de II (2018) e quatro depois da estreia com Neon Lies (2016), o croata Goran Lautar está de regresso ao ativo na identidade de Neon Lies para nos oferecer mais um cocktail de darkwave recheado em ritmos fervorosos e toda uma energia abrasiva com foco nas estéticas obscuras. Numa edição que abraça novos traços sonoros relativamente aos anteriores trabalhos e que, se concebeu como o resultado das experiências obtidas em tour e estúdio no período de um ano, Neon Lies forja em Loveless Adventures uma sedosa abordagem ao mundo dos sintetizadores, salpicada por aromas bastante lo-fi e de tendências nostálgicas. 
Neon Lies começou em 2015 como um projeto de quarto - enquanto Goran Lautar ainda cantava e tocava guitarra nas bandas Modern Delusion e The Celetoids - uma tendência que ainda hoje é notória nas texturas de temas como "Insecurity" ou "Hands", onde vive em força e vigor uma abordagem aos ambientes espectrais da dream-pop, sem grande preocupação na produção resultante. Ao longo dos nove temas que incorporam o alinhamento de Loveless Adventures, Neon Lies cria uma narrativa onde os sintetizadores analógicos fantasiam um mundo altamente optimista no espírito, mas claramente soturno na essência. Ao juntar a visão synth-punk inicial com uma clara inibição no campo experimental da distorção, Neon Lies tece um disco romantizado, construído ao redor de ritmos assimiláveis e uma veia independente bastante denotada que certamente agradará a fãs de nomes como Black Marble ou Mannequin
Nos destaques de Loveless Adventures encontram-se o batcave-ish "Drugz" - tema que serviu de apresentação ao disco -; a injeção de adrenalina "Down" - que coloca os bpms num ritmo quase transumano juntamente com a ritmada "Alone" -; e ainda o irónico tema de encerramento "Light" - uma faixa densa e amplamente escura. Loveless Adventures é, sem dúvida, o registo mais assimilável de Neon Lies até à data. Ao abordar um lado mais amoroso e experimental na quantidade certa, Loveless Adventures consegue sem dúvida conquistar os corações mais solitários.
Sónia Felizardo




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